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Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Na penúltima Quadratura, António Lobo Xavier disse que nunca comenta escutas e informações obtidas ilegalmente, ou sob as quais permaneça essa dúvida. É uma atitude que nem sequer carecia de nota ou realce, muito menos de explicação, não fosse existir um fenómeno de pulhice generalizada na luta política, o qual gerou as tipologias que, por utilidade semântica, designo como direita ranhosa e esquerda imbecil; ou seja, uma direita que trai o seu ideal de liberdade fundado na verdade; uma esquerda que trai o seu ideal de verdade fundado na liberdade. O resultado é um ambiente onde a eleição para um cargo político implica uma permanente suspeição – seguida de calúnias e julgamentos públicos na primeira ocasião – que não mais abandonará essa pessoa, mesmo que ela abandone a política. Na actualidade, o bombo da festa chama-se Jorge Coelho, pelos vistos um perigoso criminoso internacional que nem a Interpol consegue apanhar.

Ranhosos e imbecis, incapazes de obter apoio popular, barricaram-se num puritanismo retórico em ordem a intoxicar o debate e impedir que o governante convença pela visão e obra. Eles não querem ser escolhidos pelas suas propostas alternativas, querem é ser escolhidos por falta de alternativa. Então, o caminho é só um: denegrir, conspurcar, envenenar, armadilhar, conspirar. Nestes tempos de PSD escavacado, até os próprios fundamentos do Estado de direito são alvo de cargas explosivas – ouvindo-se o engrossar do coro daqueles que exigem a violação das leis e dos direitos para perseguirem e lincharem suspeitos. Vale tudo.

Assim, declarar indigno o aproveitamento político da corrupção nascida no seio da Justiça, ou da comunicação social, foi um refrigério precioso face à selvajaria promovida pela oposição. Infelizmente, esta casa varrida e bem arranjada – que honra a ética, o civismo e a direita – durou apenas uma semana. E o demónio ranhoso voltou com sete espíritos bem piores do que ele.

Na última edição, Xavier caiu num poço profundo, cujas paredes lodosas não tornarão fácil, quiçá possível, a sua escalada. Foi quando declarou duvidar do carácter do Primeiro-Ministro e, também, do carácter do indivíduo José Sócrates. O evento que lhe suscitou o ataque de cepticismo caracterológico reside na declaração de Sócrates, a respeito do negócio PT-TVI, em que distingue entre o plano da sua responsabilidade política e a esfera das suas informações privadas. Esta declaração, cruzada com os boatos acerca das escutas com Vara, estabelece uma incontornável contradição com a negação de conhecimento em Junho. Como é que se resolve o suposto dilema? Bom, efectivamente, recorrendo ao carácter – mas não ao de Sócrates.

Sócrates, no Parlamento, disse algo que foi confirmado nos dias seguintes pelos responsáveis da PT, e o qual ninguém conseguiu desmentir: que a PT nem sequer tinha discutido a possibilidade a nível da Administração, não podendo, pois, ter informado o Governo fosse do que fosse. O Primeiro-Ministro, ou qualquer outro Ministro, não sabia, e não tinha de saber, se havia um certo negócio em desenvolvimento, e qual a fase desse processo ao tempo. Isto é, a PT esclareceu que o Governo não faz a gestão da PT, não interfere na escolha e preparação dos seus negócios, embora os possa invalidar por razões excepcionais. Mas disse mais: que o negócio era legítimo, tanto no plano estratégico da empresa como no da oportunidade do mercado. E ainda mais: que a PT não era conhecida por interferir politicamente na comunicação social de modo a condicionar a actividade jornalística, e que não estava nos seus planos começar a ser. E ainda se disse mais um bocadinho: que o negócio poderia voltar depois das eleições, após a tempestade ter passado. Deste quadro resultou que mais ninguém perdeu tempo com a declaração de Sócrates, dado que o âmbito político e governativo estava a salvo de suspeitas – e o PSD já tinha obtido o seu proveito difamatório.

