Pacheco, o assessor da mentira

Pacheco Pereira e Adelino Maltez eram duas figuras que respeitava e admirava intelectualmente enquanto representantes de uma certa independência romântica. Ambos me pareciam genuínos na sua missão crítica, cultores de uma isenção moldada pelas convicções e sustentada na boa-fé. Isto durou até meados de 2008. No presente, depois de constatar o seu sectarismo e silêncios imperdoáveis num dos períodos políticos mais definidores da nossa História recente, vejo-os como fraudes, exemplos da mediocridade da nossa elite.

Todavia, não há comparação entre eles no que respeita à respectiva influência mediática e danos políticos causados. Adelino Maltez contenta-se com o seu papel de Avô Cantigas da análise política, servindo comentários professorais no estilo e irrelevantes no conteúdo. O seu Portugal é lírico e literário, um fantasma barroco sem substância sociológica. Já Pacheco tem sido o mais ubíquo dos publicistas, servindo-se da comunicação social para se valorizar partidariamente e do partido para se valorizar na indústria da opinião. É um monstro bicéfalo, joga com as brancas e as pretas ao mesmo tempo. Os seus números de oposição interna – primeiro a Santana, depois a Menezes, agora a Passos – são instrumentais para garantir o necessário protagonismo no mercado da política-espectáculo. E a sua perseguição a Sócrates, num crescendo de ódio e obsessão que durou 3 anos, levou-o ao ponto de conspurcar a Assembleia da República pela consulta das escutas judicialmente ilícitas e politicamente infames feitas ao então primeiro-ministro. Pacheco Pereira, quando se tornou num conselheiro privilegiado de Ferreira Leite para as eleições de 2009, alinhou com o zelo dos fanáticos na estratégia de Belém para caluniar o Governo PS. O descontrolo emocional que exibiu durante tanto tempo prova que acreditou estar mesmo num duelo pessoal com Sócrates, sentindo-se cada vez mais despeitado e furibundo com a bonomia indiferente que recebia em troca.

Vem esta prosa a propósito desta, onde Adelino Maltez entra em diálogo com o novo posicionamento da marca Pacheco e seus novos alvos: os assessores do Governo. Ora, há dois pontos a registar na questão. O primeiro é o de ser perverso estar a desconfiar de nomeações governativas só por o serem, como se o serviço público em funções de assessoria raiasse a marginalidade. O segundo é o de tais insinuações virem de um inveterado e displicente mentiroso. O Pacheco mente com quantos caracteres tem à disposição e não quer saber das consequências por se considerar inatingível. Fiquei a saber desta formidável verdade quando li que incluía o Aspirina B num grupo de blogues onde escreveriam empregados do Governo e mais acima. Em relação ao Câmara Corporativa e ao Jugular não tinha forma de confirmar ou infirmar a sua acusação, apenas a julgava absurda, mas a respeito deste sabia que tinha apanhado o Pacheco. É que é muito diferente ter arraia-miúda como o sinistro Paulo Pinto Mascarenhas a chapar com a sua profunda estupidez num blogue qualquer de ver um dos nomes mais importantes do comentário político nacional a largar uma calúnia deste calibre num meio de comunicação social onde é pago para escrever. E se ele dizia isto de pessoas que eu conhecia, os meus colegas no Aspirina B, nenhum deles com a menor ligação à política partidária quanto mais ao Governo, qual a veracidade das restantes afirmações bombásticas do Pacheco contra este, aquele e aqueloutros? Acrescento que nunca fui por ele contactado, nunca ele revelou qual foi a fonte das suas declarações e nunca ele se retractou.

A oportunística sanha do marmeleiro contra os novos assessores que têm passado como autores na blogosfera política apresenta só um indiscutível interesse neste momento. É o de recordarmos o que alguns deles escreveram nos últimos 4 anos. A vulgaridade intelectual, a soberba hipócrita e o fervor calunioso são características omnipresentes das suas diárias publicações. O facto de serem agora escolhidos para assessorarem governantes fica como uma radiografia da natureza moral deste Executivo.

