E eu não queria acreditar

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Que eles quisessem o Saramago, já me tinha conformado. Mas que nos fossem roubar também o Viriato, eis o que me parecia inconcebível. Quando mo contaram, pensei: «Agora é exagero».

Não era exagero, coño, não era.

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47 thoughts on “E eu não queria acreditar”

  1. Caro Fernando Venâncio:
    parece-me que é ao contrário. Viriato é um herói “espanhol”. Como sabe a Lusitânia romana não coincide com o território de Portugal, e as guerras travadas por Viriato com os romanos ocorreram sobretudo na Bética, isto é, no sudoeste da actual Espanha.

    Cumprimentos
    JPM

  2. Caro JPM,

    Se calhar é assim. Mas fica a questão: os espanhóis sabem, ou não sabem (e provavelmente não), que Viriato povoa o ‘nosso’ imaginário? Que lhe damos (pobres que somos) um lugar grande na nossa razão-de-existir?

    A História terá sido (nem é caso único, pelo contrário…) mal escrita por nós. Mas dá-se, aqui, em certa medida, uma apropriação indevida.

    Terá reparado no mapa da Península no escudo do romano. Aquela bandeira diz-lhe alguma coisa?

  3. Fernando,

    Foi na bandeira que o meu olhar ficou.

    Curioso que nós, latinos e mais romanos que em roma, continuamos a encher o peito com as crónicas da resistência à legião.

    Ainda assim, há que nunca conceder: Olivença é nossa e o Cristóvão Colombo também!

    Abraços

    RMD

  4. Caro JPM,

    Está profundamente errado. Com Estrabão, conseguimos localizar as tribos lusitanas (para cima de 60) acima do Mondego.
    Viriato (como aliás os Lusitanos) não pode, por isso, ser reclamado por Espanha.

  5. Caro JPM,

    Está profundamente errado. Com Estrabão, conseguimos localizar as tribos lusitanas (para cima de 60) acima do Mondego.
    Viriato (como aliás os Lusitanos) não pode, por isso, ser reclamado por Espanha.

  6. Viriato como “herói espanhol” não é nada de novo: em várias obras aparece como tal, sobreudo em estudos de historiadores e militares franquistas, por razões nacionalistas. a verdade é que nesses estudos foram omitidos factos relevantes, como a proveniência dos montes Hermínios, ou a fixação dos lusitanos na actual zona da Beira. Viriato é considerado pelos espanhois como um guerreiro “ibérico”, mais do que lusitano.

  7. 1. As grandes batalhas de Viriato travaram-se na Bética, a actual Andaluzia. O próprio sogro de Viriato era um chefe tribal daquela região. E a capital da Lusitânia romana ficava em Emerita Augusta, a actual Mérida. Até a localização dos “Montes Hermínios” é incerta, bem como a sua “profissão” de pastor… 2. O que nos remete para outro facto: a Lusitânia abrangia apenas o Sul e Centro do actual território português. O Norte era ocupado por tribos celtiberas como os brácaros (ainda hoje persistem grandes afinidades entre o Norte de Portugal e a Galiza, terra de celtas). Portanto, a associação portugueses=lusitanos tem mais a ver com a mitologia da época romântica que com a realidade histórica.

  8. A Lusitânia Romana tinha capital em Mérida.
    Antes disso, aquilo a que hoje chamamos Lusitânia pré-romana não tinha uma capital. Eram um conjunto de tribos que se iam guerreando e guerreando o exterior.

    A apropriação do Viriato como simbolo nacional é coisa do Estado Novo.

  9. Nós é que somos o único povo espanhol que não faz parte de Espanha…Por isso é que os espanhóis não gostam lá muito de nós…Não nos sujeitamos a Castela! Viva Viriato! Viva Espanha!

