
Daniel de Sá (à esq.) com o realizador brasileiro Douglas Machado. As janelas da casa do Daniel, na esquina, com barras verdes, foram reforçadas contra possíveis atentados à bomba por parte da FLA.
A casa foi ainda protegida a partir da escola à direita, de que se vê o gradeamento.
Num comentário, foi pedido ao Daniel de Sá alguma informação sobre as suas relações com a FLA (Frente de Libertação dos Açores). O Daniel fixa-se num episódio, que foi relatado no jornal Açores, em Outubro de 1975.
Foi queimada uma bandeira da FLA, na Maia. O autocarro da carreira Ponta Delgada - Maia chegou meia hora mais cedo para os passageiros assistirem ao acto. A bandeira fora hasteada às escondidas, durante a noite, numa casa desabitada em frente da igreja por um grupo de socialistas, dos quais faziam parte eu e um colega chamado Francisco Sousa [veio a ser presidente nacional do Sindicato de Professores]. Essa queima fora preparada em minha casa, durante um lauto banquete, com a presença de dois altos dignitários do PS. A bandeira terá sido arrastada pelo chão, pisada, lançada à lixeira, e depois queimada.
DANIEL DE SÁ
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Os factos
Às sete horas da tarde da véspera, Jaime Gama e outro alto dirigente regional do PS estiveram comigo, em casa do Francisco Sousa, a preparar as eleições autárquicas que se aproximavam. Por volta das sete e trinta, aqueles dois dirigentes seguiram para a Achadinha, a 17 km da Maia, com idêntica agenda de trabalho. Cerca das nove horas reuniu-se um grupo de amigos em minha casa, para a despedida de dois deles que iam regressar à universidade em Lisboa. Petiscámos caracóis guisados e chouriço à bombeiro.
No dia seguinte fui informado da existência da bandeira na tal casa. Havia quem a quisesse queimar, e eu disse que não valia a pena. Mas a ideia prevaleceu. À hora marcada, para coincidir de facto com a chegada do autocarro (cujo horário, que ainda se mantém, fora alterado cerca de seis meses antes para meia hora mais cedo), a bandeira foi arriada. Eu fui ver, bem como centenas de pessoas. Como não gosto de ver queimar bandeiras (para mim esse gesto deveria ter ficado apenas como símbolo da revolta contra o nazismo), aconselhei a que não a queimassem, que era preferível arrastá-la pelo chão e deitá-la à lixeira, a cerca de 600 metros de distância. Mas queimaram-na mesmo ali.
Explicação para a alteração radical da verdade
Um senhor que assistiu a tudo, e que era muito trapalhão a falar, foi de propósito à sede do jornal contar o episódio. Foi mal e ridiculamente interpretado, bastando para isso atentar no pormenor de que a viagem do autocarro entre a Ribeira Grande (onde tinha paragem com pausa obrigatória) e a Maia demorava cerca de quarenta minutos, pelo que era impossível chegar meia hora mais cedo. As outras confusões percebem-se facilmente. Atribuir-nos o içar da bandeira foi pura imaginação. Ela fora comprada por um simpatizante da FLA, que pediu a três rapazes do PPD para a içarem. A intenção era mesmo provocar, mas os moços não faziam ideia do significado do acto. O jornal nunca aceitou desmentir a notícia.
Consequências mais graves
Depois de uma reunião do sindicato em Ponta Delgada, o Francisco Sousa e eu, bem como um terceiro “inimigo” da FLA que estava connosco, fomos cercados por várias dezenas de arruaceiros daquele movimento. Tivemos de ficar refugiados no edifício até à chegada da PSP. Fomos levados para as instalações da Polícia em Ponta Delgada, onde uma multidão enfurecida gritou ameaças de morte contra nós. Tentei dialogar com eles, mas a PSP não mo permitiu. Fomos trazidos à Maia por toda a força policial disponível, mais as nossas mulheres, que tinham ido também a Ponta Delgada. Viemos pelo caminho alternativo da Lagoa, porque a FLA barricara a estrada da Ribeira Grande num sítio conhecido como Caldeirão. A situação afigurava-se tão grave que, pela primeira vez, o comandante da PSP autorizou que fossem usadas armas de fogo, se necessário.
