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Ai Marcelo

“Entrevista de Costa vista em Belém como mais uma oportunidade perdida”

(Público)

Não me espantaria se o jornal Público se dedicasse por estes dias a acirrar os ânimos entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Havendo um fundamento sério no mal-estar entre os dois, noticiado pelo jornal há uns dias (e as razões estão muito longe de ser todas favoráveis a Marcelo), é também evidente que ao jornal e aos interesses que representa convém explorar este desentendimento – porque aumenta as vendas e “morde” nos socialistas por razões bem conhecidas – e dar com isso uma mãozinha a uma direita que entrou em desespero pela não chegada do diabo nem vislumbre do mesmo. Com a situação económica do país a melhorar a olhos vistos e a Geringonça a não dar sinais de quebrar no essencial, os incêndios e Marcelo oferecem subitamente uma boa tábua de salvação a quem se vê a afundar e sem maneira de chegar ao poder. O David Dinis pode estar numa de ajudar. É que estas notícias, por muito verdadeiras e objectivas que sejam, associadas a uma tragédia nacional, transformam-se, na restante comunicação social, esmagadoramente controlada pela direita, numa guerra do Bem contra o Mal, num contraponto entre “os afectos” de Marcelo e “a frieza” de Costa. Num populismo sem pudor.

É fácil omitir que a função de um não é a função do outro. Que o que se espera de um não é o que se espera do outro. Que as responsabilidades de um não são as do outro. Que Marcelo não foi eleito para governar. Que para isso teria que ter sido eleito para a chefia do PSD, coisa que não foi nem quis. Omitir tudo isto é fácil.

Ora, interesses político-jornaleiros à parte, acontece que Marcelo dá mostras de não se estar a importar nada de participar neste jogo/brincadeira irresponsável e calculista. Mais: não é de excluir que tenha sido o próprio a começá-lo. Num pequeno vídeo passado no sábado no Eixo do Mal (em que se vê Marcelo a discursar na entrega de um prémio a Wim Wenders), Marcelo mostra-se claramente desagradado com a Geringonça pelo facto de a mesma obrigar a negociações constantes com partidos anti-europeus, cujas consequências não são, a seu ver, as melhores para o país. É um escolho, de facto. Mas daí até o Presidente pôr em prática um plano de ataque a Costa e de desestabilização política deveria ir um passo muito grande. E maduramente ponderado. E no entanto, o que vemos é a presidência da República a alegar e a aproveitar as diferenças na exteriorização da “compaixão” pelas vítimas para reforçar a aura de «comandante do povo» de Marcelo e a ideia de incompetência do Governo. Muito mau. Mau de mesquinho. O que é que fez o Costa? Não chorou? Mas, mas, mas … o que é isto? O socorro está a chegar às populações como previsto! Os habitantes locais não atribuem ao Governo nenhuma das culpas que o Presidente deixa subentendidas. Nenhuma.

Convém, pois, lembrar ao actual Presidente que 1) é preciso muito mais do que beijinhos, abraços e selfies para resolver os problemas das pessoas atingidas por uma catástrofe – tarefa exigente e criteriosa que não incumbe ao Presidente; 2) nem toda a gente tem feitio para “santo” curandeiro, neste caso de “feridas psicológicas”, como Marcelo parece querer ser; 3) Marcelo não tem o direito de expor a sua personalidade (que crê impecável, mas que muitos vêem como calculista) por contraponto à de outros, que não andam aos beijos e eventualmente encaram as suas funções de forma diferente, colocando o objectivo de eficácia a outro nível.

Esta afirmação (referente à entrevista a António Costa, ontem, na TVI), se verdadeira, vinda de Marcelo, é inaceitável : “Primeiro-ministro falhou a reconstrução da sua imagem junto dos portugueses“. (vd. link acima) O que queria o Presidente? Que Costa se ajoelhasse, lhe pedisse perdão, pedisse perdão aos portugueses e chorasse?

A que ponto de irracionalidade estamos a chegar?

Um presidente simpático poderia ter mais juízo. A sério que é a visão de Santana Lopes no poder que o move?? Se é, é ridículo.

Quando percebemos o que “sem emoção” quer dizer

Já se desconfiava que o Presidente Marcelo regressara à sua faceta de golpista espertalhão ou mesmo maquiavélico, que vigorou durante mais de metade da sua vida política, ao “desancar” publicamente no Governo para vir de imediato (enquanto a vítima recupera do choque) colher os louros das medidas por este tomadas – alegadamente por pressão sua – e que afinal o Presidente já conhecia, inclusive o seu calendário. O mesmo se pode dizer da sua alegada pressão para que a ministra da Administração Interna fosse demitida. A ministra seria demitida independentemente da vontade do Presidente e a decisão de substituição não só já estava tomada, como também já fora comunicada ao Presidente. Desconfiava-se. Ora bem, tudo isto é hoje confirmado nesta notícia. E não acredito que seja spin do Governo. É apenas anedótico que Marcelo pense que nada se iria saber.

Em suma, o Presidente atraiçoa o Governo, ou “passa-lhe a perna”, se preferirem, aproveitando os crimes dos incendiários e fenómenos atmosféricos raros em situação de seca extrema, deixa o Governo estupefacto (mas, não obstante, diligente e profissional no seu programa de medidas e com uma comunicação ao país do primeiro-ministro), vai para o terreno distribuir abraços e beijinhos, deixando espalhar a ideia da frieza dos outros e, quando está para ser conhecido o que verdadeiramente se passou, ruma aos Açores, como se nada fosse, a distribuir “afectos” enquanto elogia, a uma distância de segurança, o Governo.

Como classificar esta porcaria?

Porque é que não ouço ninguém a falar da necessidade de um inquérito aos últimos incêndios?

Já aqui me insurgi contra o jornalismo vergonhoso que por estes dias se faz. Não disse, mas digo agora, que melhor fariam os jornalistas se, em vez de fazerem jogos políticos e acusações, fossem investigar as horas a que os incêndios começaram, a quantidade de acendimentos por concelho, as queimadas confirmadas e outras questões que conviria apurar, para além das condições meteorológicas concretas. Porque a questão é a seguinte: metade de Portugal ficou de repente a arder, num só dia, e o prejuízo em vidas humanas, vidas animais, explorações agrícolas, indústrias e florestas foi incomensuravelmente maior do que em Pedrógão Grande. Se, no caso dessa tragédia, se abriu um inquérito sério, por que razão não se faz o mesmo para esta tragédia de dimensões nunca vistas?

