Exactissimamente

«De resto, o Chega é sistematicamente apanhado a votar contra, a favor e a abster-se no mesmo assunto — ou seja, destituído de convicções, a não ser uma: a de que tudo, incluindo todas as piruetas, vale para chegar ao poder. Se há algo que distingue André Ventura, algo em que é realmente exímio, é em não ter qualquer outra convicção a não ser a de que tem de fazer tudo o que for preciso, por mais repugnante e por mais vil, para chegar onde quer.

Não pode haver ninguém com o mínimo de cultura política e histórica que não veja e não saiba isso — pelo que todos os que, de forma mais ou menos sonsa, tentam articular defesas intelectuais do voto em Ventura são, como ele, meros oportunistas que ou pretendem uma boleia para o que esperam seja o seu destino ou sonham poder usá-lo.»


Manifesto dos mais-ou-menos-assumidos por Ventura

6 thoughts on “Exactissimamente”

  1. Muito tempo antes do Observador, Fernanda Cancio foi pioneira no uso do estatuto de jornalista para fazer propaganda partidária.

  2. “As cheias como alegoria trágica dos nossos tempos:

    As cheias representam uma alegoria trágica da inconsistência temporal das escolhas políticas e da atenção mediática dos tempos que vivemos. Ameaçados por uma crise climática que os melhores modelos de simulação dão como cientificamente provada, continuamos a agir a ter um espaço mediático povoado por um presente pequenino, mesquinho e sufocante, onde quem ousa falar de futuro, medidas estruturantes ou planeamento é brindado com graciosos adjetivos como catastrofista, romântico ou radical. Os jovens que fazem ações para exigir ação imediata dos governos nestas matérias – ocupando faculdades ou interrompendo estradas – são tratados como terroristas, que “deviam era estar a trabalhar”.

    As alterações climáticas são apenas preocupação e abertura de Telejornal quando a casa arde ou a água entra pela porta. O Estado é sempre fonte de ineficiência e captura de impostos até que é chamado para acudir à incerteza fundamental de um clima com consequência sociais e económicas cada vez mais brutais. Uma mopia coletiva onde o condenado só se consegue perceber o cadafalso quando o chão lhe foge debaixo dos pés e, pelo caminho, insulta os que o previnem para mudar de rumo. Entre o tanto que avançámos coletivamente enquanto comunidade de conhecimento – capazes que somos hoje de modelar com precisão a evolução um fenómeno tão complexo como o clima – e o quanto permanecemos de incapazes de o aceitar enquanto comunidade cívica e política decorre o intervalo onde repousa o nosso falhanço coletivo. Triunfo de capitalismo de viés abissal para o lucro presente e capaz de acionar os mecanismos mediáticos e institucionais para que a democracia não use o conhecimento científico para ameaçar os seus interesses.

    Permitam-me que use o meu muito estimado burgo – Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira – como alegoria simples do que acabo de escrever.

    Há mais de uma década, nas vésperas de proceder à renovação das frentes ribeirinhas do concelho, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira promoveu alterações no Plano Diretor Municipal (PDM) que permitiram a urbanização de uma grande área antes não urbanizável por se considerara leito de cheio (e onde há escassas décadas existiam salinas).

    Quando as forças políticas à esquerda disseram que rever o PDM para ali se poder construir uma mega urbanização da Teixeira Duarte era uma afronta, foram acusadas de serem avessas ao progresso e contra a iniciativa privada.

    Defenderam essas forças políticas (CDU e BE) que construir 700 fogos em solos antes assinalados como leito de cheia era um crime ambiental, que ignorava tudo o que se sabia sobre as previsíveis alterações futuras dos níveis das águas. Para já não falar de outras dimensões: um acréscimo de densidade populacional numa localidade com mais habitantes por metro quadrado do que Singapura -sem infraestruturas para a comportar – e que se destinava a criar uma oferta habitacional que não corresponderia à procura das classes trabalhadoras. Serviria – como está a servir – para alimentar uma oferta para procuras externas e para quem faz da habitação um ativo financeiro mais do que uma casa para viver.

    Por trágica ironia, ainda o primeiro prédio do grande complexo não está totalmente construído e já há barreiras de cimento colocadas nas suas portas de entrada para que água não o inunde (ver imagem inicial deste artigo).

    Entretanto, o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira e os seus vereadores brincam aos bons alunos. Muito solenes e preocupados.

    O problema é que para lá das preocupações de ocasião há as medidas estruturais que fazem a diferença. Contudo, essas foram há muito tempo, quando tudo isto se discutiu. Infelizmente, essas não causam envolvimento das populações nem preocupação do poder político, o qual, conhecedor dessa apatia, sabe que tem caminho livre para fazer da melhoria do espaço público um veículo de valorização de ativos imobiliários – como se tratou do caso com a requalificação das frente ribeirinhas.

    “Querem um sítio aprazível para correr e passear à beira rio?” Pois bem, mas não sem que isso venha promover o interesse de uma das maiores construtoras portuguesas que, a par da Mota-Engil, tem um vasto legado de ingerência no poder político e de ação de portas giratórias entre os seus quadros de topo e os dirigentes dos partidos do centro.

    É por isso que o ultra-centrismo do PS – política de direita polvilhada com caridade social e discurso dos afetos, que até rende a alguns dos seus intérpretes a eleição para personalidade do ano em jornais regionais – não me merece respeito.

    Não são fascistas, mas são também eles que lhe franqueiam as portas com a sua traição reiterada de classe. Uns por interesses pessoais, outros por convicção, outros por total falta de noção.

    Aqui continuaremos a dizer que as alterações climáticas são uma urgência. Enquanto os outros -os pragmáticos, os bons, os razoáveis, os moderados – serão heróis, de capa de proteção civil ao vento.

    A maioria do povo só tem o que merece. Aos outros, resta-lhes o parco contentamento de submergirem de olhos abertos.”

  3. PS
    Em abono da verdade um bom texto nao so para os sonsos do calibre do Valupi mas tambem para os broncos e FDP’s de Direita que aqui tambem habitam.
    Mas esses, nem dialogo merecem, o sonso-mor, ao menos, cumpre minimos olimpicos de etica e inteligencia. Presta atencao Valupi! E um elogio!

  4. Valupi, meu caro Valupi! Quisera dizer ‘bons olhos o leiam’ mas não havia prosa sua neste post… só aquele excerto dos ‘mais ou menos’ e, claro, os comentários, 4 no total, um mais três na circunstância. Li todos, tudo.
    É, antes de mais, reconfortante constatar que o meu caro continua a causar alergias em peles sensíveis e intelectos limitados. Depois, os conteúdos. Vou saltar a nevralgia cotovelar do pobre Galuxo engasgado com La Câncio e passar sem mais delongas aos 2°, 3° e 4° comentários, todos do mesmo comentador que – vá lá perceber-se porquê – me fez lembrar uma velha canção do Roberto Carlos: “… só me falta ficar nu para chamar sua atenção…”
    Haja paciência, caríssimo Valupi! Mas firmeza, naturalmente; afinal se outra coisa não fôr trata-se aqui de uma questão de bom sonso…

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