«De resto, o Chega é sistematicamente apanhado a votar contra, a favor e a abster-se no mesmo assunto — ou seja, destituído de convicções, a não ser uma: a de que tudo, incluindo todas as piruetas, vale para chegar ao poder. Se há algo que distingue André Ventura, algo em que é realmente exímio, é em não ter qualquer outra convicção a não ser a de que tem de fazer tudo o que for preciso, por mais repugnante e por mais vil, para chegar onde quer.
Não pode haver ninguém com o mínimo de cultura política e histórica que não veja e não saiba isso — pelo que todos os que, de forma mais ou menos sonsa, tentam articular defesas intelectuais do voto em Ventura são, como ele, meros oportunistas que ou pretendem uma boleia para o que esperam seja o seu destino ou sonham poder usá-lo.»
Muito tempo antes do Observador, Fernanda Cancio foi pioneira no uso do estatuto de jornalista para fazer propaganda partidária.
“As cheias como alegoria trágica dos nossos tempos:
As cheias representam uma alegoria trágica da inconsistência temporal das escolhas políticas e da atenção mediática dos tempos que vivemos. Ameaçados por uma crise climática que os melhores modelos de simulação dão como cientificamente provada, continuamos a agir a ter um espaço mediático povoado por um presente pequenino, mesquinho e sufocante, onde quem ousa falar de futuro, medidas estruturantes ou planeamento é brindado com graciosos adjetivos como catastrofista, romântico ou radical. Os jovens que fazem ações para exigir ação imediata dos governos nestas matérias – ocupando faculdades ou interrompendo estradas – são tratados como terroristas, que “deviam era estar a trabalhar”.
As alterações climáticas são apenas preocupação e abertura de Telejornal quando a casa arde ou a água entra pela porta. O Estado é sempre fonte de ineficiência e captura de impostos até que é chamado para acudir à incerteza fundamental de um clima com consequência sociais e económicas cada vez mais brutais. Uma mopia coletiva onde o condenado só se consegue perceber o cadafalso quando o chão lhe foge debaixo dos pés e, pelo caminho, insulta os que o previnem para mudar de rumo. Entre o tanto que avançámos coletivamente enquanto comunidade de conhecimento – capazes que somos hoje de modelar com precisão a evolução um fenómeno tão complexo como o clima – e o quanto permanecemos de incapazes de o aceitar enquanto comunidade cívica e política decorre o intervalo onde repousa o nosso falhanço coletivo. Triunfo de capitalismo de viés abissal para o lucro presente e capaz de acionar os mecanismos mediáticos e institucionais para que a democracia não use o conhecimento científico para ameaçar os seus interesses.
Permitam-me que use o meu muito estimado burgo – Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira – como alegoria simples do que acabo de escrever.
Há mais de uma década, nas vésperas de proceder à renovação das frentes ribeirinhas do concelho, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira promoveu alterações no Plano Diretor Municipal (PDM) que permitiram a urbanização de uma grande área antes não urbanizável por se considerara leito de cheio (e onde há escassas décadas existiam salinas).
Quando as forças políticas à esquerda disseram que rever o PDM para ali se poder construir uma mega urbanização da Teixeira Duarte era uma afronta, foram acusadas de serem avessas ao progresso e contra a iniciativa privada.
Defenderam essas forças políticas (CDU e BE) que construir 700 fogos em solos antes assinalados como leito de cheia era um crime ambiental, que ignorava tudo o que se sabia sobre as previsíveis alterações futuras dos níveis das águas. Para já não falar de outras dimensões: um acréscimo de densidade populacional numa localidade com mais habitantes por metro quadrado do que Singapura -sem infraestruturas para a comportar – e que se destinava a criar uma oferta habitacional que não corresponderia à procura das classes trabalhadoras. Serviria – como está a servir – para alimentar uma oferta para procuras externas e para quem faz da habitação um ativo financeiro mais do que uma casa para viver.
Por trágica ironia, ainda o primeiro prédio do grande complexo não está totalmente construído e já há barreiras de cimento colocadas nas suas portas de entrada para que água não o inunde (ver imagem inicial deste artigo).
Entretanto, o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira e os seus vereadores brincam aos bons alunos. Muito solenes e preocupados.
O problema é que para lá das preocupações de ocasião há as medidas estruturais que fazem a diferença. Contudo, essas foram há muito tempo, quando tudo isto se discutiu. Infelizmente, essas não causam envolvimento das populações nem preocupação do poder político, o qual, conhecedor dessa apatia, sabe que tem caminho livre para fazer da melhoria do espaço público um veículo de valorização de ativos imobiliários – como se tratou do caso com a requalificação das frente ribeirinhas.
“Querem um sítio aprazível para correr e passear à beira rio?” Pois bem, mas não sem que isso venha promover o interesse de uma das maiores construtoras portuguesas que, a par da Mota-Engil, tem um vasto legado de ingerência no poder político e de ação de portas giratórias entre os seus quadros de topo e os dirigentes dos partidos do centro.
É por isso que o ultra-centrismo do PS – política de direita polvilhada com caridade social e discurso dos afetos, que até rende a alguns dos seus intérpretes a eleição para personalidade do ano em jornais regionais – não me merece respeito.
Não são fascistas, mas são também eles que lhe franqueiam as portas com a sua traição reiterada de classe. Uns por interesses pessoais, outros por convicção, outros por total falta de noção.
Aqui continuaremos a dizer que as alterações climáticas são uma urgência. Enquanto os outros -os pragmáticos, os bons, os razoáveis, os moderados – serão heróis, de capa de proteção civil ao vento.
A maioria do povo só tem o que merece. Aos outros, resta-lhes o parco contentamento de submergirem de olhos abertos.”
Uma oferta para o sonso-mor aqui da casa Valupi com a devida venia ao Fratura Exposta
https://fraturaexposta.substack.com/p/as-cheias-como-alegoria-tragica-dos?utm_source=post-email-title&publication_id=2313999&post_id=187078588&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4i37ci&triedRedirect=true&utm_medium=email
Aconselho vivamente seguir o link para se ver as imagens que acompanham o texto.
PS
Em abono da verdade um bom texto nao so para os sonsos do calibre do Valupi mas tambem para os broncos e FDP’s de Direita que aqui tambem habitam.
Mas esses, nem dialogo merecem, o sonso-mor, ao menos, cumpre minimos olimpicos de etica e inteligencia. Presta atencao Valupi! E um elogio!
Valupi, meu caro Valupi! Quisera dizer ‘bons olhos o leiam’ mas não havia prosa sua neste post… só aquele excerto dos ‘mais ou menos’ e, claro, os comentários, 4 no total, um mais três na circunstância. Li todos, tudo.
É, antes de mais, reconfortante constatar que o meu caro continua a causar alergias em peles sensíveis e intelectos limitados. Depois, os conteúdos. Vou saltar a nevralgia cotovelar do pobre Galuxo engasgado com La Câncio e passar sem mais delongas aos 2°, 3° e 4° comentários, todos do mesmo comentador que – vá lá perceber-se porquê – me fez lembrar uma velha canção do Roberto Carlos: “… só me falta ficar nu para chamar sua atenção…”
Haja paciência, caríssimo Valupi! Mas firmeza, naturalmente; afinal se outra coisa não fôr trata-se aqui de uma questão de bom sonso…
libério
ainda bem q apareceste. e agora até pro ano!