Dominguice

Creio que a arte, literatura e cinema/TV no caso, não concebeu um uso do poder político como aquele que Trump está a exibir no seu segundo mandato. Porque não estamos perante um exemplo de um líder fascista, ou de um grupo que esteja interessado em montar um Estado totalitário e policial no sentido orwellinano (pese algumas parecenças). Aquilo a que assistimos é uma outra coisa, original, ainda sem nome nem sólida conceptualização. Trump usa os instrumentos da constituição americana para instaurar um regime de sectarismo absoluto. Neste modelo, a justiça não só pode como deve perseguir adversários políticos ou meros obstáculo às suas decisões políticas. As informações e ligações relacionais que a função presidencial disponibiliza podem ser usadas para obter lucros privados. E um presidente dos EUA, enquanto presidente, pode promover o racismo. Fora o resto, que a violência do ICE representa e consubstancia com desumanidade e assassínios.

O Supremo Tribunal alinha nisto. Os empresários fazem fila aos seus pés. Os militares comem e calam. O povo americano divide-se entre os cúmplices e os atarantados. A realidade, mais uma vez, dá lições à ficção.

7 thoughts on “Dominguice”

  1. de dividir o povo americano em atarantados e cumplices é que podemos mais uma vez evitar reconhecer os que se organizam, os que lutam, os que tinham efectivamente avisado que este era o inevitável caminho que a administração trump iria trilhar, quanto mais não fosse porque os seus ideólogos o tinham explicitamente declarado ainda ela não tinha tomado posse.
    esta voluntária cegueira encontra explicação na extrema vergonha sentida por aqueles que, apesar de muito fortes na defesa do estado de direito atrás do teclado, sabem não possuir uma pequena fração do estofo humanístico e da coragem democrática das pessoas comuns que enfrentam a besta olhos nos olhos.
    de resto, e tal como sublinhou o primeiro-ministro do canadá, não deixa de ser revelador que as mesmas condições draconianas, ou até talvez muito provavelmente nem sequer tão duras, que foram aplicadas pelo império nos países por si invadidos durante as ultimas décadas e que pouca se alguma discussão suscitaram, se tornem tão obviamente chocantes quando aplicadas “em casa”. torna-se mais fácil perceber porque se desmorou tão rapidamente o regime “democrático” estabelecido no afeganistão, apesar de duas décadas de ocupação militar e nation building extremo-centrista.
    aliás e há leões, aposto que o val critica isto tudo mas até acha bem o rapto do maduro porque era ditador e o bombardeamento do irão por ser uma teocracia, como se tudo aquilo que acabou de escrever acerca do regime americano não existisse.

  2. E cá temos a típica análise xuxo-vulopiana-liberoca-burguesa do completo falhanço do regime vigente: a culpa é sempre de uma maçã podre, um só celerado que abusa do sistema; jamais do próprio sistema. Do nada aparece um Trampa, um Putin, um Epstein, um Ventura, um Salgado, seja quem for o vilão do dia; faz muitas vilanias; um dia desaparece e tudo volta a ficar bem.

    Até aparecer o próximo vilão, que é geralmente muito pior que o anterior; mas que se há-de fazer, não é? São assim as ligeiras – ligeiríssimas – falhas do capitalismo e da democracia liberal ‘representativa’: como as tempestades, os terramotos ou os caprichos dos deuses, nada podemos fazer; só lamentar a nossa má sorte e continuar a botar o botinho, a rezar, a comer e a calar.

    Questionar o regime, mudar o sistema? Limitar o poder e a riqueza, democratizar as decisões políticas e económicas, nacionalizar tudo acima de (por exemplo) mil milhões, proibir offshores, expropriar mamões, impedir o absurdo de um só tipo, seja um ex-KGB, um alarve que nasceu milionário ou um parolo de Vilar de Maçada, decidir por milhões de pessoas? Deusnoslivre!

    Daí só poderia vir fome, desgraça, o fim do mundo, se calhar do universo. Como anunciou um americano-japonês, a História acabou há décadas. O capitalismo ganhou. Tudo já foi inventado, nada pode melhorar, só existe esta partidocracia onde uma minoria de mamões governa, explora e saqueia o resto do planeta. Continuemos pois a lamentar os Trampas, os Putins, a vida…

  3. «tal como sublinhou o primeiro-ministro do canadá»…

    Uma nota sobre esse mui celebrado discurso: Carney é apenas mais um mamão ao serviço de mamões ainda maiores; um fiel representante não do povo canadiano ou de qualquer povo, mas da Goldman Sachs, da máfia banqueira e dos seus sacrossantos ‘mercados’.

    Todo o discurso é sobre como manter e aumentar a mama entre o aparente caos Trampiano e as guerras sujas por recursos que sempre existiram, mas que têm agora uma fachada ligeiramente menos hipócrita – a anterior também só já iludia volupis e carneiros afins.

    Em qualquer país ou mundo são da cabeça alguém como Carney estaria preso, ou no mínimo banido de qualquer cargo público, não a botar faladura em encontros luxuosos de pulhas sabujos, e muito menos a prometer ainda mais cortes de impostos a mamões e mais obsceno ‘investimento’ em armamento. Quem louva esta retórica devia também ser banido de votar.

  4. “Trump usa os instrumentos da constituição americana para instaurar um regime de sectarismo absoluto”
    Ó senhor Valupi, então a celebrada constituição americana e a suprema democracia que lhe subjaz não conseguem prevenir as maldades do Trump?!!! Grande capacidade de análise da realidade é a sua!!!

  5. a arte já concebeu : o dada e o kitschs .
    o cinema também : “Marte ataca”, sendo que o trump é o chefa dos marcianos.
    lá por israel estão todos contentes com o trump. como é que tu não estás?

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