Da vulgaridade

Filipe Nunes Vicente é o mais ilustrado e generoso dos crentes na vitória do PSD e nas capacidades governativas de Ferreira Leite. Diga-se que ele pode estar certo. O PSD pode ganhar, claro, e um Governo da cavaquista poderia ser uma boa surpresa, porque não? Mas aceitar essas possibilidades é apenas etiqueta. O que o PSD exibe é a mais completa miséria intelectual e política, da actual Presidente ao elenco que tem desorientado esse partido desde que começaram a fazer a cama ao Marques Mendes. O Filipe vê o mesmo que o comum dos mortais, pelo que não há como negar a cruel realidade. Então, como se explica a crença?

Explica-se como todas as crenças, pela vontade. A fé, ou o amor, é essencialmente um acto de vontade, não sentimento. Pelo menos, na tradição cristã. E, sendo volitiva a moção, é racional. Leia-se este exercício elegantemente falacioso. Para apresentar a indesmentível vulgaridade da Manela como vantagem e sinal, vai-se até aos primórdios da democracia. E mente-se eruditamente:

Um dos mais antigos genes da democracia é a vulgaridade. Em Atenas, a tiragem à sorte para compor a boulê garantia que vinha sempre do povo a força inspiradora da cidade. Esta vulgaridade deve ser lida como simplicidade, como elemento aleatório e não planeado (a democracia foi instituída sobretudo contra a monarquia).

Começando pelo fim, a democracia foi instituída contra a oligarquia, não contra a monarquia. E isso é muito importante para a compreensão do papel da lei, especialmente da isonomia. Segue-se que a democracia ateniense é o resultado de um planeamento altamente complexo, que começa pela criação das phylai, estas divididas em demos. A assembleia (ecclesia), onde supostamente estariam todos os cidadãos, não teria espaço para mais de 6.000 indivíduos. Mesmo a votação para a boulê implicava regras que evitavam a repetição de eleitos, a sorte estava domada. E, finalmente, ainda se acrescentava o sistema de escolha dos arcontes e estrategos, os quais superintendiam aos prítanes. Alto! Estarei eu a querer ensinar a missa ao padre, e a repetir informação que está ao alcance de qualquer? Sim, exactamente. Porque vir dizer que a Manela é tão vulgar que devemos ficar felizes com o aleatório eleitoral que a poderá chutar para o Governo não justifica maltratar os Gregos.

Filipe, Sólon não tem culpa nenhuma pelo que se passa no PSD. A culpa é toda do Sócrates.

11 thoughts on “Da vulgaridade”

  1. Caro Valupi, ainda bem que desta fornada madrugadora saiu pão quentinho e bem cheiroso, boa crítica assente em conhecimento e com título crítico justo e certo.

    “Começando pelo fim, a democracia foi instituída contra a oligarquia, não contra a monarquia”.

    Falta esclarecer o que deve ser básico: Hípias, o último tirano, foi exilado por um grupo de aristocratas. É sempre no palácio que a coisa se resolve. Este facto deu origem ao regresso dos oligarcas, que por sua vez disputaram o poder da pior forma.

    Da isonomia, a igualdade perante a lei, considerada a base da futura democracia de Atenas, marca o fim de um sistema e o começo do período clássico, onde os aristocratas vão continuar o seu mando pela arte da adaptação, o costume de todos os tempos. A não esquecer.

    Nem todos sabem tanto como dizes, e o melhor é repetir o conceito da Boulê como o exercício da soberania pelo povo, e como bem explicou o Prof. Adriano Moreira é aí que se encontra o mal dos males da nossa democracia actual, estamos a votar para primeiros-ministros ao eleger um parlamento indigno desse nome, e as maiorias só reforçam a sua nulidade.

    Dominar a sorte, evitar que os falsos aristocratas, os oligarcas da estirpe dos chicos espertos se eternizem na combina predatória, só com eleições por círculos uninominais, mas ninguém está para aí virado e siga a dança, só uma boa dúzia não se recandidata quer ao parlamento ou às câmaras municipais.

