Da crispação à crespação

Miguel Esteves Cardoso escreveu um texto (o Câmara Corporativa fez a transcrição, mas também o nosso amigo Joao) onde aparece esta súmula histórica:

Sócrates, ao reagir como cidadão e abster-se das condescendências e pseudo-aristocracias da democracia, presta um serviço e rompe com uma tradição.

Para contemplarmos a magnitude desta alteração na simbólica do Poder, levada a cabo sem um momento de vacilação até esta altura em que escrevo, lembremos que a oposição aparece invariavelmente crispada quando discursa ou assiste. Este comportamento é tribal, tão mais tribal quanto a inexperiência, a cegueira ideológica e a hipocrisia dos políticos em causa. Por isso – e não só em Portugal, evidentemente – os debates políticos obedecem a códigos tácitos onde se representa o adversário como inimigo, não como parceiro de solução. Esta lógica de conquista e ocupação do espaço governativo por exclusão, num qualquer futuro, será vista como arcaica. Corresponde a um absurdo económico, pois esbanja inutilmente recursos intelectuais ao não procurar consensos. Mas adiante.

O País optou por dar 17% de votos a duas organizações que apenas suportam o actual modelo democrático para efeitos de subsistência e captação de recursos estatais. Para o resto, BE e PCP opõem-se ao sistema que nos leva a estar na União Europeia e a todos os compromissos, e oportunidades, daí decorrentes. Assim, um Governo do PCP ou do BE, a sós ou coligados, levaria a alterações profundas da economia e sociedade. Se para melhor ou pior, não interessa a este texto. Importa é realçar que a crispação destes dois partidos é sistémica, para além de tribal. Eles querem um mundo que não é, nos seus fundamentos políticos e axiológicos, este onde vão a votos.

A direita quer este mundo, tal como está nos seus fundamentos, mas com uma alteração: ser ela o Poder. Ou melhor: ser ela a ter ainda mais poder. Porque a direita tem poder mesmo fora do Poder. Ela tem o capital, as empresas, os quadros, o conhecimento. Não é por acaso que PSD e CDS estão cheios de advogados, pois ter riqueza implica ter chatices legais. Há muita papelada para assinar, muito imposto a que fugir, muito negócio para fazer. Mas também, como estamos a ver no caso Face Oculta, muita manobra jurídica para utilizar em ataques políticos. A crispação nestes partidos é encenada, não passa da usual retórica que lhes sai lúdica e psitacista. A direita ocupa a tribuna desde o berço, encara como pertencendo à ordem das coisas a manutenção dos privilégios. É o que significa ser conservador: conservar o que se tem a mais do que os outros, mais o que der para acumular. E, no caso da direita portuguesa, é muito.

Sócrates distingue-se dos anteriores primeiros-ministros em vários aspectos de atitude, sendo que um dos principais é o da fogosa entrega ao duelo. É o que vemos nas entrevistas com os jornalistas, nos debates de campanha e nas sessões parlamentares. Invariavelmente, Sócrates não apenas ganha, mas consegue calar o oponente, atingindo-o em pontos vitais da sua retórica. Tanto faz que lhe apareça à frente um Louçã ou um Portas, um Santana ou um Pacheco, comem todos pela medida grande. Ora, esta atitude até seria tolerada caso Sócrates fosse cúmplice dos interesses das corporações e dos capitalistas. Como sabemos, e a cada dia o ficamos a saber melhor, não o foi.

Quando Cavaco, em Junho, lançou a suspeita de que o negócio da PT-TVI fazia parte de uma conspiração do Governo que justificava a intervenção alarmista do Presidente da República, foi atravessado o Rubicão. Na prática, tratava-se de um ataque cobarde, posto que ilegítimo, lançando a bomba para o espaço público e não tendo remorso pelos civis e inocentes atingidos. Logo de seguida, algo idêntico aconteceu com a inventona de Belém, só diferente na escala. A violação do segredo de justiça segue o mesmo método e objectivos, ocorrendo exclusivamente para alvos do PS. Assim, o que Crespo fez, ao bufar alegadas conversas que não testemunhou, em nada se diferencia deste modus faciendi que o cavaquismo consagrou. Trata-se de atacar na praça pública de forma a que o adversário não tenha como se defender, pois os ataques já não obedecem a nenhum código de guerra, são puros actos terroristas.

Crespo representa na perfeição esta violência. Mas quando vozes como a de Miguel Esteves Cardoso começam a fazer-se ouvir, temos a justificada esperança de que a pulhice não irá triunfar.

10 thoughts on “Da crispação à crespação”

  1. O Miguel Esteves Cardoso conhecia-o da noite da má-língua. Não gostava do programa, acabei por o deixar de ver. De há uns tempos para cá tenho lido as suas crónicas numa revista do JN e no blogue do Jumento. Gosto da maneira como aborda os temas, ainda hoje li nessa revista do JN, que o Sporting de Braga merecia e devia de ser campeão Nacional de futebol. Na boca de um Benfiquista é qualquer coisa. Nas crónicas do Jumento estou sempre de acordo, tanto quando ataca como defende a minha área ideológica.
    Cronistas assim é que me fazem perder algum tempo com a sua maneira de abordar vários temas.

