Uma união mais perfeita

A dívida da Grécia aos bancos, por países:

Japão: 500 milhões
Espanha: 600 milhões
EUA: 1.8 mil milhões
Itália: 2.6 mil milhões
Inglaterra: 3.2 mil milhões
França: 19.8 mil milhões
Alemanha: 26.3 mil milhões
Portugal: 1.7 mil milhões
Restantes países da zona Euro: 14 mil milhões

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A economia europeia valia, em 2008, 16.6 triliões de dólares. Uma reestruturação da dívida Grega dificilmente acabaria com ela, e embora pusesse alguns países, sobretudo França e Alemanha, em dificuldades pontuais, a Europa tem mais que capacidade para absorver a dívida dos três países que até agora pediram ajuda, pondo-os novamente no caminho do crescimento. A dificuldade é, isso sim, politica. É os líderes explicarem aos eleitores porque é que têm de ser eles a absorver a dívida dos outros, eleitores esses que já começaram a assinalar o seu descontentamento com esta situação através da extrema direita. Será sobretudo isso que desencadeia o famoso “efeito de contágio”, quando todo o mundo se apercebe que hoje, na Europa unida, é cada um por si, não estão para dar cobertura aos outros. A questão é que a União Europeia não é uma família no sentido de parentesco directo, não somos todos irmãos uns dos outros, o “europeu” não existe no mesmo sentido que existe o “americano” ou o “chinês”. Se nos perguntarem de onde somos e respondermos “da Europa”, perguntam-nos a seguir “de onde” e não “onde vives”. A “Europa” é um casamento de conveniência entre povos de diferentes culturas, identidades e linguagens que se juntaram porque perceberam que juntos, seriam mais fortes e prósperos. E resultou espectacularmente numa primeira fase, mas apenas na parte em que jurámos ficar juntos “na riqueza”.

Mas os casamentos a longo prazo funcionam sobretudo através da confiança e não da paixão, pelo que aqueles que clamam que o “sonho europeu” está em risco por falta se solidariedade estão apenas a ver um dos lados e a esquecer o outro. O lado prático. Solidariedade é uma palavra muito bonita, mas para um cidadão da Alemanha, por exemplo, rima com responsabilidade. Sabemos agora que enquanto celebrávamos a prosperidade, nos deslumbrávamos com a moeda única e dançávamos com o acabar das fronteiras, a Grécia mentia quanto às suas contas públicas e a Alemanha desvalorizava artificialmente e discretamente o Marco Alemão nas negociações do Euro para ganhar competitividade à custa dos outros. Também me parece que quem suspira pelos grandes europeístas apaixonados de outrora está a ser algo injusto: é mais fácil ser um líder carismático quando a ideia por trás dessa liderança é forte e encerra mil promessas para o futuro. Quando essa ideia perde força, os líderes também a perdem naturalmente, numa espiral negativa que pode ter tanto poder como a que construiu o sonho europeu. E a paixão esbate-se sempre. Quando se junta a isso o facto de hoje em dia a UE ser uma entidade burocrática, pesada e muito, mas muito longe dos cidadãos, construída à custa de milhares de horas de negociações bizantinas entre representantes que não conseguem sequer explicar ao seu povo o que é que andaram a fazer, porquê e para quê, a conclusão começa a ser óbvia: a União Europeia é cada vez mais uma torre de Babel, incapaz de comunicar com aqueles que estão na base. Muitas vezes, como se viu nos referendos ao tratado de Lisboa, são até vistos como empecilhos. As eleições europeias são vistas com o mais absoluto desinteresse, e são analisadas pela população pelo que são realmente: referendos à governação local. O encerramento de maternidades em Elvas determina a composição dos nossos deputados europeus, passe o exagero. Mas não anda longe da verdade.

