Desertores de verdade

Não há quem consiga associar uma pobre e solitária ideia política ao PSD, pois as poucas que vão apresentando duram menos do que bolas de sabão, talvez por terem a mesma consistência. Mas qualquer um sabe que, desde 2008, o PSD tem como única mensagem a calúnia de que Sócrates é mentiroso. Este ataque tem sido feito com o alto patrocínio de Belém e seu exótico respeito pela Constituição. As duas frentes reclamam serem possuidoras de uma qualquer verdade que guardam só para efeitos de ofensa aos adversários, não perdendo um segundo a partilhá-la com o povoléu.

Ora, nunca se viu – nem verá – um governante tão investigado em Portugal como Sócrates. Do seu percurso académico aos bens adquiridos pelos familiares, passando pela actividade profissional e telefonemas privados, dezenas (centenas?) de agentes de diferentes departamentos e instituições do Estado gastaram horas, dias, semanas, meses, anos e recursos no levantamento das grandes, médias e pequenas mentiras a que puderam deitar a mão. Que se descobriu? Que o objectivo era apenas o de violar a sua privacidade e usar qualquer elemento ambíguo ou inexplicado, ou eventualmente ilegal ou imoral, para campanhas difamatórias. Tudo o que chegasse aos procuradores e juízes, chegaria à vasta e poderosa comunicação social laranja (SIC, TVI, Expresso, Sol, Correio da Manhã, Renascença, parte do DN, parte da RTP). E agora sabe-se que ainda existem cópias de telefonemas captados nas escutas a andar de um lado para o outro entre tribunais, sabe-se lá quantas, sabe-se lá onde e sabe-se lá que mais.

Esta estratégia de assassinato de carácter, como se lê nos mais básicos manuais de ciência política e relações públicas, tem alto grau de eficácia. Reforça as percepções negativas das faixas da população que à partida não se identificam com o alvo e cria dúvidas corrosivas naquelas que não possuam forte capacidade crítica. É muito difícil resistir à pressão de grupo numa caça às bruxas e seus processos irracionalizantes de diabolização. Há uma resposta natural em cada um de nós que leva a conferir crédito a uma informação repetida por fontes que alegam isenção, como a imprensa. Se essa informação vier com o endosso de autoridades policiais e judiciais, a crença quase que se impõe de forma automática para muitos. Sem talento para criar um programa que os portugueses pudessem avaliar pelos seus méritos, o PSD de Ferreira Leite e Pacheco apostou tudo na campanha negra, mas saiu-lhes rosa.

Neste contexto devemos colocar a mentira de Passos, e de todo o PSD que com ela alinhou, de alegar só ter recebido um telefonema de Sócrates, e lacónico, antes da apresentação da actualização do PEC para 2011 e 2012. Incrivelmente, o próprio mentiroso veio desmascarar-se, assumindo ter estado naquilo que só pode ser entendido como uma negociação para aprovar as medidas a serem apresentadas na Europa, a qual teria ficado fechada segundo os sinais dados no começo do dia 11. Estamos perante algo substancialmente diferente de se prometer não subir os impostos antes de eleições e depois ter de mandar ao ar essa promessa, face a alterações económicas e financeiras incontornáveis, sob pena de se ser acusado de irresponsabilidade demencial. Aqui na novela do PEC a fruta é outra, mentiu-se à má-fila e sem justificação legítima alguma. Mentiu-se para obter um resultado: o derrube do Governo e a entrada do FMI. Foi assim e resultou de decisões que começam no PSD e depois arrastam toda a oposição numa cumplicidade que ficará na História como síntese da decadência desses partidos.

Pois bem, já podemos voltar a estas palavras e, finalmente, compreender o seu real significado:

Para Augusto Santos Silva, “aqueles que a meio de um esforço nacional que está a impor tantos sacrifícios aos portugueses, mas que está a ter a compreensão e a colaboração activa do conjunto dos portugueses, desertarem, desertam de um objectivo nacional e não merecem a confiança das pessoas”.

“O apelo que eu queria fazer hoje era o apelo à responsabilidade, incluindo do PSD e, portanto, não vale a pena tentar desertar a meio de um esforço nacional”.

O dirigente socialista sublinhou que o país enfrenta “tempos difíceis” e que “não é tempo para abandonar, é tempo para ficar, para ser firme, para prosseguir”.

“Quem quiser abandonar assumirá as respectivas responsabilidades”, reiterou.

Fonte

10 thoughts on “Desertores de verdade”

  1. resta apurar com rigor o papel de belém na conspirata do pec.
    (o tal 11 de março depois de no dia anterior…)

  2. pois, são os mesmos que agora pedem uma campanha limpa com receio que a merda que andaram a fazer lhes caia em cima. só não percebi porque é que os três tenores foram aquecer o discurso pimba do cavaco, se é não capaz de exercer as funções sózinho, pode fazer uma coligação com os anteriores.

