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Mas o que nos interessa a vidinha do juiz Carlos Alexandre?

Já lá vão duas – duas – reportagens sobre o juiz de Mação. Uma com óculos, outra sem óculos. A próxima virá de monóculo? Enquanto vejo, na RTP, e dado o desinteresse da temática, que mais uma vez insiste nos testemunhos da “rectidão moral” e religiosidade do senhor e me provoca bocejos após a incredulidade, só posso concluir que o juiz queria era dizer mal do sorteio que atribuiu a instrução do processo Marquês ao seu colega Ivo Rosa e esta reportagem serviu para pouco mais do que isso. Terá sido ele a pedir a entrevista?

Mas outras perguntas têm que ser feitas a propósito desta andorinha: por que razão não impugnou logo de imediato o sorteio e optou por denunciá-lo mais de um mês depois, com enquadramento televisivo sobre as suas qualidades morais? Porque não esteve sequer presente? Este juiz é esquisito. Não é discreto, auotoelogia-se com prazer, gosta de mediatismo e não se inibe de mentir para as câmaras (a história das razões pessoais para a sua ausência; pensa que goza). Com justiceiros destes, como não torcer pelos criminosos? São, obviamente, muito mais inteligentes. E elegantes.

Com os olhos em João Galamba

Aturar e demolir o Mesquita Nunes ou o Leitão Amaro nos “Frentes a frente” da SIC Notícias ou ripostar contra a argumentação javarda e incongruente da direita no Parlamento têm sido as especialidades políticas de João Galamba, o agora ex-deputado do PS nomeado secretário de Estado da Energia.  Especialidades exercidas com grande eficácia, diga-se, exceptuando uma ou outra precipitação. Galamba tem um discurso claro e bem fundamentado e é combativo, além de perceber de economia e finanças e de se preparar bem para os confrontos. Não sei se é mais à esquerda ou mais à direita no PS. Que é mais novo do que os outros, é. Mas, se for mais à esquerda, está mais do que bem posicionado no novo cargo para enfrentar o poderoso lóbi das empresas energéticas, ou não está?. Qual a crítica, então? A direita, sobretudo o PSD e o Correio da Manhã, já começou a campanha de tiro ao boneco. Ou porque não tem habilitações (??) para a área (Seguro Sanches tinha?), ou porque é demasiado à esquerda (e isso será mau quando se trata das energéticas?), ou ainda a derradeira e rainha das razões: a de que Galamba foi lançado na política por Sócrates. Mas também pode ser que seja o discreto piercing na orelha? Possivelmente é tão-só este o irritante. Não vão ter sorte. João Galamba já deve estar mergulhado nos dossiês que o esperam, pronto e preparado para o combate e para fazer um brilharete. Os bloquistas estarão de olhos atentos e gulosos nele, pensando num futuro governo, agora que já têm mais a noção do que se trata.

Eu contribuo imenso para a crise da imprensa diária

Regra única para ler jornais hoje em dia:

Olhar para as capas, ver se há alguma novidade; se sim, dizer “Está bem, abelhas” e, antes de seguir viagem, verificar se, por milagre, alguma notícia de há três dias reapareceu. Nesse caso, esperar mais outros três. Considerar o jornal lido

 

Ao contrário da instantaneidade das redes sociais e da rapidez de reacção e superficialidade que as caracteriza, os jornais (e revistas) deviam esperar entre três dias a uma semana, ou mais, até noticiarem um facto de que tenham tido conhecimento. Menos do que isso, é passaporte para a asneira e consequente perda de credibilidade. É  “infotainment”, com ênfase no “…tainment”. Começa a ser demais e já perdi a paciência. Sai uma notícia. Passados uns dias, afinal não é bem assim. Outras vezes, nem um pingo de verdade havia no que foi noticiado inicialmente. Pura e simplesmente falso. Muitas vezes, falou-se uma vez, não se falou mais. Fogo fátuo. Abafamento ou missão cumprida. Por isso, deixei de comprar e de assinar jornais. Excepção feita à “The Economist“, sempre rigorosa, bem escrita e informativa, mesmo que se não concorde com o que é dito, e a uns dois ou três jornais ingleses. Em Portugal (e não só), a cada novidade, acreditar é estupidez. Escrever sobre isso, é precipitado. É preciso que a notícia sofra o teste de resistência ao tempo, para lhe começar a dar alguma atenção e considerar que está ali alguma coisa séria e importante que convém aprofundar. Mas, a maior parte das vezes, grandes bombas são pólvora seca. Que ninguém deixa de mandar, no entanto. É um foguetório permanente de coisa nenhuma ou então de encomendas ou de armadilhas políticas. Para alguns jornais, as fontes são um “Mente-me, que eu quero”. Ganhei juízo e não pago mais para isso.

Quando se quer um ditador

Na segunda-feira almocei num restaurante à beira-rio, onde fui servida por um rapaz brasileiro a quem perguntámos pela situação no Brasil e o que achava de Bolsonaro. A resposta foi que não votou (já não sei porquê), mas que votaria tranquilamente em Bolsonaro. E então porquê? – quisemos saber. Devo dizer, antes da resposta dele, que o rapaz não tinha ar nem de gorila, nem de ignorante, nem de agressivo nem de nada disso. Era o rapaz mais cordial, bem disposto e bem parecido que se pode imaginar em figura de “garçon” mais ou menos atento ao linguajar das televisões. Estava em Portugal há cinco meses e de bem com a vida. Vinha do Paraná. Mas sim, adivinharam, votaria Bolsonaro. A razão, disse ele, era a violência que existe no Brasil e a necessidade de pôr os criminosos na ordem, ou seja, na prisão ou no cemitério. Além, claro está, das razões anti-PT, ao qual associou, graças à campanha Lava Jato, digo eu, toda a corrupção política existente no país nos últimos 30 anos. O PT tem estigma. A avaliar pelas suas palavras, pouco interessa o que Bolsonaro diz ou não diz, ou até se diz alguma coisa, se balbucia apenas ou se desaparece até ao dia da votação final sem dizer palavra. O rapaz não fazia a mínima ideia de quais os restantes programas de Bolsonaro para além da repressão. O que lhe interessa, a ele e a largos milhões de brasileiros, é que está ali um que é militar e que diz que vai pôr tudo na ordem. Mais nada.

 

E eu fiquei a pensar, ou melhor, fiquei pensando que um Pinochet é mesmo o que o povo brasileiro deseja. Acontece que o Bolsonaro está, mesmo assim, alguns furos abaixo, em “status” e em coerência,  do Pinochet e o Brasil não é o Chile. Pelo que tudo é uma incógnita. Mas parece haver momentos na história em que os povos pedem um ditador (o Pinochet não foi pedido, eram outros tempos). Este fenómeno deve ter explicações interessantíssimas e provavelmente simples.

