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Querem uma ajuda para verem onde está o calculismo, ó tristes?

Na perspectiva da captação de mais votos nas próximas legislativas entre um determinado sector da administração pública, e de encurralar infantilmente o Governo, a direita e a extrema-esquerda pátrias reúnem-se num belo dia em volta de uma mesa e acordam num aumento de despesa permanente para o Estado de 800 milhões de euros anuais. O Governo, que se propôs com seriedade (e tem cumprido) aliar a devolução de rendimentos (e o seu aumento) a um estrito rigor orçamental, reage declarando que, a ser assim, não governa nem mais um dia sem que antes o povo se pronuncie sobre o necessário novo aumento de impostos ou cortes drásticos noutros sectores, como a saúde, que tal medida implica. Óbvio.

Pois bem, esta situação, que ficou à vista de toda a gente tal a clareza com que foi exposta por António Costa, chega ao processador dos descerebrados representantes partidários (a quem faltam espelhos) e do comentariado televisivo de serviço e de lá sai na forma dos seguintes “chouriços”:

  • Calculismo político do Governo ao “abrir agora uma crise”.

  • Há tanto calculismo político do lado da oposição como do lado do Governo. (E o Governo deveria fazer o quê?)

  • Para quê este drama, se o Presidente veta a medida? (Ignoram que o veto é ultrapassável)

  • Para quê esta crise, se o acto eleitoral, de qualquer maneira, já teria lugar daqui a quatro meses?

  • “Hohoho, as contas do Mário Centeno parecem-me erradas, pelo que isto é um acto teatral” (Aguiar Conraria dixit, RTP3 – pensando que um dia será ministro das Finanças). “Mas, atenção, acrescenta – isto é o que eu acho após as duas horas em que pensei no assunto, posso mudar de opinião”.

  • Os pagamentos seriam diferidos (e até incertos), afinal qual é o grande impacto orçamental?

  • Calma! O que aprovámos não é o que parece.

  • O facto de se aprovar o princípio do reconhecimento dos 9 anos não significa que se pague alguma coisa.

  • A direcção do PSD desconhece o documento aprovado.

  • O Governo que se deixe de lamechismos e negoceie mas é.

E já chega, suponho. Este é o resultado de um saltitanço insano de canal em canal. Estou certamente a omitir mais tolices do género destas  proferidas ontem à noite, mas, dada a lista supra, vocês, que só querem o meu bem, compreendem porquê.

Só pergunto é se estas pessoas que abrem a boca para, a propósito de um espectáculo miserável quer da oposição quer dos aliados do Governo, inventarem tacticismos inexistentes, fazerem interpretações esquizofrénicas de reacções provocadas, desvalorizarem argoladas ou simplesmente passarem as culpas alguma vez consideraram a hipótese de ficarem caladas perante o desmascarar das suas próprias indigências. Não é por nada, mas é que nem surpreendidas podem ter ficado.

As conquistas do Mário Nogueira são sempre espectaculares

Agora que finalmente tivemos a segunda edição da coligação negativa, com a aprovação, por toda a oposição, de uma despesa permanente de mais 800 milhões de euros, não vejo que melhor pode o Governo fazer do que demitir-se. Sem hesitações.

Do PCP e do Bloco, no rescaldo dessa demissão, iremos ouvir as justificações habituais: que o défice não importa para nada, há sempre dinheiro, os ricos que paguem, que salvar os bancos é salvar os banqueiros (esses criminosos) e não os milhares de depositantes e de empresas, etc. Mas estes partidos, já sabemos, são contra a Europa, contra os mercados, contra o euro, contra o capitalismo, contra o estabelecimento em geral e sonham ainda com um regime do tipo soviético. Vai ser giro é ver o CDS, o PSD e o Rui Rio, esse europeísta e cúmulo do rigor orçamental, na campanha eleitoral. Acabei de me sentar para assistir. Para já, bravo a todos e todas.

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Catarina, a cínica

Bom dia. A manhã parece marcada por tentativas de criar um ambiente de crise política. Esse ambiente é totalmente artificial. Aqui ficam 4 breves notas:
1. O que foi aprovado ontem no parlamento limita-se a corrigir um DL do governo que desrespeita os OE18 e OE19, que explicitamente previam a contagem integral do tempo de serviço de todas as carreiras especiais da função pública para efeitos de descongelamento (ainda que de forma faseada)
2. A solução encontrada para os professores respeita esse faseamento, não representa qualquer acréscimo de despesa no ano em curso e respeita a autonomia negocial do próximo governo.
3. Nos Açores, onde o PS governa com maioria absoluta, a contagem integral do tempo de serviço já está garantida. Na Madeira também está já garantida. 
4. A única despesa extraordinária e não prevista no OE 2019 com que o governo se deparou é a que decorre do pedido do Novo Banco. São mais 450M€, que o governo já considerou acomodáveis.

Acabei de ver as declarações da líder do Bloco, esta manhã. Como quem acorda e descobre que o Governo vê um problema real nas decisões irresponsáveis de toda a oposição. Surpreendidíssima.

  1. O Governo contesta o primeiro ponto.
  2. A reposição dos montantes correspondentes aos 9 anos e tal com que então não é bem, como dizer, aumento de despesa, porque depende de futuras negociações?? Ó Catarina, isso é ridículo. É o que dizem o PSD e o CDS e são justificações para rir (“Não é verdade que o CDS tenha hoje aprovado o pagamento de tempo integral dos professores. Essa proposta foi chumbada com o nosso voto. Aprovou-se apenas o princípio de que os professores terão direito à contagem integral do tempo congelado mediante negociação com o governo.).
  3. Os governos das ilhas por acaso têm as mesmas obrigações e responsabilidades financeiras do governo central? Ou este por acaso só governa para os professores?

Extrema-esquerda e extrema-direita: onde está o perigo?

A propósito das eleições em Espanha, assistimos à direita em peso a equiparar partidos claramente nazis, fascistas, nacionalistas, xenófobos e socialmente retrógrados (como o VOX) aos partidos da extrema-esquerda (como o Podemos e os nossos dois partidos marxistas). (O Tavares mau, no Público, resolve considerá-los, a ambos os extremos, inofensivos, uns escapes, coisa benéfica até, mas isso, já sabemos, é para branquear e normalizar a extrema-direita, na linha do que fez o Nuno Melo.) Terão razão? Vou escandalizar alguns dizendo que sim e não.

 

Há semelhanças entre os regimes que ambos os extremistas acabariam por impor, se chegassem ao poder e vivêssemos no século passado. Destaco, entre elas, o fim da democracia e da liberdade de expressão. Começando pela ala esquerda, a maioria dos partidos que actualmente na Europa se podem apelidar de extrema-esquerda (e já não são muitos) tem como princípios políticos a estatização da economia e da propriedade, a colectivização, como no comunismo, a rejeição da iniciativa privada, do lucro, enfim, do capitalismo e, no final, e mais importante, da liberdade individual, e usufruem da liberdade democrática que vigora nos países “capitalistas” para apresentarem uma agenda em tudo baseada nesses princípios. É por causa desses princípios alegadamente justos (evidentemente que, quanto à falta de liberdade, uma consequência inevitável, são omissos), cuja aplicação prática já toda a gente viu como termina, que assistimos às reivindicações permanentes e imutáveis do PCP – mais funcionários públicos, sempre mais, mais serviços públicos, mais empresas públicas, enfim, mais Estado, Estado por todo o lado, como em Cuba, onde até o pessoal dos hotéis são funcionários públicos, e contra o capital, sobretudo o grande capital (e o pequeno? O que lhe fariam?), e a iniciativa privada. O Bloco não é diferente – nenhum poder para os proprietários e senhorios, por exemplo, como se a propriedade privada não existisse, ou não devesse existir, uma simpatia clara pelas ocupações, punição (para já, fiscal) dos ricos e de quem ousa querer ganhar dinheiro, enfim, disparates moralistas fundamentalmente religiosos vindos de ateus. Mas o modelo de sociedade de base é o modelo comunista, ironicamente já quase extinto da superfície da Terra.