  10. Na Bética estavam os Vatões.
    A Lustiânia Romana divida-se em duas zonas administrativas: a ocidental e a oriental. A Ocidental é tomada depois da morte de Viriato.
    Fontes relevantes são Plínio, Cláudio Ptolomeu (este citando como lusitanas as cidades ou povoações de Aveiro, Avelães, Condeixa, Alenquer, Lisboa e mesmo Santarém), ou Estrabão.
    No norte, estavam os Galaicos, mas segundo Estrabão, os Lusitanos havíam aí estado antes. Estrabão é aliás importantíssimo para afastar os povos lusitanos da Lusitânia Romana e, por conseguinte, da Bética, quando refere como povos fronteiros os vatões, vaceus, carpetanos e galaicos.
    Diodoro Sículo refere-se, por seu turno, aos lusitanos das montanhas. Face à localização das outras fontes, a confusão situa-se provavelmente na existência de diversas tribos, unificadas sob o nome da província, mas que efectivamente ocupavam regiões diferentes. Assim, no vale do Tejo encontramos uma tribo lusitana, e nas regiões montanhosas (Serra da Estrela), que se prolongavam para Leste (Bética), a tribo de Viriato.
    Agora… espanhóis? Poupem-me!

  11. Pois, e também havia os Lusitos, mas essa é outra história, ou não… Eu, pessoalmente, acho bem que ele se tenha transferido para o Bétis, e não tenha ficado no Académico de Viseu. Sempre tem melhores condições de trabalho, lá lhe deram uma farda nova, bem catita, assim à moda das grandes produções de Hollywood e tal.

  12. Crónica Geral de Espanha de 1344, Cap LXVI:

    “E, avendo seis centos e seis años que fora Roma pobrada, levantousse em Spanha huu peon que avya nome Viaraço e era natural de Lucena. E fora pastor de gaado e era muy ligeyro e muy valente y muy ardido”
    “e andava descubertamente, fazendo mal e roubo contra os Romaãos e contra todos aquelles que tiinham sua voz. E entrou muytas villas, dellas por força e dellas per furto, e outras aseytava por algo. E, as que entrava, roubavaas, assy que enrrequeceu tã muyto elle e os seus que se fezerom muy grã companha de pee e de cavalo.”
    “Este Vyaraço, quantas riquezas ganhava na sua parte, scondyaas, andando pelos mõtes, ~e covas”

    Crónica Geral de Espanha de 1344, Cap LXVIII:

    “Viaraço, aquel ladrom que desuso ouvystes, guerreou com os Romaãos quatorze annos e desbaratoulhes muytas hostes e matou deles muytos homeens honrrados. E em cabo matarõno os seus a grande traiçon, aquelles em que se elle mais fiava. E cuydaron a aver dos Romaãos galardon mas elles nõ lho quiserom dar, polla grande traiçom que fezerom em matarem assy a seu senhor Viaraço.”

  13. “A apropriação do Viriato como simbolo nacional é coisa do Estado Novo”

    Há muito exagero nesta frase. O Estado Novo pode ter utilizado viriato como símbolo nacional, mas a evocação do chefe lusitano como antecessor dos portugueses estava longe de ser nova. Veja-se o Canto III dos Lusíadas:

    “Desta o Pastor nasceu que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve,
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve”

    Adenda: quando Camões fala “no seu nome”, faz a derivação Viriato de “vir” – varão.

  14. JB | março 23, 2006 04:52 PM

    Viriato foi, mais precisamente das montanhas de Folgosinho no concelho de Seia. Os primeiros a quererem abarbatar-se com a paternidade foi a malta de Viseu. E como estão mais perto da fronteira, é natural que isso crie confusão.

  15. http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Strabo/3C*.html

    “3 And yet the country north of the Tagus, Lusitania, is the greatest of the Iberian nations, and is the nation against which the Romans waged war for the longest times. The boundaries of this country are: on the southern side, the Tagus; on the western and northern, the ocean; and on the eastern, the countries of the Carpetanians, Vettonians, Vaccaeans, and Callaicans, the well-known tribes; it is not worth while to name the rest, because of their smallness and lack of repute. Contrary to the men of to‑day, however, some call also these peoples Lusitanians.”

