O maioral de Portugal

Nós, os ingénuos, ficamos perplexos com o deserto de publicações – monografias, ensaios, meras divagações – a respeito do Cavaquismo. Nem académicos, nem politólogos, nem curiosos, muito menos jornalistas, ousam verter um linha que seja na investigação e análise metodológica do fenómeno político mais longo, e mais influente, após o 25 de Abril. É um ciclo que já ultrapassou os 25 anos, o qual subsume as matrizes que passaram intactas do Estado Novo para o regime democrático. Compare-se com o panorama norte-americano, mutatis mutandis, onde todas as semanas sai um livro acerca de Obama. Este silêncio generalizado reflecte um efeito do próprio Cavaquismo, o resultado de uma cascata de censuras e, acima de tudo, auto-censuras.

Contudo, tendo a esquerda, especialmente a extrema-esquerda, tantos professores universitários e jornalistas sabidos nos seus bornais, a situação atinge o nível do escândalo – ou, então, o do absurdo. Que estará a impedir aos fogosos revolucionários e impantes defensores do povo a dissecação de uma força tão poderosa como aquela que Cavaco Silva exibe e frui? Não faço ideia. Mas constato a factual proximidade entre o Cavaquismo e o comunismo português. Por um lado, houve eleitorado comunista a votar Cavaco para as presidenciais. Por outro, o PCP nunca hostilizou o boliqueimense desde que este entrou em Belém, nem sequer aquando da Inventona das Escutas. Neste quadro não podem faltar as declarações dos cavaquistas a apelarem a uma coligação PSD-CDS-PCP para derrubarem Sócrates no frenesim que antecedeu e envolveu o chumbo do PEC IV. O argumento sustentava que os comunistas eram sérios como eles… Ou seja, cavaquistas e comunistas estariam bem uns para os outros, conheciam e respeitavam as mesmas regras; o mal estava com aqueles que pretendiam aplicar regras novas.

O discurso de Cavaco no 5 de Outubro foi mais um exercício de prepotência megalómana de alguém que despreza a democracia, por isso repetiu a danação dos que não fizeram o que ele queria. Esse é um elemento com o qual o PCP lida na perfeição pois está em perfeita sintonia com a consciência de ser a democracia uma fonte de perigosas liberdades. Mas há outro elemento no Cavaquismo, ainda mais profundo, que o discurso exibiu e martelou: o fatalismo. Cavaco passou da atitude de instigação ao motim contra o Governo à de teólogo da História, explicando os sofrimentos presentes como justos castigos para os pecados passados. Esta lógica encontra-se igualmente na sociologia e antropologia da base eleitoral do PCP, e não por acaso o Alentejo foi o caldo geográfico onde ele medrou com estupendo sucesso. Tal concepção ideologicamente pessimista levou o PCP para uma constante recusa de qualquer forma de negociação com partidos democráticos, sendo o maniqueísmo o necessário desfecho de quererem permanecer num regime que abominam.

Igualmente prenhe de interesse científico foi a segunda candidatura presidencial de Alegre. Para além de ter conseguido o apoio da ala socialista anti-Sócrates, assim secando o terreno para nomes alternativos dentro do partido, o facto da sua campanha ter sido dirigida pelo BE permite ver como até aqueles que se arrogam a marca do vanguardismo na esquerda acabam por serem peças da engrenagem do Cavaquismo. A forma como Alegre desperdiçou todo o tempo que teve para se preparar, período de 5 anos em que não conseguiu passar uma única ideia que interessasse ao eleitorado, e a forma como Alegre foi toureado por um candidato absolutamente indigno para a função, ficam como um dos mais espectaculares atestados de imbecilidade da esquerda imbecil.

À direita o escândalo não é menor. Pensar que Cavaco, um monumento à vacuidade, é a principal figura de referência da direita portuguesa devia suscitar dos filhos d’algo um assomo de brio na restauração do bom nome das famílias. Ao invés, reina a cumplicidade pragmática, o que lhes interessa é conquistar o poder.

No final desta gravação encontramos uma das chaves principais por onde um eventual estudo do Cavaquismo poderá começar, ou terminar: o homem considera-se o maioral de Portugal.