Por tudo isto, considero serem estes partidos principalmente aberrações, embora reconheça que, acantonados nos sindicatos, possam ainda ter um papel importante na organização das lutas laborais, que sempre existirão, dado o desequilíbrio de forças. Assim, considerar estes partidos como uma ameaça real aos regimes democráticos parece-me totalmente exagerado (e nisso o Tavares lá de cima tem razão). Existem já poucos partidos como estes (na maioria dos casos, enveredaram pelo ambientalismo; noutros casos, uma vez no poder, fazem como o Tsipras – apertam a mão à realidade, mandam o ideário às urtigas) e não se vê que tenham grande futuro, atendendo ao pouco entusiasmo que suscitam nas populações. Os apoios internacionais a estas causas também já escasseiam – a China, um colosso populacional sem instintos bélicos e claramente um país capitalista estatal onde a riqueza privada não provoca ânsias em quem manda desde que não perturbe o sistema vigente e os controlos estabelecidos, não os apoia (penso eu), e a Rússia também já nada tem a dar para o peditório do comunismo. Aliás, aquilo a que assistimos hoje em dia é a uma mudança de aposta: o seu líder, Putin, um ex-polícia convencido de que é um czar, apoia neste momento, em parceria com Steve Bannon, o americano, tudo o que sejam movimentos de extrema-direita, que a crise dos refugiados muçulmanos e africanos fez renascer, ou ainda todo e qualquer movimento que tenha hipóteses de desestabilizar a Europa e o mundo ocidental em geral (revanchismo, inveja), o que não é o caso dos movimentos de extrema-esquerda, cujas fontes de combustível parece terem secado. Digo “parece”.

 

É por isto que a extrema-direita representa na Europa um perigo muito maior. Por cá, nem o PCP nem o Bloco jamais ousarão clamar contra a vinda de refugiados, que, aliás, vêm em número diminuto, se comparado com outros países europeus, ou terão sequer alguma hipótese de governarem com maioria. No entanto, como diria Monsieur de La Palice, cada país europeu tem problemas de índole diferenciada. Na Hungria, governa um ditador que despreza o Estado de direito e não aceita nem um refugiado. Na Polónia, a tendência para a ditadura é patente. Na Áustria, foi eleito um presidente de extrema-direita, avesso a críticas e perguntas incómodas. Na Itália, a chegada, a instalação e o trânsito de milhares de refugiados e migrantes, assim como a crise económica, deram pasto aos populistas do M5E e aos fascistas da Liga do Norte. Estão agora no poder. Evidentemente que não fazem todos os estragos que gostariam de fazer porque ainda estão na União Europeia e precisam dela justamente para fazer face ao problema dos migrantes e porque se afundariam de vez caso abandonassem o euro. Mas lá estão a cumprir o seu papel, com o apoio de Putin para o que der e vier, e para o que já deu. Em França, a populista e protofascista Le Pen, também com o apoio de Putin, com quem se aconselha, tem conseguido votações assustadoras. Neste momento, Macron à parte, existem poucas alternativas à senhora, e até Jean Luc Mélenchon, um comunista, se alia a ela sem quaisquer pruridos. As votações da Frente Nacional e a fragilidade dos partidos tradicionais e europeístas franceses fazem temer que o extremismo de conveniência e conluio russos se instale no coração da Europa, dinamitando o projecto europeu que, apesar dos seus impasses e guinadas, tem sido, há várias décadas, garante de estabilidade, prosperidade e paz (ou não houvesse milhões a quererem vir para cá). No Reino Unido, não digo que o Nigel Farage, esse formidável demagogo, queira impor um regime ditatorial no seu país caso chegue ao poder (um regime xenófobo já com certeza), mas, para já, está a conseguir reunir os despojos do partido conservador e, caso o seu novo partido, o Brexit, consiga mesmo tirar o Reino Unido da União Europeia sem acordo, terá o privilégio de fazer ressurgir o conflito irlandês –  um feito para o qual talvez já tenha dificuldade em arranjar um discurso vitorioso e cativante.

 

Em suma, não é a extrema-esquerda que representa um perigo para a Europa, uma vez que dificilmente chegará ao poder dado o desvio das grandes questões actuais para a percepcionada invasão de migrantes e refugiados (a extrema-esquerda recebê-los-ia a todos) e a degradação da classe média. Já os populistas e demagogos de direita podem não ser apenas uma válvula de escape e muito menos se pode dizer que são benéficos. Em Espanha, onde o problema mais quente é a Catalunha e as autonomias, o VOX provou efectivamente ser mais vozes do que nozes – obteve apenas 10% dos votos. Mas poderá não ser assim em França com a Frente Nacional ou, dentro em breve, na Alemanha.

A fidelidade à direita e a tudo o que tenha “direita” no nome não devia toldar a visão dos, lá está, direitolas. Um termo até carinhoso nos dias que correm. A realidade é que não temos, na Europa, com excepção da Grécia (e olhem o aspecto) qualquer partido dito de extrema-esquerda a ameaçar governar ou a governar.

Uma campanha que é mais um chinfrim da direita sem argumentos

Que se saiba, da chamada polémica das relações familiares neste governo, apenas um caso já de terceira apanha pôde ser equiparado a nepotismo (!!, seria preciso estarmos a falar de elevadas vantagens, mas não me façam rir, tratou-se de um adjunto de um secretário de estado que era seu primo) e, por isso, os seus protagonistas demitiram-se. Dos outros mencionados como escandalosos, ou não tinham nada de escandaloso até há pouco tempo (mais precisamente até este ano, ano de eleições), sendo perfeitamente aceites – casos de Mariana Vieira da Silva e do pai e de Ana Paula Vitorino e Eduardo Cabrita -, e continuarão a não ter, dado que os ditos cujos não se nomearam entre si, foram antes nomeados pelo primeiro-ministro, que não é deles parente, nenhum deles vendo contestada a sua experiência e competência, ou decorrem simplesmente da existência de um chamado círculo de “elites políticas”, que produz gerações de pessoas mais familiarizadas com as questões e a prática políticas, como são os casos de parentes de ex-políticos e ex-governantes, deputados, presidentes e ex-presidentes, de professores universitários, e de cônjuges de pessoas que são ou já foram deputados, governadores civis, etc, etc. Para se ter uma noção do vazio desta causa, convido toda a gente a ver o vídeo que o Observador com tanto júbilo publicou, à falta de um diabo qualquer que afundasse os socialistas, para a direita uma derradeira arma de arremesso, embora uma espécie de pólvora seca que lança enorme poeira, e a que chamou desatinadamente “a grande teia”. Se aquilo é uma teia, pobre aranha. Passa por lá um avião. Nada do que ali é referido é grave. Num país pequeno, pode ser difícil evitar os relacionamentos lá identificados. Isto já foi dito: as pessoas que frequentam os mesmos meios e partilham as mesmas ideias tendem a relacionar-se, a trabalhar juntas e, por vezes, a casar. Mas nem um, unzinho, membro deste governo é familiar de António Costa nem nenhum deles nomeou nenhum familiar directo (salvo a supracitada excepção).

 

Esta falsa problemática não deveria, pois, sequer ser razão para o PSD estar a subir em sondagens e o PS a descer, nomeadamente porque o PSD e o CDS não têm, em matéria de relações familiares em governos seus, uma folha substancialmente diferente. Muito pelo contrário. É pior. Também não têm oposição substantiva nem propostas de governo espectacularmente piramidais e, mesmo que as tivessem, 1) haveriam que fazer soar todos os alertas de vigarice (dado o historial) ou 2) não seriam necessárias. Seriam ideias geniais que qualquer gato escaldado e sobretudo a realidade dispensam.

 

Mas a campanha absolutamente insana e massacrante a que a direita e a comunicação social (passe a redundância) se têm dedicado nos últimos tempos transforma dados totalmente irrelevantes na actual governação em crimes de lesa-pátria, lesa-moralistas e em escandalizadores de papalvos. A verdade é que, no meio de toda esta montagem de pseudo-escândalos, ninguém tem a mínima razão ponderosa para se demitir ou ser demitido. Não há ilegalidade, não há nepotismo. Nada de mais. São os melhores que cada um conhece. Nenhum deles é considerado incompetente ou não habilitado. Aliás, metade dos nomes citados no vídeo nem devia lá estar. Está lá claramente a fazer número.

