A fantástica história de Portugal

Infelizmente, temo que, com o aparente ensandecimento de grande parte dos representantes nacionais na negociação, a designada Troika se limite a aplicar as receitas tipo da “cartilha neo-liberal”, provavelmente, muito pouco adequadas à situação específica do País.

Torres Couto – personagem com quem nem simpatizo muito – surpreendeu-me, ontem, pela positiva numa entrevista à SIC Notícias, dando nota da forma como o Governo e as principais confederações patronais e sindicatos prepararam previamente a negociação com o FMI em 1983. É certo que o contexto era muito diferente (Governo do Bloco Central, sem eleições à vista, cenário de guerra fria, possibilidade de desvalorização cambial), mas houve sentido de estado por parte dos diversos intervenientes, consensualizando o que seria ou não aceitável previamente à negociação com o FMI. Depois, nas reuniões de negociação propriamente ditas, a generalidade das autoridades nacionais demonstrou um grande consenso em relação às medidas que haviam sido previamente acordadas ao nível nacional.

Quase trinta anos depois, o FMI regressa e confronta-se com um clima de quase loucura colectiva.
O principal magistrado da nação, depois de ter dado a senha para a operação suicida de 11 de Março de 2011, esconde-se, agora, atrás do facebook do Palácio de Belém, entretendo-se, de vez em quando, a receber Velhos do Restelo pirómanos reconvertidos em bombeiros salvadores da pátria (como António Barreto).

O Governo, está, aparentemente, muito desgastado, reduzido praticamente a José Sócrates e a Pedro Silva Pereira – Teixeira dos Santos terá sido a última baixa, os outros já tinham dado baixa praticamente desde o início desta legislatura.

O principal partido da oposição, responsável directo, juntamente com o Presidente da República, pelo despoletar desta catastrófica crise política, incendeia ainda mais os ânimos desta difícil negociação, passando aos representantes da Troika a imagem que temos múltiplos esqueletos no armário, sugerindo que as instituições públicas ligadas ao orçamento, finanças e estatísticas estão a falsificar e/ou a sonegar informação.

Os partidos mais à esquerda, que, com os seus 20% de votos, poderiam ter um papel importante no combate à epidemia neo-liberal de que neste momento sofre a Comissão Europeia (defendendo olhos nos olhos perante a Comissão Europeia as suas posições e sustentando-as, quer no conhecimento do terreno que tem o PCP, quer no reconhecido background intelectual e económico de Francisco Louçã), contribuindo para reequilibrar um pouco as duríssimas medidas que se perspectivam, escondem-se, mais uma vez, atrás de pretextos absurdos para não estarem presentes na negociação (ninguém lhes pedia para concordarem com o que daí vier a sair, mas tão só que expressassem as suas posições nas referidas reuniões), esperando, mais tarde, vir a beneficiar eleitoralmente da situação de enorme convulsão social que daí decorrerá.

O presidente da principal confederação patronal, completamente ao arrepio do acordo que havia assinado com o Governo e os sindicatos, transmitiu agora à Troika a necessidade de rever a Constituição por forma a despedir sem justa causa, entre outros disparates vários.

Por fim, os principais órgãos de Comunicação Social nacionais transmitem aos enviados da Troika todo o ar que o País é um manicómio à beira mar plantado, perseguindo incessantemente os pobres funcionários da Comissão Europeia, do FMI e do BCE, desde o pequeno-almoço (é mesmo verdade – já chegaram a perguntar o que é que os homens tomam no pequeno almoço…) aos elevadores do Terreiro do Paço, onde as assustadas criaturas ficam encurraladas, com aquele ar de quem sofre de claustrofobia…

Enfim, nesta negociação entre a Troika e Portugal, a minha esperança vai sobretudo para pessoas com cabeça fria como Silva Pereira, Silva Peneda, João Proença ou mesmo Carvalho da Silva. Conto, também, com a habitual determinação e energia de José Sócrates nos momentos mais difíceis. Espero que eles, associados aos funcionários públicos das principais Direcções Gerais presentes na negociação, dêem aos funcionários da Troika a habitual imagem de discrição, profissionalismo e competência que grande parte dos portugueses usufrui nos locais onde trabalham por esse mundo fora. Espero deles a tradicional capacidade imaginativa dos portugueses para, de forma fundamentada, proporem as soluções mais adequadas às especificidades da situação nacional. Espero, também, deles a resiliência do Estado Europeu com mais de 800 anos de história responsável pela genial epopeia dos Descobrimentos – penso que todos temos a noção que a saída de Portugal, da Grécia, ou da Irlanda do Euro seria catastrófica para nós, mas, também, para a própria União Europeia, e, em particular, para a Alemanha. Espero, por fim, que figuras como o velho Leão Mário Soares nos prestem uma derradeira ajuda, com a sua ainda notável capacidade de magistratura internacional (não, infelizmente, não espero nada do José Manuel…).