Inúmeras pessoas (os chamados populares) residentes nesses locais são peremptórias em afirmar que nada daquilo foi normal. E não hesitam em avançar teorias da conspiração de contornos políticos. É certo que a terra, o mato, a vegetação em geral estavam para além de secos. O vento também só acrescentou desespero à impotência. Mas a distribuição generalizada dos fogos pelo território já não parece a ninguém coincidência. Por isso, o mínimo que se deveria fazer seria mandar investigar. O Governo deveria, por assim dizer, contra-atacar. Começando, dado não ter ainda outros dados, com a falta de educação das populações e a incúria das autoridades municipais, em vez de se torturar com sentimentos de culpa, ir atrás da conversa do Marcelo e gizar grandes planos de ordenamento florestal. Porque a verdade é esta: quem quiser pôr uma mata a arder (ou duas, ou três), põe, haja caminhos ou não haja caminhos, bons acessos ou maus acessos, muitos ou poucos bombeiros e equipamentos de combate. Não há que ter medo de lançar um inquérito. A extensão da tragédia mais do que o justifica. Ainda há pouco ouvi na TSF um agricultor da região de Penacova que perdeu todas as suas plantações de medronheiros. Bem tratadas, limpas, suficientemente dispersas para garantir que algumas se salvariam em caso de fogos. Não adiantou. Perdeu tudo. Ordenem o território, limpem as florestas, mas não tenham ilusões de que quem quer fazer o mal o fará novamente.

Na Idade Média, matavam-se (queimavam-se) três ou quatro judeus na sequência de um terramoto e o assunto ficava arrumado. No século XXI nada fica arrumado com a “queima” de uma ministra. Por isso, caro António Costa, como vítima que também sou destes incêndios, eu quero saber o que aconteceu no fim de semana passado.

A comunicação social não anda mal

Anda péssima. Não se consegue ler uma única notícia imparcial e objectiva, um único destaque sério, um único comentário aceitável. Parece tudo contaminado, a funcionar em circuito fechado. Os jornalistas excitam-se uns aos outros, vão atrás dos “soundbytes” de alguns políticos da sua eleição. Os comentadores idem. Um mundo paralelo. Este é um caso em que nunca me pareceu tão positivo que a generalidade dos portugueses não compre jornais e prefira o futebol aos canais noticiosos. É que, de facto, o bacanal e a festança que vão pelos OCS parecem ser coisa de elites, coisas da capital, coisas demasiado elaboradas para os campónios que somos todos nós. Comigo passa-se que me sinto totalmente alheia ao que para aí vai. Tomemos os exemplos do tratamento respeitoso dado a Assunção Cristas – que lhes vendeu lixívia e eles compraram -, ou  da ministra Urbano de Sousa. É evidente que esta pediria a demissão e que Costa a aceitaria. Aliás, a ministra já o tinha feito ainda antes de Marcelo discursar. E não, não concordo (tal como Costa) que a catástrofe de Pedrógão fosse razão para a demissão. Então porquê a insistência em que “Marcelo força saída da ministra”, que “Costa é cego”, que “levou um puxão de orelhas” (viram como Eduardo Cabrita surgiu como escolha pronta, tendo eu ouvido meia hora antes do anúncio do novo ministro um jornalista/repórter à porta de Belém a dizer que Costa não teria seguramente tempo para escolher um substituto para Constança antes do início da próxima semana, como se tivesse sido colhido de surpresa?), que, se não fizer não sei o quê, “Marcelo o vai chumbar“, etc., um etc. tão longo que seria fastidioso estar aqui a detalhar? Passem uma vista de olhos pelos jornais. É que nem se dão conta do ridículo da hipótese e da ameaça que deixam no ar ao falarem em chumbo: se Marcelo chumbasse Costa (dissolução da Assembleia e convocação de eleições), a seguir seria Marcelo a levar um chumbo monumental em sentido inverso do povo que diz amar e representar – pela instabilidade desnecessária que provocaria quando tudo corre bem excepto a meteorologia, pela inoportunidade e exagero da decisão, pela indefinição e o estado calamitoso do PSD, pela vitória reforçada do mesmo Costa. Por tudo isto, recomendo, pelo menos, pelo menos, calma. Eu compreendo que desejem vender o máximo, tornar o vosso negócio lucrativo e darem-se a importância de fazerem de contra-poder, mas se o tentarem fazer sendo ordinários e indo contra o mais razoável bom senso, estão a cometer suicídio. O Tavares do Público, por exemplo, o cómico de sábado à noite, acha que o Passos se revelou o grande estadista que é ao obrigar Portas, o da decisão irrevogável, a ficar em 2013. Ó Tavares, o Passos?? Fala-me da Merkel, fala-me do Cavaco, fala-me da Troica, mas … o Passos?? E não, nem sequer me fazes rir.

Há também os casos em que os títulos das notícias, como este, hoje, no Público – “Sócrates terá usado ex-ministros em crimes de corrupção no TGV” são escolhidos propositadamente para darem a entender uma coisa que, vai-se a ver, fica totalmente nebulosa, quando não negada, ao ler-se o desenvolvimento. Aliás, o texto, que transcreve a tese do MP no assunto em apreço, acaba por mostrar bem como o Ministério Público pode efectivamente, como dizem os advogados, ter-se entregue ao delírio e à efabulação no processo Marquês. Aqui impõe-se a leitura. Fica-se perplexo com o título, outros já houve em que se ficou escandalizado, mas pelo menos não se fica revoltado com o raio e o abstruso da maioria das opiniões. Mas que a pressão mediática da direita é desproporcional e desproporcionada, é.

Vermes

Acabei de percorrer a A25 desde uma das zonas mais críticas dos fogos de ontem – Nelas, Mangualde, Gouveia – em direcção a Aveiro. Isto porque me foi impossível fazer o trajecto habitual, que inclui o IP3 na zona da barragem da Aguieira, Penacova e Souselas em direcção à A1. Estava há muito cortada esta estrada. Pois toda a A25, ao meio-dia, estava envolta numa escuridão imensa (consta que já desde a Guarda, ou seja, de lés a lés), parecendo quase que o sol não tinha nascido, havendo ainda, nomeadamente na serra do Caramulo, pequenos focos moribundos no meio da desolação total.

