Nós, os corruptos

No estudo “A denúncia da corrupção, uma alternativa segura ao silêncio?”, o investigador David Marques faz um retrato sombrio da realidade prática dos cidadãos portugueses que decidem a título individual participar às autoridades competentes indícios de crimes de corrupção.

A acusação atinge políticos, tribunais e polícias. Os primeiros por serem responsáveis por criarem legislação “defeituosa e enganadora” que pouco mais fornece que um “escudo de papelão para os denunciantes” contra represálias daqueles que denunciaram. Leis que não estipulam adequadamente o “tipo de protecção” prevista. O investigador cita como exemplo o número dois do artigo 4º da lei 19/2008, que apesar de proibir qualquer sanção disciplinar da entidade empregadora contra um denunciante, limita essa proibição até um ano após a participação, “um período demasiado curto quando se tem em conta que as investigações podem demorar vários anos”.

Os tribunais e polícias são visados por não procurarem proteger activamente aqueles que são uma das suas mais importantes – em temos estatísticos – fontes em casos deste tipo. O investigador reporta que os denunciantes relataram terem sido alvo de “ameaças”, “arrombamentos” e de “despedimento”. “E contudo, em nenhum destes casos, nem as autoridades judiciais nem a polícia ligou estas consequências com o processo. Tão pouco, foi feita qualquer tentativa para activamente proteger os denunciantes nestas questões.”

Estado não protege denunciantes de crimes de corrupção

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Portugal novamente condenado na Europa por lentidão da Justiça

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Entendo que os actuais PSD e CDS tenham uma relação hipócrita e canalha com a Justiça, como se vê pelo aproveitamento aviltante que dela fizeram, fazem e farão para o combate político. E entendo que o sectarismo do PCP e do BE os leve a consideraram a Justiça um instrumento ao serviço de um regime que apenas suportam, pelo que não mexem um palha para a sua reforma. De todos estes partidos e respectivos publicistas, pois, nada há a esperar.

Não entendo é o seguinte: (i) o PS nunca ter tido um projecto, sequer um discurso, que aponte para uma solução dos problemas da Justiça; (ii) não aparecer um partido político novo que se erga a partir da falência do Estado de direito que os problemas na Justiça portuguesa configuram, os quais tanto afectam tragicamente os indivíduos, como boicotam a economia, como ainda pervertem a política.

A corrupção mais importante, porque mais funda e fundante, é esta da cobardia dos cidadãos.

20 thoughts on “Nós, os corruptos”

  1. Ainda há pouco, o ratinho ferreira gomes da sic e o espadachim dâmaso do correio da manha, falavam pelos cotovelos incriminando políticos a granel acerca de corrupção e, clalro, lá vieram à baila com o enriquecimento ilícito que lhes punha na fronha um sorriso de boca e dentuça escancarada.
    E eu pensava comigo, como é possível estes dois falarem desbragadamente de corrupção nos outros se, eles próprios, são do mais corrupto que há na nossa actual sociedade? Pensam eles que nós não topamos e acompanhamos a mistificação das suas intervenções nos media, as notícias deturpadas e falsas que, por calúnia e corrupção aos interesses dos donos, todos os dias prantam nos media onde fazem fretes como serventuários?
    Todos os dias, estes vendilhões da comunicação, nos aparecem em casa para vender moral sobre corrupção alheia enquanto, sob a capa de justiceiros, escondem a corrupção própria que diariamente destilam de suas mentes desonestas.
    Parece impossível como estes indivíduos conseguem fazer passar a mensagem de que a honestidade é sinal de corrupção e a verdadeira e subterrânea corrupção onde eles próprios se afogam é a honestidade dos anjos.

  2. é muito interessante esse remate que fazes por se tratar de, muito mais do que cobardia política ou de cidadania, cobardia essencial na teia social. mal se começa a pôr um pé na sociedade, o que os adultos – no reino do que é ser cidadão – fazem é incutir ao aprendiz, que é petiz, que não deve fazer queixas para nao se prejudicar. e depois, quando o petiz as faz, apanha castigo – desencadeou uma onda de vergonha nos pais. logo ali, na escolinha, a professora discrimina-o e os colegas dele fazem troça. e depois o petiz vai crescendo convicto de que o mal é para ser escondido e, quando muito, comenta mas com dedo em riste fanado. e o pediz torna-se, enfim, o orgulho da família: é hoje um cidadão respeitado – não mente porque omitir, omitir-se, é ser a verdade.