 

Acontece que a campanha, exagerada e mentirosa, tende a resultar. A direita não vai largar o osso (se a deixarem) e as pessoas vêem e acreditam em demasiada superficialidade nas televisões. Para ajudar, mas também dar um grande tiro no pé, Marcelo entrou na dança (podia lá perder esta?) e quer agora que se proíbam nomeações de primos até ao sexto grau… Primos? Sexto grau??!! Mas quantos primos havia, ó Marcelo? E estaremos a falar de que postos e de que responsáveis por nomeações? Gostarei de saber. Esta pessoa é Presidente ou voltou a ser comentador da TVI? Talvez um pouco mais de calma não fosse má ideia, pois que a seguir vêm as interdições de amigos e depois de conhecidos, de colegas de curso, até se chegar à conclusão de que um governo socialista só pode nomear pessoas da oposição. Mais um bocadinho e um governo socialista não poderá nomear ninguém mesmo, ou seja, será melhor que não governe.

 

Quatro Brexits e um funeral (ou dois)

 

No site da BBC, podemos ler um artigo com um título bem engraçado sobre o mais recente estado da discussão parlamentar do processo de divórcio RU-UE: “Four Brexits and a Divorce“. Inspirando-se no título de um famoso e divertido filme inglês e nas hesitações do seu protagonista, alude, obviamente, à série de propostas ontem postas à votação na Câmara dos Comuns e ao possível desfecho de todo este imbróglio. No entanto, cá para mim, o “funeral” do título original do filme teria toda a razão de se manter. Se não, vejamos. Falecimentos podem ser alguns. A começar, o do próprio Brexit (sempre e ainda uma hipótese). Depois, devido ao enorme esforço que lhe tem custado esta prolongada paródia, Theresa May ainda se esvai um dia destes. Espero que não. Para já, perdeu a voz, mas parece resistir. Outro que pode ter a vida em risco é o “speaker“, que começa a ficar congestionado demais e a não caber na gola. Ainda cai redondo nos Comuns. Outra coisa que pode falecer é o partido conservador, que vai cavando divisões profundas entre os seus membros e com o eleitorado enquanto se diverte, ou o partido trabalhista, cujos grandes princípios e líder poderão acabar enterrados nesta situação tão século XXI pela sua superficialidade (passe a incongruência). Poderá também finar-se a boa reputação do Parlamento britânico. Para muitos europeus, que imaginavam outra coisa que não a balbúrdia, a falta de lugares sentados e as entradas e saídas do “Lobby” para as votações, já se finou e de que maneira. A reputação dos políticos britânicos, a começar por Cameron, está também literalmente, e há muito, pela hora da morte. Finar-se poderá também a própria Grã-Bretanha, se a Irlanda do Norte decidir que prefere a paz à Rainha. Enfim, é muito falecimento em perspectiva para se poder vislumbrar alguma Fénix que dali renasça. Este divórcio nem sequer tem um grande amor em vista.

Disparates populistas de Marcelo

Dá que pensar, embora a violência da conclusão intrigue: caso se repetissem os incêndios de 2017, o Presidente dissolveria o Parlamento. Ou seja, deitaria abaixo o Governo e convocaria novas eleições. Marcelo declarou esta intenção em entrevista à TVI, ontem, num momento em que diz estar a ponderar a sua recandidatura. Nunca saberemos se o fazia ou não. Mas o facto de o afirmar é confrontacional. Segundo ele, os protestos do povo por entre cujo choro andou na altura dirigiam-se de tal maneira ao Governo e ao seu “descolamento da realidade” que não lhe restaria outra solução que não fosse mandá-lo abaixo nos próximos fogos, a acontecerem. Parece que assim vingaria o povo e, a partir daí, não mais haveria tragédias? Que “boutade“. Daquela vez passou, da próxima o Governo não passa? Ó paizinho. Com calma, sim?

 

Isto é ridículo, surpreendente e muito agressivo. Andando também pelo meio do povo naquela época seca e escaldante, ouvi acusações bem diferentes das invocadas. As coincidências dos fogos postos não escaparam a quase ninguém. Não levei, porém, uma câmara nem sou governante. É que não há nada melhor para ouvir dizer mal de quem governa do que andar um presidente, às vezes uma simples câmara de televisão, pelo meio do povo destroçado. De pessoas que não têm culpa nenhuma, de facto, do que aconteceu e nem terras possuem. Mas Marcelo não ignora certamente que quase ninguém nas terras ardidas limpava as matas, que animais como as cabras há muito desapareceram, que ninguém se preocupava com as portas de saída em certos edifícios, ninguém avaliava os locais de construção de habitações em termos de segurança, ninguém respeitava muito a proibição de queimadas, que todos queriam ganhar dinheiro com os eucaliptos, enfim, que já não chovia há sete meses; e muitos dos que protestavam se esqueceram dos cortes nos organismos públicos e em pessoal (incluindo vigilantes florestais e bombeiros) no tempo do governo anterior; no entanto, já que havia palco e presidente, este diz que o povo malhava era no Costa. E muita gente acredita. Marcelo tinha obrigação e a decência de interpretar correctamente situações de aflição e desespero e de ver mais longe, devendo ele próprio, já agora, contribuir para uma maior tomada de consciência das populações e autarquias para as suas próprias responsabilidades. Mas assim não foi e só pode haver uma razão pouco louvável.

 

Alguns dados

 

Segundo o relatório da Comissão Técnica Independente, que Marcelo seguramente leu, 40% dos incêndios de 2017 deveram-se a actos incendiários intencionais, 20% a negligências várias e os restantes 40% a reacendimentos. Escusado será lembrar aqui também, a propósito das dificuldades no combate, o número inusitado de incêndios que se verificaram praticamente em simultâneo, consumindo meios e recursos não multiplicáveis por todo o país, ou os fenómenos atmosféricos até essa data raros que foram responsáveis, pelo menos, por uma das principais tragédias desse fatídico ano, numa determinada estrada. Esses dados deveriam estar sempre presentes antes de alguém decidir mandar para o ar acusações disparatadas e venenosas. Marcelo acusa agora directamente o Governo (na pessoa da ministra da Administração Interna de então) de responsabilidade pelas tragédias ocorridas. Não se percebe onde quer chegar com tal incriminação, numa altura em que até se leram notícias, não sei se falsas, de um possível apoio do PS à sua recandidatura.

 

E já que falo nisso, aproveito para dizer que discordo em absoluto desse apoio. O partido socialista deveria manter-se distante. Se não tem candidato, cale-se. Já bastou o que aconteceu com Cavaco Silva que, no primeiro mandato, pareceu cordial e colaborante, conseguindo seduzir para o voto muitos dos que não apreciavam Manuel Alegre e, mal se apanhou reeleito, desatou a fazer discursos vingativos contra os socialistas e política partidária desenfreada em prol dos seus camaradas de sempre, muito contribuindo para a catástrofe que se seguiu.

 

Marcelo não governa nem governava em 2017 e só isso já o devia fazer conter. Pelo que disse na entrevista, até parece que o Costa não faria nada para evitar novas tragédias decorrentes de incêndios nos anos seguintes se não sentisse a espada de Dâmocles por ele supostamente colocada sobre a sua cabeça. É obviamente mentira. Além de ser uma afirmação antipática de autoridade. Por questões relacionadas com a sua própria reeleição, Marcelo está a optar pela esperteza saloia (pode não ser verdade que fizesse o que diz que faria), pelo distanciamento de vedeta e pelo vale tudo, incluindo o aproveitamento de tragédias que nenhum governo poderia ter evitado.

 

 

Felizes com a lista de seguidores, ó “Observadores”?

Lembram-se do artigo inqualificável da médica Joana Rodrigues, que dizia que as mulheres felizes são as que “casam bem”, ganham menos mas vibram, enquanto “exercem plenamente a maternidade”, com os sucessos e o dinheiro dos maridos e muitas mais genialidades, todo um rol, do género? Pois bem, o artigo não mais foi visto* no siteObservador“, uma espécie de blogue gigante e bem financiado onde se aquartelou toda a direita passista, salazarenta, bafienta, ressabiada, queque, xuxofóbica, veneradora dos mercados ou simplesmente tonta deste país.