Antes, passara a noite com a casa envolta numa nuvem densa de fumo, um ar irrespirável, um vento quente fortíssimo que fazia bater com estrondo tudo o que era porta e janela entreabertas. Nas mesas, em volta dos candeeiros acesos, uma névoa de fumo. De manhã, os carros estavam cobertos de fagulhas. O chão, as varandas, tudo sujo. Falando com vários habitantes locais, entre os quais o dono da oficina onde deixara o meu carro para uma pequena reparação de pintura, constatei a ansiedade, a consternação e, desculpem o termo, o “aparvalhamento” com o que estava a acontecer (“ardeu lá em cima a mata do Conde! “- diziam-me, referindo-se à propriedade de Paes do Amaral – que afinal escapou por pouco) e ouvi relatos de pessoas que se apresentaram ao trabalho e as instalações já não existiam – pequenas e médias empresas, oficinas como aquela, etc., outras que não puderam sequer sair para o trabalho. Pessoas sem dormir.

Este era o panorama. De um pouco mais longe, tivémos notícia de que todos os pinhais da família, na região de Tondela, arderam. Não sobrou nada nas margens do Dão e do Dinha. Cinzas.

Pois não ouvi da boca de ninguém a mais ligeira referência à culpa do Governo, ou da ministra, ou dos comandantes dos bombeiros, ou da Protecção Civil. Nada. Todos têm consciência de que o fenómeno foi demasiado avassalador e incontrolável para se poder apontar o dedo a este ou àquele dirigente (mas não aos incendiários, claro, que garantem ser a causa) e que, neste caso concreto de quase bombardeamento, seria difícil uma organização melhor ter evitado tais tragédias. O presidente da câmara de Oliveira do Hospital dizia, na rádio, que nem que dispusessem de 2000 bombeiros teriam conseguido controlar aquelas chamas, tamanha era a rapidez da propagação. Enfim, para apoteose final de uma extraordinária e longa “época de incêndios”, este 16 de Outubro esteve, infelizmente, à altura.

E no entanto, os jornalistas, ouvidos também na rádio, dirigindo-se à ministra Constança, apenas queriam saber se a senhora se demitia ou quando é que se demitia e o que queria dizer António Costa com as consequências políticas do relatório de Pedrógão. Pergunto-me se estas bestas de jornalistas têm sequer a noção do ridículo ou da sua condição de vermes.

Chama-se a isto discernimento

Passos Coelho fez três coisas extraordinárias como primeiro-ministro, que basicamente consistiram em não fazer coisa alguma. Foram três simples, mas magníficos, “nãos”. 1) Passos Coelho não se intrometeu na comunicação social. 2) Passos Coelho não se intrometeu na justiça. 3) Passos Coelho não ajudou Ricardo Salgado. Pode parecer pouca coisa a Fernanda Câncio, mas é muitíssimo. Reparem: não há aqui troika, nem liberalismo. Apenas respeito pela decência num regime democrático. Nesse campo tão importante, Passos merece os mais rasgados elogios, numa ruptura abençoada com o tenebroso arco 2005-2011.

Caluniador do Público

 

1)Passos não se intrometeu na comunicação social – E para quê, se é e era toda de direita? É só passar a vista pelas direcções respectivas: o Ricardo Costa e companhia, entre os quais o convertido Pedro Santos Guerreiro, no Expresso e SIC. O  carro de combate Gomes Ferreira. O David Dinis no Público. Os do Observador. O Baldaia no DN. O António Costa no Eco e RTP. Os inomináveis no Correio da Manhã. Os da Sábado. Os do Sol e do i. O que resta? O JN? Incompreensível para mim é como alguém de esquerda consegue ganhar eleições nestas circunstâncias.

E a televisão pública? Que história é essa do Poiares Maduro “ter afastado o Governo”? Qual governo? Olha o lindo estado em que se encontra a RTP noticiosa e comentadora, a começar pelo Rodrigues dos Santos. É este o exemplo de isenção que tem para mostrar o Tavares?

2)Passos Coelho não se intrometeu na justiça – E para quê, se está completamente tomada pelos seus correlegionários e tem como jornal oficial o Correio da Manhã e porta-voz a Felícia Cabrita? Mais confortável com a justiça do que o Pedro estava era impossível. Criminalizou-se o governo anterior, tudo era investigável judicialmente, desde o primeiro-ministro até aos cartões de crédito dos ministros, a Teixeira da Cruz queria inclusivamente vê-los todos na choldra. Que conforto e que prático assim, não é? Mas por falar em intromissão, quem é que se intrometeu na Justiça?

O Macedo que a criatura refere noutra passagem mais do que provavelmente não tinha escapatória e serviu de excepção para o Tavares poder falar nele.

3) Passos não ajudou Ricardo Salgado – Ao contrário de quem, pode saber-se? E ajudou quem, em vez do Salgado?

Sócrates muito bem

Nas grandes questões da acusação, quero dizer. PT, BES, Vale do Lobo, Lena. Trouxe documentos, provas, argumentação credível. Será importante ver o que o MP tem de facto para apresentar como prova das acusações.

Mas a principal conclusão da entrevista é a seguinte: quantas mentiras, interpretações abusivas, meias verdades e truncagens anda o Correio da Manhã a publicar há anos com a conivência ou em conluio com o Ministério Público? E porquê?

Afinal a conta que tinha como beneficiário o primo de Sócrates, a derradeira prova, a que faltava!, fora encerrada em 2008? Eh pá. Francamente. Não fomos informados. Não estava preparada para isto. Ó Correio da Manhã, atão?

O Dâmaso nem sabia o que dizer no espaço de comentário que se seguiu à entrevista. Amanhã, porém, contra-atacará com mais uma manchete. É isto.

Sorriso alemão – amarelo. “Aufwiedersehen, Schäuble!”

 

Outubro de 2016:

“Portugal estava a ser muito bem-sucedido até entrar um novo Governo, depois das eleições […], declarar que não iria respeitar o que os compromissos com que o anterior Governo se comprometeu”, disse o governante, respondendo a questões dos jornalistas em inglês, numa conferência em Bucareste.