Seguiram-se dias de constante pressão e vigilância das nossas casas. Com a queda de Vasco Gonçalves, os ânimos foram acalmando.
DANIEL DE SÁ


Fica a saber a muito pouco. E fico a saber muito pouco. Problema meu, sei bem, mas outrossim por ainda não se ter revelado quase nada desse tempo. Há um véu denso tanto sobre o salazarismo como sobre o período quente pós-Abril. Muita gente, que depois levou vidinhas discretas e burguesas, fez grosso disparate. E muita gente foi criminosa. Ninguém se deu como culpado, ninguém pagou pelo mal que fez. E deu nisto, o Portugal que temos hoje.
Em 1977, dois anos depois desses factos, estive em Ponta Delgada e ainda vi bandeiras separatistas e autocarros pintados de alto a baixo com a sigla da FLA. A saga do separatismo insular pós-25 Abril ainda não foi contada como deve ser, com a descrição detalhada dos factos, os nomes e as ligações políticas dos que estiveram pró e contra. Será um dia? Uma correcção: as primeiras eleições autárquicas realizadas em democracia tiveram lugar em Dezembro de 1976, muito depois da queda do Vasco Gonçalves.
Explicação a Silveira
Eu sei, meu caro, porque até participei nessas primeiras eleições autárquicas. No entanto, lembre-se de que a maior parte das pessoas nada sabia do assunto, sobretudo nas freguesias rurais, e foi preciso começar com muita antecedência a explicar o processo e a pensar em gente capaz de fazer parte das listas.
Valupi
Se arranjares o oitavo volume da História de Portugal, dirigida por José Mattoso, encontras lá o capítulo “Regimes autonómicos dos Açores e da Madeira”, escrito pelo Medeiros Ferreira. Está dito o essencial. Se preferires, e quando eu tiver tempo, resumo-te a história, com conhecimento directo, como participante, e por revelações que me foram feitas por alguns dos responsáveis desse período louco.
QUE GRANDESSÍSSIMA LATA!!!
Daniel, muito obrigado. Se afirmas estar lá o essencial, melhor garantia não pode haver.
Mas eu sinto falta da transmutação da História em histórias. Falta a inscrição, no sentido em que José Gil usou esta expressão e conceito. Olha, falta um documentário que fosse ter contigo, e outros, e colhesse a memória viva desse espaço visto deste tempo.
Daniel:
Fico feliz por ainda se manter nesta casa. Espero, então, saber de si mais histórias do Emanuel, sem querer que isto tenha qualquer coisa de discos pedidos, ora agora a FLA, ora agora Emanuel… Talvez tenha abusado, mas acabei por publicar os seus dois comentários sobre o “poeta perfeito” (são palavras do Álamo) no meu blogue.
Sei que começámos a escrever-nos por uma discórdia, mas sinto-me hoje muito próximo de si por tão bem ter exprimido alguém que me faz muita falta. Foi ainda miúdo que quis ser escritor e, então, só conhecia um, o Emanuel. Peço-lhe desculpa por, ainda que um pouco mais delicadamente, ter juntado a minha voz à turbamulta insultuosa num momento em que talvez estivesse um tanto ou quanto debilitado.
Abusarei mais tarde em publicar também o texto do livro de homenagem… e se não tiver a alegria de o ler aqui, o que se pudesse ter prometido o teria feito, sobre este tão grande nosso eterno amigo, saiba desde já que procurarei trazê-lo mais vezes à minha página. Entretanto fico com vontade de conhecer mais sobre a obra literária do próprio Daniel.
Aceite um abraço!
É o que se chama um independentismo pelo sotaque.