Hoje, o “publisher” do dito site, José Manuel Fernandes, vem prestar um esclarecimento, não sobre a retirada/ocultação do artigo, como se esperava, mas sobre a razão da sua publicação, o que já de si dá vontade de rir, porque o que se nota mesmo mesmo é que o artigo sumiu. Bom, mas o JMF vem então avalizar o artigo e ao mesmo tempo distanciar o corpo redactorial do seu blogue do conteúdo do dito artigo, remete para os valores fundadores daquela coisa e invoca a liberdade de opinião. Escusado será dizer que, perante o desaparecimento do artigo, este “esclarecimento” é obviamente abstruso. Pois isso mesmo, mas por outras razões, acharam os devotos seguidores desta trupe, em expressão de opinião na caixa de comentários. Para rir a bom rir, é preciso ir ler. Tudo furioso. J M Fernandes não tinha que esclarecer coisa nenhuma, o Observador está mas é a ficar como o Público (ah, ah), viva a dra. Joana e por aí fora.

Claro! Onde está, de facto, a agressividade da estupidez, hoje em dia tão na moda? Modernidade, dignidade? O que é isso? Alinhem-se lá, meninos, olhem a clientela.

 

*Correcção: o artigo não desapareceu, foi antes remetido desde muito cedo para a secção de Opinião (dia 24), deixando de aparecer na página principal. Por achar que era norma as ligações para os artigos de opinião manterem-se na primeira página uns dias, concluí erradamente que fora suprimido. Não foi. Ficou muito menos visível, mas continua lá. Além disso, em abono do “publisher”, registo que ele próprio pôs no seu Esclarecimento de hoje uma remissão para o dito artigo. Nada disto, porém, me impede de avaliar a clientela fiel daquele blogue, que protestou contra a “moleza” de um esclarecimento daqueles. Os admiradores dos articulistas do Observador gostariam que o JM Fernandes publicasse, destacasse e defendesse o artigo de Joana B Rodrigues. Há gente do tipo “Tea Party” cujas opiniões são bem acolhidas no Observador e há adeptos que se irritam com a dor de consciência do Fernandes. Foi isto que destaquei.

 

 

Não é o país que está sonâmbulo, é o J M Tavares que padece de doença incurável

A crítica política anda nisto: parece que, na falta de outro assunto para atacar um bom governo, a direita ressabiada brande agora a suposta endogamia do actual elenco governativo (ver Observador e uma ou outra ovelha ainda dispersa, uma das quaisFilhinhos do papá – aqui me traz). O mais ridículo disto tudo é o facto de as mesmas pessoas (quatro, uma multidão, portanto) que possuem laços familiares (e nenhum deles com António Costa) e fazem parte do Governo já fazerem parte do mesmíssimo governo desde o princípio da sua formação, há quatro anos. A única diferença, pelos vistos a que fez eruptir a turba, foi a gravíssima transição de Mariana Vieira da Silva do cargo de secretária de Estado para o de ministra da presidência e da modernização administrativa. Claramente, estes comentadores estiveram a dormir até agora, ocupados já não sei com quê, possivelmente o afundamento iminente do país. Grande Mariana. Deve ser mesmo boa.

 

O segundo aspecto ridículo é estes indignados apresentarem-se muito escandalizados pelo facto de um chefe de governo escolher rodear-se de pessoas que conhece bem e considera competentes. Parece que, para eles, o primeiro-ministro deveria rodear-se de pessoas que conhece mal e de cuja competência apenas ouviu falar. Fingem desconhecer a existência de partidos, os quais possuem, por definição, dirigentes e militantes, que se vão conhecendo ao longo do tempo e estabelecendo relações de confiança e definindo funções “sombra”. Com falsa e exagerada preocupação, e à falta de melhor, alegam, por exemplo, que, em determinadas decisões, Ana Paula Vitorino e António Cabrita (o casal, o único) estarão condicionados pelo facto de serem casados. Isto é tanto mais cómico quanto toda a gente sabe que se há coisa que não falta num casal são divergências e discussões. Tenho para mim que esse condicionalismo matrimonial é capaz de ser bastante irrelevante face ao condicionalismo que um chefe de governo, pela autoridade e pelos poderes que tem, exerce sobre qualquer dos seus ministros.

 

Outra coisa que descobriram agora foi que é mais fácil encontrar pessoas com formação superior que sejam filhos de pessoas com formação superior, ou pessoas com formação e apetência políticas que sejam filhos de políticos, do que o seu contrário. Descobriram agora. Por causa da Mariana, note-se. Mas também se diga que descobriram de uma forma algo míope. Por acaso, há vários ministros no Governo, quase todos, se não 90%, que fogem a essa suposta norma, como Pedro Marques ou Pedro Nuno Santos ou ainda Mário Centeno, que, penso eu, nem fazia parte do círculo mais chegado de António Costa e é filho de um bancário e de uma funcionária dos CTT. Era socialista, porém, olha a chatice.

 

Por fim, um chefe de governo rodear-se de pessoas amigas e bem conhecidas não é de todo apanágio do actual executivo. Os amigos de Cavaco (desgraçados) lá estavam todos, para nossa vergonha e tragédia nalguns casos. Os de Passos idem. E que amigos: o Relvas, o Marco António. Adeus a todos, é o que tenho a dizer. Trezentas mil vezes os amigos do Costa e respectiva prole, não é? Quantos filhos tem mesmo o Vieira da Silva?

A teoria muito fresca de que devemos ser governados por pessoas que nada percebem de política, que estejam distantes dos círculos de poder e que venham da Póvoa de Varzim ou da Amareleja sem nunca terem militado em nenhum partido só porque sim é populismo puro, é uma ideia propositadamente falsa, e leva-nos a aberrações que apenas tornam o mundo mais perigoso.

 

O João Miguel Tavares é um caso perdido. Quem o ouviu falar no último Governo Sombra não pôde deixar de constatar, mais uma vez e ainda, o mal que lhe remói as entranhas, apesar de tudo o que lhe resta de são. Pessoas que conheceram, conviveram, cheiraram ou meramente estiveram perto de Sócrates (que, em política, são maioritariamente socialistas) despertam neste homem um ódio irracional. Nem que lhe fuja muitas vezes a boca para a objectividade e por isso se embrulhe em contradições – Tavares diz que gosta de António Costa, diz que o acha competente e diz que os seus ministros são competentes (vão ouvir o último programa, na Póvoa de Varzim) – o trauma “Sócrates” acaba sempre por vir ao de cima. Pelo que, a bem dizer, este homem faz de si mesmo palhaçada constante. Está, de facto, bem enquadrado num programa de humor como o Governo Sombra. Embora dê pena. Neste tema, nem os outros dois o acompanharam e o homem falou, falou e falou e desabafou, desabafou e nós… eh pá, coitado.

Encontrar um marido rico

Directamente do livro de leitura da terceira classe (o do Salazar) e, para uma experiência zombie máxima, aconselho a leitura integral do que a dra. Joana Bento Rodrigues tem para nos dizer no Observador. Eu penso, que, depois disto, até o Alberto Gonçalves é capaz de se pisgar do Observador.

[…]O potencial feminino refere-se a tudo o que, por norma, caracteriza a mulher. Gosta de se arranjar e de se sentir bonita. Gosta de ter a casa arrumada e bem decorada. Gosta de ver ordem à sua volta. Gosta de cuidar e receber e assume, amiúde, muitas das tarefas domésticas, com toda a sua alma, porque considera ser essa, também, a sua função.

O potencial matrimonial reside, precisamente, no amparo e na necessidade de segurança. A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte. Por outro lado, aprecia a ideia de “ter casado bem”, como se fosse este também um ponto de honra. […]

[…]A sabedoria popular bem o diz: “Não se pode ter tudo”! Não espanta, assim, que haja menos mulheres em cargos políticos e em posições de poder. A mulher escolhe-o naturalmente, ao dedicar menos tempo que o homem às causas partidárias e ao estudo da História e da actualidade, enquanto conhecimento necessário para defender e representar uma Nação.[…]

Brexit: nada encaixa, de facto

Fonte: The Economist

O que consta do acordo de divórcio RU/UE (não aprovado) é que continuarão a vigorar a quase totalidade das regras da livre circulação e da união aduaneira entre as duas Irlandas até que se estabeleça um acordo global e de comércio entre o Reino Unido e a União Europeia ou até que se encontre uma solução tecnológica que permita manter a fronteira invisível (solução de momento inexistente). É isto o chamado “backstop“.