É certo que o candidato alternativo Haddad é pouco carismático e com um discurso pouco cativante e algo desastrado e essas características não ajudam. E está muito ligado ao Lula, essa fonte de todos os males, segundo propalou e decretou a Justiça. E que ninguém parece atribuir importância ao factor “30 partidos representados no Parlamento” como fonte de negociatas e compra de votos para evitar impasses. Nada disso pesa verdadeiramente. O povo quer mesmo é o chicote. E está convencido de que é para os outros.

Tancos – uma farsa em vários actos

O famoso Memorando que o director da PJ Militar, Luís Vieira, supostamente entregou, ou mostrou, ao ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes, general António Martins Pereira, e que fora assinado pelo major Vasco Brazão, líder da investigação, efectivamente nada diz sobre uma encenação ou um encobrimento. Zero. Isso mesmo se pode ler nesta notícia do DN, hoje publicada.

Tem razão o ex-chefe de gabinete do ministro e ainda mais o ministro.

 

O único memorando que foi encontrado pela investigação à encenação da devolução do material de Tancos estava no gabinete do diretor da PJ Militar, coronel Luís Vieira, e foi assinado pelo líder da investigação, Vasco Brazão, mas não faz qualquer referência ao conhecimento da tutela ou do ministro da Defesa. Esta carta pede agradecimentos e louvores aos militares da GNR e da polícia que integraram a investigação.[… ]

 

[…] Segundo a versão dada em tribunal, a conversa e a suposta entrega do memorando no Ministério da Defesa teriam acontecido numa altura em que os militares da PJM começaram a sentir o cerco da PJ. Segundo terá explicado Brazão, sentiram necessidade de justificar a “encenação” e conseguir apoio ao mais alto nível. Nesta estratégia terão integrado também jornalistas – há transcrições de escutas no processo – para passar a mensagem da PJM sobre o “achamento”.

O que disse Vasco Brazão e já foi “categoricamente” desmentido pelo ministro da Defesa – só poderá ser corroborado pelas duas testemunhas que ele afirma terem presenciado o sucedido: o chefe de gabinete de Azeredo Lopes, o general do Exército António Martins Pereira, ou o próprio ex-diretor da PJM, coronel Luís Vieira, cuja defesa, contactada pelo DN, também não quis fazer declarações. Isto porque nas buscas não foi apreendido nenhum memorando – tão-pouco no computador de Brazão.

 

Noto aqui um excesso de elogios e agradecimentos

 

O que terá levado Passos Coelho a agradecer tanto a Joana Marques Vidal e a lustrar-lhe o ego ao ponto de lhe chamar”humilde” e “lufada de ar fresco”, além de “íntegra”, “independente” e “suprapartidária”, num elogioso artigo publicado no Observador , depois de conhecida a sua substituta, onde só faltou chamar-lhe “querida”, “fofinha”, “adorada”, “muitos beijinhos”, “tudo de bom”, “obrigado”, tudo isto num fundo de “eles são maus, meu amor”?

 

Hmm…

 

Esta saída da toca não se fez, claro está, sem anedota. O bicho apresentou-se com a conhecida lata e fez questão de falar nos privilegiados que deixaram de o ser sob as ordens de Joana e apenas sob as ordens dela, deixando a ideia de que, até aí, era o fartar vilanagem, não especificando, porém sob a responsabilidade de quem, quando, como, etc. Não interessa. É o que dizem e o que ele diz. Interessa, sim, é que privilegiados, não mais. Graças à Joana.

 

Mas isto é anedota. Ele, por exemplo. Poderia ter visto o caso Tecnoforma e a utilização fraudulenta de milhões de fundos comunitários, confirmada pela Comissão Europeia, reaberto e não viu. Tudo arquivado. Nós que paguemos. Querem maior prova de fim dos privilégios e da “impunidade”? A senhora procuradora foi ou não foi implacável? Onde estão aqui os privilegiados?

 

“Poucos, até há alguns anos, acreditavam que realmente fosse possível garantir de facto, que não na letra da lei e nos discursos, uma ação penal que não distinguisse entre alguns privilegiados e os restantes portugueses. No termo deste seu mandato, são sem dúvida mais os que acreditam que se pode fazer a diferença e marcar um reduto de integridade e independência, onde as influências partidárias ou as movimentações discretas de pessoas privilegiadas na sociedade esbarram e não logram sucesso. “

Pessoas que sabem muito

 

Quem ler a crónica do Tavares, José, hoje no Público, tem direito a mais uma das suas despudoradas insinuações: desta feita a de que o Governo afastou o IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana) do processo de reconstrução das habitações ardidas em 2017 em Pedrógão e desconsiderou a lista de edifícios prioritários por ele elaborada, porque, no fundo, quis abrir a porta ao favorecimento das pessoas que queriam reabilitar segundas habitações como se fossem primeiras. Em resumo, é isto e é forte. Porém, altamente estúpido.

E quem consulta o Tavares para corroborar o seu ponto de vista e fundamentar o seu auto? Ora, Vítor Reis, o ex-presidente do IHRU, nomeado para esse cargo por Passos Coelho em 2012 e substituído em finais de 2017 pela arquitecta Alexandra Gesta (que liderara o processo de Guimarães a cidade Património Mundial da Humanidade). A nova presidente do IHRU (desde finais do ano passado), claro está, não foi interrogada. Chama-se a isto uma crónica bem apoiada e sobretudo isenta. Duplamente isenta – por o Tavares já ser bestialmente isento e por o dito Vítor Reis se apresentar em condições de ser o mais isento que há.

 

(ex-presidente)

Pelo caminho, o Tavares acusa Valdemar Alves, o actual presidente da câmara de Pedrógão, de fraude na atribuição dos fundos, baseando-se apenas numa reportagem da Ana Leal da TVI (a mesma dos objectos suspeitos encontrados e que eram a prova provada de crime concertado dos madeireiros no incêndio do pinhal de Leiria) e na abertura de uma investigação ainda sem dados nem arguidos e sem ainda sequer saber o que apurou a PJ das recentes buscas à câmara e à Casa da Cultura de Pedrógão.

Mais: o Tavares até é capaz de ter percebido, num dia de calmaria mental, que as pressões da presidência da República, por um lado, e da oportunista e estouvada oposição de direita, por outro, para acelerar todo o processo, acelerar, acelerar e continuar a acelerar a todo o custo (até à hipotética fraude, diria eu, para depois virem com este número) podem ter levado o Governo a optar por processos mais directos que dispensam certas burocracias que o IHRU implicava (algumas razões dá-as o próprio Tavares: Escapar a um processo demasiado burocrático, ultrapassando o quadro legal em vigor. Apostar numa intervenção descentralizada e mais próxima da população. Aproveitar a maior flexibilidade do fundo Revita. ). Talvez tenha percebido isto e muito mais, mas o que lhe interessa perceber? Perceber é um “minuto do bem” que não cabe na sua missão ou caderno de encargos. O lançamento de lama sobre tudo o que é socialista, que governe, tenha governado ou possa governar, é a prioridade, como sempre, e foi com esse intuito que decidiu preencher 4/3 do espaço que lhe reservam no jornal a insinuar coisas.