Não vai ser fácil, mas, que diabo, a fantástica história de Portugal sempre foi a mais improvável das histórias…

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Oferta do nosso amigo JP1

15 thoughts on “A fantástica história de Portugal”

  1. A. Barreto, o merceeiro, é um empregado bem mandado do merceeiro mor do Pingo Doce. Que por sua vez, é um obediente do merceeiro de amendoa amarga e frutos secos de Belém! Como estamos na Páscoa veio pôr o ovo no refúgio do Vale da Coelha para facil conciliabulo com o Catroga, mestre de obras da São Caetano e do jovem que por lá pensa que manda!

  2. Nesta estória de Portugal falta uma referência aos média e comentadores arrebanhados. Os ditos média para além da participação ostensiva na luta partidária, apenas dão protagonismo aos empresários do recebe a pronto e paga a prazo e atrasado! Em vez de entrevistarem empresários e dirigentes de empresas exportadoras de produtoras dos tais bens transaccionáveis, apenas dão tempo de antena aos chulos do sistema. Veja-se é entrevistas ao intermediário do pingo doce, ao intermediário do Continente, ao empregado de uma multinacional das telecomunicações, apanhado a fugir aos impostos e apresentado como empresário, etc e tal.

  3. Infelizmente não me parece que o velho leão Mário Soares, como lhe chama, dê uma grande ajuda, pelo contrário. A sua visitinha a Passos Coelho, com as companhias que o acolitaram, e a sua entrevista ao I, não auguram nada de bom. Ele diz que o Coelho é simpático e que com ele se pode falar, depois de tudo o que se tem passado, ou seja, o desentendimento entre o PS e o PSD é por culpa de Sócrates. Não há dúvida, o apoio a Alegre ainda lhe está atravessado na garganta. Era bom que eu não tivesse razão sobre este assunto.

  4. Pirómanos …tamém nã era preciso exagerar ….

    sempre é melhor que o Soarismo a dizer que os alemães provocaram 2 guerras e têm de pagar por elas

    mais vale pirómano recauchutado

    que xéxé de fraldas

    há quem evolua há quem fossilize

    e há quem esteja conservado em formol

  5. e isso do velho Leão corta-fitista para acabar com todo o corta-fitismo

    e expurgado para S.Tomé cujo clima era deletério para a sua saúde

    e que nos anos 80 aparece no tal e qual junto de beldade indonésia que diz admirar o sr.

    curiosamente pela vestuária na fotografia devia ser um daqueles infernos tropicais que devastavam a alma do homi

  6. 25 de Abril:
    Ainda me lembro como se fosse hoje, o dia de semana era uma quinta-feira. De manhã como sempre, punha-me a pé para começar o dia de trabalho, e notei algo de estranho na telefonia. Só transmitia música de fundo. Publicidade, noticiários e algo mais não se ouvia nessa manhã.
    Por volta das onze horas, um meu patrão disse-me: há problemas para Lisboa, fala-se num golpe de Estado. Em Portugal não estávamos habituados a estes tipos de acontecimentos por que quando algo se tentava levar avante era logo abortado pelas forças afectas ao regime e passados dias é que a comunicação social punha em grande relevo: forças antipatrióticas, conotadas como comunistas, tentaram derrubar o governo, governo esse eleito democraticamente pela maioria dos filhos queridos desta Nação!
    Desta vez tudo estava calado. A Rádio e a Televisão não arriscavam com notícias. Os que ontem eram defensores dessas parangonas esconderam-se como ratos nos esgotos. Não existiam nacionalistas. Os que vendiam uma imagem errada do País depressa ficaram mudos. Faltava-lhes a PIDE, o Exército passou para o outro lado e eles só eram fortes com a língua e o lápis azul.
    Passados trinta e sete anos aí os vemos: fortes. Quiseram derrubar um governo eleito pela maioria do povo português. Aqui não foi democraticamente. Nem os eleitores são os filhos queridos da Nação. Não. São uma cambada de antipatriotas ao serviço de um aldrabão, mentiroso, gay e não sei de quantos adjectivos. Dizem que com ele não há diálogo. Fogem dele como se tivesse a peste. Mas a peste dele vê-se nas reformas. Assim tivéssemos tido logo a seguir ao vinte e cinco de Abril um governo tão reformista.
    Outros deram cabo da reforma agrária, só construíram auto-estradas e Centro Cultural de Belém. Que não dessem cabo do dinheiro vindo da C.E.E. Esse dinheiro foi distribuído pelos amigos para comprar Jipes e vivendas.
    Ao contrário hoje vemos as reformas serem na Tecnologia, na Saúde, nos Hospitais, no Ensino, tanto no primário, secundário e universitário, rede viária e não em outras coisas porque a coligação negativa não o permite, caso do TGV, Aeroporto, desempenho dos professores e sua classificação.
    Dá-me pena não ver fazer a comemorações do vinte de Abril. Há pessoas que nunca perdoaram tirarem-lhe certas mordomias, outras que foram à PIDE dizer mal dos sogros. Um que se julga dono e senhor dessa revolução menosprezando os seus camaradas e o povo anónimo. Faz-me lembrar aquele guarda prisional que por ter umas chaves na mão julgava-se o dono de prisão!
    Pobre País que tais filhos dás.