Ora, acontece que isso equivale a colocar, nos entrementes, a fronteira entre o RU e a UE no mar da Irlanda, isto é, entre um território britânico e outro, singularizando a Irlanda do Norte em relação ao resto da Grã-Bretanha e potenciando ideias republicanas ou independentistas. Os negociadores de Theresa May sabiam disso e concordaram (recordo que May era contra o Brexit). No entanto, os deputados presentes no Parlamento britânico e alguns membros do governo, seguramente por terem andado distraídos, descobriram que não querem tal coisa. Se o regime transitório vigorar então para todo o Reino Unido, pior um pouco. Significa que sairiam e, na prática, não sairiam de União Europeia nenhuma e talvez nunca mais saíssem, dada a indefinição poder ter uma duração ilimitada. Para estes valentes, como Boris Johnson, Rees Mogg e outros, o Brexit significa abandonar o mercado comum e a união aduaneira, e tudo o que cheire a continente, de uma vez por todas, ir buscar novos parceiros ao resto do mundo e adeus canalizadores polacos. Alguém lhes lembrou, só depois, no meio dessa frescura e visão ampla do planeta, no fundo uma esquisitice, que, por muitas alterações que o aquecimento global esteja a provocar, a deslocação da ilha de Sua Majestade para milhas do continente ainda não é uma delas, pelo que ainda ali está mesmo ao lado um gigantesco mercado e, do outro lado, a frágil Irlanda do Norte.

Para agravar a situação, o governo de Theresa May só tem maioria no Parlamento com os votos dos dez deputados do DUP (Democratic Unionist Party), o partido unionista no poder na Irlanda do Norte e ultra-conservador. E, por último, para um apontamento verdadeiramente galhófico, o “remain” ganhou na Irlanda do Norte com 55,8% dos votos.

 

Esperava-se, com toda esta contestação ao acordo de Theresa May, que os revoltados pró-Brexit se apresentassem no Parlamento com uma proposta alternativa de acordo sobre a questão do “backstop”. Mas não. Não apresentaram, não apresentam, também não desejam substituir por um dos deles a primeira-ministra e principal responsável pelo acordo do qual discordam e também não querem eleições. May também não se demite. E assim estão. O antigo império a ser a chacota do mundo (e eles próprios a divertirem-se que nem uns javardos). Sem saída à vista, porém, mas com a data de saída a aproximar-se.

 

E agora? O que vão levar estas cabeças na segunda-feira a Bruxelas? Quererão os “brexiteers” abandonar algumas “linhas vermelhas”? Por exemplo, aceitar uma fronteira marítima transitória no mar da Irlanda até melhor solução? Será difícil, por razões óbvias. À Irlanda do Norte, com estatuto especial, seguir-se-ia a Escócia, e a independência da Escócia, e era o fim do Reino Unido. Então e se todo o Reino Unido aderisse a um regime do tipo norueguês ou do tipo canadiano em relação à União Europeia, apesar de isso significar que não abandonariam de facto o mercado comum, embora não lhe ditando já qualquer regra? Ah, isso seria um recuo demasiado grande nas suas posições e uma humilhação quase tão dramática como a de um novo referendo. Por esta mesma razão, a hipótese de um novo referendo será também rejeitada. Não vai acontecer.

E se alucinarmos um pouco e sugerirmos que organizem um referendo na Irlanda do Norte para saber se a população se quer separar do Reino Unido e manter-se na UE, dada a confusão, leviandade e incompetência reinantes? Como disse, alucino. Até porque, se o referendo acontecesse e a separação ganhasse, as bombas não tardariam a rebentar outra vez. Os unionistas costumam ser muito assanhados.

Perante tudo isto, será então mais lógica a saída sem qualquer acordo e a entrega dos capítulos seguintes a Zeus, não? Se calhar. A princípio, até parecerá não haver caos nenhum, estabelecer-se-iam acordos bilaterais ou pontuais sobre certas matérias, como a aviação, mas também outros eventualmente atentatórios do direito europeu, pelo que a bonança não iria durar muito e depressa surgiriam conflitos jurídicos, de concorrência, comerciais, aduaneiros, políticos, sociais e finalmente bélicos (ou de guerra fria, chantagista). Demasiado grave. Para quem acha que tudo o que se passou foram manobras dos russos para destruir a União, então sim, o divórcio sem acordo tem potencial para desestabilizar todo o bloco europeu. Força nisso. Força nisso??

Assim sendo, seus idiotas, proponham mas é um adiamento da saída, ponham fim ao recreio e voltem à sala de aula (com orelhas de burro), ou à biblioteca, à catedral, onde quiserem. Mas pensem. Depois digam como é. Só que, activado que está o artigo 50, não há cá eleições para o Parlamento Europeu, não é Farage?

O comissário e o trabalho doméstico

Fui ver o Governo Sombra de sexta-feira passada. Agora que o Tavares passou a notável, há que ouvir o que diz (engasgada ainda). Sobre o caso da alegada violência policial no bairro Jamaica, que ocupou grande parte do programa e até pôs o Ricardo Araújo Pereira a assumir uma pose seriíssima por longos segundos enquanto defendia a posição do PCP – respeito pelos camaradas – (possivelmente para provar ao Alberto Gonçalves que é mesmo de esquerda, e isto é cómico), dizia eu, o Tavares mostrou-se altamente defensor dos indignados habitantes do bairro. Tão altamente defensor que eu dei por mim a perguntar-me se, fossem estes os tempos do governo de Passos, este homem assumiria assim a defesa dos oprimidos sem exigir saber o que espoletara a desordem local. Muito provavelmente acusaria os habitantes do bairro em geral e os mais inflamados em particular, e ainda a rapariga que filmava, de não quererem sair da sua zona de conforto (no caso da rapariga, a janela). Mas enfim, estamos a falar do que, segundo o Presidente, há em Portalegre e nas televisões em geral: a culpa pode sempre ser do PS, nomeadamente por não controlar os polícias ou pela desertificação do país. Fica a sugestão aqui e ficou a pairar ali.

Ora, mais adiante, o nosso comissário referiu como exemplo de que o elevador social não está a funcionar para os afro-descendentes em Portugal o facto de, no prédio dele nas avenidas novas, as senhoras empregadas domésticas serem todas negras e incluírem mulheres jovens. Ou seja, para ele, 1) a profissão de trabalhadora doméstica é para negras e é aviltante (e aí atenção que ele próprio tem, pelos vistos, uma empregada dessas; por acaso já tive uma ucraniana com curso de contabilista e não moro longe das avenidas novas) e 2) se há mulheres jovens e afro-descendentes a exercerem essa profissão é porque o Estado, o sistema, o que quiserem, mas seguramente os governos PS, não lhes proporcionaram condições para exercerem profissões mais dignas. E nesses bairros então, querem lá saber. Pelo que, sim, há racismo. (?) Mas não na avenida da Liberdade, vá lá.

 

Bom, tirando o poder local da equação, o qual não foi sequer mencionado  (o Seixal é governado pelo PCP/CDU), quanto a isto tenho a dizer o seguinte: não só o trabalho doméstico é uma profissão tão digna e importante como qualquer outra (por vezes mais, como sabe quem tem filhos), como também, ainda mais crucial, é capaz de se ganhar mais do que em muitas outras profissões e com menos impostos. Dou um exemplo ilustrativo muito próximo. Quando vivia em Bruxelas, tinha uma empregada doméstica portuguesa, oriunda da região de Amarante. O filho rapidamente foi trabalhar para as obras como o pai. Porque os dois assim quiseram, dado o desinteresse do rapaz pelos estudos. A filha estava a tirar um curso de educadora de infância e, antes de o concluir, resolveu desistir e ir trabalhar para as casas como a mãe. Espantei-me, mas o espanto não durou muito. Pareceu-me bem claro que a rapariga fez contas e concluiu que ficaria bem melhor financeiramente e não teria de sujeitar-se a concursos nem ao risco de ir parar a algum infantário distante. Portanto, há razões de ordem vária, que não necessariamente a falta de empenho estatal, ou a falta de formação, para que as filhas de afro-descendentes, tal como as filhas de “arianas” puras, trabalhem no serviço doméstico.

