Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Se se pode dizer nordeste e sudoeste

também se devia poder dizer direitrás e esquerdente


  1. 1 luis eme

    Porque não Isabel?

    Nós até somos bons nessas coisas…

    Mas os acordos ortográficos não gostam de invenções, pelo que…

  2. 2 claudia

    Não! Direitrente e esquerdatrás!

  3. 3 susana

    concordo com o esquerdatrás mas, até pelo antónimo, preferiria frentireita.

  4. 4 claudia

    Direitrente soa-me a diarreia com gastroenterite e frentireita tem uma conotação feia - nada bonita - de frente nacional. Mais vale PS:D e PS.

  5. 5 Mario

    Ó meninas, não mais nada que fazer? Endireitem-se e caminhem na direcção que quiserem!

  6. 6 Daniel de Sá

    Tanto se pode dizer que foi mesmo dito.

  7. 7 Rodrigo

    Ei, essas palavras já foram inventadas. Li-as há pouco no último post deste mesmo blog. Que bom! Mas querem saber da melhor? Elas já podiam ser utilizadas antes disso. Bastava alguém ter essa ideia e querer fazê-lo. Não porreiro? Isso quer dizer que eu também posso escrever atrasquerda, encimuito, embaixante, invisilonge…

    Luís Eme (e quem mais quiser responder), o acordo ortográfico e um livro do Mia Couto podem coexistir?

  8. 8 Elypse

    Já é tanta a confusão que mais vale desinventá-las

  9. 9 luis eme

    Tudo pode e deve existir, não são os “acordos” que cortam a raiz à imaginação, Rodrigo…

  10. 10 Rodrigo

    Ah, bom…

    O “Mas os acordos ortográficos não gostam de invenções, pelo que…” fica sem efeito, então ;)

  11. 11 rvn

    amigos,

    Às vezes nem sei que diga.
    Esta nossa língua antiga
    tem tanto por inventar,
    há nela tanto a fazer,
    que eu nem sei o que dizer
    do frentedireitatrás
    ou do esquerdente que faz
    o post da isabel.

    Não me pareceu pecado;
    achei até bem sacado
    sim senhora, sem favor;
    de resto, já vi pior
    nesta língua de nós todos,
    já vi mexer-lhe sem modos
    e, por acordo universal,
    ser ortografaneado
    o falar de Portugal
    (e na escrita foi igual:
    ortografasucatado.)

    Por isso esteja à vontade:
    invente a isabel-prazer
    o que lhe der na veneta;
    tem verbos por descobrir,
    ou melhor: por atribuir
    àquilo que já se faz;
    tem palavras por criar:
    direifrente, esquerdatrás,
    são dois exemplos de treta
    mas servem, na circunstância.
    Continue a improvisar
    porque se alguém não gostar
    acredite: é ignorância.

  12. 12 rvn

    errata:
    «…o falar de Portugal.
    (e o escrever foi, igual,
    ortografasucatado.)»

  13. 13 Rodrigo

    Elypse: “Já é tanta a confusão que mais vale desinventá-las”

    Aí está uma boa. Se numa leitura desatenta fica a impressão de que o Elypse está a contrariar a proposta do Visitas Actuais, a verdade é que ele está a fazer precisamente o que é proposto, ao utilizar o verbo “desinventar”. Nem todos terão percebido, mas de certeza que foi de propósito. Boa, Elypse!

    Essa faz-me lembrar aquela do indivíduo que diz para o amigo: “Estás-me sempre a contradizer”, ao que o outro responde: “Não estou nada!”

  14. 14 susana

    muito engraçado, rvn.

  15. 15 Elypse

    Rodrigo, não creio que possam ter pensado que não quis contribuir, com aquele trocadilho, para a rubrica da Isabel…

    Olha que isto por aqui é gente que faz das linhas entrelinhas… Melhor, talvez, só as costureiras da CIA, as tais que não dão ponto sem nó

    Os nós sempre dão direito a tropeções ;)

    Abraço

  16. 16 isabel

    gostei muito de frentireita e de isabel-prazer :)

  17. 17 bastonada
  18. 18 Bengalão

    Não resisto a escrever a tradução que há muitos anos fiz para um poema de Ernst Jandl:

    muitos dizem
    que esquerta e tireida
    não as potemos drocar

    esdúpitos!

  19. 19 João Carioca

    Vamos invendar palavras… ao menos colocamos algo a mexer neste jardim

  20. 20 João "o" Fernandes

    Sem palavras inventadas, Ruy Belo parece inventá-las a todas neste poema que tanto gosto, rendido a uma rima solta.

    E eu que tanto detesto rimas simétricas ordenadas formatadas.