    O teu conselho de telefonar para o Luxembourg é um acto falhado da tua parte, antes de Abril já aí trabalhava e fazia o que podia para explicar a democracia a tão vasta colónia, que à época foi bem tramada ou melhor, sacrificada no altar dos interesses de Estado. Os brilhantes democratas da adesão concordaram com um período transitório de 10 anos nos direitos comunitários dos portugueses que aí residiam. Faltou-te a prudência meu caro, uma virtude muito útil.
    Cumprimentos.

  2. Valupi,
    Muito bem Valupi, FNV serve-se de válida erudição para subreptíciamente virar o assunto ao contrário: ainda recentemente com uma citação de Salazar fez o mesmo exercício que Marx fez a Hegel. Nas instituições da democracia ateniense tudo estava previsto para que só os melhores (os sábios) chegassem ao poder: è preciso lembrar que só os cidadãos livres, auto-suficientes que se dedicavam ao pensamento filosófico e governação da polis eram cidadãos eleitores e elegíveis. Todos estes homens gregos aconpanhavam e participavam nas discussões sobre as ideias e filosofias mais avançadas do mundo na época. Comparar o nível intelectual do dirigente grego ateniense com o nível intelectual e pensamento desactualizado de MFL, que provavelmente leu (obrigatoriamente) os gregos de raspão, ainda hoje, passados 2500 anos é abissalmente favorável aos gregos.
    Rebaixar os antigos gregos, pais fundadores de todo o conhecimento posterior e ainda hoje inultrapassáveis, à vulgaridade do senco comum de MFL, equiparando o desigual para colocar o rasca igual ao génio, é pura batotice intelectual. FNV também já embarcou na espertice do Rangel embora ao seu nível culto.