 

Em conclusão: nota negativa ao comissário no que respeita à apreciação do trabalho doméstico e ao seu desempenho enquanto (provável) patrão. Somítico. Explorador.

O único portalegrense notável (ai, que me engasguei)

Não sei se o Presidente da República achou piada a transmitir a ideia de que o interior do país está mesmo desertificado. Mas só pode ser isso e, se for isso, é de um mau gosto inédito. Para Marcelo, não há então ninguém em Portalegre (um dos locais das comemorações do dia de Portugal, para além das cidades da Praia e do Mindelo, em Cabo Verde) nem ninguém de Portalegre que se distinga intelectualmente – ou por qualquer outra qualidade ou feito notável – para presidir às comemorações a não ser o… João Miguel Tavares? Esse. Essa irrelevância. Esse superficial. Esse dependente e viciado em Sócrates, cuja fama se deve à falta de um fusível. O caluniador do Público e direitolas monotemático do Governo Sombra vai mesmo presidir às comemorações do dia de Portugal este ano? Marcelo pirou. Pirou como presidente. Já como apresentador de algum programa da manhã talvez não.

 

Mas que argolada. Olhando para a lista de anteriores comissários (entre os quais Alçada Batista, João Bénard da Costa, Sampaio da Nóvoa, Elvira Fortunato, Sobrinho Simões, para só mencionar alguns), esta nomeação é mais do que uma vergonha e um desrespeito. É a bandalheira institucionalizada. E os portalegrenses deviam sentir-se vexados.

Sobre a liberdade (polémica) de a dra. Vilaça exercer mal a profissão

Anteontem houve mais um espectáculo a vários títulos degradante na TVI, desta feita em horário nocturno. Já entrei a meio. Percebi que a jornalista Ana Leal passara uma reportagem em que homossexuais iam a consultas (talvez tenha sido isso) a psicólogos católicos que não rejeitavam a “cura” nestes casos e que as imagens e gravações das consultas e terapias tinham sido obtidas por métodos dissimulados, como câmaras e microfones escondidos. Vi a grande indignação da principal convidada, a psicóloga Maria José Vilaça, apelidada de membro de uma seita secreta, e também do psicólogo que se sentava a seu lado. Depois de argumentações e contra-argumentações acaloradas sobre o que verdadeiramente se disse ou quis dizer e o que a reportagem fez e mostrou, sem surpresa de maior, os dois “réus” da Ana Leal levantaram-se, um primeiro e a outra pouco tempo depois, e foram-se embora. A partir daí (e não foi muito mais), passei para o modo “visualização intermitente”. Mas que história. Fiquei, assim, por culpa minha, sem perceber se os pacientes procuravam mesmo curar-se ou se iam simplesmente pedir ajuda para os seus conflitos internos e saíam de lá sem alternativa que não fosse um aconselhamento espiritual com vista a uma cura, com toda a carga emocional excedentária que isso impõe precisamente à parte mais frágil (mas algo burra, diga-se).

 

Ora, sobre o que vi, que foi particularmente mau, tenho a tecer as seguintes considerações: a Ana Leal, e digo-o com base em reportagens anteriores, em que meteu a pata na poça em grande, está longe de ser uma autoridade mundial em matéria de investigações jornalísticas e de apresentação dos seus resultados. Agressiva, julgadora, má intérprete de dados, inquisitorial. O facto de a sua expressão facial ser por vezes assustadora não me convence do seu rigor nem da sua probidade. Instalar câmaras escondidas em consultórios médicos e transmitir as imagens é uma tangente, com riscos de ser uma enorme secante, à ilegalidade. Nisso os dois indignados tiveram razão. Posto isto, que já é mais do que suficiente para desatinos e broncas em directo, pareceu-me óbvio que a dita psicóloga católica estava a negar demasiados factos da sua prática clínica para o meu gosto e, ao contrário do que seria de esperar, não estava a defender as suas convicções de que a homossexualidade é um problema (não exijo que diga doença) passível de reversão (não exijo que diga “cura”). E devia tê-lo feito, se é isso que pensa, a bem do debate (e talvez do seu próprio esclarecimento).

Apesar disso, ao contrário de muitas opiniões excitadas que leio por aí, não acho que se deva mandar calar a senhora e retirar-lhe a carteira profissional só porque tem ideias indemonstráveis e erradas. É que isso levar-nos-ia muito longe. Quantos médicos já consultei na vida que não perceberam nada do que eu tinha? Nada. Zero. E me indicaram terapias disparatadas? Estaria feita e já nem estaria aqui, se fizesse o que disseram. Bom, mas se ela tem pontos de vista contrários àquilo que a ciência vem apurando sobre a homossexualidade e ao que a observação empírica nos diz, o mínimo era que os defendesse, caramba. Lamentavelmente, não foi isso que fez. Ou porque teve medo que a Ana Leal a comesse (é uma hipótese) ou porque não saberia o que dizer, dada a sua orientação clínica ser ditada pela fé e pelas orientações da igreja católica e pelo preconceito, ou ainda porque o seu colega resolveu abandonar a sala e a deixou sozinha. Seja como for, optou desde o início por negar afirmações que proferira e que muitos ouviram. Duplamente mal: pelo que na prática faz e por não o saber defender.

 

Mas, dir-me-ão os leitores em abono da jornalista, os ataques (e o programa, vá) não tinham razão de ser? Afinal Maria José fala publicamente, exerce a profissão, etc., e o que ela pensa da homossexualidade acaba por causar grande dor aos que a procuram em busca de equilíbrio. Sim, é verdade. De facto, ela exerce a profissão e mal, com muito pouco espírito científico, substituindo a consulta médica por um aconselhamento espiritual segundo os preceitos de um dado credo religioso. Mas também só é verdade se partirmos do princípio de que quem a procura é imbecil, confia cegamente nos profissionais de saúde, em todos e em qualquer um deles, sente dever de obediência a qualquer um e, enfim, neste caso da homossexualidade, vive completamente alheado deste mundo. Mundo este em que ser homossexual é comum – quantos políticos, artistas, apresentadores, jornalistas, tantas pessoas famosas e não famosas, amigos, conhecidos, têm contribuído para quebrar tabus e desdramatizar a situação?

Está bem, não chega. Eu compreendo que muita gente precise de ajuda e que lhe servem de fraco consolo os outros casos de afirmação. Só que eu sou fortemente contra a estupidez. Se vais consultar uma psicóloga e sabes que ela é católica e pauta a sua prática clínica pelas orientações da ICAR, já deves saber ao que vais, ou ficar a saber onde foste, não?  Tens centenas de outras hipóteses. Além disso, não é de excluir que existam pessoas como a psicóloga Vilaça e os seus clientes que queiram alinhar pelas suas “terapias” bizarras. A questão é esta: proíbe-se?

 

Quanto à seita e aos seus membros, a Ordem dos Psicólogos pode e deve ter uma conversa séria com a senhora Vilaça, mas o pior é fazer deles vítimas… de más práticas jornalísticas.

Mal podemos esperar por “políticos com ideias inspiradoras” no PSD

 

E aí vem mais um com vontade de mentir. Não bastou o Passos e a sua campanha eleitoral totalmente feita de enganos em 2011, agora insinua-se o Montenegro, um dos seus fervorosos apoiantes e réplica menos sinistra do outro, para correr com o Rui Rio da liderança e, diz ele, recuperar os apoios perdidos do PSD.

 

Acho bem. O Rui Rio tem revelado, de facto, que entre um governo local e uma liderança nacional vai um passo de gigante. Que a frontalidade e honestidade sobre certas matérias não são qualidades universalmente apreciadas no partido. Não percebeu, por exemplo, que a bandeira da reforma da Justiça e do Ministério Público, de resto justíssima, implicaria mexer com uma das armas mais poderosas (e asquerosas) de grande parte do PSD, a ligada ao governo anterior, na luta política contra o PS. Que ser social-democrata deixou de ser importante para boa parte do PSD após Passos Coelho. Que o partido iria, como se vê, ficar mesmo partido, entre outras razões, por pressão dos tempos modernos e das tendências instagramáticas e tuíticas – pois está totalmente na moda que os medíocres e os charlatães cheguem ao poder pela via democrática e digam as maiores enormidades e falsidades nos palanques, antes e depois da chegada ao poder.  Para bem da população? Aqui é que bate o ponto: não. Mas são os tempos. Na falta de capital de queixa para nazis adormecidos, em Portugal, restam-nos os aldrabões. Azar que, desta vez, sem crise financeira internacional, nada possam fazer com as contas.