Para quando a transferência deste rancoroso para o Observador? É que só se estragava uma casa. Não é que o Público esteja muito bem entregue e que a presença deste caluniador profissional destoe, pois a Ana Sá Lopes emparelha bem com o género execrável do Manuel Carvalho, mas o Observador é o coito da moda para os verrinosos da direita e asilo para muitos pacientes com a patologia do Tavares do Governo Sombra.

Comportamento exemplar de Joana Marques Vidal seria reafirmar o que já disse

Em Março de 2016, em Cuba, a actual Procuradora-Geral da República declarou ser o mandato de PGR único. De facto, a duração prevista pela Constituição é de seis anos, duração mais longa do que o habitual em cargos institucionais para evitar mudanças demasiado precoces ou permanências demasiado prolongadas e permitir a necessária rotação. A ministra da Justiça, tendo ouvido essas declarações, corroborou-as uns tempos depois, sujeitando-se a uma chuva de críticas absolutamente estúpidas. As permanências excessivas nestes cargos são forçosamente fonte de instabilidade, são anti-dinâmicas, propícias a compadrios e prejudiciais à isenção. Além de contrárias ao espírito da Constituição. Dois mandatos significam doze anos. É muito ano. Porquê, então, esta febre e paixão joaninas que atacaram agora toda a direita portuguesa, ainda por cima quando o próprio sindicato do MP se mostra favorável ao mandato único (e olha quem)? Em todos os jornais, revistas, televisões e rádios, a recondução da PGR é claramente o osso que toda a direita abocanha por estes dias com desespero.

 

A quem deu caça esta mulher tão apreciada por toda a direita? A todos os corruptos? A todo o político que mexe, como gostam os populistas? Nem por isso. Mediatizou a “caça”, isso sim. Tabloidizou a justiça, isso é seguro. Reinstituiu o pelourinho, é a verdade. Será disso que eles gostam? O certo é que, apesar do alarido, não há conhecimento de condenações a penas de prisão em nenhuma das grandes operações lançadas no seu mandato. Nem na Operação Fizz, uma vergonha que envolvia um ex-procurador. Aliás, ainda resta saber, apesar do show das detenções, se há ou não corruptos no principal processo – o Marquês – instaurado da maneira que sabemos no mandato de Joana.

 

Os factos são que esta procuradora-geral foi a que não só não controlou as fugas de informação escandalosas na Operação Marquês com origem na sua instituição, como também falhou rotundamente na instauração de vários inquéritos internos às ditas fugas (consta que 111 – ver aqui) já que ninguém conhece deles o mínimo resultado e sobretudo a mínima consequência, nada disto lhe tirando um minuto sequer de sono, apesar do descrédito que sobre ela paira. Mais valia não instaurar inquérito nenhum. Foi ela que assistiu impávida (ou autorizou ou não proibiu ou não puniu) à transmissão pública dos interrogatórios aos arguidos, testemunhas e pessoas lateralmente envolvidas no referido processo, na prática comprazendo-se ou alheando-se de responsabilidades perante uma situação tão aviltante e repugnante e totalmente inédita. Além de ilegal. Foi ela que, em Novembro de 2017, ponderou reabrir o processo Tecnoforma (que envolvia Miguel Relvas e Passos Coelho) após a investigação da Comissão Europeia ter detectado fraudes graves (de milhões) na utilização de dinheiros comunitários, mas se esqueceu do assunto logo no dia seguinte e para todo o sempre. Foi ela que arquivou o processo a Dias Loureiro. Foi ela que liderou aquela ridícula operação de busca ao Ministério das Finanças, porque, crime terrível que implicava de imediato um assalto policial aos gabinetes, o ministro tinha ido assistir a um jogo do Benfica em lugar mais protegido e confortável do que o terceiro anel do estádio da Luz. Mais actuações extraordinariamente louváveis como estas todos por aqui conhecerão, mas não vou mais longe.

 

Para a direita toda, que anda por onde pode a exigir a recondução desta senhora como se isso fosse uma questão de vida ou de morte, revelando que a mana Marques Vidal é, de facto, o seu braço armado na Justiça contra os socialistas, o grande, enorme ponto de interesse do seu mandato foi, na realidade, a humilhação infligida ao odiado Sócrates (muito mais do que a de Ricardo Salgado) – desde a detenção, à prisão, aos interrogatórios, ao julgamento via Correio da Manhã e tudo o mais que fez as delícias dos sabujos que adoram o pelourinho para os seus adversários. Só por isso, todos os dias estas pessoas e o Marques Mendes erguem a Joana Marques Vidal uma estátua virtual de proporções gigantescas e elucidativas, perante a qual se ajoelham, por esse feito absolutamente “heroico” (as aspas devem-se à inexistência de qualquer dificuldade ou obstáculo à façanha) e nunca visto. Lembro que a direita viveu o seu  tempo áureo quando dispôs de um Presidente (Cavaco), um primeiro-ministro (Passos) e uma PGR – um trio deprimente – à frente dos principais órgãos do Estado totalmente consonantes com a sua estratégia e alvos. A reintrodução de julgamentos à maneira medieval fez-se com um estalar de dedos. Mas só alguns foram assim julgados, claro.

 

Voltando ao meu ponto: se Joana Marques Vidal quisesse provar de uma vez por todas a sua total independência (ganhando a minha admiração) e arrumar também de vez com os articulistas/propagandistas da direita que desejam às escâncaras politizar a Justiça e fazer luta política agarrando-se a ela (aqui para nós, à falta de melhor), enquanto escrevem nos jornais e debitam nas televisões, viria a público dizer simplesmente que procurou cumprir com dignidade as suas funções, que espera ter lançado as bases para isto e para aquilo, mas que reafirma que considera o seu mandato único, como aliás foram os de todos os seus antecessores, com excepção de Cunha Rodrigues (de 1984 a 2000; outros tempos e uma excepção em mais de 80 anos). Suspeito, porém, que não o fará. Suspeito que ficará calada enquanto a direita a transforma na sua mais importante ou única bandeira. Possivelmente o Tavares caluniador do Público já a fez inchar de tal maneira com a campanha que pôs em marcha a seu favor (dia sim, dia não) que a vaidade lhe subirá à cabeça e Joana acabará por decidir dar o dito por não dito, mandar o tal de mandato único às urtigas, manobrar pela sua própria recondução e entrar na luta política. Entrar ou continuar. Se Costa e Marcelo a deixarem, está bom de ver. Estou curiosa por saber o que cozinham. Atendendo a que Joana já disse o que pensava sobre o assunto, vejo muito a custo Costa e Marcelo a pedirem-lhe que fique.

Realismo, oportunismo ou transtorno da mioleira?

