Primeiro entranha-se, depois estranha-se

Não há guerra mais estranha do que a da Líbia. No início, no romance provocado pela embriaguez da Praça Tahrir, sugeria-se que o exército do Coronel estava em debandada e seria um passeio até os revoltosos conquistarem Tripoli. Entrávamos em Fevereiro. Três meses depois, com a Nato a bombardear, conselheiros militares ocidentais a orientar os rebeldes, serviços secretos com permissão para agir e a cobertura tecnológica que permite saber tudo acerca do poder militar de Kadhafi, suas posições e movimentações, o conflito parece empatado. É absurdo.

Contudo, é no plano do tratamento dado pela comunicação social que a estranheza atinge o seu auge. Não temos imagens reais, ou em infografia, que transmitam uma noção do que se esteja a passar. Nem sequer a dimensão da violência e destruição é captada mediaticamente, faltando relatos locais, ou de representantes do povo líbio no exterior, com dados concretos e de conjunto. Tendo em conta a facilidade em registar imagens por qualquer telemóvel, pelo menos, este deserto mediático não encontra paralelo em nenhum outro palco de guerra onde as forças ocidentais tenham estado envolvidas.

Finalmente, tal como o Francisco Clamote regista, a estratégia da Aliança está a passar pela tentativa de assassinato de Khadafi. Ou, no mínimo, por uma forma de chantagem que consiste em lhe mostrar que tal é possível a qualquer momento.

A apatia que se instalou na opinião pública internacional, e especialmente na europeia, assinala a contrario o poder do jornalismo.

4 thoughts on “Primeiro entranha-se, depois estranha-se”

  1. Com surpresa, verifiquei que “notáveis” condenadores da invasao do Iraque apoiavam agora a intervenção na Libia. Enebriaram-se com as revoltas na Tunisia e no Egipto e não resistiram a pedir a intervenção da força para fazer vergar um regime. Os mesmos “notáveis” que já esqueceram Tianamen e se passeiam alegremente pelas muralhas da China.
    Uma vulgaridade perigosa tem acesso a meios de comunicaçâo e persuasão universais e poderosos. Não há quem, atempadamente, faça o contraditório. E não deixa de ser arrepiante ver gente eleita para orgãos de representação muito relevantes, como os parlamentos e similares, da mais baixa craveira intelectual e moral. Estou a lembrar-me, só para falar de gente que conheço, de alguns miseráveis pantomineiros que os partidos têm mandado para deputados europeus. Homens e mulheres que não têm o minimo escrupulo em manipular os factos, para fazer passar a mentira redonda e hedionda sem olhar a qualquer espécie de ética ou moral.
    Continuando pela nossa terrinha, já nada me espanta depois de ter visto a gente do presidente Cavaco fazer a “inventona de Belém” em vésperas de eleições e tudo ter ficado impune. Muito pior: premiou-se com a reeleição, quem num país decente teria sido forçado a resignar, como Nixon. O exemplo marcou o País, perante a passividade mortal de tres ex-presidentes da Republica, do Parlamento, do PGR e do Presidente do Supremo.
    O País desceu ao inferno da intriga e da mentira com a conivencia dos “nossos maiores”. Quem se quiser deprimir basta ouvir os comentadores residentes, todos da mesma cor, nas TVs da nossa vergonha.

  2. Talvez ainda venham a descobrir, que tal como no Iraque não passou de mais um golpe motivado por interesses financeiros.

    Vou ficar à espera para ver qual vai ser o “regime democrático” a emergir da Líbia. Ah, e também da Síria, já agora.

  3. o jornalismo não está para dar importância ao filhos de beduínos – só aos filhos da puta. :-)

    (mas tu, Val, Val de tesão, Valão, contribuis muito, digo muito positivamente, para o seu poder – e o foder também) :-)

  4. Val, a “guerra da Libia” é a continuação do “folhetim virtual” que nos impingiram no Iraque! É uma luta sem tréguas pela supremacia do dólar!
    Peço-lhe que faça a divulgação também do post de hoje, 4ªfeira, 11/Maio, – título: “A verdade nua e crua do ataque à Libia” do blogue “Homem ao Mar”, de M. Ferrer!!!
    Falta de democracia há em muitos Estados, porquê só a Libia é que “tem direito aos bombardeamentos do “mundo civilizado”?!?!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.