As considerações do governante alemão não se ficam por aqui. Wolfgang Schäuble diz mesmo que avisou o governo português contra os riscos do caminho que está a ser seguido.

Está a acontecer da forma como eu avisei o meu colega português [Mário Centeno] porque eu disse-lhe que se seguirem esse caminho vão correr um grande risco e eu não correr esse risco”, afirmou o governante em Budapeste.

Outubro de 2017:

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, que participa hoje no Luxemburgo na sua última reunião do Eurogrupo, apontou Portugal como “prova” do sucesso da política de estabilização do euro e a ilustração de um “final feliz”.

Desandam assim

Passos – um que não percebeu nada.

Schäuble – um que finge não ter percebido nada e, na hora da despedida, tenta chamar sua a vitória dos outros, que dantes execrava e ameaçava.

Dijsselbloem –  um que não sei se terá percebido alguma coisa; o braço direito do anterior no Eurogrupo; o xenófobo (lembram-se dos gastos em mulheres e copos atribuídos aos países do sul?) que ainda se há-de enfrascar com o melhor vinho do mundo.  Oferecido pelo Augusto Santos Silva, um dos melhores ministros dos Negócios Estrangeiros que tenho visto. Citando-o:

Augusto Santos Silva, comentou que “é evidente para todos, todos que leem jornais, que (Schäuble) começou por exprimir desconfiança em relação a este Governo, e é claro para todos que terminou, ou terminará, o seu mandato como ministro das Finanças da Alemanha apresentando Portugal como um exemplo de como as coisas devem ser feitas”. (DN)

Diz que a luta vai ser dura*

Neste momento, olhando para o único candidato que se propõe liderar o PSD, Rui Rio, não se vislumbra ninguém – nem Montenegro, nem Marco António, nem Rangel, nem Poiares Maduro – que avance como candidato para dar seguimento às “ideias” de Passos. E quais são essas ideias? Convém recordar.

1) Redução/degradação dos serviços públicos, entre os quais a saúde e a educação, de modo a abrir portas à actividade de privados que, ironia, estabeleceriam acordos altamente lucrativos com o Estado para receberem os cidadãos descontentes. A isto chamam “diminuição do peso do Estado”. Como é óbvio, tal não diminuiria, porém, o peso financeiro para este mesmo Estado e, no que respeita à educação, poria seriamente em causa a igualdade de acesso e a laicidade do ensino e deixaria o Estado com o papel de garantir os serviços mínimos para os pobrezinhos.

2) Privatização de tudo o que é empresa pública – as que ainda restam: TAP, transportes públicos, vertentes da Justiça e da segurança, etc. Nem que seja a empresas estatais estrangeiras.

3) Redução acentuada dos impostos para as empresas, alegando que se criariam mais empresas e mais empregos (de preferência mal pagos e não qualificados).

4) Redução concomitante da TSU para os patrões e concomitante privatização dos fundos de pensões, alegando que o fundo da segurança social está depauperado (claro que nada, para eles, teria a ver com o mau desempenho da economia).

5) Desregulamentação das leis do trabalho, fim do salário mínimo, fim dos contratos colectivos, liberalização dos despedimentos.

6) Entrega dos “casos sociais” e dos casos de pobreza a organizações de caridade, de preferência católicas.

7) Indiferença total pela ciência e a investigação financiadas pelo Estado. Idem aspas para a cultura. E por aí adiante.

Bom, o programa da Troica acolhia e acolheu mais do que bem todas estas ideias, como vimos, embora no início não fosse tão longe. Foi por isso que Passos não só não viu qualquer obrigação, fardo ou contrariedade no cumprimento daquilo que apelida agora, com gigantesco descaramento, de “imposições”, como também fez questão de ir ainda mais longe.

Não sei, nem ninguém sabe, qual o programa de Rui Rio. Assim como não sei se chegará sequer a ser candidato – não é de excluir que se desculpe com a falta de adversários e desista também, dando oportunidade a Passos de viver o seu momento “irrevogável”. Ao contrário do Pacheco Pereira, não me parece que, com excepção do André Ventura, os passistas estejam desesperados por barrar o caminho a Rio, que representa, pelo menos para ele, Pacheco, a social-democracia. Pensarão que o próximo líder é para queimar. Acresce que, de Passos, não se pode dizer que tenha sido um caso de sucesso perante os portugueses. Depois do que se viu nas últimas autárquicas (e durante) e dos afastamentos que provocou, a sua mediocridade já não deixa dúvidas. O que aconteceu foi que ele e o seu staff conseguiram convencer boa parte do eleitorado, em 2011, mentindo como nunca dantes se vira, a votarem neles e, posteriormente, de que não havia alternativa ao que andavam a fazer. Mas havia, é claro. E que alternativa! Será, por isso, difícil alguém que não tenha a “lábia” do André Ventura (mas esse é tão ligeiro que dificilmente poderia ser levado a sério para uma função de responsabilidade), apresentar-se com um programa do género do lá acima referido. A não ser que minta, mas aí penso que já pouca gente estará desprevenida.

Portanto, não sei que luta dura será essa que se prevê para o PSD. Rui Rio sozinho? Não há luta nenhuma. Rio contra Santana? Uma luta de salamaleques, logo, uma não luta. E, a bem do respeito pela política e por si próprio, espero que Santana tenha juízo e continue na Santa Casa. Só mesmo se o Passos voltar atrás para desafiar Rio. Não é de todo impossível, atendendo ao choro convulsivo que vai pelo Observador e atendendo a que ninguém mais aparece. Além de que era essa a intenção inicial de Passos. A não ser assim, digam-me qual a luta dura, por favor, que eu não vejo lutador nenhum.

 

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*Ouvi e li, nos dois últimos dias, vários comentadores referirem-se assim à corrida para a liderança do PSD

Calma, Jerónimo. Acabou a autocrítica?

Quem irá compreender que o PCP “solte os cães” por ter obtido resultados decepcionantes nas autárquicas? O comité central não vê nenhum ridículo, ou pior, um enorme risco nessa hipótese de trabalho?