 

A líder parlamentar do partido alemão “Die Linke” decidiu criar um novo movimento que inverte os princípios tradicionais deste partido sobre os imigrantes e requerentes de asilo. Segundo se lê neste jornal francês, Sahra Wagenknecht proclama agora que a imigração deve ser controlada e limitada para se poder prover a outras necessidades prementes do país em relação aos mais pobres e reconhece que “o alojamento social não é ilimitado”. “É ingenuidade pensar que se pode abrir uma fronteira a toda a gente”, diz também, acrescentando que essa não é uma política de esquerda. Visa, assim, contrariar o avanço dos extremistas de direita do partido AfD, agora representados no Bundestag.

“Inspirée du succès de Podemos en Espagne, de la France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon ou de Syriza en Grèce, Aufstehen (Traduisez: «Debout!» ou «Réveil!») va tenter de mobiliser très à gauche, mais sur le thème de la politique migratoire qui bouleverse le paysage politique allemand depuis 2015. Âgée de 49 ans, née d’un père iranien et d’une mère allemande, la présidente du groupe parlementaire de la gauche radicale (Die Linke) veut «mettre la pression» sur les partis de gauche pour qu’ils engagent une «autre politique migratoire», dit-elle. Sahra Wagenknecht veut en finir avec la «bonne conscience de gauche sur la culture de l’accueil» et ces «responsables vivant loin des familles modestes qui se battent pour défendre leur part du gâteau».

Crainte pour les bas salaires

«Une frontière ouverte à tous, c’est naïf. Ce n’est surtout pas une politique de gauche», insiste-t-elle. Les milliards dépensés par le gouvernement pour accueillir les demandeurs d’asile en 2015 «auraient pu aider beaucoup plus de nécessiteux en Allemagne», dit-elle. «Plus de migrants économiques signifie plus de concurrence pour décrocher des jobs dans le secteur des bas salaires. Le nombre de logements sociaux n’est pas non plus illimité», estime-t-elle.”

Em Portugal, a imigração não tem sido um problema. Pelo contrário, temos falta de estrangeiros. Mas, inseridos na Europa, interessa-nos, por razões que me dispenso de referir, o evoluir da situação política nos restantes países. E a questão da imigração (sobretudo a muçulmana) é, a par da passada crise financeira, das que mais alterações têm produzido no panorama político europeu actual. Com ou sem razão. Vários países fecharam as fronteiras e são agora governados por políticos populistas e com fortes tendências ditatoriais. Muita dessa evolução é fruto não só da vaga enorme de migrantes e refugiados que têm demandado a Europa (e sobretudo a Alemanha) nos últimos três anos, mas também da perspectiva de não abrandamento desse fluxo, dado que as guerras continuam no Médio Oriente, a Turquia ameaça constantemente deixar de reter uma boa parte dos fugitivos e a África, com a sua série de Estados falhados ou a braços com a invasão de tresloucados islamistas, ou ainda sob os efeitos das alterações climáticas, é um problema de difícil solução. O facto de um conhecido partido de extrema-esquerda, como o “Die Linke”, colocar sequer a hipótese de o país fechar as portas aos que pedem asilo pode ser mais uma prova de que “a boa consciência” da esquerda, como ela diz, não chega já para solucionar um problema desta importância para os países de entrada ou de destino dos migrantes. O que se passa na Itália, na Áustria, na Hungria, na República Checa, na Polónia e até na Alemanha é que chamar automaticamente fascista e xenófobo a quem não defende a abertura incondicional das fronteiras foi meio caminho andado para os verdadeiros fascistas adormecidos acordarem e verem uma enorme oportunidade à sua frente.

Assim, pode o número real de imigrantes e refugiados ser pouco expressivo e pouco alarmante, pode a dita Sahra estar avariada da mioleira e não ter sorte nenhuma com o público-alvo que visa conquistar, mas não deixa de ser um sintoma de que algo vai mal quando a direita populista tem tamanha facilidade em chegar ao poder um pouco por todo o lado na Europa, apesar do exemplo deplorável do cabeça loira do outro lado do Atlântico.

Centeno não disse nada de especialmente chocante

Deixem o Mário Centeno em paz. O programa de assistência financeira à Grécia terminou finalmente e impunha-se o comentário da praxe sobre a ocasião. Como presidente do Eurogrupo, o que poderia dizer Centeno, se não que “todos aprendemos com os nossos erros”, como se ouve no vídeo? Todos incluindo a Grécia, sim, cujos governos anteriores à crise aldrabaram a bom aldrabar as contas. Com a prestimosa ajuda dos amigos da Goldman Sachs, como é sabido. Mas não seria esta a ocasião para desenterrar punhais passados, pois não? Os gregos aldrabaram para a entrada no euro e aldrabaram posteriormente os valores do défice. Para além do regime de privilégios inaceitáveis de que gozava a generalidade do sector público e certas classes profissionais e de um sistema fiscal generalizadamente fraudulento (uma das tais “bad policies of the past” a que o vídeo, de facto, alude).

De certo modo, nós fomos vítimas da Grécia. Embora não tenhamos tido nos nossos registos mais próximos da crise qualquer fraude ou política irresponsável. Tanto assim é que nem teríamos tido resgate algum se a sede de poder do PSD e a cegueira dos radicais do BE e PCP não tivessem deitado a perder o acordo conseguido em Bruxelas.

Posto isto, é claro que a receita aplicada à Grécia (e a nós) foi-lhes servida recheada de preconceitos contra o sul e de propósitos de punição, que menosprezaram completamente as pessoas e  economia e só agravaram a situação de tragédia. Mas, podia Mário Centeno, ministro de um país que substituiu a austeridade pelo normal rigor, deixar de mencionar, ainda que de passagem, os erros da Grécia (de que também fomos vítimas, por errada analogia)? Ou será que a Grécia não cometeu erro nenhum nem havia nada a corrigir? Não é verdade.

Pode Mário Centeno não ter frisado suficientemente, como muitos gostariam, a nunca reconhecida defesa dos interesses dos membros mais ricos da família “euro” que orientou a maior parte das decisões de resgate. Mas não era esse o seu papel neste momento. O predomínio de quem se apresenta, na Europa, com melhor situação económica é uma realidade com a qual teremos de viver praticamente até à eternidade. Mas Portugal está a afirmar – a reconstruir, melhor dizendo – a sua imagem de país sério, autónomo e orgulhoso, por oposição à imagem de cachorro culpabilizado e obediente que o anterior governo passou. Assim, não percebo o alarido. Só o da oposição, claro.

Robles ao fundo e Bloco a esbracejar

Ainda não se sabe tudo sobre o negócio da aquisição e renovação do imóvel de Alfama por Ricardo Robles e a irmã. Mas, do que se sabe, tenho a dizer o seguinte:

Ricardo Robles, a não haver qualquer favorecimento na aquisição do prédio, fez tudo bem, de um ponto de vista suprapartidário, até se ter apercebido de que a sua militância no Bloco de Esquerda era incompatível com um lucro de milhões proveniente da prática da especulação imobiliária, que o Bloco tanto critica. A partir do momento em que suspendeu a venda com receio das críticas, fez tudo mal. Por outro lado, “fazendo tudo bem” e mantendo a intenção de venda, ainda por cima com promoção da Christie’s, só lhe restaria abandonar o Bloco e, livre, continuar a renovar a cidade e perder o preconceito contra o lucro.