27 thoughts on “O maioral de Portugal”

  1. Gastas aqui muitas linhas contra Cavaco, Val. É um desperdício de energia bater com a cabeça na parede por causa daqueles em quem as pessoas votam, ainda que, segundo a tua opinião, errem, apenas porque não votaram no teu Sócrates, Val. Se há imenso Cavaco, o grande insultado aqui, há demasiado Sócrates por aqui, Val, demasiada viuvez dele, Val, em ti. Excessivement passioné, vous, non?!

    Ouve lá, tu és amante da coisa, Val? Sofres tanto, produzes tanta poesia viúva e elocubração descerebrada, Val… Só podes ser amante do alvo de todos os teus ai-jesus. Corta-se à faca, Val, a cegueira obcecada da tua paixão singular, Val.

    Escuta: acabou. Ama outro. Segue em frente. Encontra outro buraco. Como o chouriço intelectual que és, aborta o Sócrates que há em ti.

  2. Há quem se acomode à mediocridade de um presidente como o que temos. Até podia ser o Alberto João. Também se vota nele, em absoluto, há mais de trinta anos. Que tem Sócrates a ver com isto?
    Cada critica a seu objecto, meu caro Rex.
    Como faço minhas as palavras do Val, tomei a liberdade de responder.
    E já que meteste o Sócrates de permeio, Rex, aponta-me aí um PM mais empreendedor que ele, desde o 25A. Não encontras e é isso que vos fode e aos cavaquistas. Estes, em dez anos seguidos de governação o que fizeram foi parir um monstro que, até hoje, ainda não foi possivel domar. Pelo caminho foi cagando BPN.s e inventonas.
    O legado do cavaquismo é tão negro e imundo que deve ser por isso que ninguém o passa para livros e jornais. Cheira mal pra caralho.

  3. Pois,

    E pensando bem, também não os vi, nem uns nem outros, protestarem aquando da invasão da Polonia. Isso para não falar das obvias responsabilidades que tiveram quando Pôncio Pilates preferiu lavar as mãos.

    O que vale é que ressureição esta ai mesmo a rebentar. Então é que vai ser.

    Boas

  4. Ó REX (nao te preocupes nao te estou a chamar cão), e se por exemplo em vez de cagares postas de pescada rebatesses o que o val escreveu?

    Ah já sei é muita areia para a tua camioneta.

  5. o cavaquismo representou a vitória de uma perniciosa cultura que transformou a acumulação de dinheiro na base do reconhecimento social – em processos oleados por um discurso que desprezava o sector público e exaltava os negócios privados, mesmo que os últimos crescessem à custa do esvaziamento do primeiro. o cavaquismo legou um guião de políticas de privatização, sem fim, de abertura mal gerida às forças do mercado global a que os governos subsequentes só acrescentaram algumas dissonantes notas de rodapé. talvez por isto, e muito mais, estudos só fazem sentido no sentido da verificação efectiva que Cavaco é, de facto, um visionário – está tudo como ele fez. melhor: está tudo pior do que o que ele fez, é que agora falta a sopa mas bebe-se democracia para encher a barriga. ou talvez um estudo sobre a solução para o legado Cavaquista: a colonização de Portugal por
    África ou pelo Brasil.

  6. ouve lá! oh autoproclamado rei dos xóriços, porque é que ficas mal disposto quando criticam o cavaco? pelo estilo deves ser fan, quer dizer ventoínha, encapotado do bolicao e andas a disfarçar tipo gerómino.

  7. Caro Val,
    mas o que há para publicar?
    – A vacuidade do pensamento do senhor?
    – A competência da sua escolha de homens para dirigir o País?
    – As ideias do político que nega veementemente ser político?
    – A ineficácia de administrar os fundos que entravam às pázadas no País e que acabaram nos bolsos de muitos?
    – As suas remodelações constantes do governo?
    – A sua omissão sobre os muitos casos que envolvem o seu património?
    – A sua paixão de medalhar?
    – A sua bondade para com os fiéis e a sua animosidade contra os que dele discordam?
    – A sua obsessão pelos bovídeos?
    Que dizer daqueles que, em meia dúzia de anos, saltaram do anonimato para o mundo da alta finança e das administrações públicas e privadas, estando hoje alguns a contas com a justiça e outros que desapareceram sem deixar rasto, abafados que foram os escândalos onde estiveram envolvidos?
    Se fosse para escrever sobre isto haveria de se ter coragem, muita coragem e dinheiro, pois desemprego e processos é coisa que não passaria a faltar a quem se metesse em tão arriscada tarefa.