  16. Ptolomeu fala da cidade ou povoação de Aveiro, diz JB? Como será possível, se as primeiras referências à localidade datam de 959, no testamento da condessa Mumadona Dias, de Guimarães, onde se refere as terras de Alavarium? As referências a uma eventual localização romana nunca foram consensuais, e vários historiadores apontam para uma povoação de Occupidum Vacca, mais no interior, no que será hoje a fronteira dos concelhos de Águeda e Albergaria-a-Velha, no eixo da via romana que ligaria Olisipo a Bracara Augusta, junto ao rio Vouga. Quanto ao Viriato: who cares, caro Fernando Venâncio? A culpa disto foi dos outros que atiraram um gajo pela janela em 1640. Estávamos mais bem servidos hoje. E até aquele selo era nosso.

  17. Caro Miguel Marujo,

    É um tanto deprimente – não concorda? – julgar que, se hoje existimos como Estado independente, se deve à defenestração do fulano? Não seríamos capazes de mais do que agarrar um tipo pelas calças e depô-lo na coluna de ar mais à mão?

    E, quanto a felicidade, pergunte aos galegos.

  18. Ah, pois, Filipe Moura. A minha maior proximidade à Grã-Bretanha foi de 26.000 pés, atravessada pelo exacto meio. Bem pus binóculos, mas nada do Bomba. Terá ele só existência digital? Dizem que já não é mau.

  19. Pela bandeira da península do escudo do romano, vale a pena ir a Badajoz assambarcar selos para colecção, género ode futurista. A menos que se descubra petróleo no Beato ou em Torres Novas. Tanto Faz. Os Americanos são nossos amigos não nos invadiam.

  20. “The boundaries of this country are: on the southern side, the Tagus; on the western and northern, the ocean; and on the eastern, the countries of the Carpetanians, Vettonians, Vaccaeans, and Callaicans, the well-known tribes;” – Exactamente, tudo indica que a fronteira entre os territórios dos lusitanos e estes povos era o rio Douro. O que demonstra que a associação entre lusitanos e portugueses é forçada (com origem no tempo de Camões e exaltada no século XIX e durante o Estado Novo). Portugal nasceu em terra de celtas.

  21. Agora que já entrámos nas cagadelas em inglês, a nossa única salvação para um esclarecimento final deste bode histórico depende da entrada do Nuno Ramos de Almeida armado como de costume da sua impoluta erudição.

  22. Resumindo:

    “C’est vrai qu’ils sont plaisants tous ces petits villages
    Tous ces bourgs, ces hameaux, ces lieux-dits, ces cités
    Avec leurs châteaux forts, leurs églises, leurs plages
    Ils n’ont qu’un seul point faible et c’est être habités
    Et c’est être habités par des gens qui regardent
    Le reste avec mépris du haut de leurs remparts
    La race des chauvins, des porteurs de cocardes
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part

    Maudits soient ces enfants de leur mère patrie
    Empalés une fois pour toutes sur leur clocher
    Qui vous montrent leurs tours leurs musées leur mairie
    Vous font voir du pays natal jusqu’à loucher
    Qu’ils sortent de Paris ou de Rome ou de Sète
    Ou du diable vauvert ou de Zanzibar
    Ou même de Montcuq il s’en flattent mazette
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part

    Le sable dans lequel douillettes leurs autruches
    Enfouissent la tête on trouve pas plus fin
    Quand à l’air qu’ils emploient pour gonfler leurs baudruches
    Leurs bulles de savon c’est du souffle divin
    Et petit à petit les voilà qui se montent
    Le cou jusqu’à penser que le crottin fait par
    Les chevaux même en bois rend jaloux tout le monde
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part

    C’est pas un lieu commun celui de leur connaissance
    Ils plaignent de tout coeur les malchanceux
    Les petits maladroits qui n’eurent pas la présence
    La présence d’esprit de voir le jour chez eux
    Quand sonne le tocsin sur leur bonheur précaire
    Contre les étrangers tous plus ou moins barbares
    Ils sortent de leur trou pour mourir à la guerre
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part

    Mon Dieu qu’il ferait bon sur la terre des hommes
    Si on y rencontrait cette race incongrue
    Cette race importune et qui partout foisonne
    La race des gens du terroir des gens du cru
    Que la vie serait belle en toutes circonstances
    Si vous n’aviez tiré du néant tous ces jobards
    Preuve peut-être bien de votre inexistence
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
    Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part”

    Um doce a quem adivinhar quem assim resumia

  23. Map,

    Já não se faz disso. Em 0,19 segundos o Google dá-nos (deu-me) a resposta. Come tu o doce.