Vejamos: lê-se hoje que, segundo a descrição da agência promotora, o edifício renovado é composto por 11 apartamentos pequenos, tão pequenos que a sua maioria tem a área de quartos, o que não tem nada de mal em si, mas indica que o destino do imóvel era mesmo o aluguer para alojamento local (outra prática que o Bloco considera já ter ido longe demais). Dizer que a irmã tinha planeado vir morar para o edifício não é, por isso, muito credível. Vinha habitar um T0 com 41 m2, o maior dos 11 anunciados? Sei não. Enfim, e o empréstimo pedido à Caixa, como será pago tendo em conta a nova intenção declarada de alugar os apartamentos para habitação? Que contrato ou acordo haverá com a Caixa? Evidentemente, eu não tenho nada com isso. A família pode ser rica e seguramente Robles não vai andar a roubar para cumprir os seus compromissos. Mas pagar cerca de 300 ou 400 mil euros à Caixa não vai ser fácil sem a venda lucrativa do imóvel. Digo eu.

A dor de consciência ficou, pois, aqui muito mal (porque “o mal já estava feito”, ou seja, já nada apaga a tranquilidade com que Robles se dispunha a ganhar 2 milhões, como tantos investidores imobiliários fazem hoje em dia, para bem da recuperação do casario antigo e contra os “princípios” do Bloco) e cria certamente sarilhos vários. Agora resta-lhe descalçar esta bota, mas terá que ser mais criativo nessa tarefa, porque as explicações dadas ontem foram algo risíveis. Não foi ele, foi a irmã? Não era uma venda directa, era por uma agência? Não foi ele que fixou o preço de venda, foi a agência? Que balelas são estas? A Mariana Mortágua, ontem, na SIC N, foi arrasada, e bem, pelo Adolfo Mesquita Nunes.

Mais valia estares calado, Tavares

O Público e o seu vomitório bissemanal da última página. Na direita que o colunista JMTavares representa, ou dizem que não há investimento do Estado, o que consideram uma tristeza e uma vigarice e uma desgraça, ou dizem que, se há, não devia haver, porque o financiamento ao abrigo do programa 2020 deveria ser canalizado exclusivamente para projectos de risco de empresas privadas. Estado não toca no 2020. É o que se conclui do paleio de hoje da última página. Demagogia em estado puro: passar a ideia de que «o Estado», subentendendo-se e sugerindo «os governantes» e seus amigalhaços, ficam com as verbas todas em proveito próprio, escamoteando o facto de, ao financiar projectos de melhoria de infraestruturas, o Estado convocar inúmeras empresas privadas, que assim prosperam e dinamizam a actividade económica. Apostar na qualificação das pessoas também é considerado investimento inútil.

Critica-se agora o estado de degradação da ferrovia, não é?  Pois, mas, ao criticar-se a utilização dos fundos do programa 2020 pelo Estado, critica-se o investimento na modernização da mesma ferrovia ao abrigo do dito programa europeu, por representar um “desvio” para o Estado de verbas que deveriam ir para empresas fantásticas, superinovadoras e potencialmente o orgulho de Portugal que só o Tavares conhece (embora não empreenda). Entretanto, testemunho, por exemplo, quantos fins de semana de alternativa rodoviária tem custado aos utilizadores a melhoria da via férrea na zona de Mortágua, linha da Beira Alta; mas está a ser feita. E outros troços se seguirão. Para o Tavares, deveriam ser apenas os impostos a pagar estes avultados investimentos (se considerarmos toda a rede). Sim, abelha. Sabemos onde queres chegar.

 

Mas o pulha vai mais longe. Dá como exemplo de “desvio” de verbas para projectos inúteis a atribuição de uma pequena parte das verbas recolhidas para ajudar as vítimas de Pedrógão à melhoria da unidade de queimados do hospital universitário de Coimbra.

“Lembram-se do miniescândalo de Outubro de 2017, quando se percebeu que parte dos donativos angariados para ajudar as vítimas de Pedrógão estava a ser canalizada para equipar a unidade de queimados do Hospital de Coimbra?”

O Estado come tudo e não deixa nada, in Público

Unidade de queimados. De Coimbra. Vêem? O que tem isto a ver com vítimas de Pedrógão? É só vigarices. Dos “xuxas”, “who else?”.

Tiradas ao estilo de Trump

Aliás, deixe-me dizer-lhe. Se o Orçamento chumbasse, em bom rigor, o dr. António Costa teria de viabilizar um Governo do PSD com o CDS. Ele não disse em 2015, que só chumbou o Governo de Passos Coelho porque conseguia uma maioria à esquerda? Se agora não conseguisse, em coerência devia dizer: pronto, peço desculpa, apoio um Governo do PSD e do CDS, que verdadeiramente foi quem ganhou as eleições em 2015, foi quem foi mais votado.”

Rui Rio, em entrevista à TVI

 

Não, ó Rio. Se não conseguir uma maioria à esquerda que aprove o orçamento para 2019, Costa não muda de maioria. Tu é que terás que ir a votos.

Por uma «Suíça» 2.0

 

De acordo com a revista Sábado, um grupo de lisboetas chamado Fórum Cidadania Lisboa resolveu escrever a Rafael Nadal para lhe pedir, enquanto investidor (muito minoritário) do fundo que comprou o quarteirão do Rossio onde se situa a pastelaria Suíça, que não deixasse desaparecer a dita, agora que as obras de requalificação dos imóveis estão em curso. Pedem-lhe que “não mate as nossas memórias”. Estão a exagerar.

 

Primeiro, não sei se o Nadal alguma vez ouviu falar do Rossio, quanto mais da pastelaria Suíça e, caso lá entrasse, se compreenderia o que motivava a angústia dos ditos lisboetas perante o fecho daquele estabelecimento concreto. Há pouco tempo entrei lá e, francamente, para além de funcionários com idade para terem muitos anos de casa e direito a uma boa e merecida reforma (havia excepções, claro), nada vi que merecesse ser preservado ao ponto de impedir o estabelecimento de fechar. A pastelaria já sofreu transformações ao longo dos anos, estando agora, arquitectonicamente, sem grande jeito e sem grande graça. Também não me pareceu que, de entre a doçaria em oferta, se encontrassem receitas originais ou especialmente saborosas e não me lembro de nenhuma bebida típica ou particularmente apreciada da pastelaria Suíça. Além disso, são poucos, se alguns, os lisboetas que por ali param. A esplanada costuma ter só turistas. Para coroar, o actual dono não vê qualquer viabilidade na exploração da pastelaria.

 

A situação da pastelaria é a única privilegiada (se descontarmos a proximidade da saída do Metro). Vista para o Rossio, de um lado, e para a Praça da Figueira, do outro. Mas essa, com um estabelecimento novo, poderá  ser preservada.

 

É este o ponto: o fim desta pastelaria não significa o fim das possibilidades de abertura de uma outra, ou de um bar ou do que quer que seja. Mais para a direita, mais para a esquerda, enfim, acho que o lugar é propício a um estabelecimento desse género, com esplanada.