Chegados a este ponto do campeonato, não me atrevo sequer a tentar adivinhar qual o futuro do Euro e da União Europeia. As variáveis são demasiadas, e há neste preciso momento mil borboletas a bater as asas. A intuição diz-me que há boas possibilidades de implodir, ou pelo menos é um cenário que deve começar a ser encarado de frente, não posto de lado como “impensável”. Pode acontecer, já aconteceu antes. Mas sei isto: uma certa euforia europeia chegou a um ponto de ressaca, e para continuar o caminho que percorremos até aqui, temos de começar por deixar de lado as utopias e reconhecer uma coisa simples: nós, europeus,  não gostamos muito uns dos outros. Já gostámos menos, já nos odiámos, mas ainda não somos uma família. E talvez seja chegada a altura dos que sonham com uma Europa integrada e forte, e até uns Estados Unidos da Europa (eu incluído) pensarem que para lá chegar tem de haver avanços e recuos. E parece-me, dado o ressurgimento dos nacionalismos xenófobos e corrosivos, que chegou o momento dos europeístas considerarem um recuo: começa a tornar-se bastante evidente que o Euro foi um passo mais longe que a perna. Talvez esteja na altura de, em nome da União Europeia, acabar com ele, antes que ele acabe com a Europa. E de qualquer maneira, as notas são feias.

28 thoughts on “Uma união mais perfeita”

  1. ´bom , li quase nada, mas li casamento. e claro , a Europa , ou faz umj casamento de conveniência com a criada , sei lá , a india? um qualquer país da américa do sul ? ou está lixada. Igualdade mundial é lixada , né? a gente já não pode vender cagança I&D/elefantes brancos aos pobrezinhos. Temos de voltar ao básico , que chatice , o sector primário , suja as luvas.

  2. A ideia de Europa sempre foi e é uma questão de necessidade, de sobrevivência, senão nunca teria sequer começado . De acordo com a minha experiência, o nosso problema não é sermos muito diferentes, é sermos demasiado parecidos ( eu sei, parece inacreditável, mas vistos de fora da Europa, somos mesmo muito parecidos, as diferenças tornam-se pormenores pitorescos). Mas a necessidade de sobrevivência subsiste, hoje tanto ou mais que ontem. O euro está a ser atacado e há quem na própria Europa ache que se safa bem sem ela,ou com menos Europa. Mais tarde ou mais cedo , a bem ou a mal, aperceber-se-ão da sua insignificância perante a China,India, Brasil, EUA, etc…que também nunca nos irão ajudar pelos nossos belos olhos. E não esquecer que para o ano há eleições na Alemanha e França, é um dado importante.

  3. Correcto, Sofia C, excepto que os ingleses, para dar um exemplo, não se têm dado mal na economia global, fazendo parte da União Europeia mas sem Euro.

  4. Vega9000, sim, claro até há pouco tempo era assim. Agora é ver os ingleses em bicos dos pés e histéricos se os EUA não lhes dão a atenção que tinham. Aliás não são só eles, é toda a UE. Ora os EUA têm mais com que se preocupar e o euro não é forçosamente o que mais lhes interessa, nem aos ingleses, sobretudo enquanto estes últimos considerarem que têm uma relação transatlantica especial. A emergência de novas potências económicas vem baralhar esse equilibrio e vem evidenciar a necessidade da UE. Neste momento e paradoxalmente há um recrudescer da extrema-direita na UE. Ora os nossos líderes estão perante um paradoxo:mais UE , logo menos poder para eles. É possível que como dizes esta atitude leve a um passo atrás na construcção europeia, tudo é possível. Mas quando estivermos ocupados com as nossas pequenas realidades e de repente nos apercebermos que ninguém nos ouve na OMC, que as preocupações e vontades, inclusive duma Alemanha ou França sobre qualquer questão “não tirarão o sono” a um dirigente chinês, brasileiro, indiano ou sulafricano ( que aliás é o que já está a acontecer), nessa altura a UE revelar-se-á uma evidência e o que nos separa deixará, cinicamente, de repente de importar tanto. Talvez tenhamos de passar por aí.

