Jornalismo esquizóide

Não tenho memória de ter lido algo que se pareça com isto. Vem assinado por Ricardo Lourenço, jornalista do Expresso. É revelador do desnorte completo por que passa a nossa imprensa, outrora com alguma vergonha na carteira. Vejamos:

O senador John McCain tinha uma bigorna presa a cada perna. De um lado a maior crise financeira desde o crash de 1929 (ambos candidatos concordam com a classificação). Do outro, oito anos de política externa republicana (tema do debate), coroados com duas guerras – Afeganistão e Iraque – sem um fim à vista. As expectativas quanto à sua prestação eram, portanto, muito baixas.

É assim que começa a peça, invertendo na perfeição a realidade. Todos sabiam que as temáticas da Defesa e Relações Internacionais eram aquelas onde McCain poderia ter melhor prestação. É ele que não se cansa de falar em heroísmo, experiência e maturidade, puxando o lustro ao currículo e valorizando a vetusta idade. As temáticas da economia eram aquelas onde McCain não teria qualquer possibilidade de escapar ao ataque mais feroz e consequente de Obama. Assim, ter a oportunidade de marcar pontos passando ao lado do descalabro financeiro, e isto quando a sua vice voltou ao estado de besta após uns dias a iludir os otários que a acharam bestial, eis algo que não se podia falhar. Pois o responsável editorial do Expresso para os assuntos internacionais não sabia disto.

O resto do texto segue pelo mesmo delirante caminho, chegando ao ponto de usar expressões subjectivistas palermas. Há aqui um aspecto enigmático, tamanha é a distorção. Veja-se este passo:

No fim do debate, alguns comentadores norte-americanos parodiavam com o facto do senador afro-americano ter perdido, a partir de certa altura, a compostura, passando a tratar o adversário, simplesmente, como… John.

O jornalista nem se deu ao trabalho de identificar o canal onde estavam os citados comentadores, mas é muito provável que estivesse a referir-se à CNN. De facto, uma comentadora, pró-McCain, fez esse reparo, o qual deu origem a risos vários. Só que os risos não eram para Obama, antes para a hipótese da comentadora. Na verdade, o que Obama conseguiu com esse simples truque foi demonstrar que não se atemorizava com o rival, antes o tratava com proximidade e afecto. E mais: foi Obama quem correspondeu ao pedido do moderador para que os candidatos falassem directamente um com o outro, enquanto McCain nunca conseguiu falar directamente para Obama e foi de uma rudeza e embaraço surpreendentes.

Mas há aqui um grande enigma. Este Ricardo Lourenço, se teve tempo para deturpar o que os olhinhos lhe serviam no cérebro na fase dos comentários, também teve oportunidade de ver os resultados das sondagens aparecidos poucos minutos depois do debate terminar; onde todas elas – todas! – davam a vitória a Obama em qualquer dos segmentos etários (incluindo os velhinhos). Como é que, então, se consegue escrever tamanha aberração no Expresso neste nível de responsabilidade jornalística?

Não temos imprensa de referência, isso é indubitável. Resta saber se temos jornalistas verdadeiros que cheguem para criar um projecto novo, ou renovar uma marca antiga. Faz tanta falta uma imprensa inteligente e corajosa como um sistema partidário livre e activo. E sempre fará.

13 thoughts on “Jornalismo esquizóide”

  1. O jornalismo português está morto. O Expresso já não atinge sequer o nível do fogo fátuo. Senhor Balsemão, ponha tudo na rua e recomece. Ou também já está morto?

  2. O meu entusiasmo em participar no Blog está também na razão directa do facto de eu, portador da carteira profissional nº 4149, estar desempregado (desde 2006) no ano em que devia festejar 30 anos de jornalismo. Estou confinado à Revista Ler onde assino um trabalho mensal. Se não fosse assim ficaria a poder pensar que não há lugar para mim no jornalismo actual. É muito complicado.

  3. Zé,

    Por não vislumbrar que mais dizer ao ler-te neste surpreendente comentário, lembrei-me de alguém que talvez te possa ajudar. Vai à redacção d’A Corneta do Diabo’ e pergunta por Palma Cavalão, é ele quem manda. O director. Quem sabe? Diz-lhe que me conheces, o que não vai ajudar, mas ele talvez. Digo-te com amizade e com um sorriso que não vejo quem mais pudesse contratar prosa deste género, por mais justa à verdade que seja e por mais razoável que te possa parecer deixá-la sair aqui, por exemplo. Repito: digo-to com amizade. E sem ter de gritar o número da minha carteira profissional, parecida com a tua.

    Abraço-te na mesma, sempre. Apenas pouco solidário atendendo à forma, na circunstância.

  4. upi,
    diz-me, sopra no meu ouvido, que estou confuso e preocupado: porque te maças a embaçar a evidência, provada na astúcia por este republicano Lourenço, de que os Dálmatas são cães pretos com largas manchas brancas?

  5. Nik, que terá acontecido ao sonho de Balsemão? Talvez a idade não perdoe, mesmo (enfim, haverá excepções).
    __

    jcfrancisco, desejo-te melhor sorte.
    __

    Rui, sábias palavras. Como é teu apanágio.

  6. O Público é uma trampa mas prefiro o Aspirina. E há animais de linguas muito mais compridas:

    “Senator Obama, did you smoke crack cocaine in the back of a Five Star Limo & in a room at the Gurnee, IL Comfort Inn and Suites on November 6 & 7, 1999 while receiving oral sex from Larry Sinclair on both of those dates?”

    Mais aqui, umas nojentas, outras racistas, tudo dos animais:

    http://larrysinclair-0926.blogspot.com/2008/09/hey-obots-get-your-facts-straight-even.html

  7. rvn, o teu cão já apareceu? E voltou virgem?

    Eu tive uma gata preta que, ao primeiro cio, fugiu do segundo andar para a rua cheia de carros e eléctricos. Passados três dias voltou pelo seu pé, arrependida, com o rabo esfacelado e uma carecada de meio palmo no lombo. Dois meses depois, já recomposta do acidente de viação, plantou-me oito gatitos lá em casa.

  8. nik,
    voltou logo, claro, tão virgem como quando saiu, ou seja: pouco.
    mas não me trouxe cigarros, o sacaninha.
    agora diz-me, se ele daqui por dois meses parir oito gatitos, ou mesmo sete, achas que é de ir ao Goucha ou à Fátima Lopes para contar a história?

  9. È pá essa do Palma Cavalão não estava à espera… assim de repente mas tem a ver com as Farpas, tipo de jornalismo que eu muito gosto. Não me lamentei apenas dei as coordenadas do tempo actual. Mas obrigado pela atenção dispensada e pelos votos de boa sorte!

  10. “Faz tanta falta uma imprensa inteligente e corajosa como um sistema partidário livre e activo”.

    Ó Valupi, está a escapar qualquer coisa ao meu entendimento, ou esta malta anda mesmo noutra onda?

    O tema não é jornalismo, coragem,inteligência, liberdade e activismo?

    O que temos aqui? Meias palavras, ou algo mais grave?

  11. Meus Caros :
    Desde a “reportagem” no Público sobre o espetaculo da Amy Winehouse , no jornalismo português vale tudo mesmo tirar olhos !

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.