Voltar ao ataque 5 meses depois, aproveitando a mistela das escutas do Face Oculta, dos boatos e da declaração de Sócrates, que pretende obter? Lobo Xavier, devido à influência tóxica do Pacheco, foi apanhado na tentação de fazer um brilharete: repetir aqueles que sobrepõem o seu ódio a Sócrates à decência própria. Segundo a lógica da sua acusação, a de que Sócrates mentiu quando afirmou desconhecer o negócio, o que está em causa pode ser aferido pelas próprias gravações de conversas particulares, as quais foram obtidas imoral e ilegalmente. Esta é uma espectacular contradição com os princípios que tinha publicitado uma semana antes, contudo está longe de ser a consequência mais grave da sua posição. É que se o António aplicar a outras figuras da classe política esta mesma confusão entre a responsabilidade do governante e as informações privadas de que disponha, este estapafúrdio e aberrante fundamentalismo da transparência será o fim da própria deontologia política. A responsabilidade deixará de ser concretizada pelos actos, passará a ser avaliada pelo conteúdo mental de cada agente. E, então, sim, valerá a pena espiar todos os políticos como medida preventiva. Sem escutas nunca poderemos saber onde está a verdade, esta a única verdade. Talvez a caça às bruxas não se fique pelas informações que eventualmente se possuam, um dia até poderemos ter o Lobo Xavier a revelar que possui uma máquina que detecta a intenção dos políticos, já não sendo preciso esperar que eles as verbalizem.

Assim que largou a calúnia, e perante a reacção de António Costa, Xavier caiu em si. Tinha passado o Rubicão, mas o exército que chefiava era constituído por ele próprio. Pacheco começou por fugir do terreno, depois simulou que o acompanhava, mas ficou na outra margem. O representante das cores do CDS estava só, e sabia-o. Passou o resto do programa numa triste e manhosa fuga para o lado. Chegou a dizer que não duvidava do carácter de António Costa, como se demonstrava por continuar a falar com ele; o que sugere que talvez venha a deixar de falar com Sócrates. Eis a minha proposta: que António Lobo Xavier seja castigado com a obrigação de vir explicar à sociedade o que entende por carácter, quais os seus significados e implicações. Ele que disponha de todo o tempo que precisar. Quando terminar, estaremos em condições de avaliar melhor o que disse de Sócrates – visto que ficaremos a saber o que pensa dos seus colegas de partido, profissão, negócios e convívio, já para não falar nos familiares e amigos. É que isto de julgar o carácter de terceiros, Xavier, é sempre um golpe muito arriscado, nem mestres o aplicam. Especialmente, os que são mestres de si próprios distinguem-se por se recusarem a tal baixeza.


  1. 1 assis

    quanto ao lobo xavier, ele sabe que a gente sabe que ele sabe…..
    e ainda (talvez seja o factor mais importante) é quadro da sonae (sonaecom?) e não perdoa, em primeiro lugar e há alguns anos atrás, não terem estilhaçado a PT para a sonae ficar com uns bons bocados ao preço da chuva, e em segundo lugar já com sócrates, não permitirem que a sonaecom com dinheiro do santander tivesse ficado com a pt inteirinha por um bom preço (ainda bem mesmo para o grupo sonae: tinha partido a pt sem que a dívida monstruosa resultante ficasse substancialmente reduzida).

  2. 2 antonio manso

    Então falam do Jorge Coelho e calam o Lobo da sonaecom? Mas que raio de democracia é esta? Para mim é novidade o Lobo Xavier estar ligado a essa empresa.Agora já começo a entender certas posições e atitudes. Apesar de de certa maneira gostar dele,as suas posições sempre me pareceram extremas mas nunca desonestas ou cinicas .Agora esta ultima Quadratura do Circulo foi do pior em desonestidade e ganancia politica. Estes senhores,na fúria de ganhar na secretaria o que perderam em campo estão dispostos a todos os golpes baixos e sujos.A influencia do guru da Marmeleira sente-se em tudo o que sai do seio do PSD, e não só.A ver vamos agora com as decisões do Procurador Geral e do Presidente do Supremo.Devem estar a ferver por dentro, os conspiradores da curraleira.

  3. 3 Francisco

    Os Belmiros , a quase falida Sonaecom e o Lobo Xavier (como seu dirigente) nunca “engoliram” o falhanço da OPA à PT, que atribuem -infundadamente- a Sócrates.

    Também não “engolem” a recusa sistemática da ZON às suas ofertas de fusão, que também atribuem a Sócrates (via CGD).

    É o lado dos interesses ($) que sempre moveu as posições “políticas” de Lobo Xavier.