  5. Muito bem, Vega9000, e muito bem Sofia C!
    A Europa não pode implodir. É uma absoluta impossibilidade regressar às fronteiras e aos impostos aduaneiros. Além de que fronteiras ambientais é coisa que não existe. O mercado único tem de manter-se. Há demasiadas coisas em jogo, inclusivamente face ao contexto internacional. O que pode acontecer é um protelamento para as calendas da união política, no fundo, o que têm pretendido os ingleses – que a Europa seja um grande mercado comum e não mais do que isso. Razão pela qual têm defendido a entrada da Turquia (apesar de a realidade da excessiva presença de muçulmanos no ocidente poder estar a transformar pontos de vista como esse).
    Vai haver aqui uma pausa, sem dúvida, mas parece-me que a cada vez maior circulação e o intercâmbio de pessoas dentro deste espaço, que, apesar de tudo e inegavelmente, partilha valores comuns face a outros blocos mundiais, irá contribuindo paulatinamente para a aproximação e a “miscigenação”.

    Quanto a não gostarmos muito uns dos outros, parece-me que isso é uma inevitabilidade, acontece mesmo “nas melhores famílias”, que é o que esta era à partida. Além disso, não são aqui, em Portugal, os do Norte que dizem mal dos do sul por serem preguiçosos?

    Quanto ao euro propriamente dito, aí estará um bom caso em que, não tenho dúvidas, serão os cidadãos europeus a ter a palavra : alguém vai aguentar andar a trocar dinheiro 6 vezes até chegar à Suécia?

  6. Eis um texto que me dá uma dor de cabeca.
    Eu que sou um europeu convicto, que me sinto tão bem em Lisboa como em Paris ou em Copenhaga, que acho que apesar das diferencas há muito mais coisas que nos ligam que aquelas que nos separam, que me sinto um verdadeiro português/europeu (ou europeu/português, como quiserem), que sinto um verdadeiro orgulho – e não estou a exagerar – quando estou os Estados Unidos e falo dos valores comuns que nós partilhamos na Europa: abolicão da pena de morte, um sistema de saúde que, apesar de algumas dificuldades, é dos melhores do mundo, etc, etc., quando penso que esta Europa pode um dia terminar… deixa-me verdadeiramente angustiado.
    Gostei do texto do texto do Vega9000, mas prefiro agarrar-me ao texto da Sofia C., tal qual um náufrago que se agarra a uma tábua de salvacão.
    Entretanto deixem-me sonhar, deixem-me ser utópico e continuar a acreditar nesta Europa unida.

  7. Começei bem este domingo! Foi um enorme prazer ler tudo quanto ficou para trás a começar pelas sábias e palavras de Vega 9000 que, ao fim e ao cabo, na senda de Lenine, recomenda um passo atrás como táctica para dar dois em frente!

    No entanto, fico com o Luis: “deixem-me sonhar, deixem-me ser utópico e continuar a acreditar nesta Europa Unida” sem o que, no novo mundo que se aproxima a passos largos, passará a ter um papel pouco mais do que insignficante. E é pena! Houve por aqui tanta, tanta coisa que deixou no mundo marcas indeléveis!

  8. Vega:
    Gostei do texto. É claro como água e faz uma retrospectiva fiel da Europa. Europa essa que há muitos anos não se entendia e vivia com o mal dos outros. Como é que agora vão estar todos unidos e ajudar países que os aldrabaram quando entraram para a União Europeia, caso da Grécia.
    Um trabalhador na Alemanha só se reforma com 67 anos de idade, na Grécia e maioria dos Estados membros, a reforma é aos 60. São os alemães assim tão estúpidos para concordar com este tipo de situação! Nós, Portugueses aceitávamos isso? Claro que não.
    É ver quando nos é pedido um esforço como respondemos. Greves e mais greves. Os sindicatos que tem os seus sócios com mais regalias são os primeiros a vir para a comunicação social e rua contestar tais medidas. É ver professores, juízes, médicos, enfermeiros, forças de segurança e maquinistas a protestar e tentar derrubar um governo democraticamente eleito por tentar pôr mão no País.
    Quando são três indivíduos que aqui vêm impor-nos essas mesmas medidas todos se comportam como cordeirinhos e afirmam que já deviam de ter vindo há mais tempo. Não se envergonham, essas grandes cabeças, que gastaram parte do seu tempo a romper o cu das calças nas cadeiras das universidades e não são capazes de chegar a consensos, que fará arranjar contrapartidas para debelar essa crise.
    Depois admiramo-nos de na União Europeia não haver um espírito de ajuda aos mais periféricos e pobres. Isto faz-me lembrar o seguinte. Um dia um grupo de casais amigos resolveu fazer um piquenique. Cada um levava qualquer coisa confeccionada por si e ficou combinado que não divulgavam qual a ementa. Uns começaram a pensar que casal tal levava um bom farnel derivado à sua classe social e assim sucessivamente. Acontece que chegada a hora do repasto só comeram pastéis de bacalhau.