 

Segundo, todo aquele quarteirão estava extremamente degradado, sendo uma dor de alma ver, em pleno Rossio, imóveis naquele estado de pré-colapso e lojas, no rés-do-chão, em avançado declínio comercial. Ainda bem que alguém decidiu investir.

 

Portanto, não se compreende que saudades pode deixar uma pastelaria fortemente descaracterizada, pouco frequentada pelos lisboetas e encimada por um imóvel à beira da ruína. O novo hotel que, segundo consta, ali está a ser construído aproveitando o actual edificado terá com certeza espaço, no rés-do-chão, para um estabelecimento mais contemporâneo e atraente.

O inédito pré-Mundial nas televisões

Este Bruno de Carvalho é um caso. Não sei se clínico. Mas que é um caso, é. Então, com o plantel todo a debandar, na iminência de levar o clube à falência, sem treinador de futebol, sem equipa, sem rumo que não seja manter-se naquela cadeira presidencial, com os seus adeptos favoritos na choldra por crimes graves que, na impossibilidade de liquidarem fisicamente o plantel, o liquidaram contratualmente, cometendo ilegalidade atrás de ilegalidade enquanto brinca com os estatutos, lembra-se de propor aos jogadores que rescindiram que voltem atrás com a decisão, porque, se o problema é ele, ele vai-se embora, mas, se for novamente eleito, esses jogadores que desistiram das rescisões terão que ficar no Sporting, obrigação que deve constar de um documento assinado?!  Estamos todos a ver os jogadores a assinar, não estamos? Limpinho ali, na hora.

Dúvida: será o homem burro, andará a inalar algo, está a treinar para palhaço ou está/é mesmo doido? Nenhuma das opções exclui as restantes. Eu só espero que o povo seja sereno, porque, a avaliar por uma entrevista de rua transmitida  ontem à noite em directo na TVI24 (salvo erro), um “popular” estava suficientemente desesperado e exaltado para isto poder não acabar nada bem.

Uma vez sem exemplo

Há hoje dois artigos no Público, dois, com os quais estou inteiramente de acordo. Um, de um embaixador reformado de nome Fernando d’Oliveira Neves, intitulado “O museu das ex-descobertas”, trata, obviamentre, da momentosa problemática do (censurado) nome do Museu das Descobertas. O artigo está claro, num estilo bem disposto e certeiro. Podem ler aqui. No fim, é caso para nos interrogarmos se haverá liberdade para dizermos que Lisboa está a ser descoberta (e Portugal). Parece que já ouço alguns dizer: “Por amor de deus, não!! Não digam isso. Nós já cá estávamos.”

 

Um pequeno excerto, do início:

 

“Não sei como alguém teve a ideia de chamar Museu das Descobertas a um museu sobre as Descobertas, que parece que afinal não  descobrimos, pois quem estava nos sítios que nós descobrimos já se tinha descoberto. Não é caso único. Lembro-me, quando se preparava o bicentenário da descoberta da América pelo Colombo, de ver na televisão um mexicano, loiro de olhos azuis, a dizer que a América não tinha sido descoberta, porque eles já estavam na América e por isso não precisavam de ser descobertos. Como chegaram loiros de olhos azuis ao México, antes do tonto do Colombo chegar à América, a pensar que tinha chegado à Índia, ele não explicou.”[…]

 

E do fim:

 

“Agora parece que, como o mar já existia, não descobrimos nada, e portanto não temos nada de que nos orgulhar nem lembrar no Museu das Descobertas. Eu pensava que sim, pois até historiadores estrangeiros, e todos sabem como é perfeito o tal estrangeiro, achavam ímpares os nossos extraordinários feitos, como o americano Boorstin, librarian da Biblioteca do Congresso, um dos mais prestigiados cargos do país, que considerou a saga da procura do caminho marítimo para a Índia como o primeiro empreendimento científico moderno, que marcou o mundo para sempre, ou o inglês Toynbee, por muitos considerado o maior historiador do século XX, que dividia o mundo entre a época pré-gamica e pós-gamica, ou seja, antes e depois da viagem do Gama. Viagem que, como é óbvio, deu ao Ocidente cinco séculos de domínio do mundo, que os Estados Unidos estão a destruir com afinco e os chineses, que sabem de História, querem marcar o termo com a simbólica viagem inversa da nova rota da seda. Mas é claro que o prestígio do Boorstin e de Toynbee caiu a pique em Portugal, por atribuírem mérito aPortugal e aos portugueses, o que é por cá muito mal visto.
Mas lá que andámos por todo o lado e por todo o lado deixámos monumentos, orações, comércio, tradições e comunidades com ligações a Portugal, da foz do Amazonas às ilhas das Flores, lá isso é verdade. Para não falar da língua, a quinta mais falada do mundo, num país continente e em todos os continentes. Proeza só equiparável à das então três maiores potências europeias e sem paralelo em países da nossa dimensão.
Fizemos o impossível. Por isso o melhor é chamar ao Museu das Descobertas Museu da Descoberta de Portugal. Porque só percebe Portugal quem conheça essa nossa História.”

 

O segundo, daquele escriba que vê Sócrates em todo o lado, sonha com ele, escreve sobre ele, mente e calunia dia sim, dia não (e por isso é pago e bem pago pela SONAE), e que persegue com a tecla, e com qualquer microfone de que disponha, tudo o que é socialista, o João Miguel Tavares, hoje merece um elogio. Escreve ele sobre a estúpida decisão da ERC de reconhecer ao canal Panda Biggs o direito de censurar um beijo lésbico numa série para jovens. É ler aqui (“Censura, beijos lésbicos e desenhos animados”). Por uma vez, nada tenho a objectar.

 

Excerto final, para quem não tem acesso:

“[…] Alguém achar que a homossexualidade ainda é fracturante em 2018 é puro preconceito, sem nenhum argumento lógico atendível (até a Igreja já tem vergonha de defender a tese contranatura em voz alta), e graças a uma falta de visibilidade que o Panda Biggs apenas reforçou com a sua opção. Portanto, caro Paulo Côrte-Real, não percebo qual seja a dúvida nesta matéria: como o próprio nome indica, os defensores ardentes da liberdade de expressão não gostam que censurem coisas. Não gostam que censurem desenhos animados. Não gostam que censurem cadernos cor-de-rosa e azuis. E não gostam que censurem o uso da palavra “princesa”. Mais simples do que isto não há.”