  3. Coisas da vida
    Há dias ao assistir às notícias no telejornal da R.T.P., sobre o acidente na praia Maria Luísa, em Albufeira. Deu para meditar como os portugueses gostam de assacar as culpas aos outros, nunca assumindo as suas responsabilidades. Há um acidente de viação, se o piso da estrada se encontra bom, dizemos devia estar mau, para não dar azo a grandes velocidades e com isto evitar acidentes. Se está mau dizemos que foi derivado ao seu estado. Vem isto a propósito de há uns anos, ter umas cólicas renais e depois de consultar um médico de Urologia, no hospital da Trofa. Depois de vários exames, fui aconselhado a ser internado e fazer umas sessões de litotricia. Como não foi resolvido, estive outra vez internado, fiz mais sessões, além das que fiz em ambulatório. Como não passava, constantemente tinha crises, o médico disse-me que tinha de fazer um exame que eu achava difícil e sempre me neguei. Mandou fazer uma TAC e quando o fui mostrar, notei nele uma fraca expressão facial. Perguntei, é cancro? Disse-me que as probabilidades para isso apontavam. Notei nele um sentimento de culpa. Disse-lhe, doutor se aqui há um culpado, esse culpado sou eu, fui sempre um mau doente e não quero que o doutor fique com esse sentimento de culpa. Notei que estas palavras lhe tocaram no fundo do seu íntimo.
    Disse-lhe que estava farto de gastar dinheiro, o hospital era particular, passou-me uma carta para a minha médica de família e passado pouco tempo tinha uma consulta de Urologia no Instituto Português de Oncologia no Porto. Nessa consulta fiz-me acompanhar pelos exames médicos. O médico, Dr. Victor, disse-me que tudo provava ser um cancro, mas ir ter uma reunião com os seus colegas e depois chegavam a uma conclusão. Foram marcadas umas ressonâncias magnéticas e nova consulta. Como gosto de chegar cedo, antes prefiro esperar que chegar tarde, enquanto esperava pela consulta, noto alguém sentado numa cadeira de rodas a apontar na minha direcção. Como havia várias pessoas atrás de mim na sala de espera, julgava que os gestos não eram dirigidos a mim. Só há terceira vez é que notei que realmente eram para mim. Pela fisionomia, julguei que era um colega de ultramar, a quem chamávamos o “Landim”, quando me dirigia para ele a uns dois passos de distância vejo uma senhora, aí noto que era um casal da minha terra, fiquei sem palavras. Usei umas desculpas mas sei que não me saí bem, estava tão desfigurado que não dava para o reconhecer. Nessa consulta ficou decidido que era cancro e que ia fazer vários exames e ser marcada a operação. Havia um colega meu que me dizia que tinha um vizinho, também o conhecia mas só de vista, que estava desenganado, tinha um cancro nos pulmões. Um dia fui fazer análises, fui tomar o pequeno-almoço, ao café do IPO, juntamente com a minha esposa, vejo esse indivíduo acompanhado com a esposa a beber uma garrafa de água e bem-disposto. Quando cheguei à terra disse a esse meu amigo, o que tinha presenciado e que não devia de ser como diziam. Passados quinze dias fui ao funeral dos dois, do que não reconheci e deste. Morreram no mesmo dia.
    No IPO, somos tratados com um carinho que dá a impressão que realmente estamos em fase terminal de vida. Comigo aconteceu várias vezes, era na recepção, quando éramos chamados para a consulta, nas análises ao sangue, no raio X, em todo o lado. Antes da operação fui a várias consultas, com a médica anestesista, com a enfermeira que nos explicava como iam decorrer as coisas, um sem número. A minha filha tinha conhecimentos com certas pessoas que trabalhavam no IPO, de vez em quando recebia chamadas telefónicas e saía da minha beira, dando-me a entender que não queria que eu ouvisse as conversas. Se andava desconfiado de algo mau, pior ficava, absorvia tudo dentro de mim, não desabafava com ninguém. A minha esposa andava que não sei como explicar, parece que tínhamos receio de falar no assunto. Um dia não aguentou e começou a chorar em alto tom. Disse-lhe que com aquela atitude me punha ainda em maior sofrimento. Tive uma consulta com o médico cirurgião para ser marcada a operação. Nesta consulta a uma sexta-feira, disse ao médico que estava convocado para me apresentar na terça-feira seguinte no tribunal de Santa Cruz, na Ilha da Madeira e que tinha a viagem de avião em reserva e que tinha de decidir até ao final da tarde com a agência de viagens. O médico disse-me que era para na quinta-feira seguinte ter de fazer uns exames e depois ser operado, como dava pouco tempo para estar na Madeira, que ficava para a outra quinta-feira, assim gozava lá mais uns dias. Fiquei perplexo com a maneira do médica falar que lhe disse. Sr. Doutor este meu interesse é devido a que tenho um irmão na Madeira, matava saudades com ele e com amigos que lá deixei, mas primeiro está a minha saúde. Disse-me, boa viagem e goze bem. Se andava desconfiado ainda mais fiquei. Para mais e depois de ter pago a viagem recebo uma chamada telefónica do tribunal de Santa Cruz a dizer que o julgamento tinha sido adiado. Fui a casa, a minha esposa juntamente com a minha filha estavam a fazer as malas para levar, disse-lhes para as desfazer que não ia que o julgamento tinha sido adiado. Diz-me a minha esposa e a minha filha. Estavas a contar de ir e se fosse a ti ia na mesma vais e matas saudades. Cada vez mais desconfiava. No dia 4 de Dezembro de 2007, de manhã, apresentei-me no IPO, para ser operado, fiz análises ao sangue, fui chamado a uma médica, para me preparar para a operação e às onze horas e trinta minutos, dei entrada no quarto. Estava lá um sujeito à espera de ter alta, o quarto é de duas camas, vieram as enfermeiras fazer as últimas formalidades como rapar os pêlos na zona que ia ser operado e disse-me que nessa noite não jantava. Pelas oito horas vieram-me buscar para a sala de operações, o companheiro de quarto desejou-me felicidades. Chegado a um local vejo várias camas, também com doentes e pergunto se eram todos para serem operados. Disseram que sim e para não me preocupar que havia várias salas de operações. A minha curiosidade era devido a que já tinha sido operado na Ordem do Terço, no Porto e fiquei com a impressão que só havia uma sala de operações. Na sala de operações estava a médica anestesista acompanhada por várias enfermeiras a tentarem confortar-me, uma delas perguntou-me de onde era, disse-lhe que era de Freamunde. Disse-me que era de Carvalhosa, uma freguesia, que faz fronteira com a minha e que tinha familiares na minha terra, que depois de me dizer quem eram, disse-lhe que os conhecia. Nestas alturas bem não queremos, mas há sempre uma lágrima mais atrevida que nos escapa dos olhos. Lembrava-me da minha esposa, dos meus filhos, da minha nora, do meu genro não, a minha filha estava divorciada, dos meus netos, Duarte e Diogo, primos entre ambos, dos meus irmãos e dos meus pais lembrava-me mas já tinham falecido. Acordei na sala de recobro. A minha esposa estava a visitar-me, tinha de ser pouco tempo, a seguir foi a minha filha, passado um bocado vejo-a estendida no chão, ia para chamar os enfermeiros, já eles lá se encontravam, dizendo-me que tinha desmaiado, para não me preocupar já se encontrava bem. Gente boa, do melhor que aparece. Passado um dia levaram-me para o quarto. À tarde entrou outro doente acabado de ser operado, era boa companhia. Ao outro dia pus-me a pé para desfazer a barba, não conseguia tomar banho sozinho. Apareceram as funcionárias para fazer as camas e arrumar o quarto, uma perguntou-me se tinha tomado banho, disse-lhe que não podia. Disse-me que ia buscar uma cadeira de rodas e que me ia me dar banho. Na minha vida nunca precisei que pessoas estranhas me dessem banho, não me sentia bem, sentia vergonha. A funcionária notando esse meu embaraço, disse-me para estar tranquilo essa era a sua missão. Fiquei agradecido e veio-me à memória, no serviço que desempenhei, encontro-me aposentado, quando se pedia a certas guardas femininas para fazerem uma revista mais minuciosa, diziam que em certas partes não tocavam.
    Nunca fiz um agradecimento público aos funcionários do IPO, aproveito esta ocasião, para lhes agradecer, desde o mais simples ao mais alto cargo, que ali presta serviço e que nunca percam o sentido de profissionalismo, é desta pessoas que o País precisa.
    Manuel Maria Ferreira Pacheco

