E quando subia no elevador lembrei-me desta historieta

Em casa deles havia um gato.
Gato emproado que gostava tanto de se exibir que mais parecia gente grande que felino desmiolado. Nunca me esforcei por esconder a antipatia pelo bicho. Por todos os bichos do género. Era sabido que só não lhe pisava a cauda por excesso de testemunhas. Certo dia, comigo sozinho na sala, acontece a tragédia.

Um pássaro exibia-se na janela aberta. Para a frente e para trás. Para trás e para a frente. Para a frente e para trás. Atormentava o gato. E o gato deixava-se atormentar, fazendo sombra no parapeito aos movimentos do passoroco. Se te apanho, conseguia eu ouvir. Ai se te apanho. E o pássaro, para a frente e para trás. Para trás e para a frente. Para a frente e para trás. E o gato, para a frente e para trás. Para trás e para a frente. Para a frente e para trás. Atazanado para além da lucidez, não resiste e lança-se apontando as mortais garras. E o pássaro, bem planeado, em pleno ar zinga (!) dá-lhe prodigiosa revienga.

Juro-vos que vi a expressão do gato fintado. Tinha ar de Paulo Ferreira depois de ver o Cristiano passar. Nem teve tempo de lamber o orgulho ferido. Ficou o Ferreira sem contrato e o gato sem planar. Lá se foi o bicho, tipo desenho animado, com um miaaaaaaaau decrescente de proa apontada ao passeio…dezasseis andares mais baixo. As sete vidas gastaram-se todas daquela vez.

Eles perderam o gato e eu perdi-os a eles. Está bom de ver que eles não compraram a tese do pássaro rabujador e ainda hoje me tomam de gaticida. RMD

5 thoughts on “E quando subia no elevador lembrei-me desta historieta”

  1. Este post revela uma demência grave no que toca a compreender o gato ;) Era mais facil um cão do tipo “yes sir”, bem sei, mas ai eh que entra a inteligência humana, ou supostamente devia entrar.
    Se soubesse analisar o comportamento animal, saberia que o gato foi dos poucos animais que não perdeu a dignidade com o passar dos anos, nao se vendeu, mesmo perante o olhar cruel de certos seres que se dizem pensantes. Ele não se perde nessas futilidades tipicas de quem não os compreende.

  2. O problema dos gatos é que só eles se compreendem si mesmos…quem compra gatos é que adquire o estatuto de animal de estimação!

    nice post.

  3. NÃO SEI SE ÉS GATICIDA, MAS ÉS SEGURAMENTE UM HUMANO DOTADO DE MAU GOSTO. AS TUAS PALAVRAS FEREM O SILÊNCIO POÉTICO DOS FELINOS.

  4. Essa do “só se compreendem a eles mesmos” eh assim um tanto ou quanto absurda. Que quer dizer afinal? Sera’ que so voce se percebe esse seu post? Eu não o percebo, no entanto percebo os meus gatos, são independentes e não previsiveis, para não falar de que não necessitam da constante atenção dos seus companheiros (e não donos), nem sequer de a dar de volta.
    Eu sei que eh isso que faz confusão a muita gente.
    Compreender um humano eh compreender um gato, os humanos não estão sempre lá, não ladram e se estendem aos nossos pés, quem não lida bem com a independencia e liberdade dos outros, não vai, mais uma vez, compreender a dos gatos.

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