Política com final feliz

A primeira edição do Orçamento Participativo em Cascais entrou agora na última fase: votação. Em Lisboa, a quarta edição foi concluída recentemente, tendo logo depois sido anunciados os projectos vencedores. Saltou-se de 11 mil votos em 2010 para 18 mil em 2011 na Ulisseia. A popularidade da iniciativa disparou e, se continuar, não demorará muito a atingir os 100 mil registos. E tudo aqui brilha ao mais alto nível de eficácia cidadã, desde a metodologia da escolha dos projectos à ubiquidade da possibilidade de participação, passando pela informação disponibilizada antes, durante e depois da votação. Para quem se envolve na escolha de um projecto apenas na fase final, sem mais gasto de tempo do que aquele resultante da consulta da lista dos finalistas no todo ou em parte, o destino é o prazer: prazer de descobrir as ideias em disputa para melhorar a qualidade de vida na cidade, prazer de encontrar a sua proposta favorita e prazer de conhecer os sonhos que se irão concretizar e juntar-se aos já inaugurados ou em construção. Ganha-se sempre, mesmo quando se perde, porque se tem a certeza de irmos todos aproveitar com os investimentos a fazer, sejam eles quais forem.

Mas é nas fases de elaboração, apresentação e selecção das propostas finalistas que a iniciativa se revela como uma escola de cidadania de vasto alcance, permitindo a qualquer munícipe uma experiência plena do que é a essência da política: o encontro dialogante e volitivo com os vizinhos, o sentimento de se pertencer a uma comunidade maior do que os problemas individuais. Por razões de disponibilidade, são os reformados e os estudantes aqueles que mais podem participar nas sessões nas Juntas de Freguesia. E serão também estes dois grupos os que reúnem mais energia e sapiência para renovarem os espaços urbanos, pois os vivem com uma intensidade que escapa aos que se fecham nas carroças e nas gaiolas durante o dia até chegar a hora de se fecharem em casa. Ora, se conseguirmos aumentar a frequência do convívio entre reformados e estudantes com vista ao bem comum, algo de profundamente vital estará a acontecer no espaço público. As consequências da união de esforços em projectos locais entre pessoas de vária escolaridade, idade, ideologia, experiência e tipos de vida tem profundas consequências para o amadurecimento político da sociedade portuguesa.

Os Orçamentos Participativos mostram que não podemos invocar qualquer desculpa para o absentismo cívico. Só não participa quem não quiser. E isso é o que podemos dizer a respeito de outras instâncias da intervenção pública, em que o cidadão abdica espontaneamente de um conjunto formidável de direitos que lhe garantem voz e espaço de acção. O discurso contra os políticos e contra a política é papagueado pelos mais mentalmente frágeis e pelos mais moralmente perversos. O que pretendem, inconscientes os primeiros e canalhas os segundos, é a continuação do afastamento dos cidadãos da sua fonte primeira de poder: a liberdade para serem autores da cidade onde habitam, onde se realizam. Só nos irão derrotar se deixarmos, somos nós que daremos um final infeliz ou feliz a este mistério de estarmos juntos.

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