 

Feministas unissexo: uma contradição

Porque é que as mulheres ganhavam tradicionalmente menos do que os homens e, por isso, em muitos casos, continuam a ganhar? Ao contrário do que afirmam certas feministas, não era por uma questão de discriminação em si, de subalternização ou de formatação educativa para a obediência e consequente exploração. Era simplesmente porque as sociedades se organizaram durante milénios em torno do trabalho braçal, que exigia força física. E havia as guerras, que exigiam mais força ainda, espírito combativo e agressividade. E, a par disso, havia as crianças, que precisavam de ter quem cuidasse delas (não havia creches) e, já agora, quem as gerasse e parisse,  tarefa que competia e ainda continua a competir exclusivamente às mulheres, que exigem sossego. São milénios de separação de funções com base na biologia – maior potência e exigência física para os homens, mais sedentarismo, domesticidade e empatia para as mulheres (não me venham com as amazonas; há sempre excepções). Isto, obviamente, não tem nada que ver com capacidades intelectuais, note-se. Nesse campo, nada prova que a igualdade não tenha sido sempre total. Infelizmente, tanto uns como as outras viram o desenvolvimento e aplicação dessas capacidades coarctadas durante milénios pelas imposições da luta pela sobrevivência. Pelo menos as mulheres e os homens das classes inferiores (o que equivalia à quase totalidade da população mundial). Milénios disto. Mesmo com a industrialização, continuou a ser requerida mais força (e resistência e assiduidade) aos homens do que às mulheres.  Era, portanto, considerado “natural” remunerar ou só os homens ou melhor os homens. Eram os tempos em que a reprodução (incluindo os ciclos lunares das reprodutoras) não tinha um valor social, hoje em dia fundamental, de perpetuação da espécie. Nem valor de mercado enquanto produtora de consumidores. O respeito por essa função só agora começa a surgir.

 

Mas o mundo, a ciência, os conhecimentos históricos, a tecnologia e a sociedade foram evoluindo. Hoje, nos países ocidentais, os mais evoluídos, teme-se a extinção da nossa espécie, há pânico com a baixa taxa de natalidade. O indivíduo em si e as crianças em particular são muito importantes por razões óbvias. As mulheres contam como indivíduos e querem a sua independência; construíram-se creches (não em todo o lado, mas em muitos sítios); há partilha de tarefas domésticas; os trabalhos, na sua maioria, graças à maquinaria, já não exigem grande força muscular e, também por isso, os salários a nível das fábricas, dos serviços, do ensino, da investigação, etc., foram-se nivelando entre os sexos. Apesar disso, subsistem diferenças, sim. Continua a haver mais homens do que mulheres em cargos de chefia, por exemplo. Certo. Mas será porque as mulheres são discriminadas a esse nível só por serem mulheres, como pretendem as feministas? Não me parece. As mulheres que querem mesmo chegar ao topo de empresas, de administrações, etc., e têm disponibilidade para isso (coisa que a maior parte ainda não tem, ou não tinha em etapas importantes da carreira, perdendo um bocado o comboio), são livres de o fazer e é um facto que o fazem. Mas nem todas têm esse objectivo na vida. E deviam? Para muitas feministas, parece que sim. Não só deviam como parece que é obrigatório. Dito isto, nada tenho contra as quotas como incentivo, além de terem em conta também a maior longevidade.

 

Há, portanto, inúmeras razões para as diferenças salariais e profissionais actuais, não se tratando em todos os casos de discriminações puramente em função do sexo, como acontecia (e infelizmente ainda acontece) em função da raça. Há justificações de ordem biológica, organizativa, pessoal e outras, embora hoje em dia já ultrapassáveis e a sua rejeição aceite. Mas eu diria que a força física e a questão da gestação não se encontram ainda de todo arredadas da problemática da “condição feminina”. Porque é que, por exemplo, as raparigas devem ter medo de andar sozinhas em zonas isoladas ou a certas horas? Pela mesma razão por que um rapaz franzino deve ter medo e certamente tem. Com a agravante de as raparigas poderem engravidar, poderem ter de abortar, poderem ficar com um filho inesperado nos braços, enquanto o pai “dá à sola”. Os potenciais atacantes, por serem homens, são mais fortes fisicamente (mesmo que saibamos que a seguir vão presos, ninguém gosta de ser maltratado). Se não fossem (mais fortes), qualquer empurrão ou pontapé os afastaria. Aliás, se não fossem mais fortes nem sequer atacavam. Concordo que se lute por medidas a montante, ou seja, para que se corrija e dome nos mais fortes, através da educação, o instinto animalesco e que se trabalhe a nível das próprias autoridades para que haja mudança de mentalidades, e também a jusante, ou seja, que se tornem mais pesadas as penas para os abusadores. Penso que acabaremos por lá chegar – ao respeito total – e, por cá, até já estamos a léguas de distância de certas regiões do mundo, como a Índia, por exemplo. Há muito a fazer para lutar pelo respeito do outro, sobretudo do mais fraco, e contra a violência.

 

Mas enquanto certas feministas insistirem em que não há qualquer diferença biológica entre homens e mulheres, o objectivo da luta está minado e estão condenadas a serem ridicularizadas e a perderem credibilidade nas lutas verdadeiramente importantes. Está cientificamente provado que há preferências inatas diferentes nos miúdos, na esmagadora maioria dos casos, a nível dos brinquedos e das brincadeiras.

Ao ouvir a entrevista que o Daniel Oliveira fez a Fernanda Câncio, uma feminista, verifico que esta está, de facto, a sujeitar-se ao ridículo e predisposta a eternamente acusar de incompreensão os outros (“atrasados, que ainda não perceberam nada”). E sem razão. Dizer que não há qualquer diferença biológica e, por isso, comportamental, entre homens e mulheres é o mesmo que dizer que não há qualquer diferença entre homens hetero e homens homossexuais ou entre mulheres hetero e lésbicas. Intelectualmente não há nenhuma, atribuível ao sexo, entre qualquer ser humano. Isso é evidente. Mas biologicamente, hormonalmente, há, claro que há. Tanto há que há quem se sinta atraído/atraída e também afastado/da pela diferença. Não vejo nisso um problema. Mas a que propósito se pensa que para lutar pela igualdade social entre os sexos se devem considerar os mesmos biologicamente iguais? É um absurdo. Considero-me hetero. Sempre achei e sempre apreciei que os homens com quem me relaconei fossem diferentes de mim. No geral, “mais quadrados” e mais previsíveis, menos expressivos, mais “frios” e também mais seguros. Para floreados cá estou eu, foi o que sempre achei. Em boa verdade, é a diferença que atrai. Se eu gostasse de uma pessoa igual a mim, provavelmente era lésbica. E ninguém teria nada com isso.

 

 

Kevin Spacey e o afastamento da série

 

Também ao contrário do que se diz na entrevista, o afastamento de Kevin da série “House of Cards” não foi uma punição da indústria cinematográfica por comportamentos abusivos (e, portanto, uma possível e discutível confusão, segundo o Daniel, entre a vida pessoal do actor e a sua vida profissional). Muito menos, como diz a Fernanda, por haver o perigo de os pais de miúdos que com ele contracenassem temerem o seu carácter predatório (coisa que na série em questão nem tinha oportunidade de acontecer (pelo menos até ao episódio onde parei), dada a personagem, mas enfim). Acontece que, quem faria essa punição seria, e os produtores sabiam-no, o público. O homem abusava do seu poder enquanto actor famoso, tal como outros hoje em dia já conhecidos. A partir daí, como quase tudo na América, era uma questão de dólares – a série deixaria de render. Ponto. É esta a relação entre a vida pessoal do actor e a sua carreira profissional. Uma questão de receitas. Claro que, se Kevin Spacey se lembrasse de continuar a importunar jovenzinhos, arriscava-se a ir preso, o que também seria mais um prego, definitivo, no caixão da sua carreira artística e um mau nome para a produtora, que também quer continuar a produzir séries que as pessoas vejam. A fazer dólares, portanto.