O FV tem de explicar a diferença destes separatismos linguísticos.
Do galego já aprendemos- é por causa do galaico-português.
Agora o dos sotaques é que é todo um mundo por estudar
Tens plena razão, Valupi. Aquilo de que o Medeiros Ferreira fala é o que se viu, o que foi público. Eu conheço o que se passou nos bastidores, porque hoje quase todos os da FLA estão arrependidos de o terem sido, e alguns são meus amigos. Hei-de contar-te isso e a quem mais interessar.
Zazie,
Não sei até que ponto anda estudado o micaelense (porque é nele que estás pensando, ou deverá ser). Suponho que, à parte um léxico local (como há léxicos locais do Minho ao Algarve), o mais interessante é a fonologia do vocalismo.
Não te sei contar o fino da questão, mas um dia mostraram-me como, no micaelense, se dá uma rotação do trapézio que configura o nosso sistema vocálico. Isso basta para nós, os continentais, não entendermos quase nada do micaelense autêntico (sublinho, autêntico, o do falante incontaminado pelo padrão).
Saberá alguém expor-nos bem o que eu desajeitadamente sugiro?
Daniel,
Por este Continente fora (e aqui «Continente» apanha também a Holanda) somos todos ouvidos.
Quer dizer, pelos beiços do Jaime Gama e do “outro ALTO dirigente regional do PS”, algum homem de gravata, suponho, não passaram os caracóis guisados nem o chouriço à bombeiro. Que pena, D. Filomena.
Não sou eu que irei escrever História baseado neste relato de Histórias de bandeirantes e queimadores de bandeiras tocados a pífaros da maçonaria e da opus! E tem razão: os arruaceiros são sempre aqueles que fazem barulho nas ruas mas não os do nosso partido. Os do nosso partido chamam-se arreganhadores da tacha patriótica de classe.
Daniel,
Olhando para esses cabelos brancos quase me fazes chorar pensando que pensas que a influência do nazismo organizado nas coisas más que ainda hoje vão acontecendo por este mundo acabou em 1945. Põe-me esse grão de molho, meu caro.
E peço-te que voltes para começares aprender umas coisas sobre fascismo e nazismo, quando me apanhares bem disposto.
Interessam a muitíssima gente. Mas a história não pode olhar a conveniências, susceptibilidades, amizades e arrependimentos, ou não é história. Se não puder contá-la publicamente para não ferir cordas sensíveis, conte-a a quem a queira estudar. Não se trata de julgar pessoas, actos ou factos com mais de 30 anos. Trata-se de impedir que a conspiração do silêncio abafe a nossa memória colectiva.
Estava a brincar.
Nunca se fala da história do PREC passado nas ilhas e o que se seguiu.
São estas memórias que convem não deixar apagar. E ainda menos branquear.
Mas os papões estão vivos e reproduzem-se que nem coelhos.
Só esse aspecto dá que pensar. Os tabus que ainda existem em 2007 provêm de uma história que foi reescrita com o 25 de Abril.
Ao “Livrorium Proibitorium”
Uma das razões que me têm levado a falar pouco no assunto em público é preciamente o melindre da situação que Silveira refere. No entanto, em texto que vou escrever para satisfazer a compreensível curiosidade de alguns dos comentadores, porei os nomes essenciais para que, se um acaso fizer com que alguém daqui as conheça ou possa chegar à fala com essas pessoas, ouça a sua versão.
Bastará assim?
Já agora, a queima de bandeiras de quem não gostamos soa hoje a uma coisa assim a modos que fundamentalista ou pior. Embora arrastá-las pelo chão e deitá-las ao lixo também não seja propriamente exemplar de tolerância e pedagogia democrática. Se calhar, nem a nossa Constituição é muito democrática e tolerante nesse aspecto. Achando eu na altura a maltósia separatista um bocado execrável, penso hoje que, no fundo, no fundo, eles tinham todo o direito a propagandear as suas ideias e os seus símbolos. Mais, se fosse actualmente caso disso, eu não veria com maus olhos o aparecimento de um ou dois novos países de língua portuguesa.