    Meados de janeiro. No aeroporto duma capital
    - Leitores eventuais se quereis saber qual
    terei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:
    o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -
    um grupo de pessoas num encontro casual
    desses que nem viriam no melhor jornal
    de qualquer dos países donde alguém de nós seria natural
    decerto por alguma circunstância puramente acidental
    emprega no decurso da conversa a palvra “natal”
    embora a pensem todos na respectiva língua original
    E sem saber porquê eu sinto-me subitamente mal
    Ainda que me considerem um filólogo profissional
    e tenha escrito páginas e páginas sobre qualquer fenómeno fonético banal
    não conheço a palavra. Porventura terá equivalente em portugal?
    Deve dizer-me alguma coisa pois me sinto mal
    mas embora disposto a consultar o português fundamental
    ia jurar que nem sequer a usa o leitor habitual
    de dicionários e glossários e vocabulários do idioma nacional
    e o mesmo acontece em qualquer língua ocidental
    das quais pelo menos possuo uma noção geral
    conseguida aliás por meio de um esforço efectivo e real
    E ali naquela sala principal
    daquele aeroporto do nepal
    enquanto esperam pelo seu transporte habitual
    embora o tempo passe o assunto central
    da conversa daquele grupo de gente ocasional
    continua na mesma a ser o do “natal”
    Tratar-se-á de um facto universal?
    Alguma festa? Uma tragédia mundial?
    Consulto as caras sem obter satisfação cabal
    Li por exemplo a bíblia li pessoa e pertenci à igreja ocidental
    e tenho de reconhecer que não sei nada do natal
    Mas se assim é porque diabo sofro como sofro eu afinal’
    Porque me atinge assim palavra tão fatal?
    Que passado distante permanece actual?
    Como é que uma mera palavra se me torna visceral?
    Ninguém daquela gente reunida no nepal
    um professor um engenheiro ou um industrial
    um técnico uma actriz um intelectual
    um revolucionário ou um príncipe real
    que ali nas suas línguas falam do natal
    aí por quinze de janeiro e num dia invernal
    pressentem como sofre este filólogo profissional
    Eu tenho atrás de mim uma vida que por sinal
    começada no campo e num quintal
    junto da pedra da árvore e do animal
    debaixo das estrelas e num meio natural
    vida continuada na escola entre o tratado e o manual
    me assegurou prestígio internacional
    Mas para que me serve tudo isso se naquela capital
    entre pessoas que inocentemente falam do natal
    eu que conheço as coisas e as palavras de maneira oficial
    que como linguista as trato de igual para igual
    travo afinal inexorável batalha campal
    com tão simples significante como o de “natal”?
    E entre línguas diversas num aeroporto do nepal
    alguém bem insensível sofre mais do que um sentimental
    pois pressente em janeiro que se o foi foi há muito o natal

    Ruy Belo
    Transporte no Tempo

  21. 21 João "o" Fernandes

    E como quase sempre dois é melhor que um.

    To Helena

    Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
    A maneira mais triste de se estar contente
    a de estar mais sozinho em meio de mais gente
    de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
    Emotiva atitude de quem age friamente
    inalterável forma de se ser sempre diferente
    maneira mais complexa de viver mais simplesmente
    de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
    de estar num sítio tanto mais se mais ausente
    e mais ausente estar se mais presente
    de mais perto se estar se mais distante
    de sentir mais o frio em tempo quente
    O modo mais saudável de se estar doente
    de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
    de mentir muito verdadeiramente
    de dizer a verdade falsamente
    de se mostrar profundo superficialmente
    de ser-se o mais real sendo aparente
    de menos agredir mais agressivamente
    de ser-se singular se mais corrente
    e mais contraditório quanto mais coerente
    A via enviesada para ir-se em frente
    a treda actuação de quem actua lealmente
    e é tão impassível como comovente
    O modo mais precário de ser mais permanente
    de tentar tanto mais quanto menos se tente
    de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
    de estar mais no passado se mais no presente
    de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
    de ser tão insensível como quem mais sente
    de melhor se curvar se altivamente
    de perder a cabeça mas serenamente
    de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
    de tanto desistir e de ser tão constante
    de articular melhor sendo menos fluente
    e fazer maior mal quando se está mais inocente
    É sob aspecto frágil revelar-se resistente
    é para interessar-se ser indiferente
    Quando helena recusa é que consente
    se tão pouco perdoa é por ser indulgente
    baixa os olhos se quer ser insolente
    Ninguém é tão inconscientemente consciente
    tão inconsequentemente consequente
    Se em tantos dons abunda é por ser indigente
    e só convence assim por não ser muito convincente
    e melhor fundamenta o mais insubsistente
    Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
    O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente

    Ruy Belo
    Transporte no Tempo
    Editorial Presença
    1997
    4 ª edição

  22. 22 z

    grunfinho

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