19 thoughts on “Pacheco, o assessor da mentira”

  1. Começasse a imoralidade em Pacheco! O pior é quando campeia nas instituições, perante a passividade colectiva de uma comunicação social comprada, domesticada e servil.
    Nunca tinha visto nada assim, desde a instauraçâo da democracia, depois do assentar da poeira da revolução.
    Não se augura nada de bom. Eu pergunto qual vai se a reacçâo, a prazo, da infinidade de pessoas que vão tomando conhecimento das pulhices ao mais alto nivel e calam porque concordam ou lhe convém, para não terem chatices ou simplesmente por medo de perder o ganha-pão.
    Nisto parece que ninguém pensa e vejo aqueles que ainda nos mereceriam algum crédito, estranhamente silenciosos.
    Fica a impressâo de que fomos tomados por uma espécie de cobardia colectiva. Resta a voz de alguns blogues, folheto quase anónimo perdido pelas valetas.

  2. o que pacheco fez na assembleia da república, com o outro capataz do pc, foi estar na sede do news of the world a ouvir as gravações das conversas do gordon brown. e estaria neste momento presente a um juiz se…

  3. Muito bem amigo Valupi. Mas já sabemos todos, embora não seja de mais recordar, que o Pachecão é um dos grandes capitães de indústria do bota-abaixismo. Uma posição que lhe permite rendimentos perpétuos e afasta a preocupção com o possível aumento (cruzes, canhoto) da idade da reforma.

  4. Não gosto do JPP e gostos não se discutem! Lamento que a sua exposição mediática se deva ao facto de estar filiado no PSD/PPD e não às suas opiniões e interrogo-me muitas vezes o que o fará aparentar morder a mão que o alimenta!
    Creio que a vaidade, o narcisismo obsessivo que cultiva e o ódio a todos aqueles que o atormentam nos seus onírico paraíso faz desde Sancho Pança político a companhia dileta dos cavaleiros e cavaleiras de triste figura que passam pelo poder.
    Ágil no angariar de tachos e tachinhos para a preparação dos seus envenenados manjares tem audiência q.b. que lhes é fornecida pelos do costume, que vão variando conforme sopram os ventos.
    De evolução em evolução, ainda o hei-de ver um dia a defender o defensável, o que será nele uma originalidade.

  5. Com essa acusação, Pacheco, um fulano vulgarmente tido por culto e inteligente, revelou uma vez mais a sua alma de denunciante e provocador policiesco. Teria dado um bom quadro policial, com a sua tendência patológica para a recolha de informação política. Se hoje houvesse uma polícia fascistóide (não estamos livres disso), ele seria o encarregado ideal da vigilância da blogosfera. Daria também um bom analista de escutas telefónicas, para o que já revelou vocação.

    Note-se que Pacheco começou a sua carreira de inquiridor e inquisidor como marxista-leninista, e dos mais tinhosos no seu dogmatismo ideológico. Ler hoje os seus virulentos escritos doutrinários da primeira metade dos anos 70 é algo de fantasticamente hilariante, para quem tenha humor e estômago. É conhecido que por esses anos o mangas recomendava que se queimassem certos livros considerados burgueses, como foi o caso de uma obra do professor António José Saraiva. Grande intelectual este Pacheco, guarda-vermelho incendiário nas horas vagas… Nunca lhe passou o tique, diga-se, embora surja agora disfarçado de liberal.

    Um dos episódios mais rocambolescos da fase bolchevista do Pacheco, elucidativo do carácter e da mentalidade do indivíduo, foi o ter decidido permanecer na clandestinidade durante meses e meses após a vitória da revolução de Abril. Não se sabe se por saudades do Estado Novo, se por cagaço ou se por ultra-conspirativismo, Pacheco achou melhor manter-se na sombra, tanto mais que o seu principal inimigo era, já então, a esquerda não maoista.

    O velho bolchevista é agora “liberal”. Um new born liberal ou coisa parecida. A sua principal luta, desde pelo menos 1987, segundo confessa, é a extinção da RTP (não a privatização, mas a extinção) bem como de toda a comunicação social do Estado, excepto talvez a RTP-África, que, por alguma razão tropical ou colonial, lhe cai no goto. O homem que recomendava a queima de livros quer agora calar a RTP 1 e a Antena 1.

