Gouveia e Melo foi apanhado de surpresa com a pergunta de José Alberto Carvalho sobre o apoio de Sócrates à sua candidatura, reagindo contra o jornalista. Às tantas, nem sequer sabia dessa declaração por ter sido feita poucas horas antes. Se sabia, não contou que aparecesse no debate com Jorge Pinto. Seja qual for a explicação, revelou amadorismo e insegurança. Do lado do jornalista, a interrogação era perfeitamente legítima.
No dia seguinte, em Barcelos, voltou ao caso para manifestar o seu repúdio, agora contra o próprio Sócrates. O grau de amadorismo e insegurança aumentou, dado que teve tempo para ouvir a sua equipa estratégica (se é que existe) ou, no mínimo, dormir sobre o assunto. Ter alinhado com o vox populi parece lógico, pois, como Sócrates na sua entrevista igualmente reconheceu, receber o apoio do mais odiado e perseguido dos portugueses é indesejável, é tóxico, é azar. Ao mesmo tempo, Gouveia e Melo desperdiçou uma oportunidade de ouro para se revelar o líder moral (portanto, o líder político enquanto Presidente da República) de que precisamos como comunidade.
Acontece que Sócrates está coberto de razão neste imbróglio das presidenciais em 2026. Há sectarismo, partidarite ou fragilidades em Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto. Há ameaças, repulsa ou asco em Marques Mendes, Seguro e Ventura. Há inanidade em Cotrim. E depois há um balão cheio de ar que pairava dominante enquanto era só uma farda na moldura. Ao começar a falar, a densidade do que foi revelando a seu respeito levou o balão a perder altura, não sendo já possível garantir que passe à segunda volta — embora seja o cenário mais provável. Por várias razões, directamente ligadas ao seu recente posicionamento como protector da Constituição, o almirante justifica o voto daqueles que pretendam eleger quem defenda o Estado de direito democrático e reintroduza no Palácio de Belém a decência de lá ausente desde Cavaco até Marcelo.
Ventura, certamente, e Marques Mendes, provavelmente, irão usar a cartada Sócrates ao debaterem com ele. Se repetir o embaraço defensivo manifestado, vai parecer frágil. Se atacar Sócrates para se tentar safar, vai parecer vil. A beleza da situação consiste em se saber que tal desafio irá fatalmente acontecer. Gouveia e Melo vai ser confrontado por um ou dois adversários por causa do apoio daquele que continua a ser um inimigo a perseguir e abater pela direita e corporações da Justiça. Pode preparar a melhor resposta, tem tempo de sobra. Terá inteligência estratégica para tal? Não apostava os 10 euros que tenho no bolso nisso.
Está em causa, assim que os cães se aproximem com a bocarra aberta, dizer heroicamente o seguinte:
"Senhor Ventura/Mendes, o engenheiro Sócrates é um cidadão com liberdade política. Lamento não me ter ficado por esta declaração quando primeiro tomei conhecimento das suas palavras a meu respeito. Errei ao reagir sem pensar. E agradeço-lhe dar-me agora a oportunidade de me corrigir em público. O senhor está a falar para aqueles que odeiam o engenheiro Sócrates ou que não precisam dos tribunais para saber se alguém é inocente ou culpado de algum crime. Esse é o seu rebanho. Eu quero falar para aqueles que precisam dos tribunais para protegerem os direitos de todos. O engenheiro Sócrates faz parte destes todos, é nosso concidadão, tem direitos iguais aos seus e aos meus. Se vier a ser condenado por corrupção cometida enquanto primeiro-ministro, num processo justo, e transitando essa sentença em julgado, será trágico para o Partido Socialista, trágico para a democracia portuguesa. Mas se vier a ser absolvido de corrupção, ou se a Justiça, por qualquer razão, não conseguir sentenciá-lo condenado ou absolvido, essa será uma tragédia muito maior, uma das páginas mais negras da nossa História. Porque então a vítima da acção do Estado deixaria de ser apenas o engenheiro Sócrates, e demais cidadãos acusados na Operação Marquês, passaria a ser o próprio Estado — isto é, a nossa comunidade, a nossa capacidade para vivermos juntos em paz, com ordem, livres. O senhor, pelos vistos, não está preocupado com esta segunda possibilidade. O cidadão e a pessoa Sócrates só lhe interessam para atiçar o ódio, para colher a ignorância em seu proveito. É por isso que o senhor não merece ser o próximo Presidente da nossa República."