  3. Bem apontada essa falha clamorosa do PS em relação à justiça. Os dois ministros Albertos, o Costa e o Martins, deveriam ter mostrado, ao menos, uma leve semelhança com o Correia de Campos, a Lurdes Rodrigues, o Manuel Pinho ou o Mariano Gago. Começou-se por incomodar os magistrados, quando eles, com as suas regalias e tudo, podiam ter sido convocados para a reforma estrutural. Depois podia ir-se-lhe às regalias. Lá para o fim. Claro que Sócrates não adivinhava a podridão efectiva dos homens do sistema de justiça, capazes DE TUDO, para manter privilégios. Admira-me que um político, em tantos anos não tenha conseguido a leitura correcta. Não se pode ver tudo, eu sei, mas não se dar conta que a justiça é o pilar de uma sociedade, em todas as suas vertentes, é uma falha que pode arruinar o melhor dos propósitos e a mais honesta, nobre e lúcida governação nas outras áreas.

  4. quando há deputados que trabalham para pessoas ligadas à grande litigancia, estamos conversados quanto à qualidade de algumas leis que de lá saem.todos os partidos tem responsabilidades nesta materia.no parlamento qualquer deputado pode apresentar uma lei . os partidos podiam fazer um pacto sobre a justiça que é efectivamente o ministerio que mais dinheiro consome aos pais,mas os senhores “dos interesses” e o senhores do “quanto pior melhor” ,não se dão lá muito bem.

  5. Não é verdade que o PS não tenha tido um “discurso” sobrev a corrupção. O João Cravinho apresentou propostas concretas na AR, mas, não só estas propostas foram desvalorizadas, como o próprio Cravinho foi “despachado” para Londres. O problema da corrupção é endémico na sociedade portuguesa e, por isso, transversal a todos os partidos sem excepção. Como é natural, os partidos do poder têm mais poder para corromper os cidadãos. Estes, por sua vez, ajudam à festa, pois os tempos estão maus e quem cala consente. Não ver ou perceber isto e continuar a bater na tecla dos outros é que são maus e o PS é que é bom, é uma falácia completa, como o Valupi devia saber. O 33º lugar no “Indice de Transparência” (caímos 10 lugares desde 2000) é um sinal dos tempos. Sim, somos um dos países europeus mais corruptos. Também somos um dos mais pobres e onde há mais desigualdades sociais. Esta realidade, aliada à ignorância geral e à “herança” do Fascismo e da Inquisição, explicam o resto. É ler o José Gil, que ele explica. Ele e não só.

  6. rui mota, continuas com as tuas dificuldades na leitura das tabelas. E quanto ao Cravinho, cujas propostas anti-corrupção não representavam a posição do PS nem davam conta da reforma da Justiça no seu todo, se ele aceitou ser despachado, como afirmas, então é porque teve exactamente aquilo que procurava.

    Quanto ao José Gil, ele explica algumas coisas, de facto. Mas nada que se aproveite para este nosso problema.

  7. “É ler o José Gil, que ele explica.”

    explica o quê? tirando o crespo, não conheço mais ninguém que entenda o que esse cromo diz.

  8. muito do que cravinho propos foi votado no parlamento.A inversão do onus da prova no enrequecimento ilicito,é que não foi defendido pelo ps pelos motivos que o tribunal constitucional acabou por dar razão.Já agora uma pergunta: surgiu alguma proposta alternativa? acho que não,conclusaõ: já está tudo bem,deu jeito como arma de arremesso politico eleitoral.

  9. “Esta realidade, aliada à ignorância geral e à “herança” do Fascismo e da Inquisição, explicam o resto.”

    tens toda a razão, só faltou falares da democratização da corrupção levada a cabo pelos comunas a seguir ao 25 abril. lembras-te quem instituiu o dízimo pró partido nas autarquias e repartições públicas?

  10. Valupi,

    A tabela de que falo, foi publicada ontem e é clara como a água. Caímos do 32º para o 33º lugar no Índice da Transparência (percepção da corrupção) e somos um dos países europeus mais corruptos, ainda que atrás de nós estejam países como a Grécia, a Itália ou Malta. Por acaso, todos países mediterrànicos, precisamente países onde o patrocinato e o clientelismo são maiores e a “protecção” das corporações é um geral. Ou também pensas que a Maçonaria e a ajuda entre os “irmãos”, não existe?
    Também porque há mais miséria e, por isso, mais subserviência (logo menos cidadania) há menos “accountability”. Ninguém (ou poucas pessoas) ousam denunciar isto. O “Medo de existir”. É disso que fala o José Gil. Por isso o citei.

    Ignatz,

    Se os “comunas” também foram corruptos a seguir ao 25 de Abril (não estava cá na altura), só confirmas a minha opinião: não se trata de corrupção partidária (apenas), mas de corrupção generalizada, “tout court”. É esse o ponto: somos um país de corruptos.