Jerónimo de Sousa, justificando a perda significativa de autarquias, está a enganar-se a si próprio e aos seus ouvintes, se acredita nisto que diz, e passo a citar (ver DN):

“Não se pode omitir o quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses e a sua negativa influência na afirmação do nosso trabalho, da nossa obra, da nossa intervenção e do nosso próprio projeto” .

Assim em retrospectiva, não dei por tamanha hostilização. Pelo contrário. António Costa trata o PCP com mais respeito do que a sua expressão eleitoral faria esperar. A não ser que Jerónimo se refira à Autoeuropa, onde, na ausência de comissão de trabalhadores, a influência do sindicato afecto à CGTP criou realmente um problema maior do que seria desejável. E toda a gente o percebeu. Embora só alguns comentadores o tenham dito. Acaso o PCP pretende convencer o pagode que não faz um feroz jogo político de auto-afirmação?.

«O líder comunista falou ainda de uma “campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que não são seus” e de uma “ação persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando a sua atividade e iniciativas, incluindo dando a terceiros e projetando noutros o que era o resultado da sua iniciativa e trabalho”.

Qual campanha, Jerónimo? Qual silenciamento? O que é que foi atribuído a outros, quando devia tê-lo sido ao PCP?

Mas há que concretizar os autores. É aqui, e não é bonito:

«Jerónimo de Sousa salientou que nesta “ação geral de ataque” e “desvalorização” do partido houve um “papel assumido pelos outros principais partidos”, nomeadamente PS e BE.

“Vimos uma intervenção do PS a desenvolver uma ação a partir dos seus candidatos e alguns dirigentes partidários, particularmente concentrada em municípios de maioria da CDU, de ataque à gestão da CDU baseada em argumentos falsos e muitas vezes ofensivos”, atirou o secretário-geral, criticando também a “opção do BE de fazer da redução da influência da CDU o seu objetivo principal, não olhando a meios para, por via da falsificação e mesmo da calúnia, denegrir a CDU e o poder local”.»

Bem, vamos por partes. Então, foram os candidatos. Foi durante a campanha. Jerónimo pretende que, em disputa eleitoral, os candidatos não procurem vencer apontando os erros e fraquezas dos adversários. Os candidatos do PCP não o fazem? Ou Jerónimo quer que acreditemos que em Beja, ou em Almada, ou em Castro Verde, os candidatos comunistas trataram os seus adversários com a delicadeza de um mordomo, nunca os acusando de nada, nem de “políticas de direita” e outras invenções convenientes que fazem parte do seu habitual vocabulário? Ou talvez devesse o PS não concorrer a câmaras “do PCP” para não “hostilizar”?

E que dizer do argumento de que o BE foi o culpado da perda de câmaras do PCP? Tenho reservas quanto ao Bloco, mas haja sentido da medida, camarada.

«Já sobre a derrota em 10 autarquias — nove municípios para o PS e uma para um movimento de independentes — o secretário-geral reiterou ser esta uma “perda, sobretudo para as populações, para o serviço público, para os direitos dos trabalhadores das autarquias”.

Paternalismo. O PCP arroga-se o exclusivo de defender “as populações” e “os trabalhadores”, pois mais ninguém o faz. Nem os eleitores o veem! Logo, quem não votou na CDU é burro. Empáfia.

«Ainda em análise aos resultados da noite de domingo, Jerónimo de Sousa assinalou o “falacioso argumento de combate a ‘maiorias absolutas’ concebido para retirar votos à CDU e que merecia uma mais ampla denúncia”. »

Eh, lá! Falácias? Como se o PCP nunca argumentasse contra as maiorias absolutas dos outros.

«Denunciou ainda como “muitas pessoas que dirigiam palavras de reconhecimento” pelo papel do PCP na derrota do governo de direita e que não “tinham tomado a consciência de que a possibilidade de assegurar que esse caminho prosseguisse, e se ampliasse, residia no reforço do PCP e do PEV, e não no PS”.

“E isso pesou no resultado eleitoral e ampliou-se à medida que o PS anunciava que precisava de mais força para prosseguir a sua ação governativa. Em certa medida, e para uma parte da população, as eleições locais foram transformadas em eleições de natureza nacional”, criticou.»

O PCP incompreendido. Jerónimo esquece o seu papel no derrube do governo PS em 2011 e a entrega do poder ao Passos. Jerónimo acha que o seu partido foi o grande autor das medidas do actual governo e que isso mereceria um reconhecimento, através do reforço do número de votantes. Não percebo. Está Jerónimo a dizer que o PS não queria melhorar a vida das pessoas? É que esse foi mesmo o ponto de partida para o entendimento a três! Ó Jerónimo, foram eleições locais, onde os dinossauros já estão fora de moda, homem. Mesmo os do PCP. Vai na volta, os candidatos do PS deveriam apelar ao voto no PCP. Era isso?

“aqueles que fazem o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais contra o PCP, só podem esperar a nossa ainda mais decidida determinação na dinamização da ação política e do reforço do PCP para as batalhas futuras que aí estão”.

Não sei a quem se está a referir ou a que batalhas. Porém, se acha que é o PS que vai fazer “o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais” e o PCP lhe faz uma declaração de guerra com os sindicatos, é melhor preparar-se para novas derrotas ainda piores. É que tudo estará clarinho como a água. «PCP furioso com derrota autárquica solta os sindicatos contra o Governo» dava um belo título de jornal. E verdadeiro. Para recuperar o eleitorado, não há melhor. Ou haverá?

Um chavão: a política tem muito de hipocrisia

Que desilusão, que hecatombe, que desgraça. Muito me divirto e também me espanto com o clamor de escândalo das pessoas ligadas ao PSD, e de vários comentadores, em relação ao resultado das autárquicas. Como se não estivessem nada à espera. Por favor, meus caros. Então a escolha de Teresa Leal Coelho para candidata à Câmara de Lisboa não era, desde o início, uma aposta perdida? A sério que não? Ainda por cima depois da antecipação de Assunção Cristas, feita carro de combate, e dos seus propósitos e discurso populistas impossíveis de bater por Teresa Leal Coelho? Alguém no seu perfeito juízo achou que Teresa poderia pontuar acima da Assunção, ela que desde o primeiro minuto e até durante a campanha não conseguiu disfarçar o cumprimento de um frete? E no Porto? Por acaso alguém tinha sequer ouvido falar no candidato do PSD? Ainda hoje apenas sei que tem Almeida no apelido. Por acaso é motivo para espanto a sua derrota com uma votação insignificante? E na Figueira, em Faro, em Oeiras, em Sintra, em Viana, em Gaia, em Coimbra, etc., etc., nunca ninguém imaginou que os candidatos do PSD pudessem ser atropelados? Claro que sim. Qual é então a grande derrocada, a grande hecatombe, a grande surpresa?