 

Mas, Montenegro?

 

É que eu penso que já tivemos, e este já acolitou de muito perto, o nosso último charlatão, assim como boçalidade que chegasse. O Montenegro debita talvez mais palavreado por minuto do que o Passos, mas é menino talqualzinho capaz de prometer tudo aos professores, enfermeiros, juízes, polícias, bombeiros, estivadores e todos os alegadamente descontentes para, caso conquiste o PSD, concorrer a primeiro-ministro. É igual, apenas menos fúnebre. O que terá para dizer para além de promessas demagógicas e avaliações deturpadas? Talvez pegue nos ciganos? Ou no Marcelo, que tanto mal lhes faz. Mal posso esperar. Para bem do PSD, preferia o Pedro Duarte* .


*Correcção:  eu não queria dizer Duarte Marques, obviamente

 

A Europa das nações – um muro em volta e estamos salvos

Quem diria que o desafio sério, interno, à “Europa” chegaria em força, não com as bandeiras da extrema-esquerda (sempre risonhas, mas utópicas, datadas ou descredibilizadas), mas com as da extrema-direita (e tirem o “risonho” da equação). Ou seja, com ideias mais extremadas à direita do que as da tradicionalmente “direitista” Alemanha e a sua CDU, por tantos odiada durante a última crise, e com bastas razões. A perplexidade actualmente é que os dois movimentos anti-Europa se aproximam, somando contestação à contestação, e portanto números e alarido, mas também criando maior confusão e indefinição, por, teoricamente, deverem ter motivos diferenciados.

Na prática, menos intromissão de “Bruxelas” (como se “Bruxelas” não fosse o Conselho dos chefes de Estado e de Governo eleitos dos diferentes países), menos controlo político e judicial, menos tratados orçamentais, menos controlo financeiro ou mesmo fim do euro, da União Europeia, mais independência são as reivindicações gritadas por uns e por outros! Ambos dizem “não querer esta Europa”. Por cá, sei que o PC não quer Europa nenhuma e nunca percebi se a Marisa Matias quer mais Europa ou menos Europa e, em Espanha,  não sei se o Vox quer mais ou quer menos ou ainda não pensou nisso. Tal como em França, as redes sociais materializadas em coletes amarelos não querem nada do que existe, querem tudo e o seu contrário, que é o mesmo que dizer que não sabem o que querem. Ou antes, há quem saiba: a Marine le Pen, por exemplo, quer chegar ao poder. E a Rússia acha que é uma óptima ideia.

A União tem vantagens de peso face ao histórico de conflitos no continente. Toda a gente que passou por uma escola sabe disso. As fronteiras, no mundo actual de enorme mobilidade e facilidade de transporte, são um anacronismo. Mas o novo dado da “islamização” da Europa devido à forte imigração muçulmana (a que já está instalada e a que pretende vir) veio suscitar um compreensível repúdio pelas políticas de abertura total e, queiramos ou não, tem sido um bom fantasma para se agitar a par do nacionalismo. No entanto, vemos nas televisões que a maior parte dos incendiários de automóveis e partidores de montras em Paris são jovens muçulmanos filhos dessa mesma imigração que buscava uma vida pacífica e melhor. Por fim, a crise recente e as consequentes austeridades ainda fazem sentir os seus efeitos nas classes média e média baixa em alguns países europeus. A juntar à confusão, penso que a Alemanha, tanto a mais como a menos extremista, quer ainda coisas muito distintas de todos os outros países em matéria europeia, dada a sua posição dominante. E depois há o euro, que tem que obedecer a regras. O euro, que nenhum país, nenhum povo, tem coragem de abandonar de tão prático e simbólico que é.

 

Mas sobre os dirigentes nacionalistas, que cavalgaram a crise migratória, leio (aqui) que Matteo Salvini, o populista/nacionalista líder da Liga do Norte italiana, agora vice-primeiro-ministro de Itália e ministro do Interior, se vai encontrar com o líder do partido do governo polaco para se aliarem e concertarem forças no ataque às instituições europeias já nas próximas eleições para o Parlamento Europeu. Ambos se dizem eurocépticos, mas, ao contrário dos “snobs” britânicos, não querem sair da UE (compreende-se: questão de fluxos de fundos). O que querem, aparentemente, é conquistar uma grande maioria no Parlamento Europeu e certos lugares-chave na Comissão para, alegadamente, alterarem as políticas actuais, consideradas demasiado impositivas. Salvini, o populista, tem até vontade de presidir à Comissão Europeia, para, presumo eu, ficar a cumprir as instruções de um bando de nações que se odiarão mutuamente e cortar com o que há de comum e mais conseguido actualmente, incluindo o ambiente e a livre circulação (já a agricultura, aguardo notícias do nacionalismo nesse ramo). Seria um “concerto de nações” lindo de se ver.

O polaco não gosta que a Europa o obrigue a respeitar o tratado de adesão que assinaram, que contém regras sobre o Estado de Direito, a democracia e outras, descaradamente violadas pelo seu governo, cada vez mais ditatorial e que está até a ser investigado por essas violações. Mas não existe euro na Polónia. Nem portos de entrada de migrantes. Pelo que o problema não é exactamente o mesmo que o da Itália. Existe um exemplar parecido na Hungria, surgem outros noutros países, mas desconheço se querem constituir um trio, um quarteto ou um quinteto de eurocépticos. Como as coisas estão, talvez nem haja necessidade de alianças. O italiano quer liberdade monetária e financeira, esquecendo-se que a sua moeda é o euro e que é o euro que a população quer e, não sabendo que volta dar ao país para o tirar da estagnação, se é que isso verdadeiramente o interessa, como populista que é, acusa as instituições europeias de serem a causa do fracasso nacional e quer ir para Bruxelas governar a Itália. Estamos mesmo a ver. O que o homem sabe é que não quer migrantes, e bem martelou essa tecla até conquistar o poder. Mas não querer migrantes não chega para definir melhores políticas monetárias e económicas a nível europeu que beneficiem o seu país.

 

Também há Putin, o potencial dinamitador da União, de quem Salvini gosta e de quem Kaczynski e os polacos em geral nem querem ouvir falar. Um ponto de discórdia, portanto.

 

Em suma, os cenários que se perspectivam não são risonhos para o projecto europeu. Irão os chamados “eurocépticos” conseguir dominar o Parlamento e as restantes instituições? Que raio de Europa teremos nesse caso e, se tal não vier a acontecer, que acontecerá se a própria direita europeísta, que tem dominado em França, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, enfim, nos países fundadores, e também no PE, sair fragilizada do processo de estraçalhamento democrático em curso e se dessa fragilização não resultar um reforço da social-democracia europeísta?

 

Não sabemos. Será difícil voltar atrás na Europa sem um sério conflito. Será isso que gente como o Salvini ou a Le Pen procura, ou fechar as fronteiras e admitir regimes ditatoriais no espaço europeu fará toda a gente feliz e europeia?

“Retro-imperialistas” e o divertido mas lamentável panorama britânico

Acabo de ler o termo num artigo no The Guardian, assinado por Martin Kettle.  Ele critica o “fanatismo sinergético da direita retro-imperialista dos conservadores britânicos e do DUP“, ou seja, os conservadores fanáticos da saída do Reino Unido da União Europeia, fixados numa miragem da antiga glória do país.

É anedótico mas penoso – ao mesmo tempo – observar a política britânica por estes dias. Theresa May adia a votação do acordo de saída da UE por ter a certeza de que seria chumbado nos Comuns e, ao mesmo tempo, a oposição trabalhista não quer apresentar uma moção de censura por ter a certeza de que seria igualmente chumbada. E os deputados conservadores, que tanto criticam May, também nada fazem a não ser divertir-se com as andanças da primeira-ministra. Pelo menos até à hora a que escrevo.