    Ass.
    Un imbécile heureux

  24. O que um selo com uma imagem da Península pode fazer?! Até citações da Crónica Geral de Espanha?!O poste mais comentado do AspB?! Bem caçado, meu caro FV. Aqui tem a sua pequena AljubarrotaB. Bravo ;-) É sobretudo por si que aqui venho…

  25. Caro Politikos,

    Venha aqui por mais. Para um homem, como você – com «gostos muitos e variados felizmente» (a fórmula do invejável!) – o Aspirina terá de ter vários locais amenos.

    Um abraço.

  26. E tem, caro FV, e tem! Mas tb tem coisas inenarráveis… Não se esqueça que na minha «conversa» está lá o «sobretudo»… Não é fórmula mágica, mas quem tem capa sempre escapa… (este trocadilho não foi famoso?!).

  27. Viriato disse:
    “Não existe riqueza maior do que o valor de cada um.”

    Hoje dir-se-ia: “Não existe riqueza maior do que a amizade do rei de Espanha.”
    Miguel de Vasconcelos subscreveria.

    Nota: Viriato guerreou sobretudo na Bética, porque as tribos locais eram coniventes com os romanos, que aí estabeleciam bases e obtinham suprimentos.
    Como bom estratego, procurava o inimigo para o surpreender, levando a guerra para longe da sua terra.

  28. Acho que quem diz que estamos melhor integrados em Espanha não tem amor a este país, nem nunca leu a História de Portugal. Ler “Crónica de D. João I”, de Fernão Lopes e reter uma frase que diz algo do género: “o país deu tanto trabalho a conquistar aos nossos pais e avós e agora iamos dá-lo aos castelãos*?”

    * castelhanos

  29. Alguém conhece algum mapa online da localização da Lusitania e da Gallaecia sobre os actuais Portugal e Espanha? É que não o consigo encontrar em parte nenhuma…

  30. Isto é tudo bem bonito. Mas cada país tem a sua história. Se estamos mal deve-se apenas à hipocrisia de muitos governantes que tem governado este cantinho a seu belo prazer. Todos os visionários são postos fora porque não interessam à mesquinhice de particulares. se conhecem a nossa história lembrem-se do Marquês de Pombal que fundou Vila real de Santo António para fazer frente à pesca espanhola e outros interesses estratégicos nas margens do Guadiana. E a recontrução de Lisboa após o terramoto de 1755? E o que lhe aconteceu?
    De forma diferente foi “morto” de uma forma diferente de Viriato

  31. Separaram-nos dos nossos irmãos galegos e proclamaram-nos como se fossem seus e os nossos dirigentes, nada!
    Basta de incompetentes que desprezam a nossa autonomia e cospem nos nossos antepassados que deram o seu sangue; as mães que deram os seus filhos, as esposas os seus maridos, para que podesse-mos ser o que somos agora…
    É lamentavel que ainda possamos dizer que os nossos vizinhos Castelhanos são pessoas de bem e depois venham tentar ousar usurpar tambem das nossas glorias e icones do nosso orgulho de ser-mos portugueses. Obriguem os politicos idiotas a pedirem-nos desculpas por este acto infeliz. É para isso que pagamos impostos…

  32. Adorei a leitura das diferentes opiniões sobre; Viriato, Lusitânia, lusitanos e demais momentos históricos. Mas o que me preocupa é o presente que se lixem os sêlos só as finanças é que precisa de correios com sêlo pois hoje o correio electrónico aí está e com o mundo digital uma cada vez maior entrega da Pátria, (mas o que é isso?), a poderes económicos pouco preocupados com as bandeiras ou as fronteiras. Mas os de cá são em tudo iguais, o que querem é muitos e muitos euros.

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