Também não é conspiração do silêncio.
Parece-me ser mais grave, é julgamento moral e “memórias inventadas” como lhe chamou o José (GL) numa excelente série que iniciou há tempos.
Não temos silêncios, temos questões tabu (um passado do tempo de salazar) e memórias inventadas acerca dele, a par de História reescrita que se seguiu.
Tem toda a razão, Zazie. E aqui me esqueceu de referir já o nome do tal outro alto dirigente regional, que terá tido pena de que os seu beiços não tocassem os caracóis nem o chouriço: Francisco Amâncio de Macedo, actual director da Caixa Agrícola Açoriana.
Só largando a ganga das ideologias.
O problema é largá-las. O excesso ideológico de Portugal é um fenómeno em que se devia pegar.
É um virus que contamina tudo. Ainda serve de muleta em qualquer campo social para onde nos viremos
Não vou poder estar aqui a responder a cada um, mas declaro que concedo inteira razão ao Silveira uma vez mais. Mas a alternativa que tentei arranjar para a queima da bandeira não passou mesmo de uma solução para evitar um acto que me repugna.
Fico satisfeita pelo regresso do Daniel. O tema do separatismo também me interessa. Defendo o direito dos povos à autodeterminação; mas parece-me que açorianos, madeirenses e continentais são um único povo. Parece-me até, pelo menos no que diz respeito aos Açores, que estão mais próximos das tradições portuguesas do que nós, continentais, mais influenciados por outras culturas. Até o vosso sotaque, se calhar, está mais próximo do do português antigo do que o nosso.
Quero lembrar, ao Sr. Silveira, que os outros países de Língua Oficial Portuguesa são antigas colónias, habitadas por outros povos que os portugueses dominaram. Tiveram todo o direito à sua independência. Açorianos e madeirenses são portugueses, descendentes de portugueses como nós e, também, de alguns estrangeiros também como nós. Os meus filhos, por exemplo, são descendentes, pelo lado do pai de alsacianos e ingleses.
Já somos tão poucos… ainda haveríamos de nos dividir mais? Porquê? A mim repugna-me tanto essa ideia como a de alguns nortenhos que dizem que “a sul do Douro” só há mouros. E ao mais sou do Norte.
Acredite: gosto mais dos Açores do que muitos dos que nasceram aí.
Parece que o Aspirina está mais calmo. Gosto disso!
Daniel podes explicar a relacão entre a Bandeira da FLA e a Bandeira do Divino?
Desconhecia que o teu depoimento para o Douglas Machado foi sobre a tua relação com a FLA.
O lançamento oficial do documentário será em novembro na Feira de livros de P.Alegre. Quero estar lá.
Um abraço regressante…e Obrigada. Não perdi a esperança, vais?
Diz SIM…
“Parece que o Aspirina está mais calmo. Gosto disso!”
São frases como estas que nos causam problemas de identidade!
Elisabete e Lélia
Obrigado pelas palavras amigas. Mas, minha Lélia querida, a entrevista com o Douglas foi apenas sobre o nosso amigo Assis Brasil, claro. E a bandeira da FLA não tem nada que ver com o Espírito Santo. O que houve foi o uso abusivo do Hino do Espírito Santo como hino da FLA. Mas isso seria outra história dentro da História.
Menino Luizinho,
Que o diga o nosso “açoriano” Silveira…
Daniel, por favor quando puderes conta-me?
Vou precisar saber…
O fato do uso abusivo do Hino do E.Sto. como hino da Fla não maculou a tradição????
Ela continua viva por onde vá um açoriano neste Divino mundo.
Não respondeste, vais?
Um abraço da regressante…
Fica o poema-oração de Sophia de Mello Breyner: “Onde o que estava lavado se relava para o rito do espanto e do começo. Onde sou a mim mesma devolvida em sal, espuma e concha regressada à praia inicial da minha vida”.