  11. “O “Medo de existir”. É disso que fala o José Gil.”

    do medina carreira ao paulo morais não há táxista que não fale no assumpto, já concretizar é uma porra. será que o gil mandou o livro à judite para averiguações ou limitou-se a vendê-lo, actividade paralela legal.

  12. Ignatz,

    O medo existe e a corrupção também. Não era preciso o Gil escrevê-lo. O Paulo Morais pôs os nomes aos bois, ontem na TV: 1/3 dos deputados da AT acumulam o cargo com a advocacia nos grandes escritórios do país. O sistema favorece os negócios entre as famílias e dá emprego aos militantes. Ele até disse mais: quando vê o António Vitorino e o Paulo Rangel, a debater na televisão, em amena cavaqueira, não se esquece que ambos trabalham no mesmo escritório de advogados…só não percebe quem não quer.
    Mas, se vives em Lisboa, podes sempre ir à A25Abril ás 18horas, que o Morais vai lá estar e podes sempre perguntar-lhe o que te atormenta. Vá lá, um gesto de coragem.

  13. A verdade é que a corrupção é um modo de vida em Portugal.
    A percepção do cidadão comum é que pessoas de bem não vão para a política justamente…. por serem pessoas de bem.
    Estando a política reservada para a mediocridade que andou sempre nos jotas, a exemplo do actual (des)governo.
    Os partidos do arco do poder nos últimos 35 anos é que nos levaram a esta situação, a falta de vontade de combater verdadeiramente a corrupção em Portugal é por demais evidente nas leis como apontado no exemplo acima.
    Não percebo, honestamente, que se ande a investigar as altas figuras angolanas em Portugal quande há tanta figurão português que esses sim deveriam ser investigados, é para tapar o sol com a peneira??

  14. oh mota! com a corrupção do morais posso eu bem, o que me preocupa são os bpn, submarinos, sobreiros e outras merdas que têm nome e ficha na polícia. o morais é mais um caga tacos deslumbrado do vê-los passar a promover-se à custa disso, arranjem-lhe um tacho que ele cala-se.

  15. Ignatz,
    O Morais também falou do BPN. Claro que esse caso, como o dos submarinos, dos sobreiros, o Isaltino, o Duarte Lima, etc. e tal, estão aí para serem investigados. E porque não são? E porque é que os partidos da AR (todos, portanto) se calam sobre este assunto? Essa é a questão. Todos têm “telhados de vidro”.

  16. “Os primeiros por serem responsáveis por criarem legislação “defeituosa e enganadora” que pouco mais fornece que um “escudo de papelão para os denunciantes” contra represálias daqueles que denunciaram.” Correcto. Mas grande margem de manobra é deixada a sociedades de advogados – eles, sim, os verdadeiros legisladores – para poderem ganhar dinheiro com os alçapões que deixam abertoos na lei -alçapões bem pagos, entenda-se. Lido directamente com uma dessas sociedades e quando é em directo, amigos, é um flash que não vos passa. Daí para os juízes e companhia, continuamos na mesma. São governantes não eleitos e por não o serem, são intocáveis, porque não têm quem os controle. É o sistema “legal” e “constitucional” português.

    Mesmo com um povo corajoso, que não é o caso, no momento, como se faz? O povo não elege este poder oculto e mais poderoso do que o mais poderoso…Diz aí, Val. Não elegemos ninguém? Abstenção total? Pela primeira vez estaria tentada a embarcar nisso…mas tenho medo, porque sou cobarde, que o povo não tenha tomates para provocar o fenómeno.Teríamos de chegar aos 80 ou 90% de abstenção…? Era bonito, mesmo muito bonito.

  17. ignatz,
    há demasiados gajos e gajas a exercer direito (e ainda por cima por linhas tortas) enquanto sentam o cu no parlamento. Vão prejudicar a sua brilhante carreira a troco de quê?

  18. “joaquim
    Dez 6th, 2012 at 15:47
    A verdade é que a corrupção é um modo de vida em Portugal.
    A percepção do cidadão comum é que pessoas de bem não vão para a política justamente…. por serem pessoas de bem.
    Estando a política reservada para a mediocridade que andou sempre nos jotas, a exemplo do actual (des)governo.
    Os partidos do arco do poder nos últimos 35 anos é que nos levaram a esta situação, a falta de vontade de combater verdadeiramente a corrupção em Portugal é por demais evidente nas leis como apontado no exemplo acima.”

    Tu queres ver ó joaquim que há quarenta ou cinquenta anos atrás não havia corrupção, e que o 25 de abril é que veio abrir a porta ao demo???

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