  7. Um abraço caro amigo Pacheco! Comungo das ideias sobre o 25 de Abril de 74 – o que foi e o que poderia ter sido. Somos um país especial que esconde os problemas – em França e em Inglaterra vemos na entrada das igrejas os nomes dos paroquianos que morreram nas guerras de 14-18 e 39-45 mas connosco é varrer para debaixo do tapete. Há miúdos novos que pensam que o 25 de Abril 74 foi feito pelo Mário Soares que estava em Paris…

  8. ainda bem que esclareces que o 25 de abril foi feito por paroquianos ingleses mortos nas grandes guerras. eu pensava tinha sido feito pelo sindicato dos bancários a 26 de abril.

  9. Meus amigos! O 25 de Abril n é propriedade de ninguem. É um lugar comum, mas é verdade. Os miliatares foram a decisão e a coragem, mas n podemos esquecer – é bom não esquecer – o papel de figuras como Mario Soares, Alvaro Cunhal e muitos outros, anonimos a maioria, que pagaram com a prisao,a tortura e o exílio, para que o 25 de Abril acontecesse!

  10. Não podemos comparar 1983 com 2011. Eram outros tempos e, sobretudo, outros políticos. Aliás em 1983 havia políticos enquanto hoje existe aquilo que a nossa imaginação lhes quiser chamar.

  11. O sindicato dos bancários não fez o 25 de Abril, mas nos finais da década de 60 e início da década de 70, teve um papel importante na luta pela defesa dos direitos sindicais então quase inexistentes para a generalidade dos trabalhadores. Foi, talvez, a única vez em que tive orgulho de ser bancário! Desde então para cá e no pós 25 de Abril, foi uma classe que me desgostou e ainda desgosta pela confusão que algumas benesses geram na cabeça da grande maioria destes trabalhadores.
    Também me lembro que, nesse dia, entrava e entrei ás 8 horas da manhã e quando saí do comboio no Cais do Sodré dei com a Praça Duque de Terceira cheia de Tanques. Os tais que se confrontaram com Salgueiro Maia na Rua do arsenal.
    Também me lembro do susto que apanhei porque percebi que os tais tanques eram do Kaúza ou do regime. Só por volta das 10 da Manhã se veio a conhecer os pormenores e então foi o explodir de alegria.
    Para mim a duplicar, tinha 19 anos e não sabia se devia dar o salto para fugir ao serviço militar e á guerra de África, onde estavam alguns amigos, ou devia como eles, aceitar as regras e bater com os cotados no ultramar, onde nunca tinha ido.
    Para mim o 25 de Abril de 1974 foi, pois uma dupla alegria, quando percebi que era a queda do regime e o fim da guerra de África. Bem hajam sempre os militares do 25 de Abril de 1974!!!

  12. Ó palhaço, ó burro, ó monstro, eu refiro atitudes mentais e gestos públicos. Nós escondemos uma realidade em que morreram muitos de nós (eu também poderia ter morrido) mas eles expõem e fazem tudo para lembrar as guerras e os mortos das guerras.

  13. oh! tadinho do prosopoeta podia ter morrido com um tiro de bic laranja (esfera fina) bem no centro da testa, quando ia a caminho da floresta. agora penduras-te na liga dos combatentes? conta lá onde é que fizeste a tropa, se calhar apanhaste o niassa para évora.

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