Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Quase nada foi dito sobre o discurso do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg. A totalidade das minhas leituras revela articulistas a tocar as problemáticas pela rama ou a saltar para fora do texto com velocidades superiores à da luz. E ninguém os poderá censurar, posto que a alocução é intempestiva, dirige-se a intelectos que não sejam só deste tempo; isto é, convoca inteligências de compreensão lenta.

Nos planos da dinâmica paranóica dos meios de comunicação e das ocultas estratégias políticas, o assunto está esgotado, regressando no próximo round. Esticou-se a “reacção islâmica” até parecer o que não foi, saboreou-se o embaraço do Vaticano, cresceu a impaciência das elites culturais perante o fanatismo religioso e ensaiaram-se umas chicuelinas onde se toureou a Razão e nela se espetaram uns ferros com fé. Não foi pouco, mas pouco se aproveita.


A primeira impressão que o discurso condensa é a de confusão. Parece um discurso escrito à pressa, marcado pela ocasião algo informal, permitindo-se devaneios subjectivistas em roupagens de catecismo. É, pois, um texto levezinho, sem dificuldades hermenêuticas por apenas se limitar a repetir fórmulas clássicas e resenhas históricas. Poderia ser uma palestra para alunos no final do nosso Secundário; se o Secundário que é nosso cumprisse os seus programas quanto a conteúdos assimilados e competências desenvolvidas. Porém, as questões que verte são absolutamente estranhas à contemporaneidade ocidental. Daí, ninguém falar delas, seja porque não saberiam o que dizer, seja porque nem sequer são capazes de as detectar.

Comecemos por afirmar o óbvio: Bento XVI fez a 12 de Setembro o que muitos outros tinham feito no dia anterior. E a sua mensagem é à prova de estúpidos, dizendo do islão o que Maomé não disse do toucinho — nomeadamente, que há uma conivência entre clérigos e responsáveis políticos muçulmanos que favorece o terrorismo de bandeira islâmica. Para isto poder ser dito de modo a que todo o Mundo oiça e, no acto, não se passar por choné, foi preciso recuar até 1391. Mas resultou.

De seguida, reconheçamos que essa parte do discurso é meramente emocional, um grito de raiva contra a monstruosidade do terrorismo — ímpeto que o leva a golpes baixos (ou certeiros, escolha livre) no islamismo, como o de historicizar Maomé (ou seja, secularizá-lo) e (no que aparece como delicioso tour de force) sugerir que o islamismo é uma idolatria. Depois deste ajuste de contas, rapidamente a pena de Bento se dirige a um problema bem maior, para a Igreja, do que o terrorismo: a falência da religião.

A religião está falida, e já há vários séculos. Porém, as diferentes empresas nesse mercado continuam a fornecer os seus produtos e serviços, vivendo do crédito, das esmolas, do aluguer de espaços e paramentos. Bento XVI discursa para uma assembleia de futuros desempregados e alimenta-os com promessas de retoma. A sua argumentação, contudo, é uma espectacular exibição da impotência da religião para pensar a Ciência. E não compreendendo a Ciência, a religião não consegue conhecer a Humanidade.

Tão vasta é esta matéria, tão insuficiente a minha capacidade e a nossa paciência, que me limitarei a uma ultra-síntese:

- A religião abdicou de tentar encontrar Deus na matemática quando destruiu a tradição pitagórica e perseguiu os esoterismos, o que lhe reduziu tragicamente a amplitude racional. Como consequência, perdeu o contacto com a evolução da Razão.
- A religião sente-se acossada pelas Ciências Humanas, também aqui abdicando do seu contributo por não querer meter o delator dentro de casa.
- A religião reclama um território de exclusividade racional, aquele relativo à ética e à escatologia, mas não tem como legitimar as suas propostas por se recusar à inquirição científica.

- Em conclusão, a religião constitui-se como um discurso esquizofrénico. Subsiste porque também a sociedade é composta por variadas dimensões esquizofrénicas que operam adentro de uma mecânica de equilíbrios sistémicos. Mas o seu prazo de validade está a acabar e será, em futuro incerto, substituída integralmente pela espiritualidade.

Dito isto, só os imbecis não sabem que as religiões conservam tesouros antropológicos que importa salvar; e não me refiro às pratas. Sim, as religiões são uma espécie ameaçada e, por isso, precisamos de as pôr na reserva. A todas.


  1. 1 pepe

    Se bem que não ache que o post faça uma análise interessante do discurso do papa e as conclusões seja bastante apressadas para meu gosto, fez-me lembrar a seguinte frase lida ainda ontem:
    It is not clear why the change from polytheism to monotheism should be assumed to be a self-evidently progressive improvement

    in Richard Dawkins (The God delusion)

  2. 2 Valupi

    Sim, sim, conclusões ultra-apressadas, sob pena de o post se transformar numa tese de doutoramento.

    Quanto à citação de Dawkins, dá muito que pensar. E é por aí que se deve ir, pelo pensamento.

  3. 3 Joao leal

    A Religião Católica está falida. Todas as outras confissões cristãs e as restantes religiões do mundo(as professadas pela esmagadora maioria das pessoas) vão de vento em popa. A questão é se a ciência, que derrotou o catolicismo na Europa e não consegue derrotar ,por exemplo,o protestantismo nos estados unidos, é relevante para o resto da humanidade como sistema lógico. Não me parece.E a si?