  9. Que radical, Vega, acabar com o Euro? Não concordo contigo. Há umas escassas décadas aquilo em que se tornou a Europa seria visto como uma utopia, mas aí está a realidade a provar que há sonhos que têm pernas para andar. Claro que existem diferenças entre os vários povos europeus e nunca irão desaparecer que o digamos nós portugueses com mais de oitocentos anos de História de um país tão pequeno e tantas são as diferenças entre, por exemplo, um minhoto e um alentejano. E ainda bem que existem, apesar de também termos por cá quem pense que se trabalha mais numas regiões do que noutras.

    Dizes que o Euro foi um passo mais longo do que a perna e talvez tenha sido um projecto muito ambicioso, mas a verdade é que é um projecto com apenas meia-dúzia de anos que está a enfrentar as primeiras contrariedades que, bem vistas as coisas, eram mais do que previsíveis, mais tarde ou mais cedo. Afinal, o Mundo nunca foi um mar de rosas e o mundo económico muito menos. Pensar que o Euro teria uma passadeira vermelha onde pudesse desfilar para sempre é que é uma utopia. Portanto, não penso que se deva recuar, tem se dar a volta, corrigir os inevitáveis erros e ter sempre em mente que isto é o princípio e que com toda a certeza outras crises virão.

  10. Caro Vega,
    ler os teus números acabou por ser um conforto. Não é que tívemos à frente do governo gente para quem a palavra solidariedade não é ainda uma palavra vã?
    Portugal, um teso quando comparado a essa exclusiva Europa dos ricos emprestou a outro teso quase tanto como os EUA, mais do que a Vizinha Espanha e pelos vistos bastante mais do que os restantes vinte países que faltam na lista.
    Creio que os europeus são bastante diferentes entre si, pois dificilmente encontro pontos de vista ou hábitos semelhantes entre um Finlandês e um Italiano ou entre um Português e um Austríaco, mas esse é o desafio.
    A Europa ou junta-se ou afunda-se, não há outro caminho.
    Desfazer a união monetária, recriar as fronteiras e começar a cantar cada um para o seu lado é mais de meio caminho andado para sermos vendidos aos milionários de Leste como tem acontecido com os clubes de futebol.
    Uma política de defesa comum, uma diplomacia a falar por uma só voz, a verdade (mas toda e de todos) sobre as contas públicas e vícios privados é uma questão de fulcral importância.
    Os políticos que defendem os nacionalismos exacerbados seguem por caminhos que nos podem levar novamente a convulsões terríveis, bastará para tanto reler a história, que não se repetindo exatamente acaba sempre a cometer idênticos erros.
    Não me falem na responsabilidade alemã com os seus bancos regionais falidos e escondidos num qualquer armário e que não entram nos critérios para o défice alemão, a Inglaterra é um país singular, que talvez por ser ilhéu aprendeu a subsistir peos seus meios.
    Não há vinha na Inglaterra – bebe-se cerveja, conseguem ter turismo num país onde as belezas naturais não abundam, exportam mais do que importam e têm sempre presente o tema qualidade, toda a gente fala no chá das cinco que afinal foi levado para lá por uma princesa portuguesa! Não esquecer a sua boa escola de funcionalismo e administração pública.
    Quanto a nós, o melhor é deixarmos de pensar que somos ricos, ter um carro para cada membro da família a viver na mesma casa e a trabalhar/estudar em locais que não distam meia-dúzia de km uns dos outros, não pretendermos ser todos proprietários de casas mal construídas, deixar a frequência de cursos universitários sem saída e trocá-las por outros de qualificação técnica elevada e exigente, deixarmos a mania de sermos todos doutores e engenheiros, aprender a utilizar os transportes públicos e exigir ser bem servido por eles, preferir produtos nacionais se estes tiverem qualidade para isso não sendo esse o caso é preferível deixa-los acabar, sermos pontuais, quando no trabalho trabalharmos e não perder tempo a discutir política, futebol, o vestido da Júlia Pinheiro ou a beleza dum qualquer Zézé da moda, ler mais, ouvir música com qualidade, visitar museus que só têm turistas estrangeiros a vê-los, e comer mais vezes em casa.
    Talvez assim, nos seja mais fácil ajudar a construir essa tal Europa forte porque muitos anseiam.

  11. Simples tópicos :
    ” Roma e Pavia ” não se fizeram num dia ! Queremos tudo para ontem ! Sempre quizémos !
    Sim , se tiver mesmo que ser ,desde quando é ” proibído ” dar passos atràs ? ( isto é Táctica ,não altera o definido pela Estratégia ,mas quero crer que nem isto vai ser necessário ) .
    Este Mundo Global , não é só a UE ,está a levar um grande safanão e ainda estamos um tanto ou quanto atordoados , mas temos meios para enfrentar a turbulencia .

    Gosto de vir aqui ler e meditar sobre tudo o que escrevem .Obrigado .

  12. ESTA EUROPA, PARA O BEM E PARA O MAL, TERÁ MESMO QUE SE ENTENDER. PORQUE CASO ISSO NÃO ACONTEÇA, SABEM O QUE É QUE VIRÁ A SEGUIR?………..FÁCIL, O QUE SEMPRE VEIO: GUERRA

  13. Antes de mais, agradeço a todos a generosidade de partilharem as vossas opiniões.
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    Sofia C, concordo no ponto em que provavelmente teremos que passar por aí, por sermos confrontados com a nossa pequenez individual num mundo de superpotências económicas. E talvez aí se perceba que custa mais à Alemanha, e restante Europa, uma Grécia, ou outro, em recessão do que ajudá-los a enfrentar a crise com eficácia. Mas os Alemães não deixam de ter a sua razão: se os Gregos não gostam que sejam estes a impor “remédios duros” que se revelam contraproducentes, os alemães também não podem continuar, sem mais, a ajudar um país que não se revelou de confiança e onde não têm voz política activa. Este é o paradoxo que a crise do Euro para mim revelou – os cidadãos de um país são directamente afectados por decisões de governantes que não podem eleger. Nota que isto é válido seja na na direcção Alemanha-Grécia seja no seu oposto. A solução, a meu ver, é uma de duas: ou se acelera o caminho para uma federação, em que um governo central europeu tem um papel activo nos vários países, o que não me parece viável, ou a solução será recuar um pouco de modo a que os restantes países não sofram directamente as consequências da irresponsabilidade ou más escolhas de outros, sem poderem intervir. Manter uma situação destas é que me parece que pode gerar uma permanente desconfiança, tensão e ressentimentos bem mais perigosos para a união.
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    Penélope, não me parece que se regresse tão longe. Pode existir um mercado aberto e sem fronteiras mantendo cada estado a sua própria autonomia financeira. A questão de trocar dinheiro é aborrecida, de facto, mas não tanto como antes, com a quantidade de meios de pagamento electrónicos ao nosso dispor.
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    Luis e Aniper, eu sou também um europeísta convicto. Aliás, sou grande adepto de um futuro estado federal europeu (aliás, a escolha do título do post não foi inocente). Mas para se chegar à utopia, é por vezes necessário uma boa dose de cepticismo sobre os caminhos para lá chegar.
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    Ana Paula Fitas, agradeço a simpatia.
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    Manuel Pacheco, precisamente.
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    guida, eu sei que parece radical, e se calhar é, mas quando o Euro foi introduzido houve respeitáveis economistas (“respeitáveis” na acepção mundial do termo, não na portuguesa) que previram precisamente o que está a acontecer, entre os quais Krugman, que eu admiro bastante. E o problema não é aparecerem crises, mas haver mecanismos previstos para lidar com elas. E no caso das dívidas soberanas, não havia. Estamos em navegação à vista, por tentativa-e-erro que entretanto provoca recessões, violentas no caso da Grécia, quando o meu ponto era que a UE, se quisesse, facilmente resolvia o problema como os americanos fazem: atirando-lhe dinheiro para cima. Mas não é possível, porque os cidadãos dos países, mesmo contra os seus interesses a longo prazo, não o admitem por ser injusto. Qual é então a solução para a Grécia? Correr com ela do Euro? Da União Europeia? Fazer um Euro limitado apenas aos países centrais? E os outros, não se queixariam, se calhar com razão, de que esses países da zona Euro restrita tinham uma vantagem injusta sobre os outros?
    Eu acho que na união devemos caminhar para uma cada vez maior integração: impostos, defesa, até governo. E se calhar, com essa integração politica, a moeda única. Mas nota que é uma reflexão minha, não é uma opinião fechada.
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    Teófilo M. com os juros que a grécia está a pagar, “solidariedade” é entre muitas aspas. No resto, são preciamente esses esqueletos no armário que me assustam. Porque imagina a reacção dos Gregos, entre outros, quando descobrirem que os Alemães também são uns aldrabões. Já parece o House: “everybody lies”.
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    Espurio, era esse o meu ponto
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    josé, se há uma coisa que tenho a certeza é que a guerra não volta. Há armas nucleares suficientes em França e inglaterra para nos assegurarmos disso.

  14. Vega9000,

    Sim totalmente de acordo e acrescento que acho muito pertinente e apaixonante a reflexão do teu post. Acrescentaria apenas o seguinte:de facto a atitude dos governos gregos anteriores foi de grande irresponsabilidade e leviandade, é natural que se exija uma solução estrita e responsabilizadora. O único elemento que convém não esquecer é que há vários anos que se sabia que as estatísticas gregas não eram fiáveis, normalmente a zona euro através da avaliação regular das economias dos seus membros deveria ter aplicado sanções. Não o fez e limitou-se a lançar apelos à regularização que nada resolveram. Porquê esta atitude? Porque em 2005/2006 França e Alemanha estavam com défices excessivos e conveio-lhes apelar a uma aplicação menos rígida de procedimentos de défices excessivos. Nós apanhámos a boleia e pusemos as contas em dia e os gregos foram protelando. Enfim, tudo isto para dizer, que seria bom que os dirigentes políticos assumissem as suas responsabilidades, se os intrumentos da união monetária tivessem sido aplicados rigorosamente a Grécia teria corrigido a sua situação muito antes ou talvez não tivesse sequer aderido ao euro. Não estou obviamente a desresponsabilizar os gregos, apenas considero que toda esta situação podi e devia ter sido resolvida na zona euro, com as regras existentes devidamente respeitadas por todos e não apenas quando convém. Pessoalmente considero que a única solução para um funcionamento correcto é a evolução mais rápida para uma federação, como dizes, também me parece bastante improvável, por ora. Roma e Pavia não se fizeram num dia, já disse Espúrio com toda a razão.

  15. shark, por mim acho que sim, embora levante questões fascinantes. Quando se pergunta se os Turcos são europeus como os outros, basta olhar para as comunidades que vivem na Alemanha, por exemplo. Mas não sei é se a Turquia estará já muito interessada nisso, com tudo o que se tem passado no médio oriente. É que entre ser mais um membro, olhado com desconfiança, e ser um líder de uma possível nova união de democracias muçulmanas, talvez parem para pensar. Seria fascinante.