Ponto final!
antes de mais, fez muito bem em não ir embora daniel. há poucas razões para se fugir com o rabo entre as pernas (embora de momento me ocorra nenhuma) e o que acontece num blog não será certamente uma delas.
quanto ao resto, ficamos todos a aguardar desenvolvimentos. pode até ser que a protecção pelo anonimato, dado o mote, venho a trazer mais informação na forma de comentários (que o anonimato também tem vantagens, pois).
por fim não deixa de ter graça a pontuação dos eventos pela comezaina, tão distintamente portuguesa.
Lélia
O povo sabia tão pouco o que era a FLA quanto o que era a autonomia com que o PPD tentou ganhar (e conseguiu) as primeiras eleições. Aquela gente tinha coisas tão parvas que, ao falar perante o cadáver de um rapaz que morrera num acidente de mota por excesso de velocidade, o José de Almeida disse que o seu sangue não tinha sido derramado em vão pelos Açores. O Hino continua imaculado.
Susana, essa da grande comezaina foi invenção do “Açores”,porque nem nós sabíamos da existência da bandeira nem comemos mais, como eu disse, do que caracóis guisados (iguaria introduzida por mim entre os amigos aqui na Maia) e chouriço à bombeiro.
sim, sim, daniel, deveria ter escrito «a pontuação do relato dos eventos».
“Fez muito bem em não se ir embora daniel” (diz susana no seu comentário)
No blog Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, respondendo a um post publicado por nils, escreve Daniel de Sá (voltando a Emanuel Felix): “É a convivência com Homens como o Emanuel que tornam mais difícil aceitar o enxovalho da bestialidade (…)Ele não teria aguentado a décima parte do que eu aguentei. Sem dúvida porque era mais íntegro.” (referindo-se, é claro, ao Aspirina)
Ah,pois era mais íntegro Daniel! Você o disse.
Resposta de nils: “Que ele, se sabe deste diálogo, compreenda que eu tenha voltado à pocilga.” (Aspirina outra vez).
Então, nils, o Aspirina deixou de ser pocilga? É que escreves lá em cima:”Daniel: fico feliz por ainda se manter nesta casa.”
Ó nils, afinal em que é que ficamos!? Gostas de ver o Daniel na pocilga, é isso? Nesse caso, porque razão transcreveste estes textos no teu blog!? Será que tens duas caras? Se calhar, tens…
F. C.
Estou aqui apenas em atenção a uma pessoa: o Fernando Venâncio. Como expliquei no outro comentário, só por ele voltei e só por ele poderei eventualmente aparecer aqui de vez em quando.
E que o grande Emanuel Félix, que sofreu de outros modos a indefinição daqueles tempos, compreenda que é mais importante repor a verdade dos factos do que impor o nosso orgulho.
Caríssima porteira, eu gosto tanto de si que um dia ainda lhe mando um email.
Abraço
FC:
Num contexto que já se havia perdido, o de uma discussão interessante do ponto de vista do html se estava certo ou errado um post do Daniel de Sá, concordei que não e argumentei. Também me solidarizei com o autor do post quando me pareceu justo não dar à coisa aquele aspecto de fim do mundo. Então descobri o Daniel de Sá, que é um poeta assim como o Emanuel, das ilhas, nascendo e vivendo insular e pagando sobre isso não viver os círculos literários de Lisboa e do Porto.
Só li o poema do Guilherme por causa da lápide, mas gostei, e acho que Daniel de Sá, como o Emanuel, tem de grande poeta ter uma alma à altura,porque os há também grandes que a usam pequena, independente do tamanho de que efectivamente a tenham. Não me compete a mim fazer juízos de valor sobre este ou qualquer blogue, mas também não sei se o Daniel de Sá estava a chamar pocilga à caixa de comentários, ao blogue, à Internet ou, vá lá, ao espaço público… O que é certo, é que tendo o Daniel falado de Emanuel, reconheci-o de imediato nas suas palavras e vi que conhecia a obra e a palavra, reconhecendo-o na sua enorme dimensão humana. Por isso, como sempre fiz, torci para ouvir outro amigo falar do poeta.