    Em 2003, o perigoso esquerdista Durão Barroso, fazendo ouvidos de mercador ao professor Martelo, não extinguiu a RTP. Por causa disso, o velho bolchevista Pacheco caiu-lhe em cima no Público de 3 de Julho passado. O argumento dele contra a comunicação social detida pelo Estado é que ela “politicamente comandada” (no exemplos que citou, o Pacheco “esqueceu-se” de citar o único caso claro e óbvio de comando político de um órgão de comunicação governamental, o Jornal das Madeira). O argumento do Pacheco é delirante, pois se alguma televisão é medianamente isenta politicamente, é a RTP. Argumento curioso, porque parece ter implícito que a TVI, a SIC, o Expresso, o Público, o Correio da Manhã, o Sol e outros media pasquinóides não são “politicamente comandados”. Parece ter implícito, mas não tem. Na verdade, o Pacheco acha muito bem que a comunicação social privada seja politicamente comandada, ela está no seu pleno direito. Não é isso que chateia Pacheco. O que lhe faz hemorróidas é que a informação não esteja toda nas mãos de gente de confiança da direita. Isso é que é liberal.

    Ora vai lamber sabão, velho bolchevista.

  6. O f…. da p…* enlouqueceu, mas não foi abruptamente, é um processo contínuo!!! Que se agrava.

    * sem ofensa para a Mãe

  7. O carniceiro nazi da Noruega escreveu no seu manifesto que Durão Barroso é um “perigoso marxista”.

    Pacheco Pereira subscreve.

  8. Caros,
    Dos episódios mais sórdidos de PP foi o caso das vacas loucas, quando António Campos denunciou o caso na AR e ele era chefe da bancada laranja e Arlindo Cunha o ministro de da agricultura de Cavaco.
    O Arlindo que negociou a 1ª PAC onde trocou, a mando de Cavaco, pescas e agricultura por euros enterrando o desenvolvimento equilibrado e sustentado do país para agora vir chorar lágrimas de crocodilo sobre a desgraça das opções que negociou. Estes homens, e toda a escola cavaquista, têm uma visão de futuro ao nível de merceeiro de Boliqueime.
    Mas, dizia eu, na altura o Arlindo andava encobrindo o caso das vacas loucas e quando A. Campos chamou a atenção na AR para o problema de saúde pública que podia surgir com a doença, PP fez a defesa feroz dos mercados de carne contra o problema de saúde e apelidou A. Campod de todos os nomes sujos e feios que tinha no seu vasto repertório de intelectual m-l. Tentou enxovalhar A. Campos e só não fez porque este não era de se ficar face a pulhices de qualquer canalha, e ainda por cima tinha carradas de razão.
    O sórdido PP esgrimiu tudo e contra todos em defesa do negócio da carne contra o dever de defender a saúde dos portugueses.
    Das mortes que houveram por doença das vacas loucas qual a dose de responsabilidade directa que lhe cabe a, ele sim, por este caso e pelos casos futuros que advogou com a mesma sem-vergonha e sem-razão, uma verdadeira vaca-louca sempre a cair perante os factos e a levantar-se pela língua espumosa.

  9. É de facto muito interessante recordar o que escreveram no passado e como reagem agora os novos assessores e seus colegas de blogues a mais um ataque do Pacheco. Quem os lê, uns mais indignados do que outros, fica com a sensação de que só agora se aperceberam dos métodos do Pacheco, coitadinhos. Mas o Pacheco continua igualzinho a si próprio só mudou os alvos. Alvos esses que no tempo de Sócrates não só não escreveram uma linha que o contrariasse como fizeram coro com ele na diabolização dos assessores, esses pulhas que até tinham o desplante de escrever em blogues.
    Enquanto lhes deu jeito, alinharam em todas as maluqueiras do Pacheco, tendo o auge sido atingido com aquela ridícula (para não dizer pior) manifestação que organizaram nos seus blogues contra a asfixia democrática. Não consta que o Pacheco tenha aparecido vestido de branquinho, mas com certeza esteve lá em espírito.
    Francamente, não sei qual é o espanto, só estão a provar o veneno que ainda há bem pouco tempo, e sempre tão divertidos, serviam aos outros.