  4. 4 barca

    João Leal parece-me ser importante como sistema lógico para a ideia de valores. Veja-se o exemplo da nova ascensão do criacionismo nos EUA. No entanto parece-me que falamos de um país (EUA) bem mais conservador do que a maioria dos países da Europa. E talvez por essa influência religiosa.

  5. 5 Valupi

    João

    Todas as religiões, sem excepção, estão falidas. Persistem com variações geográficas por haver diferente ritmo de desenvolvimento económico e diferentes regimes políticos no Mundo; mas, quanto à sua relevância histórica, já nada há a esperar delas.

    Pura e simplesmente, a religião não é compatível com a ciência. A religião corresponde a um momento evolutivo da ciência, sim, mas a sua essência só sobrevive na forma espiritual. Muito há para dizer neste ponto, veremos se a discussão lá chega.

    Quanto aos EUA, há que separar o trigo do joio e, ainda, não confundir a árvore com a floresta. Estes clichés para dizer o óbvio: nos EUA faz-se alguma da melhor ciência do Mundo, tanto em qualidade como em quantidade. Haja juizinho quando se dá importância aos cães que ladram.

    O Mundo é, hoje em dia, todo ele uma consequência da ciência. Isto tem um lado desolador (como quando vemos tribos, até há poucas décadas isoladas, a verem televisão por satélite com bonés de baseball, por exemplo), e tem um lado salvífico, onde as descobertas científicas e tecnológicas chegam a todas as pessoas (isto, potencialmente, pois a questão da justiça da distribuição da riqueza é uma outra estória).

    Qual o país que abdica da ciência? O religioso Irão enriquece urânio com orações? A sapiente índia faz investigação em computação com fuminhos? Os confucianos chineses estão a olhar para os seus antepassados ou para os seus descendentes quando pensam em colonizar a Lua? E um etecetera do tamanho das nações todas da Terra.

    Barca

    Só por desatenção é que se pode considerar os EUA um país mais conservador do que a maioria dos países da Europa. Por exemplo, Portugal é muitíssimo mais conservador.

  6. 6 Joao leal

    Valupi,

    O que diz faz sentido. A minha dificuldade, assumo, é em perceber a amplitude do seu discurso. Não consigo deixar de pensar que é demasiado abstracto. Substituir a religião pela ciência? O abstracto pelo abstracto? Um tipo de fé por um tipo de fé? Porquê? Parece-me que fala de humanidade mas não de individuos e isso, assumo outra vez, e é uma limitação intelectual minha, é uma dificuldade para mim. Não o incomodo mais, obrigado pela disponibilidade da explicação.

  7. 7 Valupi

    João

    Não se trata de antecipar uma substituição da religião pela ciência, antes de constatar a sua incompatibilidade. Se há uma não pode haver a outra (na mesma esfera de influência; isto é, com o mesmo estatuto político).

    O que irá substituir a religião é a espiritualidade, numa continuidade lógica e de essência. Repare-se no carácter colectivo da religião e na natureza individual da espiritualidade, e constate-se como as democracias correspondem a agregados de indivíduos tendencialmente díspares entre si.

    A ciência respira liberdade, a religião oferece identidade. São registos diferentes, embora com variadas ligações históricas e conceptuais.

    Obrigado eu, nós, pela participação.

  8. 8 barca

    Valupi,

    Sem dúvida que Portugal é conservador. E, sem dúvida, que os EUA são um pais de contrastes.
    Mas só uma desatenção pode afirmar o que sugeriu… Pois:
    - Nos EUA ensina-se, em muitas escolas, que a origem do Homem provém de Deus, proibindo-se a teoria do “big bang”;
    - Nos EUA tem-se incentivado o ensino caseiro com as devidas explicações dos padres protestantes;
    - Existe uma imensa pressão (ou lobby) na comunicação social que, infelizmente, já destruiu muitas carreiras. (Repare que muitos jornalistas não arranjam emprego por terem criticado o protestantismo ou por ter tido uma conduta «inaceitável»…
    Poderia dar-lhe muitos mais exemplos mas acho não ser necessário.
    Sem dúvida que Portugal é conservador mas é um conservador rural. Aqui, nos EUA é mais virulento…
    Sabe, Valupi, o EUA são as províncias e não as cidades que se vê na Tv…

    (Mas o que sei eu? Provavelmente o Valupi tem razão…)

  9. 9 Valupi

    Barca

    Nos EUA, porque são uma sociedade que se rege pelo direito de liberdade de expressão, há lugar para se dizer muito disparate ou, simplesmente, para se viver segundo modelos de crença alternativos aos da ciência (sim, porque a ciência também tem as suas crenças, embora essa seja uma outra história). Mas o que se pode dizer com absoluta segurança é que a fatia da ruralidade americana que se revela retrógrada não representa a América, apenas faz parte dela.

    Sobre o Big Bang, e apenas como curiosidade, estamos a falar de um evento que se imagina ter acontecido; é só isso. Ninguém pode provar que seja a explicação definitiva para o aparecimento do universo.

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