  3. As campanhas contra Socrates, visando desacredita-lo, desde o caso “gay”, o seu percurso academico, as casa da Covilhã, o caso Freeport, o caso PT/TVI, as comissões parlamentares de inquerito e de ética…inauguraram uma forma de fazer oposiçao da parte de um partido sem ideias e sem programas alternativos. Muito menos rostos de lideres para disputar e ganhar eleições. Tudo saiu furado. E sucessivamente foram caindo: Santana Lopes, Marques Mendes, Filipe Meneses e M. Ferreira Leite… Esquecia-me de sinalisar o caso mais grave de todos no que respeita as relaçoes institucionais: a inventona de Belém sobre as escutas falsas. Agora é o vale tudo de Belém à São Caetano: chumbo do PEC, abertura da crise politica e entrada, tão desejada pelo PPD, do FMI. A isto não chamo politica. Tem apenas um nome: TERRORISMO!

  4. Agora todos pedem contenção verbal, unanimismo, respeito pelo adversário. Os que defendem tudo isto, são os mesmo que ao longo de seis anos atacaram o carácter de José Sócrates, que procuraram denegrir a sua governação, que obstruiram as reformas levadas a cabo pelo Governo socialista. Sim, são falsos e cínicos, eles que procederam como arruaceiros contra Sócrates, vêm agora pedir calma, reclamar reconciliação. Esqueceram o Freeport, a licenciatura, os projectos de casas rurais, a “asfixia democrática”, a “inventona” das escutas a Belém — tudo e mais alguma coisa contra Sócrates. O efeito “boomerang” vira-se agora contra os mentecaptos que urdiram uma teia para correr com Sócrates. A verdadeira “verdade” sempre acaba por se revelar.

  5. Também me causa muita impressão que figuras senatoriais como Soares e Sampaio (Eanes há muito que chafurda na lama) se tenham prestado a caucionar a última farsa belenense. Já que não parecem respeitar os portugueses de hoje, ao menos que demonstrassem alguma reverência pela data histórica mais marcante do Séc. XX português. Mas o desnorte é já tanto nesta absurda geração senil, que nem o respeito por si próprios mantêm. São meros fantasmas do Passado, que ainda assombram o Presente, mas que já não farão parte do Futuro…

  6. Apetecia-me citar o falecido Pineiro de Azevedo, mas por uma questão de decoro não o faço, limito-me a recordá-lo.
    Este pedido de uma campanha limpinha, sem insultos, cordata parece apenas demonstrar o medo que se venham a explorar os armários onde os diversos partidos guardam os esqueletos.
    Não deixa de ser curioso que a comunicação social sempre tão ávida do acessório, nunca se lembre de investigar algumas trocas de terrenos no Algarve, do heróico e bem sucedido modesto advogado de Coimbra, da administração da FLAD, do percurso académico e laboral dos companheiros de copos do Bairro Alto, da falência ruinosa dum dos totems da Expo98, do enriquecimento abrupto de figuras carismáticas da laranjada, do vice-rei do Norte (não, não me estou a referir ao Pires Veloso) que se abrigou longe dos holofotes, dos milhões que vieram da Ferrostaal, da história das Pandur, das cortiças da Vagem Fresca, dos salários mínimos de dirigentes de topo dos partidos, da contratação de assessores que são da família chegada dos deputados (mesmo sem ordenado passam a ter lugarinho de estacionamento, serviços da AR à disposição e de borla, refeições a preço módico, pois custavam 4,65 € em finais do ano passado e a confeção era de muito boa qualidade), enfim, uma data de coisas que pelos vistos não tem sabor de notícia, nem servem para investigação de qualidade.

  7. Caro Marco Alberto Alves, encontrei no seu comentário, exactamente a minha ideia, que passei num email, ontem, que enviei aos amigos sobre outro post do Val, e que aqui transcrevo:
    “Este gajo(o Cavaco) não é destituído porquê? Já aqui me perguntei e me pergunto todos os dias a mim próprio e a resposta só a encontro no regime em que vivemos: – corrrupto; – injusto; – nepotista e classista. Por isso, todos os que estiveram nos palanques do palácio, ontem, se encobrem uns aos outros, apesar das palavras inflamadas e pseudo-contestárias de alguns.”

  8. Pacheco Pereira, um dos detentores da mais pura das verdades, voltou ontem na SICN a chamar mentiroso a Sócrates, nada de novo. Mas ontem não fez a coisa por menos, tudo, tudinho mesmo, o que o primeiro-ministro disse na entrevista que deu à TVI é mentira.
    Claro que de seguida arrasou o PSD, desde a liderança, passando pelas listas, a estratégia de apresentar medidas avulso para de seguida recuar, e por aí fora. Pelo meio chegou a concordar com Sócrates quando disse que as cartas com perguntas com que o PSD se tem entretido são um erro e que a recusa em negociar com o actual líder do PS, que equiparou ao diabo, é outro. Mas, enfim, ninguém o pode acusar é que para todos os efeitos de quem ele disse pior foi de Sócrates, um homem muito perigoso, avisou.
    A verdade é que Sócrates continua a dar-lhe um jeitão, no tempo da Ferreira Leite chamar-lhe mentiroso serviu para tentar disfarçar a falta de ideias para apresentar um verdadeiro programa, agora serve para poder desancar no seu próprio partido sem parecer muito mal.

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