  8. Este dinossauro vira-lata, o rex, anda há anos a latir pela blogosfera. Pormenor clínico, tem um blogue bilioso alcatifado a jesus cristo. É sinal de auto-comiseração neurótica, com laivos de megalomania messiânica, patente nos nomes que se atribui: rex, joshua, etc. A vida parece que lhe corre mal, o dinheiro não chega para as fraldas, mas até 2011 tinha bons álibis e um bode expiatório de primeira, o Sócrates. E agora? O Relvas ou o patrão Cavaco não querem lá um palavrossáurio?

  9. PALAVROSSAVRVS REX. no teu pobre blogue ninguém comenta. Deixa lá, pareces a avozinha de um amigo que eu tinha… Quando a velhota morreu suicidou-se por não ter quem o elogiasse. Não faças o mesmo!

  10. VALUPI, comparar o cavaquismo ao comunismo é no minímo hilariante, mas realisticamente, é demente.

    Eu podia perfeitamente escrever esse livro sobre o (não)fenómeno Cavaco: bastava-me pensar na populaça com a 4.ª classe e crente nas aparições de Fátima. Trabalho concluído.

    Acontece que o homem é tão seca, tão seca, tão seca… que quando chega a altura de escrever uma linha sobre ele, já estou a beber uma cerveja e a ver A Casa dos Segredos.

    De qualquer forma, eu poupo o trabalho aos politólogos, aos sociólogos, e a essas classes pseudo-profissionais: Cavaco tem o sucesso que tem, porque depois do 25 de abril, é a figura política que temos que mais se aproxima do outro Sr. Professor – um tal de respeitoso Oliveira Salazar.

    Mesmo assim gostei do seu texto, VALUPI; só não gostei da linha forçada entre o cavaquismo e o comunismo. Se ma quiser explicar, eu terei todo o gosto em a destruir (à explicação, evidentemente).

    E quem não estiver comigo nisto, não faz puto do que é a democracia.

  11. eheheh, Luanda, tens pouco mais ca 4ª classe e não percebes patabina disto. bebe umas bejecas e liga a tv e bais ber quisso passa-te. não te esqueças de pôr uma almofadinha debaixo d’anilha.

  12. PALAVROSSAVRVS REX, larga o vinho.
    __

    NAS, não sei a que te referes com “linha forçada”, posto que o texto explica as ligações: aquilo a que poderíamos chamar de protecção a Cavaco Presidente por parte do PCP e o culto do fatalismo, da inércia, do conservadorismo que marca tanto a cultura do PCP como a axiologia do Cavaquismo.

  13. Não liguem ao que eu digo, como de costume, mas se o REX anda a beber deve ser um granda vinho. “Ama outro”, ia-me partindo. Não leves a mal, Valupi, mas é assim mesmo, parece que estás em Verona há quinhentos anos.

    E quem não reparou, repare. A Vítima do Deserto, a Madame Anonyme, anda a dizer umas coisas muito antisociaisdemocráticas. Bem dentro da mistela. Quelle angoisse…

  14. ôi metanos! pensei que tinhas bazado prá líbia curtir o serviço nacional de amputações grátis do teu ídolo gadafi.

  15. VAL, peço-lhe um favor (e nisto acho que vamos estar os dois de acordo): não use termos como “axiologia” para falar de uma bobagem como o cavaquismo (elimine-se pf a maiuscula – nem os meses do ano são escritos dessa forma anymore). A essência do cavaquismo é o achismo, e nada mais. O seu texto está claro VAL – o ataque ao PCP, ainda que legítimo, é que não está. Caramba, não estou a dizer fatalidade nenhuma, pois não?

