Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



recorte.jpg

No portal do Público, está a versão integral, e muito ilustrada, da entrevista que Luís Miguel Queirós fez a Eduardo Lourenço, e saiu na última «Pública».

Destaco esta passagem, que já vinha em papel e que merece reflexão.

Veja o Aquilino, que os mais militantes da minha geração inscreveram quase à força nas suas hostes. Depois de 1945, ele chegou realmente a ter obras apreendidas. Mas sempre trouxe nas badanas dos seus livros uma frase de Salazar, a gabar-lhe o estilo. Eram da mesma geração, tinham passado ambos pelo seminário, não eram homens com a mesma mentalidade, mas eram homens do mesmo mundo.

Lembro-me de o Torga me ter contado uma história que se passou com um ministro de Salazar, o Leite Pinto, que ia ao Brasil. O Torga tinha estado lá e era muito conhecido no Brasil, de modo que podia servir como uma espécie de cartão-de-visita, mesmo sendo hostilizado cá dentro. Ora, esse Leite Pinto, antes de partir, foi-se despedir de Salazar e, nessa visita, começou a recitar um poema do Torga. O mais interessante é que Salazar continuou o poema, e acabou de o dizer. O Torga contou-me isto com lágrimas nos olhos. A vida é muito complicada.


  1. 1 Anónimo

    convém lembrar que um dos filhos de Aquilino foi juiz durante o Estado Novo

  2. 2 Valupi

    Que beleza de anedota. E que beleza de remate, no contexto e vindo de quem vem: “A vida é muito complicada.”

  3. 3 ana cristina leonardo

    Sim, a vida é muito complicada. Com certeza. E, então? O ditador salazar torna-se numa personagem mais complexa e interessante porque conhecia Torga? É isso? O Hitler gostava de Wagner e do cão, era vegetariano e esteve para ser pintor. E, então? O relativismo moral agora justifica-se com a poesia? Não li o resto da entrevista mas acerca de “compreender” sem cair no lamaçal da “compreensão”, o livro de Gitta Sereny “No Mundo das Trevas”, sobre Franz Stangl, o comandante de Sobibor e Treblinka, continua imbatível.

  4. 4 Valupi

    ana

    Creio que, neste caso da vida, o complicado liquefez-se e escorreu pelos olhos do Torga abaixo.

  5. 5 João Pedro da Costa

    Lembrei-me logo do poema que o Leonard Cohen escreveu sobre Hitler. O Torga e o Lourenço estavam à espera de quê? Que o Salazar tivesse garras e deitasse espuma verde pela boca?

    Eu admiro muito (a sério) é a «neutralidade» que o Fernando consegue por vezes criar relativamente ao conteúdo dos seus posts. O «merece reflexão», por exemplo, é um prodígio de ambiguidade.

  6. 6 Mao

    Da criação
    Fez o mundo

    Da montanha
    Fez o homem

  7. 7 francisco curate

    A frase de Salazar inserta na badana dos livros de Aquilino é esta: “É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor.” Afirmar que Aquilino é um grande escritor não é exactamente gabar-lhe o estilo. Há uma pequena (grande?) diferença. E parece-me que interessava a Aquilino mostrar o paradoxo que era ser apreciado mesmo sendo um “inimigo”. E, na realidade, tanto Aquilino como Torga se opuseram ao regime de Salazar. Isso é um facto. Tentar escamotear isso, partindo de dois exemplos descontextualizados, é uma injustiça que os dois escritores definitivamente não merecem.

  8. 8 sininho

    Será possível ser-se absolutamente perfeito ou inequivocamente imperfeito?
    (Fernando, deixaste-me com saudades do Malhadinhas e do meu colega de liceu, o Aquilino, neto do mesmo)

  9. 9 ana cristina leonardo

    para o post anterior: não, claro que não. e daí?

  10. 10 sininho

    Daí, Ana, a vida ser muito complicada.

  11. 11 a.pacheco

    Aquilino foi o MAIOR escritor português do seculo XX.

    A sua obra para quem se dá ao prazer de a ler , fala por si.

    Romances como o Quando os Lobos Uivos, foram proibidos pela censura de Salazar e trouxeram problemas ao escritor, o que diz bem da mentalidade do diatador.

    Mas a homenagem que todos lhe devemos prestar, é ao homem , ao cidadão ou ao GRANDE ESCRITOR???

    Decidam-se, ninguem é perfeito e quantas vezes a obra é maior que o homem…

    Lembrem-se do abjeto Louis Ferdinand Celine, e desse inolvidavel

    Viagem ao fim da noite.

  12. 12 Anónimo

    Gostos são isso mesmo, a.pacheco! Pessoais.
    Aquilino, a pessoa, era demasiado vaidoso para o meu gosto.
    Admiro-o como cidadão.
    E aprecio-lhe a obra. Mas dizê-lo o maior do séc.XX… é obra!

  13. 13 ana cristina leonardo

    para sininho: andamos às voltas. que a vida é muito complicada já todos nós sabemos. o que é que isso tem a ver com o relativismo moral é que me eu gostava de saber. daí a minha pergunta: e daí?

  14. 14 Anónimo

    A entrevista lê-se bem, porque o professor Lourenço fala.
    O pior é quando se põe a escrever!

  15. 15 py

    quando os lobos uivam

  16. 16 Rita Barros

    Nos romance volfrâmio de Aquilino,existiam condições objectivas e elementos aglutinadores como sejam: uma Guerra Mundial,uma Beira rural e analfabeta, ancorada numa sociedade patriarcal que ditava as leis, e umas jazidas de tungsténio.
    O regime,esse,passou ao lado da narrativa.

  17. 17 raimundo_LULIO

    Há homens que estando vivos já morreram.

  18. 18 Mao

    ARIANE

    Ariane é um navio.
    Tem mastros, velas e bandeira à proa,
    E chegou num dia branco, frio,
    A este rio Tejo de Lisboa.

    Carregado de Sonho, fundeou
    Dentro da claridade destas grades…
    Cisne de todos, que se foi, voltou
    Só para os olhos de quem tem saudades…

    Foram duas fragatas ver quem era
    Um tal milagre assim: era um navio
    Que se balança ali à minha espera
    Entre as gaivotas que se dão no rio.

    Mas eu é que não pude ainda por meus passos
    Sair desta prisão em corpo inteiro,
    E levantar âncora, e cair nos braços
    De Ariane, o veleiro.

    Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Janeiro de 1940

    Miguel Torga

Leave a Reply





Aspirina box

Arquivos mensais

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo