Gregos corruptos guiando os seus Porsches

Muito se falou sobre esta publicação do Telegraph, segundo a qual os gregos, esses corruptos, teriam mais Porsches Cayenne no país do que pessoas a declarar rendimentos de 50.000 Euros por ano, sendo Larissa a capital mundial do referido carro. Tem como base este artigo  (PDF) publicado no Bulletin of the Economics Research Institute da Universidade de Warwick de um economista grego, Herakles Polemarchakis, que foi conselheiro económico de Papandreou, o que lhe dá à primeira vista uma credibilidade acima dos habituais rumores publicados um pouco por todo o lado. É uma pessoa séria e respeitada, com artigos publicados, não?

Pegando nessa curiosa estatistica, a minha primeira ideia era então fazer um post sobre como os gregos gastavam à tripa-forra ao mesmo tempo que os alemães ganhavam também à tripa-forra com os gastos dos gregos, tudo rematado com uma bela liçãozinha de moral sobre como os que ganham dinheiro andam a desancar os tipos que lhes deram dinheiro a ganhar. O problema é que, como não gosto de citar jornais a seco, pelo desagradável hábito que estes têm de mentir inventar distorcer não investigar e validar  os “factos” que publicam, resolvi investigar um pouco o assunto e – surpresa – a historieta contada pelo respeitável economista/conselheiro/professor não tem ponta por onde se lhe pegue. Por isso, vamos aos factos, baseados desta vez na realidade:

  • de 2003 até 2010, foram vendidos, no total, 1570 Cayennes na Grécia. (vendas: 2003, 04, 05, 06, 07, 08, 09, 10)
  • Na Europa, foram vendidos em 2009 e 2010 um total de 23.620 Cayennes. (Fonte)
  • Nos mesmos anos, na Grécia, foram vendidos 243.
  • Sendo assim, a Grécia absorveu 1.02% de todos os Cayennes novos comercializados na Europa nesses dois anos, isto numa economia que vale mais ou menos 2.5% da Zona Euro

Ou seja, comparados com os restantes europeus, os Gregos até foram bastante poupados neste carro de luxo, comprando metade do que poderia em teoria ser a sua quota.

Mas e a afirmação de que “há mais Cayennes na Grécia do que pessoas que declaram rendimentos acima dos 50.000 euros”? Mais uma vez, segundo o ministro das finanças grego Evangelos Venizelos, há apenas 160.000 cidadãos gregos a declarar rendimentos acima deste valor. Ora, descontando os 1570 novos, isto deixa 150.470 carros para serem vendidos no mercado de usados, ou importados paralelamente. Factos: a produção de Cayennes até 2010 totalizou aproximadamente 270.000 unidades (nenhum foi para vocês),das quais 40% foram para o mercado americano. Restam portanto 162.000, que de acordo com o senhor Herakles Polemarchakis, conselheiro económico do primeiro-ministro, devem estar quase todos na Grécia. Grandes malucos, estes gregos.

Já a afirmação que a cidade de Larissa tem o maior número de vendas per capita de Cayennes do mundo é também curiosa. Aqui, não tenho dados para refutar (a paciência tem limites) mas descobri uma coisa peculiar, que aposto que não sabiam: em Atenas, como noutras cidades históricas gregas e como maneira de proteger os monumentos, há muitos anos que é proibida a venda e circulação de veículos particulares a diesel, o motor de muitos Cayennes (sim, é um Porsche a diesel, não riam). Uma maneira do importador contornar essa situação é então vendê-los registados noutra cidade onde não exista essa proibição. Como Larissa. Quem teria, então, esse racio que tanto faria franzir o sobrolho da casa-mãe de Stuttgart. Mas tendo em vista os números acima, tenho muitas dúvidas que também esta seja verdade.

Espanta-me pois que um reputado economista/conselheiro/professor publique, num jornal académico, um artigo difamatório para o seu próprio país baseado numa mentira tão grosseira, servindo apenas para confirmar os preconceitos dos outros europeus de que os gregos são uns aldrabões de primeira. Serve para mostrar que “Medina Carreira”, mais do que uma pessoa, pode ser considerado uma categoria, existente em todos os países. Triste consolo.

Nota: a fonte das preciosas informações deste post está aqui.

22 thoughts on “Gregos corruptos guiando os seus Porsches”

  1. tá bem , Vega , mas foste ver o mercado de pimentas usados ? é que se calhar compram os carros na alemanha em 2ª mão…cá há uma data de mercedes e tal assim. e com 20 anos e tal. ou esses carros todos contados são novinhos em folha ?
    claro que as pessoas exageram sempre.

  2. já li. suponho que em larissa está o maior ferro velho do mundo , e especializado em cayennes..
    muito bem investigado , chapeau.

  3. muito bom, Vega. Assim é por desgraça dos muitos fala-baratos que passeiam pelo mundo. Amanha dirão que os gregos comem melhores sobremesas que o resto dos europeus, eles que deviam andar dia e noite na poupança.
    Porca miseria.

    anúncio de Ryanair ontem na Italia:
    Caro Silvio un` altra ocassione per scappare con Ryanair

  4. o tal reia sou eu. Ainda que aproveitando o erro podia mudar de name. “verborreia”, e em familia …reia.
    “Em tempos de turbação não fazer mudança” ( santo ignacio de Loyola, ou santa Teresa de Jesus, ou os dous)

  5. Impecável desmontagem de um sensacionalismo falacioso. Mas continua válida a ideia de que os gregos serão particularmente habilidosos em fugir aos impostos, certo?

  6. olha , fico contente por saber que mesmo que o estado grego e seus empregados estejam na ruína , os demais gregos foram espertos qb por se terem precavido da sangria e lá irão sobrevivendo por terem fugido ao xerife.
    que se tivessem pago todos os impostos devidos estavam safos da bancarrota , é isso ? que ciumento , V.. vê lá se percebes , os miolos dos outros juntam-se aos teus , não te tiram nada.

  7. Como trabalhei na Grécia vários anos, antes de estourar a bronca, num gabinete de engenharia e arquitectura, com cerca de 45 pessoas, posso afirmar com conhecimento de causa – o mesmo não acontece com muitos dos cagadores profissionais de opinião que por aqui pululam, armados em expert’s de tudo e mais um queijo – que a rebaldaria é muitissimo maior do que a “tal” comunicação social fala.

    Escreveria um livro a contar a irracionalidade, vigarice e balda instalada de parasitismo à conta do estado. Comparado com o nosso sistema fiscal, nós somos gente “honesta”.

    Não me vou alongar muito, mas, só a título de suave ilustração do modus vivendi da maioria da população, eu e toda a gente – toda mesmo – do local onde trabalhei recebíamos em espécie todos os 15 dias e nunca, mas nunca, assinei um papelinho que fosse a declarar nada. Era uma limpeza. A firma declarava ter 2 ou três empregados e mais nada. Nunca paguei qualquer imposto, contribuição, taxa ou seja o que for. Tínhamos seguros saúde e tudo o mais, de natureza particular.

    E posso garantir que conhecia pessoalmente muitos casos como este. Sejamos honestos: na Grécia raros eram os nativos que pagavam alguma coisa, a não ser os funcionários públicos. Para os gregos não pagar impostos e sacar do estado tudo o que fosse possível é o estado de normalidade. O anedotário sobre esta matéria é incontável. Tudo mamava da teta da vaca, com o conúbio apaixonado de toda uma classe política sem ética nem moral. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa só pode pecar porque os gregos nos batiam aos pontos. A enorme distância. E nós já tinhamos o espírito do sargento das messes, responsáveis pelo armazém.

    Portanto meus amigos expert’s: os gregos fizeram a caminha onde se deitaram, e onde sofregamente copularam com a putaria da classe política, e agora têm os meninos nas mãos sem leite para lhes darem. Ou seja, isto não apenas culpa dos mercados. Isto é da total responsabilidade de todo um povo e das opções que resolveram tomar. Simples.

    Essa converseta mole de esquerda preguiçosa e ociosa, cheia apenas de direitos civilizacionais inalienáveis, e de deveres vagos, está muito mal contada no caso da Grécia. E de Portugal também. Porque a realidade transcende em muito as notícias das revistas cor-de-rosa-esquerda que vocês por aqui citam muitas vezes tão ufanamente.

    Toda a gente com um mínimo de capacidade de avaliar este cenário, sabia há muito tempo que isto era inevitável e previsível.

    Portanto, se os gregos têm muitos ou poucos porches: isso não é relevante e é apenas palha seca na discussão. Não vale um traque sequer. A substância é outra e muito longe destes fait-divers, de quem obviamente têm que fazer crochet com qualquer assunto que seja para cagar uma douta opinião, sobre uma matéria sobre a qual não têm a mínima preparação.

    Parece que é moda por aqui …

  8. pode ser palha seca , mas José , qual o problema de fugir aos impostos numa partidocracia ? se tivesse pago esse dinheiro ele teria revertido para si? ou teria revertido prá família alargada do papandreu ou papademos ( este nome , mata-me) é que era suposto reverter para si e para “”os mais desfavorecios” … a ideia do sistema ao qual demos aval era essa. e querem que um dos signatários do contrato cumpra quando o outro não cumpre ? um toma do bordalo , que a gente não é assim tão tonta.

  9. Muito bem. Serviço publico. Assim da gosto vir aqui. E obrigado pelo tempo e o trabalho que (eu sei que) isso da.

    E gostei também da introdução : mais espirito critico desse estilo é o que se precisa.