Não estou à espera que o Daniel vá falar do Emanuel em exclusivo para o Monstruosidades. Estou já certo que teria muitas daquelas divertidas histórias que costumava ouvir da sua boca. E outras. Como esta do “onde é que estavas no 25 de Abril?” que agradou a tanta gente. O Daniel é bem vindo porque melhora a qualidade do aspirina, para mim, e para muitos. Ainda que não lhe tenha lido mais do que um ou dois posts antes do post do Guilherme, sei que é poeta porque tem alma que defende um amigo morto perante a sanha impune dos vivos.Essa é do Emanuel que conheci. Por isso reproduzi os comentários quase na íntegra e testemunhei da sua justiça.
Assuntos do Monstruosidades, discuta-os lá, que também é bem-vindo. Reparará que ao longo dos tempos mantive bastantes polémicas com inúmeras pessoas que não me acharam digno de obter resposta. Eu próprio acabei por me convencer disso e fico muito feliz que tenha pensado o contrário. Agradecia que fosse possível esquecer o Aspirina, o Daniel de Sá e, se assim o entender o Emanuel, e após uma leitura atenta do meu blogue encontrasse outro aspecto em que lhe apetecesse malhar, o que não será difícil porque é muito vazio de ideias e suficientemente mal escrito. Não tenho por hábito parasitar caixas de comentários ou tentar ganhar notoriedade através de outros blogues e muit menos através de loas, a mortos ou vivos, familiares ou desconhecidos. Espero compreenda que não estou disponível para grandes debates sobre esta matéria.
PS: Não posso deixar de agradecer ao Daniel de Sá ter-se considerado destinatário da sua pergunta.
Menino, não se incomode por tão pouco…
Espero ser esta a última explicação que tenho de dar sobre o assunto. É que o comentário de NILS resume, a certa altura, a condição de insular e uma das visões que no Continente se tem de ser ilhéu. Eu sei que, não tendo os portugueses continentais outras referências sobre os portugueses insulares que não sejam as da imagem dos seus políticos ou das notícias de TV, dificilmente nos imaginarão grande coisa, ou sequer coisa normal. Curiosamente, nós por cá não nos ficamos por visão tão redutora, embora haja também a nível popular quem pense que os continentais não são recomendáveis. Imaginem o que seria julgar os continentais pela luta entre Luís Filipe Meneses e Luís Marques Mendes, ou pelos crimes que fazem a abertura dos telejornais.
Felimente há mais, muito mais País do que que isso. Para quem cá vem, ou para quem tenta saber alguma coisa a sério destas ilhas e desta gente, há com frequência surpresas muito agradáveis. O Emanuel Félix, por exemplo, teria sido, e pode continuar a ser, uma das maiores. Mas eu sei que para lá do meridiano de Moscavide ou do paralelo de Odivelas, com o Tejo por fronteira a Sul, não há mais mundo para Lisboa ouvir. Por isso, quando alguém se queixa do esquecimento dos escritores e artistas açorianos, eu lembro sempre que o fenómeno é este, e não o de um desprezo concreto contra os açorianos.
Quanto à maneira dúbia como possa ter-me comportado aqui, pelo menos aparentemente, digo que sou capaz de arriscar a honra pela honra de um amigo. Foi esse risco que assumi pela honra do Fernando Venâncio. E é melhor ninguém arriscar mais alguma piada de mau gosto quanto ao Emanuel Félix, para que não lhe caia um ridiculo enorme em cima. Leiam-no, e digam depois se conhecem melhor em Língua Portuguesa.
Ah, e por último, mas não de somenos importância: o Antero Gonçalves agradeceu-me o “post” da discórdia ignóbil, e aconselhou-me a não dar importância a quem a não merece.