  4. Fiquei emocionadíssimo com o texto do Manuel Maria Ferreira Pacheco, postado aqui mesmo, penso que, de facto, que este é UM GRANDE sítio, em que participam pessoas como estas. É destas pessoas que o país precisa, palavra! Obrigado Manuel Pacheco, que não conheço, mas gostava de conhecer, a sério!!!
    Manuel Torres

  5. Primo, não tenho a menor dúvida de que tenhas adivinhado.
    __

    ARMANDO RAMALHO, louvo os teus conhecimentos em Cultura Clássica. E, nesse balanço, pergunto-te: tendo tu experiência directa da sociedade e economia do Luxemburgo, que farias para levar Portugal para semelhante patamar de riqueza?
    __

    Manuel Pacheco, muito obrigado pelo teu texto, e pelos teus textos. São notáveis.
    __

    Adolfo Contreiras, muito bem lembrada, a relação de Marx com Hegel.
    __

    ManuTorres, sábias palavras.

  6. ManuTorres
    Obrigado pelo elogio.
    Val obrigado. Tenho uns erros de simpatia no texto, já os corrigi. Se achar que mande o texto corrigido diga.
    Ando a escrever umas memórias, ainda estão um pouco atrasadas.
    Depois comunico consigo, para me dar autorização.
    Obrigados

  7. Manuel, não precisas da autorização de ninguém. Talvez precises é de começar a pensar em ter o teu blogue, pois não te faltam histórias para contar e leitores para as apreciar.

  8. Val
    Não me sinto com capacidades para ter um blogue e deve ser caro. Cada macaco no seu galho. Entrei neste porque foi fácil e não me exigiram nada. Outros eram bastantes exigentes, pediam a palavra-chave e uma série de coisas. Não sabia como fazer, desisti. Ainda bem que assim encontrei o Aspirina B, gosto da maneira como os temas são tratados. Ultimamente tem havido umas provocações. Sou a favor da paz e não da guerra.
    Sempre a considerar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.