Pp. 115 a 118

[…]

Para a Geração de 70, Portugal só podia esperar a redenção de uma catástrofe regeneradora, de um qualquer apocalipse histórico ou sabre providencial. Para Pessoa é puro futuro, manhã a amanhecer, vinda próxima do Encoberto, Cristo sem cristianismo, fraternitatis rosea crucis, quer dizer, invenção de uma fraternidade de alma de que a divisão das nações e dos impérios reais, triunfo da ‘Ordem’, é a contrafacção incurável e demoníaca. É mais que claro que este País-Futuro em busca de Índias que não vêm no mapa, representa o termo de um processo de divergência prodigiosa de alguns dos mais altos e profundos espíritos portugueses com a “terra mater” em que nasceram. Mas ao mesmo tempo é a forma mais radical de recusar a sociedade portuguesa enquanto sociedade amorfa, sem ideal, interiormente satisfeita com a glosa do seu interminável crepúsculo de Nação que há séculos entristeceu

Sem Rei nem lei nem paz nem guerra

esse Portugal-nevoeiro onde

Ninguém sabe que coisa quer
Ninguém conhece que alma tem
Nem o que é o mal nem o que é o bem

[…]

Como era de esperar, não seria uma Revolução caída do céu militar que poderia repor miraculosamente o País em condições de se readaptar, enfim, àquilo que é e que pode. As contas a ajustar com as imagens que a nossa aventura colonizadora suscitou na consciência nacional são largas e de trama complexa demais. A urgência política só na aparência suprimiu uma questão que também na aparência o País parece não se ter posto. Mas ela existe. Querendo-o ou não, somos agora outros, embora como é natural continuemos não só a pensar-nos como os mesmos, mas até a fabricar novos mitos para assegurar uma identidade que, se persiste, mudou de forma, estrutura e consistência. Chegou o tempo de existirmos e nos vermos tais como somos. Ao menos uma vez na nossa existência multissecular aproveitemos a dolorosa lição de uma cegueira que se quis inspiração divina e patriótica, para nos compreendermos em termos realistas, inventando uma relação com Portugal na qual nos possamos rever sem ressentimentos fúnebres, nem delírios patológicos. Aceitemo-nos com a carga inteira do nosso passado que de qualquer modo continuará a navegar dentro de nós. Mas não autorizemos ninguém a simplificar e a confiscar para benefício dos privilegiados da fortuna, do poder ou da cultura, uma imagem de Portugal mutilada e mutilante, através da qual nos privemos de um Futuro cuja definição e perfil é obra e aposta da comunidade inteira e não dos seus guias providenciais.

[…]

Eduardo Lourenço, 1978

4 thoughts on “Pp. 115 a 118”

  1. mesmo interessante e verdadeiro. até dá para ver Portugal personificado, é mais fácil, e assemelhá-lo a uma pessoa qualquer cuja fantasia só é valia se moderada e tanto mais feliz se se assumir conforme original, olhos em bico de futuro, sem complexos de superioridade, saldo do passado, e/ou inferioridade, crédito presente, e se não deixar que outros lhe coloquem a pata em cima. actualíssimo e já lá vão 35.

  2. Sou um tanto disléxico.

    É uma pena que quem sabe não escreva para todos compreendermos.

    Fica-se com mais dúvidas do que as que já existem na cabeça de nós o pobo.

  3. Só que no melhor pano…Há prémios e prémios? Os que não o são não se aceitam, os outros aceitam-se ponto.

    “Este tem merecimento” Qual o sentido? Só este os outros não?

    Parabéns porque devidos.

  4. Muito bom, sobretudo por ter já sido interiorizado e verbalizado nesse tão distante 1978…

    Contudo, para algo tão bom poder tornar-se útil ao “pobo”, teria sido necessária outra Educação, outra Cultura e outra Comunicação Social (sobretuto televisiva) em Portugal.

    Que não tivémos, desgraçadamente. E assim, todo este esforço de elevação terá sido em vão e inútil. Ainda para mais num tempo em que jorrou dinheiro como nunca e em que foram satisfeitas e criadas (e empoladas…) tantas necessidades do foro material e físico.

    Pois é, se calhar coletivamente mercemos tudo: o que vamos sofrer a seguir e todos os “sportingistas ateus” com que teremos de conviver para sempre, incluindo os políticos e os governantes, se não mudarmos de vida, ou se não fugirmos deste atoleiro mental e intelectual.

    Assim já percebes?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.