Não é, evidentemente, nenhuma. É farsa e simultaneamente um grito de impotência, que pode, ou não, ter consequências na liderança do partido. Não se sabe. A verdade é que há muito que o PSD de Passos está sem identidade e à procura de uma. É neoliberal ferrenho, como pretendia António Borges? É populista e demagógico como o CDS? É de extrema-direita? É como o André Ventura gostaria que fosse? É social-democrata, como desejam muitos dos seus mais destacados militantes, que também andarão às voltas com uma definição de social-democracia distinta da de António Costa? Neste momento, estamos sem saber. Certo é que todo este clamor não passa de um enorme charivari abstruso, a meus olhos. É impossível ninguém ter visto, até anteontem, o bom momento que o país atravessa e o quão mais importante seria, para o PSD, desenhar uma estratégia inteligente para contrapor à actual aliança governativa e sobretudo escolher candidatos fortes para derrotar os socialistas. É claro que toda a gente viu. O problema é que uns se recusaram a ver em Passos Coelho o bluff que sempre foi (os do Observador ainda não vêem e o João Miguel Tavares deseja-lhe, por hipocrisia ou insanidade, que faça a maratona do deserto e depois volte), se recusavam a ver que seria difícil ter do seu lado gente com qualidade, e outros precisaram de um motivo invocável para pressionar a saída de cena de um indivíduo que viveu sonhando que a maioria obtida em 2015 e o desastre que fatalmente se seguiria ao entendimento conseguido entre o PS e a extrema-esquerda o colocariam de novo no poder. Passos, pelo seu lado, não saiu porque não percebeu nada. Nada do que aconteceu ao PSD nestas autárquicas foi inesperado. É uma grande chatice, mas ou deixam lá o Passos, e para isso calam-se, ou pensam numa estratégia alternativa e mexem-se. Mas não se mexerem também é uma hipótese.

Catalunha: “I say Yes, you say No”

Oh, como é bom estar a observar o que se passa em Espanha sentada num cadeirão. Aquele senhor do risco ao meio e óculos, Puidgemont, Carles, parece-me demasiado exaltado. Haverá motivos para tanto? Estariam os catalães tão oprimidos que ninguém, nem eu, deu por nada? Que mal lhe terão feito os de Castela? Ou a Andaluzia, que até lhes fornece mão de obra barata? Os cravos vermelhos também ficam ali muito mal. Não gosto. É usurpação abusiva.

Por outro lado, o Rajoy onde pensa que vai a fazer-lhes o favor de pôr umas pessoas a sangrar? Não há diplomacia entre as autonomias? Devia haver.

Irónico que o “sangue quente” típico dos nosso vizinhos abranja afinal também os catalães. Vejam lá isso. Nós, sim, estamos de fora, “hermanos”. Ventos do Atlântico, estão a ver?

Bom, visto daqui, não me parece que a declaração unilateral de independência sobreviva às contas que teriam que ser saldadas (em desfavor da Catalunha), às purgas que teriam que ser feitas, às transferências de populações, ao imbróglio com a UE, à exclusão do FC Barcelona do campeonato espanhol, às eleições locais (enfim, nacionais). Uma coisa é criar um inimigo externo para criar unanimismo (vd. Coreia do Norte, Putin), outra bem diferente é haver-se com o que há, sem mais sacos para bater. Mas, ó gentes, admito estar enganada. Temos o exemplo do Brexit a lembrar-nos que o passo para a irreversibilidade não custa a dar.

E, no entanto, um dizer Sim e outro dizer Não não pode senão conduzir a uma mesa de negociações, que é por onde se devia ter começado, digo eu aqui do cadeirão. Arranja-se um mediador ou a mesa é para partir?

Os resultados vistos da colmeia passista

Há mais abelhinhas e vespas no Observador, cujas ressentidas e elaboradas análises aguardaremos com expectativa, mas estas foram, para já, as convidadas a tecerem um rápido comentário sobre as eleições autárquicas de Domingo.

 

Maria João Avillez: O meu PSD! Oh, como estou triste! Não, não pode ser. O PSD é eterno. O que aconteceu foi que o partido foi escolhido para bombo da festa, havia que o destruir, desse por onde desse. A culpa não foi da Teresa Leal Coelho nem de Passos nem das suas escolhas. O PSD era o alvo a abater, meus queridos. Houve uma “tentativa de destruição maciça do PSD”. Sem razão nenhuma, estão a ver! São os tempos.  Olhem lá para fora. O mundo está a ruir. A culpa é dos maus.

Alberto Gonçalves: O futebol. Porto! Porto! E aquele do aeroporto em Coimbra, ah, ah. Pensava que ganhava. E nunca mais recomeça o jogo?

Helena Matos: PCP, por favor, não acham que chegou a altura de soltar a Ana Avoila e o Mário Nogueira? Então? Não querem vingança? Vá lá, ajudem-me aqui, por favor. Dêem-me cabo da Geringonça e do Costa que eu já não posso mais.

Rui Ramos: Calma, o PSD, sozinho e em coligação, não ficou assim tão distante do PS a nível nacional. No Porto, a culpa do insucesso do PSD até foi do Rui Rio e do Paulo Rangel, ouçam o Rui Moreira. Mas os críticos no PSD que avancem, se tiverem coragem. Passos, I love you! Até marcaste conselho nacional e congresso antecipadamente, mais sério e honesto do que tu não há. Vais ganhar em 2019.

José Manuel Fernandes: O PSD perdeu. Uma derrota pesada. Há que dizê-lo. Estou de luto. Mas em 2013 também perdeu e nas legislativas de 2015 ganhou. Por isso, há esperança. No fundo, a culpa foi dos candidatos escolhidos, muitas vezes não da responsabilidade do Passos. Enfim, também, olhando para o país em geral, “os melhores” decidiram candidatar-se como independentes. Assim não admira!