    Boas

  10. Caro Vega9000, gostei de ver o trabalho de investigação e as conclusões resultantes. Do mesmo modo gostei de saber que há portugueses iguais aos gregos, como por exemplo o José Crispim, que trafulhava o governo grego como se tratasse de um bom grego e não um dos muitos estrangeiros que andam por lá a sacar o deles, bem pagos e bem tratados e depois ainda arranjam espaço para os insultar.
    Concluo que afinal os gregos são iguais aos portugueses que são donos de fábricas mas descontam apenas como se recebessem o SMN, que andam no carro da empresa, com o seguro pago pela empresa, moram numa casa da empresa que lhes paga a água, eletricidade e telefone, recebem ajudas de custo nas deslocações pois são consideradas viagens de serviço, a mulher é empregada da empresa descontando pelo mesmo SMN nunca lá pondo od pés, e os filhos fazem parte do plano de formação pago pela União Europeia e se calhar ainda são filantropos ao pagar os estudos a um grupo de meninos descontando nos impostos como mecenato, que são filhos dos amigos que retribuem o favor do mesmo modo.
    Estes portugueses são parecidos com aqueles espanhóis que vendem óleo de colza por azeite, pexelim por bacalhau, passam os dias nas festas da Hola e alguns ainda casam com meninas de sangue azul, do mesmo modo que a realeza holandesa se envolvia em escândalos fabricados à sombra de Bilderberg, os alemães vendem submarinos aos caloteiros gregos se calhar pagando-lhes luvas como declararam em referência a outras vendas que tardam a ser investigadas, os assessores franceses que subornam governos africanos e recebem financiamentos para campanhas por baixo da mesa, dos italianos que não conseguem desmembrar o crime organizado e se ocupam com orgias à moda da antifa Roma, dos Belgas que parecem meninos bem comportados e que muitos gostam mesmo de meninos mas como são padres é um aborrecimento, ou dos puritanos ingleses que fazem a mesma coisa mas na língua de Shakespeare, que roubam tudo em todo o lado e levam para a ilha, que rebentam com bancos e com a monarquia num abrir e fechar de olhos e onde a criminalidade infantil atinge números pavorosos.
    Como o escrito vai longo, já nãp falo nos restantes pois cada um com a sua cruz e os gregos com todos às costas. Pode ser que os próximos sejamos nós e então quero ver estes cómicos que de vez em quando aparecem por aqui a pisar os gregos escrever qualquer coisa quando não tiverem dinheiro para pagar a Net e o computador cair na mão do invejoso.

  11. Valupi, os gregos fogem aos impostos, de facto. Agora se isso revela algum tipo de habilidade especial é que já não sei. Começo a convencer-me que revela, isso sim, um estado e uma máquina fiscal/judicial muito ineficientes, o que promove certo tipo de comportamentos não necessariamente endémicos dos gregos. Não será bem a mesma coisa.
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    José Crispim, “esquerda preguiçosa e ociosa” é o oposto de “direita dinâmica e trabalhadora”? No resto, acredito perfeitamente no teu relato, eu próprio estive na Grécia no final dos anos 90 e saí de lá com a impressão que aquilo era Portugal com 20 anos de atraso. No entanto, tendo em vista que pelos vistos não foste para lá propriamente dar o exemplo, antes adoptaste, pelo que percebo, os comportamentos destes em matéria fiscal, não vejo como é que vens acusar de serem comportamentos “nativos”.
    ___
    Teófilo M., muito bem.

  12. Enquanto se fala de carros, vamos esquecendo o papel da Goldman Sachs na derrocada grega durante muitos anos, o artifício de partida, coisa combinada. Ou na corrupção geral no estado-maior de Bruxelas, seja da UERSS. Contudo, o post está bom, até apetece brindar com estalo, ou pedir ao Vega que faça o favor de nos confirmar se sempre é verdade que o Porto é a cidade do mundo com mais Ferraris per capita, mesmo que calhe uma vela ou uma porca a cada um.

    Para o tal brinde com estalo: quantas betas entram na palavra “aguardente” em grego?

  13. O tema da fuga aos impostos dos gregos dá para espasmos xenófobos, ao limite, muita hipocrisia, no mínimo, mas também para uma justa responsabilização, se for caso disso. O modo como se poderia corrigir a situação é que não é nada claro.

  14. Mas é ou não verdade, ó Vega que há mais porsches cayenne na Grécia do que pessoas a declarar rendimentos de 50.000 Euros por ano? Acho que te perdeste um bocado lá por Larissa. Será que também tens uma porsche cayenne?

  15. José Crispim, “esquerda preguiçosa e ociosa” é o oposto de “direita dinâmica e trabalhadora”?

    Talvez, sei lá, provavelmente, nunca se sabe, sobretudo quando até tu consegues colocar a questão nos termos de um dilema de sofrimento ideológico ao qual não queres dar resposta.

    É pá, sei lá … se a bitola é o PS de Portugal, teríamos de acrescentar esquerda preguiçosa, ociosa, falaciosa, patética e mentirosa. Tás a ver? Não vás por ai que isso é um charco nauseabundo.

    Mas não te quero causar mais pain e desgosto inútil. Tens que pesquisar se existem corruptos, como eu, incapaz de ter posto o sistema fiscal grego na ordem, reconheço a minha total incompetência e hipocrisia, que gostamos de outros modelos de porches e também não os declarámos?

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