Obrigadinho pela gargalhada, Monteiro

Henrique Monteiro interessa-me por ser uma daquelas figuras secundárias que representam mediaticamente a parte decadente da comunidade que somos. Tendo sido director do Expresso, e lá se mantendo como colunista destacado, é alguém que faz parte da elite jornalística e publicista portuguesa. Embora o adivinhe um excelente companheiro de almoçaradas e jantaradas, na escrita política é a banalidade que lhe vinca tanto o conteúdo como o estilo.

Eis que fez uma crónica paradigmática do que vale – Três conceitos a reter sobre a fragilidade da política – onde a banalidade é tão densa que adquire uma qualidade emergente, a da relevância. Cita Daniel Innerarity a propósito da sempre inatingível complexidade do presente histórico. E realça-lhe o corolário: não é justo pedir aos políticos um conhecimento que ninguém está em condições de obter. Pelo que o melhor será aceitarmos um qualquer grau de frustração inerente à actividade política, pois as nossas escolhas serão inevitavelmente imperfeitas. Estas são reflexões banais, no sentido de já terem sido ditas assim ou assado desde que os gregos inventaram a democracia. O exemplo duplamente clássico da consciência dos limites e constrangimentos do poder político, qual via trágica, é o de Péricles. Não consta que daí para cá a essência de governar democraticamente tenha sofrido alterações.

Ora, que leva o Monteiro a vir com este paleio, caso não se trate apenas de despachar serviço? Se a intenção fosse a de contribuir para a formação e salubridade do espaço público, de facto carente dessa ampla contemplação da natureza da política, então o nosso articulista seria coerente com o entusiasmo com que embrulhou a prosa. E, por exemplo, teria sido daqueles a espalhar moderação durante o período em que Sócrates era caluniado e o seu Governo boicotado para prejuízo nacional. Acontece que o Monteiro então director do Expresso fez precisamente o contrário. Não só alinhou nas campanhas negras, como recusou denunciar a Inventona de Belém, como ainda veio chibar-se de telefonemas privados à volta de notícias falsas cuja finalidade era só a de alimentar a baixa política. Desse tempo ficou uma sequela: o Monteiro entrava para a legião dos que detestavam Sócrates e que moldariam as opções políticas seguintes em função dessa paixão.

É isto que explica que Passos Coelho tenha no antigo extremo-esquerdista, clone do Zé Manel, um dos seus mais dedicados paladinos. E é isso que, finalmente, permite libertar uma homérica gargalhada para cima do parágrafo com que termina o sermão, pois se há carapuça que caiba nos bestuntos dos actuais governantes, os tais que em campanha eleitoral juravam ter as contas todas feitas e que a salvação estava garantida graças à sua superioridade moral, é esta:

Na verdade, a ideia de podermos criar uma espécie de paraíso na terra tem-nos custado muito caro. Seria bom que, sem colocar de lado as diferenças e as divergências (Innerarity também fala longamente sobre a radicalização das campanhas, que depois contradizem a necessidade de acordos para governar), percebêssemos que ninguém, nenhum de nós, sabe sair deste atoleiro. Mas que há uma forma simples de descobrir quem sabe ainda menos: os que fazem de conta que sabem.

9 thoughts on “Obrigadinho pela gargalhada, Monteiro”

  1. oh bécula! bem podes abrir as pernas e oferecer bolas de berlim, que ninguém te come. vão-te gramando por hipócrisia, mas isso é outra estória.

  2. O monteiro desnudou-se quando apareceu na famosa comissão de inquérito PT/TVI!
    O seu depoiamento foi uma “delícia”, mostrou ser um invertebrado reles ser rastejante
    que, não resistiu, a fazer o papel de “chibo” na tentativa de enlamear o P. Ministro que
    lhe telefonou, preocupado com a argolada que ele estava a cometer, baseado no tal in-
    teresse jornalístico … cobardolas, até se sentiu torturado pelo telefone!
    Naturalmente, tocou-lhe, algum tempo depois, o mesmo caminho do ex director do
    “Público” o tal fernandes das inventonas! Não passam de meros extipêndiados (B.B.),
    meros mercenários que se vendem barato sem o menor sentido deontológico!!!

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