  16. Concordo com tudo o que foi dito. Tudo muito interessante sem duvida, dende o post os comentarios seguidos. Parabens Vega.

    Europa e a grande aposta dos nosos tempos. Foi um grande invento. Nem Estado, tal como conhecemos, nem organização internacional, uma coisa diferente, única disse nas aulas de Dereito político.

    Sempre fui um ilusionado com a formação da Europa política, acho que é um reto impresionante. Agora, talvez fiquemos entalados, barados, olhando uns para os outros que fazermos. E então aparesce a duvida e a pressa, para que caralho serve tudo isto, se não nos faz melhor vida?. Europa é agora o problema mas também a solução.

    Europa contou há uns anos com uma geração política europeista. Acho foi quem de dar um forte pulo a construção europeia, agás os paus nas rodas postos pelos ingleses. Delors, Kohl, Felipe Gonzalez, Miterrand, Sampaio , emtre outros.Tiveram uma visão, lideraram uma ideia, e isto avanzou até onde numca sonhavamos. Portugueses e espanhois savemos bem o que foi, para nos e para toda a europa mediterránea. Sim, niste momento podemos duvidar , embora até de agora o balanzo e positivo.

    Europa é a quarta parte da economía mundial. E o grupo de países mais desenvolvidos do mundo. Europa podía ter o primeiro exército do mundo. Podía ser a primeira potencia influente na política exterior do mundo, a PESC está sem desenrolar.
    E o Euro?. Foi um avanzo. Foi uma fugida cara adiante, uma aposta muito forte, sem fornecer as costas nem asegurarse bem dos inconvintes. Acho que quem pensou a ideia, pensou no avanzo total, pensou na constitução europeia, pensou en desenrolar o pilar da PESC, pensou num grande avanzo histórico.Agora ou numca.Europa ou avanza ou morrre. A mareia economica era boa, mas agora não o é. A constitução não foi adiante. O Euro foi atacado pela sua beira fraca, uma moeda centralizada dependente de vintesete economías, tudas muito desiguais. Se o atacamos pelas suas economías mais fracas, como vão fazer para defender-se, se não há uma única economía como tem a China, os EUA? Eis a questão.
    Inglaterra não entrou no Euro? Suspeito. O Euro foi atacado pelos Estados Unidos que controla o mundo financeiro internacional. EUA e o nosso amigo mas não lhe interessa uma Europa unida. O derrubamento do Euro é o grande golpe para o remate da ideia europeia. Europa não tem voz nas liortas internacionais, melhor para EUA. EUA é quem dirige à política internacional e a OTAN e prefere tratar com uma europa de países individuais que com uma soa voz e um so exército europeio. E aquí é onde Inglaterra joga. Fará sempre por chumbar as ideias de união, entanto que se lhe interessa uma Europa de mercados. Recorde-se a guerra do IRAK, Inglaterra foi quem de fazer a desunião europeia ( não tenho em comta um palhaço com bigode, um castelhano enano e farruco que achava topar o momento histórico para voltar a reconquistar o imperio de carlos V, um tal Aznar). Inglaterra não é alvo diste ataque o Euro, ela fica fora.
    Das almas de Europa a dos mercados e política, há quem só se interessa pelos mercados.
    Europa é um grande futuro, e uma grande ideia. Vivimos na parte mais democrática do mundo, podemos viver bem, podemos evoluir a uma europa política , a Europa federal dos povos. Ainda falta um grande mar que navegar, e um mar alto. Ficamos non momento dificil, o final tudo depende da economía. Só podemos fazer preces e que a sorte traiga líderes capacitados para tirar adiante do carro.
    Para outro día, a política muito liberal, o papel de Alemanha hoje, e os burocrátas europeios como elite política sometida a suspeita.

  17. Tudo é relativo !
    A UE ,tal como existe ,é muitíssimo recente .

    Os Estados Federados e também eu entendo que é para aí que a UE deve caminhar , existem há mais de um século ,no minímo e não foram constituídos pela miríade de Estados -Nação , que enformam a UE !