  2. Valupi,
    Nenhum português suporta “ser menos” que o vizinho: «quem és tu pá? julgas que és mais do que eu? Se fôr sobre questão social ou de riqueza: «então ele tem e eu não posso ter?» Este é o caldo cultural onde se movimenta o povão urbano pouco letrado e até muito povo letrado mas pouco bem formado.
    Desta maioria pouco preparada e preconceitoosa sai a maioria dos políticos, pelo menos até ao nível de Municípios, e mesmo muitos em lugares mais elevados foram educados no caldo cultural do “despique social” com o vizinho ou conhecido.
    Perante tal quadro sócio-cultural, se alguém sobressai, logo a mediocridade geral tenta desacreditar quem se revelar acima da merediania: «quém pensa ele que é?». No caso Sócrates junta-se a esta “inveja de pigmeu” (igualar por baixo), o facto de pela 1ª vez um PM não obedecer aos barões do poder económico. Veja-se que os ataques mais antigos, depois dos elogios a princípio, vieram do Belmiro, via “público”, pela não cedência à negociata da PT. Com Sócrates o Belmiro não conseguiu ter no governo 4 (quatro) amigos para um qualquer ditador pôr na rua sem o seu consentimento.

  3. Socrates e de longe o melhor PM desde Abril de 74.E completamente inamovivel pela oposicao no combate politico democratico.A direita sabe disso e nos ultimos cinco anos com a ajuda prestimosa da esquerda radical e de Cavaco desenvolveu a maior campanha difamatoria contra um politico que ha memoria em Portugal.Espanto dos espantos Socrates conseguiu sobreviver a todas as calunias e a maior recessao internacional dos ultimos 80 anos.E continua a sobreviver pois hoje e divulgada uma sondagem em plena crise das calunias das escutas em que aumenta a intencao de voto para 38,1%.A oposicao quer derrubar Socrates mas tem medo de apresentar uma mocao de censura pois sabe que ele se candidata de novo e ganha claramente.Comeca entao a sugerir que o PS tem gente boa e que nao pode ter um lider com falta de “caracter”.Dividir o PS no apoio a Socrates.Esta e a estrategia que vai ser seguida cada vez mais para enfraquece-lo.Se o PS se mantiver unido, os caluniadores continuarao a ser derrotados como foram nos utimos cinco anos.Esperemos que a candidatura de Manuel Alegre nao venha a produzir a fractura no PS que a oposicao ate hoje nao conseguiu.

  4. É isso mesmo, Mário. Ainda ontem, na SIC, a dupla Pacheco Pereira/Lobo Xavier tornou bem visível essa estratégia. Como perceberam que Sócrates é imbatível, apostam tudo numa divisão interna do PS que leve à substituição de Sócrates por adversário mais fraco. E temo que esta estratégia acabe por resultar. Nas imagens televisivas que vi sobre o debate do orçamento na AR, notei que Sócrates estava com ar abatido. E o semblante dos restantes ministros tambem não me pareceu melhor. A ver vamos…

  5. Grande M. E. C.! E grande texto do Valupi, também. As vitórias sujas no imediato pagam-se sempre com juros elevados, no médio e sobretudo longo prazo. O problema é que Portugal e a nossa Democracia já não aguentam mais uma vitória suja, pois sem Estado de Direito os prazos justos prescrevem indefinidamente e todo o bem tem de voltar a fazer-se por linhas tortas! É isso o que a canalha infame pretende, lançar de novo Portugal nas profundezas do atraso civilizacional, ou na podridão da pasmaceira. Mas espero e estou convencido de que Sócrates, mais uma vez, resistirá. Para mal dos inimigos da Liberdade, da Justiça, do Progresso, enfim, da Pátria.

  6. Ouvindo ontem Pacheco Pereira e Lobo Xavier naquela “dupla” do circo,
    lembrei-me duma célebre frase de Salvador Allende…”a direita quando perde democraticamente as eleições, esquece-se logo das regras da democracia e dos principios do estado de direito e começa logo é a preparar um qualquer golpe putchista”….

  7. Mário (com letra maiuscula)…
    Apenas uma suspeita: os crispados pretendem criar um cenário identico àquele em que sampaio demitiu Santana. Que o PS afaste Socrates e nomeie um António qualquer. Tal como santana não tendo sido «eleito» Cavaco pode demiti-lo sob qualquer pretexo. Cavaco anda mesmo à procura de uma forma de demitir Sócrates. Como está dificil de o levar a inqueritos como indiciado ou arguido, porque o PGR e o presidente do Supremo não fizeram o jeito, há convencer os socialistas que têm lá gente muito mais capaz e sobretudo limpinha. Qualquer palerma que vá na cantiga será demitido em tres tempos e deixará o PS de rastos. Pessoalmente estou convencido, pelo que tenho ouvido de alguns socialistas como Ana Gomes e outros mais de base, que o PS ~já está partido ao meio e quem elegeu Sócrates e continua a dar-lhe confiasnça é o eleitorado anónimo. Muitos PS já se bandearam.

  8. Se houvesse censura (com já houve), não dirias as barbaridades que dizes ó Crespo.
    Eu gostaria muito de conseguir perceber quando é que estás a relatar factos e quando é que estás a dar opinião, é que tu não dizes, e estou cá desconfiado que é de propósito, dá-te aquela margem de segurança onde tanto gostas de manobrar.
    És uma vergonha e estás a levar muita gente como eu a não comprar um único jornal. Eu se fosse jornalista, dava-te das boas. A mim não me envergonharias.
    O único, que acredito se poderia queixar de falta de liberdade de expressão é o PM, com culpa ou sem culpa.

  9. Esta parábola antiga sobre o espaço mediático e a ditadura das audiências continua bem actual.

    Os pontos continuam lá todos e mantêm a mesma distância ao foco : )

    Essa monotonia não causa só fastio, enjoa.

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