  10. Do alto do monte – Conto de Natal
    … Pacheco deixa arrastar a âncora, perde o norte e encalha. Com a água pelo pescoço, agita-se freneticamente, mas não pede ajuda. Da sua boca, houve-se, disparadas, as palavras: «….Sócrates maldito… Corrupt… Soc…. glu…. glu…. gl….». Depois, silêncio. Do alto do monte, o velho assiste à cena e abana a cabeça. Um pensamento, todavia, absorve-o… nunca mais acabam com a publicidade no canal público… «Comenda!!!», berra, olhando ligeiramente por cima do ombro. O fiel amigo, ouvindo a voz do dono, aproxima-se correndo nas quatro patas e agitando a cauda num frenesim. O velho pousa a mão direita sobre a cabeça do cão e faz-lhe distraidamente uma festa. «Comenda…» diz novamente… … agora que a golden share vai à vida, o Belmiro pode outra vez tentar vender aquilo aos bocados e fazer uma pipa de massa,» e conclui com tristeza… «O país afunda-se». O rafeiro desanimado volta a deitar-se em cima do jornal. O velho cogita. A vida passou depressa. Como num filme agitado, imagens apressadas percorrem-lhe o pensamento. Olha novamente para o sítio onde desaparecera Pacheco. Nunca gostara muito dele. A situação piorara depois daquela insistência obsessiva com que alimentara os ódios dela e a conduziu àquela derrota estrondosa. Olhou demoradamente para o mastro que boiava no sítio do naufrágio. Julgou ver um objecto que emergia. Semicerrou os olhos, concentrando-se na imagem. Pareceu-lhe ver um dedo espetado, depois um punho e, finalmente, o corpo de Pacheco emerge de rompante à superfície separando as águas com estrondo. O mar devolvia Pacheco à vida. Os pulmões de Pacheco congestionados recusam-se a aceitar o sopro da vida. Pacheco estrebucha e consegue, num ronco cavo, começar a respirar. Os olhos arregalados percorrem a costa em redor, ávidos de vida. De repente, Pacheco avista o velho no alto do monte, e, na sua agitação, confunde-o com Deus. Não era Deus, longe disso, mas, para Pacheco, aqueles cabelos desgrenhados e a cara bexigosa personificavam o Criador e o milagre do seu regresso à vida. O mastro arrastado pela corrente dá à costa e, com ele, Pacheco. Sentindo terra firme, Pacheco beija a rocha e enterra fundo as mãos na areia. De repente, ouve uma voz. Era uma voz sem som, que se lhe cravava no cérebro. Uma voz simultaneamente maternal e paternal, que lhe fazia lembrar recordações de infância. Maternal porque o aconchegava, o acarinhava e lhe dava segurança. Paternal porque se tornava rapidamente exigente, não lhe dava espaço para solilóquios e o encurralava. Esta era mesmo a voz de Deus. “Pacheco”, disse a Voz, “Eu amo todas as coisas, vivas ou inertes. A uma espécie dei consciência e responsabilidade. Nesta espécie não dei a todos as mesmas condições de vida. Tu nasceste privilegiado, com carinho, bens materiais e numa família de antigas tradições. Cresceste e fizeste-te homem. No meio onde vives, foste considerado e admirado por fazeres muitas concessões à liberdade de pensamento e, fartas vezes, sorri quando abocanhavas aquele teu correligionário mulherengo.” Mas”, continuou a voz, “algo explodiu dentro de ti e, de repente, dei contigo a vociferar, escumar e arrastar a barriga pela lama. Pacheco, Eu não te fiz réptil! Devolvi-te a vida. Sê Homem.” Pacheco chorou primeiro silenciosamente, depois convulsivamente, mas o rosto resplandecia. O choro era de alegria, e murmurou: “Deus é grande”. E, na costa, vinda não se sabe de onde, espraia-se a Ode à Alegria do compositor surdo.
    Bettencourt de Lima

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