Em Lisboa, Cristas provou ser muito diferente de Portas (!), mas pensa bem, Passos, se virmos bem, o CDS e o PSD somados têm maior percentagem de votos do que em 2013 e prova-se assim que um discurso popularucho-demagógico, pronunciado com mais convicção, como o de Assunção, pode levar a PàF de novo ao poder. Estás a ouvir, Passos? Tens que ser assim esganiçado, descarado, ousar propor 30 estações de metro, riscar da memória das pessoas, com frescura, tudo o que fizeste antes e descer de botas de safari até aos bairros populares. Ela é que a sabe toda.

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Passos, fica! (eu também quero)

O homem que queria voltar a ser primeiro-ministro

Podia Passos Coelho escolher candidatos de jeito para estas eleições autárquicas? Não só não podia como também não era essa a sua prioridade. Explico: com o actual governo a pôr o país na rota do crescimento, da criação de empregos e do desafogo para milhares de famílias e de empresas, seria difícil a qualquer candidato do PSD, por mais qualidades que tivesse, disputar a presidência das principais câmaras do país e até das restantes. Acresce a isto a inegável qualidade do trabalho do executivo da câmara de Lisboa (e do Porto).

Com o PS no poder, não só não aconteceu nenhum dos cataclismos vaticinados, como também, a nível local, o exemplo do governo central leva os eleitores a olharem para os candidatos consonantes ou pelo menos não hostis ao actual governo com “olhos de ver”, ou seja, alheios à propaganda dos anos em que “não havia alternativa”. Passos não podia, pois, fazer boas escolhas, inclusivamente porque os melhores não se identificam com ele  e muito menos ao ponto de “campanearem” alegremente ao seu lado para as autárquicas.

 

Mas também não era essa a sua prioridade, como a cada dia que passa se vê. As suas intervenções nos diversos pontos do país por onde andou (ai de mim, tenho ouvido a Antena 1)  puxaram sempre o tema das legislativas, que ganhou (esquece que este é um galão sem brilho), e das sementes que diz ter lançado à terra para que o PS colhesse os frutos. O incómodo é que, quanto às legislativas, a vitória de nada lhe serviu por não dispor de uma maioria na Assembleia que lhe aprovasse as políticas, começando desde logo pelo orçamento, pelo que estaria na rua muito antes de o diabo esfregar um olho, aí, sim, criando uma instabilidade perigosa para o país. Quanto às sementes, o próprio disse, durante meses a fio, que o actual governo estava a “estragar tudo o que fora feito” e que, não tardaria, estaríamos na bancarrota e a braços com novo resgate. Logo, deduz-se que, se fosse ele, teria feito muito diferente, o que equivale a dizer que continuaria tudo na mesma como nos anos dos cortes, das ordens para emigrar, da degradação e do subfinanciamento dos serviços públicos – a pagarem-se caro agora-, etc., etc.

 

A par da sua vacuidade, o problema de Passos é que é politicamente um mentiroso. Sempre foi e continua a ser. Não só não havia bancarrota nenhuma em 2011, pelo contrário, tinha-se conseguido um acordo com as principais instâncias europeias para evitar um resgate nos moldes dos da Grécia e da Irlanda, como também se comprometeu a respeitá-lo em reunião com Sócrates. Reunião que foi por ele ocultada, mas, como se fosse preciso para nos lembrar o seu recurso fácil à mentira, mais tarde confirmada e bem confirmada. Também o penoso que foi, para ele, tomar as medidas drásticas que tomou ao assumir o poder, é mentira, tendo o próprio confessado na altura que o FMI era uma oportunidade para pôr o país na ordem e que o radicalismo das suas políticas (dele e do Gaspar) não era nenhuma cruz que carregasse, porque acreditava que só os salários baixos tornavam o país competitivo e o Estado tinha mesmo que reduzir a despesa cortando nas pensões e nos subsídios, e nos direitos em geral, ao mesmo tempo que aumentava colossalmente os impostos. Dizia ele, então, que a classe média estava mal habituada, gastara acima das suas possibilidades e outras pérolas do género. Dizer que foi “obrigado” a alguma coisa pela Troica é, portanto, palhaçada de quem inventou aeródromos movimentadíssimos no interior do país para gamar uns cobres à Europa. Ainda hoje, para além das suas, uma mentira de outros que lhe dê jeito, ele agarra. Em Pedrógão, com os suicídios, foi o que se viu. O “relatório das secretas militares” sobre Tancos, plantado no Expresso, e que se provou ser uma falsidade com intenção, ele agarrou e bem cedinho.

 

Neste contexto, não é difícil perceber que o personagem deu tanta importância às autárquicas como a Voyager ao lixo cósmico. O homem mais não tem feito, à boleia dos seus candidatos, do que campanha para as próximas legislativas, ou o próximo congresso, vá lá. Por enquanto, pode até ser reeleito líder da agremiação PSD. Mas só porque o tempo é de vacas magras para a oposição. Não admira, como aqui já disse, que, em desespero, o André Ventura, no mínimo, lhe dê ideias e, no máximo, seja elevado à categoria de seu alter ego. Mais desenvolto ainda na charlatanice.

Passos não se inibe de afirmar e reafirmar que gostaria de voltar a ser primeiro-ministro. Chegará lá quando o André Ventura tiver mais audiência, mas, se for o caso, o Ventura estará mais fresco.

 

Ena! Perigo de “colapso da família saudita”

Parece que as mulheres na Arábia Saudita vão ser autorizadas a conduzir.

Vejo, porém, um problema grave de redução do campo de visão, se a indumentária continuar a ser a que se vê na foto. Quem sabe as seguradoras irão forçar a libertação da cabeça? O primeiro passo está dado (embora a medida só comece a vigorar em Junho do próximo ano, que isto não pode ser assim).

Será também preciso uma carta de condução e, para isso, aulas e um exame. Se as aulas só puderem ser ministradas por mulheres, dado o horror e o perigo que é ter um homem instrutor sentado ao lado de uma mulher, o processo poderá atrasar-se ou ser fatalmente impedido. Espero sinceramente que não. Mas há quem antecipe o fim do mundo:

 

Some said that it was inappropriate in Saudi culture for women to drive, or that male drivers would not know how to handle women in cars next to them. Others argued that allowing women to drive would lead to promiscuity and the collapse of the Saudi family. One cleric claimed — with no evidence — that driving harmed women’s ovaries.