    Muito depressa tem isto andado ,possívelmente rápido demais !

    Às vezes , no meio destes debates , até parece que não houve 2 guerras mundias ,repito 2 , entre 1914 e 1945 ,com um interregno de 1918 /1939 , fora os fogachos a partir daí .

    Há que fazer evoluir as fraquezas da UE e fazer delas vantagens . E isto já tem acontecido ,poucas vezes é certo .

    Estudo ,muito estudo ,calma , cabeça fria e ………………… MUITA PACIENCIA ! ( não ,não sou chinês .Sou um português dos quatro costados ) .

  18. reis, magnífico comentário. Mas repara que tenho alguma dificuldade em ligar tão directamente o fim do Euro com o fim da UE. Aliás, o que ponho em causa é precisamente essa ideia tão enraizada que “ou para a frente ou a morte” que acho que pode, isso sim, levar-nos a um beco sem saída. A construção europeia tem sido construída exclusivamente com avanços, o que me leva a pensar se não estará na altura de um recuo. Nem que seja para tornar evidente, na mente dos europeus, a necessidade de um avanço mais radical. Creio que é isso que se pode retirar dos comentários da Sofia C.

  19. Vega, se bem te entendo o fim do euro seria temporário. Mas isso parece-te possível? O fim do euro não seria um simples recuo, apesar da forma como o descreves, as consequências de tal decisão seriam tudo menos simples. Seria visto pelos europeus, e não só, como um tremendo fracasso das instituições europeias. A derrota completa face aos especuladores. A incapacidade total de encontrar soluções para os problemas que têm surgido com alguns países. Não vejo como é que a seguir os europeus acreditariam ser possível o tal avanço mais radical de que falas, uma maior integração e de novo a moeda única. A menos que estejas a pensar num intervalo de várias décadas, e mesmo assim, gato escaldado… :)

  20. guida, o meu problema tem a ver mais com a espantosa/previsível falta de solidariedade politica entre os vários membros da UE que a crise do Euro revelou, e que meu ver tornam a existência da união monetária muito problemática. Moeda única, responsabilidade única, a meu ver. Mas não tem sido isso que se tem passado. O que se tem passado é um conjunto de egoísmos e irresponsabilidade nacionais que têm o potencial, a meu ver, de ameaçar a união a médio prazo se não forem tratados a tempo.
    Se eu peguei no caso da Grécia, por ser o início do que vejo como um processo perigoso, o caso da Irlanda ainda é mais escandaloso. E creio que o tal avanço radical está a ser preparado, mas usando a crise como chantagem para forçar os europeus, sobretudo dos países mais fracos, a aceitá-lo numa posição negocial fraca. Uma nova fuga para a frente. (Estou a preparar um post sobre isso, depois vês o que quero dizer – espero que saia bem.)

    Mas atenção que os especuladores são como os tubarões: normalmente aparecem quando já estás a sangrar.

  21. Vega, concordo contigo, esta crise revelou muitas fraquezas, não concordo é com a solução que apontas. Mas fico à espera do teu próximo post, que te sairá bem de certeza.

    Pois, os especuladores são como os tubarões. Mas creio que os surfistas não concordam contigo. Os tubarões abocanham tudo o que mexe. :)

  22. “E creio que o tal avanço radical está a ser preparado, mas usando a crise como chantagem para forçar os europeus, sobretudo dos países mais fracos, a aceitá-lo numa posição negocial fraca.”

    É muito possível que tenhas razão, Vega. O que parece muito contraproducente, não levará a um aumento do eurcepticismo? Acham que será possível construir uma UE mais integrada nesse contexto? Sou a favor dessa integração mas com a devida explicação aos europeus e respectivo apoio.

    Fico a aguardar o tal post:)

  23. shark, não peças desculpa, também me ri quando me ocorreu que quem podia aparecer para desempatar isto eras tu. :)

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