Por conseguinte, tenho pena e admiração – sim, as duas – pela Theresa May. Ninguém quer o acordo negociado pelo seu governo, nem mesmo alguns ministros, mas ninguém quer, nem pode, ir para o lugar dela negociar outro, aliás impossível e desconhecido. E ela insiste. Ela, que até era contra o Brexit. Admito que possa parecer um bocado tonta, mas não consigo odiá-la. A pobre tem de continuar o “show” posto na estrada pelo seu predecessor no cargo, David Cameron, que consistiu em pôr os excitados conservadores a fingir, em campanha (mas ironicamente não ele, que era favorável à permanência), que um acordo de saída era facílimo de negociar e ultravantajoso, quando toda a gente devia saber que não era nem nunca seria se a ideia fosse “ficar com a manteiga e com o dinheiro da manteiga”, e a prova está à vista.

É claro que May pode sempre demitir-se. Simplesmente parece não haver ninguém que a queira substituir, pelo menos não sem antes verem que concessões consegue ela obter do”continente” nesta nova ronda. E o tempo está a passar, faltando apenas três meses para a ruptura com a Europa. Mas tudo pode mudar muito rapidamente. Correm boatos desde há pouco que os próprios conservadores vão apresentar uma moção de censura. Veremos para quê.

Uma coisa é certa: são tão palhaços personagens como Boris Johnson ou Rees-Mogg, que dizem querer partir a louça toda com uma saída “musculada”, mas não avançam nem ninguém sabe o que fariam de melhor nem o que representaria essa saída, como são palhaços Jeremy Corbyn e companhia, que lideram uma oposição por sua vez dividida, facto que os faz fazer figuras tristes pela indefinição e insegurança.

Enfim, eu penso que a saída será inevitável, de uma maneira ou de outra. Tenho mesmo dúvidas de que um novo referendo resulte numa preferência clara pela permanência. Possivelmente os 52-48 passariam a 50-50 e nada ficaria facilitado. Uma derrota do Brexit num segundo referendo seria uma humilhação total para os conservadores. Não o vão permitir. Vale-lhes, de momento, o facto de Jeremy Corbyn não ter muitas hipóteses de ganhar umas eleições. Pelo que o circo poderá continuar.

Xi Jinping e Portugal fazem pela vida

[…] Responding to critics, Portugal’s Prime Minister said his country did not see foreign investment as a source of anxiety. But with China systematically targeting smaller and poorer EU member states such as Greece and Portugal for its investment activities, and given Beijing’s ability to play a long-term strategic game leveraging economic clout into political power, we believe that the EU’s soon-to-be implemented legal framework for screening FDI on security grounds does not come a day too soon. That said, the EU would not need to be so concerned about Chinese investment if it were itself investing sufficiently in the capital-deprived periphery. 

 

 

A linguagem política tem o seu quê de fascinante. É preciso dominá-la, sobretudo quando se fala indirectamente para outros parceiros. António Costa dizer que o investimento estrangeiro não é fonte de ansiedade para o país quer exactamente dizer que é fonte de alguma ansiedade e tem selo para alguns países europeus, facto que este analista resume no final do artigo.: “Vocês não investem, pá! O que é que querem?”

A “Europa” diz que quer fiscalizar o investimento directo estrangeiro nos Estados-Membros. Fiscalizar o capital dos outros, mas não fazer nada com os capitais próprios. Isso é repressão. Será inveja?

 

Mas, a este propósito, imaginemos que os alemães decidiam investir no porto de Sines como os chineses pretendem. Estamos já a ver os comunistas e bloquistas a chamar a Portugal uma colónia dos alemães. Ainda gostava que os moralistas do costume dissessem afinal quem pode investir aqui. Querem ver que é o Putin?

E pachorra para radicais civilizados?

Deve ter sido das poucas vezes, ontem, que concordei com tudo o que disse a Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal. É certo que os temas principais em discussão não eram “de força maior” nem determinantes para o nosso destino como país – tratava-se das touradas e da não redução do IVA para esses espectáculos e ainda das brigadas do IRA nacional – sinal de que tudo corre tranquilo na política, mas, mesmo assim ou talvez por isso, deu bem para ver as posturas de fundo de alguns membros do quarteto. Começo por dizer que o meu total acordo com a Clara se deve ao facto de, tal como eu, ela admitir e reconhecer que as perspectivas das pessoas sobre hábitos, práticas e tradições humanas se podem (possivelmente devem) alterar ao longo da vida. Que aquilo que, na infância, faz como que parte da nossa paisagem, pode ter muito pouco de bucólico perante outros dados. Que as perspectivas podem “evoluir” num sentido crítico à medida que pensamos nessas práticas e tradições, que observamos as mudanças na relação do homem com a natureza da qual depende ou à medida que nos informamos, por exemplo, neste caso, sobre o mundo animal. É evidente que os animais, apesar de por cá andarem exactamente pelas mesmas razões que nós, não são seres humanos, mas isso não equivale a dizer que não sofrem e que seja admissível que se façam sofrer sem qualquer outro fim que não seja o espectáculo. Dito isto, que é forçosamente muito pouco e resumido, as touradas têm um lado de desafio e combate entre homens e bestas que pode fazer esquecer tudo o resto. Os forcados são uns bravos (e os surfistas? E os astronautas?), embora já com o touro debilitado, e os toureiros mais bravos são ao enfrentarem a besta. Só que a besta hoje em dia é criada para o espectáculo e serve para pouco mais. No entanto, a festa tauromáquica lembra e como que reproduz valentias antigas e tal pode ser romântico e poético. Por outro lado, em Portugal os toureiros têm o êxito na arena praticamente assegurado – quer porque estão a cavalo, quer porque podem facilmente fugir se a coisa se complica. Há, portanto, contradições na apreciação deste tipo de espectáculo que levam a que se não possa dizer facilmente que se vai acabar com as touradas por o sofrimento do animal não dever provocar gáudio. Não é só isso que acontece numa arena, mas a extinção acabará por acontecer, penso eu. Por isso, não me parece escandaloso que este tipo de ritual, pelos vistos muito procurado, não beneficie de um IVA reduzido. Trata-se de um marcar de posição do Governo. Não sendo radical, nem podendo ser pelos motivos supra, abre, no entanto, a discussão, o que pode ser positivo.

Passando ao que aqui me traz, o Daniel Oliveira, que não deixa de ser um radical, tinha que vir com o extremismo de exigir que o Governo “tenha a coragem” de acabar com as touradas. Ou, como ele diz, que “seja claro”. Ora, eu penso que o Governo está a ser claro – as touradas, tal como as conhecemos, pelo menos, hão de acabar um dia de vez, como já acabaram em muitos concelhos deste país e em muitas regiões da Europa. Só que ainda não chegou o momento. E, já que têm audiência, não precisam certamente de um incentivo fiscal para existirem. Muito menos deve ser um governo que tem uma perspectiva mais “pró-animal” desse espectáculo a incentivá-lo. Mas sim, no partido socialista e entre os seus apoiantes, assim como na sociedade portuguesa em geral, há muitas pessoas que apreciam a vertente “heroicidade” das touradas e o seu simbolismo em relação a outros tempos, a memória desses tempos em que a nossa sobrevivência dependia de actos de bravura física extrema contra as “forças da natureza”. Não é pecado. Compreende-se, respeita-se. Vê-se nisso uma certa beleza, mas não faz mal lançar a discussão. Faz até muito bem. O Daniel queria uma medida política extrema, que, já que refere o Bloco e a sua “clareza” (fácil enquanto se mantiverem à margem das responsabilidades à séria), o Bloco jamais tomaria se governasse. Mas o Daniel é “civilizado” em matéria de animais. Acho bem. Não sei é se um radical pode ser considerado muito civilizado em geral.

Quanto ao Pedro Marques Lopes, ultimamente anda a dizer asneiras demais. A defesa intransigente de Rui Rio, José Silvano e Emília Cerqueira – cujo alegado desconhecimento do sistema de marcação de presenças na Assembleia é anedótico – roça o delírio e faz pensar em amiguismo. Nesta matéria das touradas, fez claramente pouco esforço para pensar. Mas “fiat lux” de um dia para o outro só mesmo na Bíblia, não é?