Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Passo o dia em Montesinho, onde dormita um Portugal cansado. Não há contrabandistas no rio Pingadeiro, nem já se passa nele a raia a salto, que a fronteira é uma porta escancarada. Vim ver o Parque Natural, desobrigar-me, talvez, de multidões. E embora seja isto uma lonjura, daqui mando cortesias à tribuna do 10 de Junho, que as distâncias de agora não são nada.
A primeira, segundo a ordem canónica, a Sua Excelência o Presidente da República. Quando falou do passado, o seu discurso trouxe-me lembranças caras, que eu já tinha por perdidas. Era uma redacção da 4ª classe, puseram-me a lê-la na festa da paróquia, haverá cinquenta anos. E o tema era a Gesta Lusa. Eu tinha sobre o assunto uma ideia muito vaga, e mais ainda seria a do povo todo que me ouvia. Mas a professora garantira-me sucesso, e assim foi. Falei dos nossos heróis, que na altura tinham marca registada, falei do orgulho nas conquistas do mar, arrisquei mesmo que Deus nos estava agradecido por causa da fé cristã, e acabei a enaltecer o comprimento da Pátria, que chegava de Lisboa à Sibéria, ou coisa assim.
No final não se calavam os aplausos, foi um dia triunfal. Para dizer tudo, foi a minha bebedeira de glória. Falo da euforia dela, porque a ressaca só chegaria mais tarde. Voltei agora a vivê-la, a bebedeira de glória, a euforia.
A segunda cortesia é a João Benard da Costa, se ma aceita. Com o jeito que ele tem, acendeu bóias na rota sobre as águas. Sempre ajudam quem quiser a atravessar o canal. Melhor só terá feito Jesus Cristo, quando acautelou a Pedro, a gritar que se afundava:
- Vê bem onde estão as pedras, minha besta!

Jorge Carvalheira


  1. 1 aragem

    Só quem viveu e sobreviveu a essa época, entende, ou antes, compreende e sente o que relata, Jorge.
    É um texto para ler e se aprender um pouco daquilo que muitos de nós “traz às costas”. Deixe-se o testemunho, que sem ele se não faz história.

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