Ventura – O que resta a Passos?

Não me espanta que Passos Coelho, a manter-se na liderança do PSD, transforme o partido num partido populista, arriscando-se, porém, a dividi-lo. E populista como? Com discursos contra os ciganos (ou outras etnias), contra os imigrantes, contra a linguagem politicamente correcta, até contra o “sistema”, como já vimos noutras paragens. Se virmos bem, Passos já era, para ser branda, um embrião de um populista – ignorante q.b. é a primeira característica que me ocorre, mas também o grande à-vontade que sempre demonstrou com as falsidades: antes de ganhar as eleições em 2011, mentia com quantos dentes tinha, não só com promessas que sabia nunca poder nem ter intenção de cumprir, mas também negando, por exemplo, factos importantíssimos, como a situação financeira do país ou como uma reunião com Sócrates num momento crucial em que este lhe comunicou o resultado das negociações com Bruxelas para evitar o resgate.

Enquanto primeiro-ministro, sempre acusou os que chamava de subsídio-dependentes (podiam ser ciganos, mas na altura eram outros, os mais pobres, o que era claramente uma generalização “à André Ventura”) e os portugueses que chamava de preguiçosos (que não deixavam a sua zona de conforto, convidando-os a emigrar, ironicamente para países onde dirigentes não populistas os acolhessem), sempre foi muito pouco contido na linguagem (sendo mesmo facilmente boçal e nisso se comprazendo) e só isto bastaria para nos esclarecer sobre aquilo a que vinha.

Agora que foi apeado do poder, não hesita em inventar suicídios em consequência de uma tragédia natural para produzir efeito mediático e político, em não reconhecer tudo o que não fez em matéria de segurança e prevenção, em negar que tudo o que fez em matéria orçamental e laboral durante o seu mandato o fez por convicção e não por obrigação (não tendo grande intenção de mudar de rumo, caso ainda governasse), em acusar Costa de austeridade e de falta de austeridade, enfim, alegres alarvidades e patetices ditas com a impune ligeireza de um Trump. Exemplos de afinidades com o André Ventura não faltam, portanto. Não percebo, pois, qual o espanto com o seu apoio ao candidato do PSD de Loures. Os dois são o futuro possível. Para o nível deles, claro está.

Quanto ao PSD, se é certo que, enquanto no poder, Passos não logrou dividir o partido, nem tal era previsível que acontecesse, aparecendo só as tradicionais válvulas de escape nas pessoas de Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Rui Rio e, por vezes, Marques Mendes, na oposição talvez as coisas não se passem exactamente assim. O problema para o PSD e a sorte para ele é que, enquanto o actual esquema de governo pragmático se mantiver e tiver sucesso, não haverá muitos interessados em liderar o principal partido da oposição. Creio, no entanto, que haverá uma linha vermelha para algumas facções do partido e Passos anda alegremente a testar a cor dessa linha. Desconfia, como eu desconfio, que mesmo essas facções terão dificuldade em formular propostas sociais-democratas muito diferentes das do actual partido socialista, mormente dados os resultados visíveis da política seguida. A única bandeira que restará a esses PSD não populistas será a recusa de entendimento com os chamados radicais de esquerda, no que têm um ponto pertinente. E aí António Costa poderá ter um problema, embora não demasiado grave se o PSD der lugar a dois partidos, dividindo-se a sua base de apoio.

Ao pateta alegre do Passos resta, pois, jogar com o populismo do seu coração enquanto não houver capacidade da ala não populista do seu partido para o afastar. Mas quem sabe se transformam todos, ou a sua grande maioria, em populistas, agora que o CDS parece ter pudor?

A velha estratégia ou a sério que a casa do Medina é mesmo notícia?

Fernando Medina, presidente da CM de Lisboa, era proprietário de um apartamento, onde habitava. Vendeu-o por um preço superior ao que tinha pago há uns anos – nada que surpreenda nos tempos que correm e mesmo nos que já correram, dependendo de melhoramentos que tenhamos feito – e comprou outro, com intermediação de uma imobiliária. Conseguiu um preço não barato mas razoável (foi em 2016) atendendo ao local e também aos tempos que correm (não tanto aos que corriam), em que, apesar da tendência de subida, os preços ainda variam consideravelmente em função de numerosos factores (o proprietário pode querer seleccionar o futuro comprador, por exemplo, não necessariamente com más intenções). E estávamos em 2016. É-nos também dito que havia outro interessado e que Medina até ofereceu mais um X para assegurar a casa. Também nos é dito que Medina comunicou ao Tribunal Constitucional o que devia ter comunicado. Portanto, foi isto. Ao que se lê, nada de mais nem digno de nota se passou. A não ser a grande sorte de uma família poder deixar os filhos aos avós na porta ao lado.

A falta de escândalo é, ademais, visível para quem leia a notícia desenvolvida no pasquim “Observador, mas não o título, obviamente. Pasmamos com a lata de quem resolveu construir um pseudo-escândalo com isto, ainda por cima antes que o “acusado” tivesse tempo sequer de esclarecer as dúvidas – pois a notícia acusatória saiu ontem. O facto de haver pressa em publicar ao ponto de não esperarem para ouvir o interessado já é um bom indicador do que se pretende.

O facto é que se lê aquilo tudo, hoje já incorporando alguns dos esclarecimentos entretanto prestados por Medina, e nada de chocante nem de ilegal se descortina naquela notícia.

O duplex comprado era de uma prima dos Teixeira Duarte, que, com os seus esmagadores 2% de quota, não tinha sequer voto na matéria na dita sociedade? Terá o pobre Medina encontrado a prima errada no local errado? E então? Não comprava o apartamento que lhe dá tanto jeito (segundo a notícia, Medina andava à procura há uns tempos) só porque “a prima” de uma empresa é a proprietária? É esse o escândalo? Será porque a Câmara fez um ajuste directo de não sei o quê com a Teixeira Duarte passados dez meses? E com quantas outras mais? Gostaríamos de saber.

Não sou advogada do Medina, mas claramente alguém está a recorrer aos métodos já conhecidos do espalhamento de lama para combater adversários.