  4. 4 Zé dos Reis

    Mas que credibilidade merecem as afirmações de que Socrates e Vara falaram disto ou daquilo???? Então e os 10.000 euros? que afinal ninguem ouviu ou gravou ou viu? Os “jornalistas” que falaram nas conversas e nos euros de Vara não são os mesmos? Se mentem descaradamente numas coisas porque não mentem nas outras?
    Pois… o Godinho tinha 10.000 euros e um envelope, logo deu os euros ao Vara, nada mais linear e capaz de fazer prova num tribunal da URRS ou do Portugal de salazar. Vara e Socrates falaram ao tel, pois foi da TVI e manela boca guedes, ora pois claro. Cá para mim o Vara contou a anedota da operação plástica às bordas da coisa da manela e pronto, se ele sabe da coisa da manela tb sabe da TVI e etc etc. Até já há comentadores que desconfiam que se um ministro falou em 52 cassetes é porque sabe coisas secretas embora minutos antes o facto tivesse sido dito num noticiário da mesma estação. Haja decoro, porra

  5. 5 António P.

    Estou com o António Manso.
    Sempre encontrei alguma coerência e graça ao António Lobo Xavier.
    Mas no ultimo Quadratura espalhou-se em toda a linha.
    Como diz o Val a direita ranhosa tem mais um elemento.
    Cumprimentos

  6. 6 guida

    Entretanto, o aproveitamento político do caso, por parte da oposição, continua de vento em popa. Durante o fim de semana, o Bloco e o PCP não falaram de mais nada. O Pureza fala de sacos azuis em empresas públicas. O Jerónimo de Sousa está preocupadíssimo com a destruição das ‘provas’, que poderão ser usadas em futuros processos. Será que as suas declarações se baseiam só no que vem na imprensa? Alguém devia avisá-los que, tal como já ficou provado neste caso, não se pode acreditar em tudo o que aparece nos jornais.

  7. 7 K

    O camarada Jeronimo revela uma imensa saudade dos gloriosos tempos estalinistas do NKVD e do Beria. Os formalismos juridicos são um grande empecilho que obsta à justiça popular.

  8. 8 José Luiz Sarmento

    O Jorge Coelho foi responsável por um ministério cujas decisões podiam beneficiar a Mota-Engil; é um facto. Jorge Coelho ocupa hoje um cargo bem remunerado na Mota-Engil; é outro facto. Estas circunstâncias conjugadas não configuram um crime de corrupção perante a Lei; outro facto inegável.

    A própria Lei que permite isto é que é corrupta.

  9. 9 K

    Tal como MFerreira Leite e o Santander, suponho.

  10. 10 Edie

    “PSD escavacado” está muito bem :)

  11. 11 Edie

    Este Lobo e outros são estúpidos para além do concebível: então não vêem que se continuam por esta via, os próximos a comer são eles??

  12. 12 José Luiz Sarmento

    Tal como a M. Ferreira Leite e o Santander, é claro. E como dúzias de outros casos. A minha querela não é com o PS nem com José Sócrates, é com o Bloco Central que tem travado sistematicamente todas as tentativas sérias de reduzir a corrupção.

  13. 13 K

    J.Luiz Sarmento, acho que existe uma lei (mais uma) sobre isso e que não permite que alguem que tenha tido funções ministeriais numa determinada área vá trabalhar para essa mesma área sem antes respeitar um período de nojo. Em concreto não sei se J.Coelho ou a MFerreira Leite foram abrangidos por essa lei.Sei que J.Coelho apos sair do Governo passou por um longo periodo de nojo antes de ingressar na Mota Engil.
    Agora não me parece que o problema seja do Bloco Central, é sim um problema que afecta as pessoas mais proximas dos partidos do arco governativo, alem dos proprios partidos.
    Existem muitas pessoas que trabalham no privado e que não querem dar o seu contributo politico porque se paga um preço demasiado alto para tão pouca retribuição, e não só salarial. Nem podemos exigir que as pessoas que exerceram cargos publicos fiquem toda a vida amarrados e com a vida limitada por esse facto.É uma questão complexa e que convem ser abordada sem demagogia e/ou falsos moralismos.

  14. 14 Carmen Maria

    E se as supostas escutas não existissem, digamos assim, não passassem de mais uma manobra do PSD para tentar arrumar com Socrates????

    Eu sei que parece uma hipotese parva!…

    Mas a forma como as instituições se estão a comportar neste caso, sugere-me a ideia de uma mentira sem dimensão

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