    ——————————————————————————————

    PALAVROSSAURUS REX, ainda que não aprecie os insultos mais diretos (as palavras escritas podem magoar muito mais do que pensamos), a verdade é que adorei o seu comentário: belo humor, bela inteligência, e bela sobriedade. É que ao contrário do que lhe disseram, se o seu mal é vinho, eu incentivo-o nesse alcoolismo. Vou continuar atento ao que escreve – tal como o kalimatanos – mas pf não desça de tom. É um alcoolico que lhe pede. :-)

  16. Caro VAL, obrigado pela resposta elaborada. Responda pf da mesma maneira aos que votaram no Cavaco. Duvido que seja útil, mas isso o Sr. deve saber melhor que eu. Um abraço.

  17. Caro Val, surripiei ao Jumento da passada quinta-feira o link para o YouTube que vai no fim deste comentário. Escapou ao amigo Jumento, porém, um pormenor que me foi comunicado por fonte fidedigna: a cidadã “entrevistada” esforçava-se, nesse momento, por responder a uma questão de transcendente importância que acabara de lhe ser posta por um jornalista do Burkina Faso, a saber: “O QUE TEM A DIZER SOBRE OS DISCURSOS DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA?”

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=pJQGuWTtTD4

  18. Concordo parcialmente com o Mário e tenho pena de ter evitado o objecto passível de crítica aqui. Para cada moeda o seu verso e o seu reverso. O verso é Cavaco: autoritário, limitado, subserviente à Europa, submisso a desmantelar a estrutura produtiva, um dos maiores crimes económicos do século XX, impermeável aos demais. O reverso foi Sócrates: esgazeado, gastador, caprichoso, egolátrico, histriónico, mentiroso compulsivo, capaz de tudo para ser tudo em todos. Playboy das grandes farras e das jornadas gastronómicas e luxuosas recomendadas pelo Estômago Pitta.

    Cavaco e Sócrates. Ambos medíocres. Ambos daninhos para Portugal. A um não o salvou a honestidade superficial, a covardia institucional e o frio calculismo político. A outro não o salvou o activismo voluntarista voador e viajante com o dinheiro alheio a caminho de inexistente, não o salvou a treta quotidiana pela qual se expôs até ao vómito nos media, desde a primeira hora.

    Para mim, entre Cavaco e Sócrates, Deus, apesar de tudo, deu-nos o primeiro, ainda que influenciado pelo Diabo [Dias Loureiro e Oliveira Costa sempre foram altamente mefistofélicos], Diabo que, mal pôde, presenteou-nos com o segundo, cuja natureza tramada e maquiavélica tinha de foder, não somente com a bagatela de um Banco e de um PIB [veja-se o multicitado pelos socratistas caso BPN], mas com um País inteiro, começando a sinalizar essa energia reformista começando por desbaratar violentamente essa cambada reles dos professores pançudos e preguiçosos. Foi aí que eu, com o meu blogue «com laivos de megalomania messiânica», como escreve o Sapo Cocas, entrei em cena, blogue bilioso que ninguém comenta e que nem o magnânimo e democrata Val ousa linkar assim como os demais assessores e amantes do socratismo, tão irrelevante é ele.

    Talvez sozinho eu tenha conseguido limpar mais cérebros obnubilados por propaganda socratista que o vosso spin somado pôde com eficácia lançar seis anos de fumo, confusão e sórdidas manobras de diversão.

  19. oh impronunciável! faz-te à vida, se queres visitas àquela especie de blogue, tenta um anuncio no correio da manhã, de preferência na página do doutor v. karamba.

  20. Da minha parte, nada de contra-argumentos, falou um santo homem chamado PALAVROSSAURUS REX, the best, or one of the best, we can get. Brevemente irei fazer uma visita ao seu blogue para confirmar a acidez do vinagre.

    O meu amigo NAS também é excelente, e cavalheiro, mas o VIL VALUPI não pode com ele e vá de vinho.

  21. uma louraça nazi, uma central de biomerda e uma igreja multitaska, tudo gente inducada, bué de qi & superkulta em autoreciclagem ou melhor dizendo a ver quem faz pole no grande prémio de triciclo.

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