Em suma, lutar pela igualdade de direitos e deveres (nomeadamente parentais), pelo respeito pelo outro e contra a violência e o abuso de poder (físico e outro) é uma coisa. Para isso, dizer que não há qualquer diferença biológica entre homens e mulheres e que a que se pensa haver se deve ao facto de todos termos sido e sermos ainda formatados para “papéis” (e porquê, já agora? Com que intenção perversa?) é completamente errado e contraproducente. A esmagadora maioria das pessoas sente e aprecia a diferença.

Como último apontamento, saliento ainda que, no futuro, até vejo as crianças a serem geradas em laboratórios. Pelo menos, como opção. As gravidezes podem ser penosas e são seguramente penalizadoras profissionalmente (na esmagadora maioria dos empregos). Essa diferença/desvantagem entre homens e mulheres, pelo menos, desapareceria. Mas quanto à uniformização dos sexos, espero que não aconteça. Seria um retrocesso lastimável. Lutar por isso não é feminismo. É o oposto.

“Eu me absolvo”

Formulações jurídicas habilidosas.

O “poder para se perdoar a si mesmo” é uma atribuição que não lembraria ao diabo prever nas democracias ocidentais avançadas para um chefe de Estado, muito menos a sua inclusão numa Constituição. As Constituições costumam pressupor princípios éticos evidentes e não verbalizáveis e, portanto, ser omissas nesta matéria. Mas, já que o tema foi lançado, e já que penso nisso, não deixa de ser do mais aliciante que há para presidentes prevaricadores. Dirá um presidente apanhado em crimes: “Que mal fiz eu? Nenhum! Mas, se fiz, cá estou para me perdoar. “

E isto a propósito de quê? A propósito do processo judicial que corre paralelamente ao exercício do mandato do Donald, um mandato que consiste em levar a cabo radicalismos/atrevimentos políticos, económicos e comerciais na sua relação com o resto do mundo que só não tiveram ainda resultados catastróficos porque há líderes políticos que ainda estão atónitos/ incrédulos e outros que, dadas as semelhanças, já o toparam e optam por virar a singularidade presidencial americana a seu favor. E há os russos, que já o tinham topado muito antes.

 

As investigações de Mueller, antigo director do FBI, ao conluio com a Rússia na campanha de Trump para as últimas eleições prosseguem, havendo já 19 acusados formalmente (entre os quais 13 russos e 5 americanos), além de 3 organizações russas. Há, portanto, sérias hipóteses de o envolvimento de Trump não escapar à prova.  O envolvimento ou o que se apurar na investigação às suas finanças.

 

Foi depois de destituições (como a de James Comey, que acusou Trump de lhe pedir que deixasse de investigar Michael Flynn (antigo conselheiro nacional de segurança)) e escusas (como a de Jeff Sessions) que Rod Rosenstein nomeou Mueller “Special Counsel”, encarregado de investigar as ligações e/ou a coordenação entre o Governo russo e elementos associados à campanha de Donald Trump, assim como a possível obstrução à Justiça por parte deste (“and any matters that arose or may arise directly from the investigation, and any other matters within the scope of 28 CFR 600.4 – Jurisdiction“). E Mueller e o seu Grande Júri lá vão prosseguindo com os interrogatórios e as análises.

 

Inquieto (e ameaçador) desde o início, Trump quis saber se estava a ser investigado. Mueller respondeu, ou melhor, tem respondido, que o Presidente não é um “alvo” mas sim um “sujeito” (ou objecto?) da investigação. Formulação ambígua que tem sido discutida abundantemente, mas que joga com dois conceitos que as orientações do Departamento de Justiça distinguem, sendo “subject” o menos grave, já que se refere apenas a uma pessoa cuja conduta se insere no âmbito da investigação do grande júri. Trump é, ou tem sido, apenas um “subject”, não um alvo.

Mas Trump, na prática um alvo, tem quem o defenda. Lembram-se da firma “Better call Saul?” da série Breaking Bad? Pois, aqui é mais “Better call Rudy”. Gente que, a meu ver, ousa ultrapassar o cliente em descaramento e comicidade. A equipa de advogados, liderada por Rudy Giuliani, enviou, em Janeiro, uma carta ao dito “Special Counsel” expondo basicamente o argumento de que, descubra-se o que se descobrir, para todos os efeitos, Trump é intocável e todo-poderoso e nem sequer deve ser ouvido. Se lerem, conhecerão os argumentos. (Ler aqui a notícia da BBC)

Com’assim? – perguntará o leitor.

 

Segundo a carta, a que o New York Times teve acesso e que publicou (para fúria de Trump), os advogados invocam e lembram que o presidente, enquanto “chief legal officer” (ou seja, o que manda em tudo, mesmo na Justiça) não pode ter obstruído a Justiça pela simples razão de que tem poderes para pôr fim às investigações e até – se quiser (Constituição omissa) – “o poder para se perdoar a si mesmo”. Podem gargalhar. Mas (oh quanta bonomia e segurança!) não os usará. Até porque seria “politicamente difícil” (“tough”, nas palavras de Giuliani) de gerir as consequências. Mas a hipótese foi sugerida e por alguma razão. Será que nenhuma descoberta o poderá jamais incomodar? Judicialmente, claro. A ele, que tem poderes para se perdoar a si próprio? É que não há nada que diga que não tem. Argumento do arco da velha.

Quanto ao “impeachment” – acusação e declaração de falta de idoneidade para o exercício do cargo – não há nada que os seus advogados possam fazer nem auto-perdão que lhe valha. A haver provas irrefutáveis de “misconduct”, poderemos assistir à expulsão da Casa Branca de um inquilino-presidente que se perdoou a si próprio. Mas, como o processo é moroso (começa por ser decidido na Câmara de Representantes e passa depois para o Senado, onde a condenação final exige, mesmo assim, uma maioria de dois terços) não vai ser tão depressa, se é que algum dia, que o ex-apresentador de “O aprendiz” sai de cena. Resta o resto do mundo aguentar-se. Ou servir-se, não é, ó Kim?

Grata ao Observador

Reparei ontem que, para ler os elucidativos mas indigestos artigos (todos  temos um lado masoquista) da tropa de colunistas do Observador, desde há uns dias classificadas pelo próprio agrupamento como “premium”, será preciso pagar. Só tenho uma coisa a dizer: “Olhem que bom!” Uma economia de poluição, portanto. Perde-se, porém, bom material para gozo. Compreendo-os.