Transumâncias

A ponte é de um só olho. Assenta nuns fraguedos que ali estão há mil anos, e que outros tantos mil hão-de ficar, a ver passar as águas. Hoje em dia é o que vêem passar, que agora já não há rebanhos transumantes, vindos da Serra da Estrela, a escapar aos invernos. Cruzavam o Mondego na ponte de Juncais, subiam ao planalto pela estrada do Carapito, e matavam as sedes no Távora quando chegavam à ponte. Pernoitavam aqui no descampado e largavam de madrugada, que era preciso subir o vale da Ribeirinha, e alcançar Penedono que mirava a deslado, deixar para trás as minas de ouro e chegar a Trevões, e a Valongo dos Azeites, e passar às encostas da Pesqueira, onde a parra das vinhas começava a cair.

Assim ficou sem préstimo o logradouro baldio, depois que os gados da serra deixaram de passar. E a quinta do Fidalgo, por serem tão difusas as extermas, as mais delas cruzes talhadas em fraguedos que o tempo já comeu, logo lhe deitou a mão. Bastaram dois campónios para atestar, e um tabelião que tinha um selo branco e pouco escrúpulo. O povo não gostou. E tão mudados eram os tempos que pôs uma demanda em tribunal. Um dia algum juiz decidirá.

Decide e não decide, quem tem que se despachar é este viajante. Bem gostava de ficar aqui o dia todo, mas tem que chegar hoje a Lamego. E já vai estrada fora, de janelas abertas à fornalha da tarde, quando lhe sai à mão direita a esplanada dum café, ali na Ponte do Abade. Nem a propósito, que duma cerveja fresca vem ele muito precisado.

E logo dá consigo num clamor, uma pequena multidão à espera dum transporte, pelos vistos atrasado. É o que se conclui desta vozearia, destes inconformados gestos, e das pragas que fervem no ar. Terá o grupo umas doze pessoas, as mais delas mulheres já maduras. Têm ancas largas e seios fartos e ventres salientes, e comem uns farnéis e fumam e praguejam, em sotaques estranhos, como se estivessem numa caserna. Esta veio de Ovar, aquela de Ílhavo, aqueloutra de Leça, algumas de Viseu, da Pesqueira, de Moimenta, e esta família inteira veio do Ladário. Há três moços novatos que se riem do nada, e homens adultos, que são dois, e bebem a sua cerveja enquanto esperam. Elas agitam-se nos fatos de licra que lhes moldam as formas, falam aos filhos nos telemóveis, lembram o gato que vai morrer à fome, e recomendam cuidados à avó com a pasta da escola. Estão todos à espera dum transporte que vai levá-los para a Suíça, onde têm trabalho por três meses, em hotéis, em cozinhas, em serviços domésticos, e nas quintas agrícolas dos Alpes. Alguns vão à apanha dos morangos, e quando estes acabarem há-de vir a campanha das maçãs em França, e as vindimas na Rioja. Num barracão ao lado fica a central de chegadas e partidas. É lá que se amontoam sacos de batatas e máquinas de lavar, frigoríficos velhos e garrafões de vinho, caixotes de cartão e atados de roupa, e tubos enrolados, e cortadores de relva, e máquinas estranhas a que faltam pedaços, e jantes de alumínio, e sacos de viagem, e coisas que este viajante não é capaz de definir.

A bem dizer, o viajante já tinha ouvido falar nas campanhas da fruta. Mas uma coisa é ouvir alguém falar, e outra, bem diferente, é ver, e reparar. E o viajante já não sabe se parou num café de estrada a beber uma cerveja, ou se foi dar a um cais de Belém, donde partem as naus da Índia. São todas portuguesas, estas vidas. Ontem foram lastro de caravelas, hoje lastro são das sociedades desenvolvidas, amanhã serão lastro doutra coisa qualquer, vidas é que não parecem ser.

O viajante olha à sua volta e não exagera se disser que fica angustiado. Depois de séculos por trancos e barrancos, bem gostava ele de pensar que Portugal regressou à Europa e assumiu nela um papel como o de toda a gente. Não contava achar agora aqui este rebanho transumante, amontoado num cais, à espera duma nau.

Já bebeu a cerveja, já matou a sede, já partiu para Lamego. Leva lá dentro um conflito, que as brisas mornas da tarde lhe vão serenando. Por não ter que partir às campanhas da fruta.

Jorge Carvalheira

7 thoughts on “Transumâncias”

  1. A conclusão é de facto angustiante. Entrámos na senhora do grande E sob a condição de que se alguém tiver de servir de libré e apanhar pêssegos, somos nós. Quando é que esta malta começa a aprender que a política não passa duma artimanha.

    Continua, Jorge, gostei muito da vinheta sem ira.

    TT

  2. é sílvia, para uns morrerem de indegestão, outros morrem de fome. no fim morrem todos, só que os que morrem de fome vão mais depressa. aos outros sobra a doce medicina privada que lá lhes vai aparando as indegestões.

  3. Impelido num movimento constante de consulta quase maníaca deparamos. Um olhos atento à mansidão de um momento, um perturbador nada que nos afronta a convicção de empenhar os esforços, sem coisa nenhuma libertamos um quase grito perdido, como tantos, na perturbação fixamente meticulosa de um sítio qualquer.
    Enviaremos sempre a seta da inglória para embater no azul dourado da perfeição do quotidiano passivo. Porque é passivamente que nos quedamos na tentação da revolta, escondida na penumbra de um dia luminoso em que joga a selecção e o patriotismo incha-nos o peito. Saber escutar o outro lado da tensão pós materialidade, encalacrar os medos de existir na fezada euro-milionária. Emparedamos um contínuo discurso: os ossos doem. A alma isenta de imortalidade, esqueçe Sócrates (todos eles até esses mesmos). Continuemos, continuar é viver e espera-me um estudo atarefado para os examinadores quantificarem as minhas apetências “cerebrativas”… Um abraço e os maiores deparabéns bloguísticos.
    “Deixem-me trabalhar” bem ao jeito do amigo do bolo-rei, tipo chato esse aí!

  4. Eu que moro na Ponte do Abade gostei ver o nome da terra mais dividida de Portugal referenciado; o texto está muito bom e a esplanada do café é mesmo rente à estrada 226, lá onde esperam os transportes. Se quiseremsaber mais sobre esta terra procurem no google, a Ponte é famosa…

    Mita

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