Avante, camaradas!

As negociações entre BE e PCP estão em marcha; as quais, se levarem a qualquer tipo de acordo, serão uma novidade a saudar por todos os que esperam a maturação da nossa democracia. Do que se percebe pelos sinais, que podem não passar de irrelevâncias nesta fase incipiente, o PCP assume a parte forte e o BE fica com as despesas do sapateado. Competirá a Louçã o maior esforço e a maior ginástica, num exercício que irá pôr à prova a ductilidade da sua megalomania. Quão mais desesperado esteja, mais motivado estará para o acordo – especialmente agora que perdeu o cheque-professores. Porém, jamais o PCP confiará em tal parceiro, mesmo que sejam camaradas num projecto que os coligue. A cultura do PCP continua a ser a da clandestinidade, a da resistência no meio do inimigo, e têm muitas décadas de violenta intolerância aos desvios ideológicos da concorrência.

Quem também poderá ficar satisfeito com a eventual união dos fanáticos anti-capitalistas é aquela parte da direita que anseia por uma ditadura das antigas. Esses são useiros nos elogios à seriedade e confiança que o PCP transmite com o seu imutável programa antidemocrático, podendo até suportar o BE desde que devidamente patrulhado. É que para pôr o País na ordem, visto a direita não ter quem o consiga fazer, os comunas servem perfeitamente, pensam os reaças da velha escola. Bagão Félix pode vir a ter muita dificuldade em decidir onde pôr a cruzinha, por exemplo.

5 thoughts on “Avante, camaradas!”

  1. Um Pequeno Monstro

    Boa noite minha senhora, não quer ajudar o pobre
    Que não come há três dias na rua?
    Não tenho nada na vida que me sobre
    Para além de uma velha gazua
    Com que entro à noite em sua casa
    Onde discurso para o seu faqueiro de prata,
    Para os saleiros de porcelana e o cinzeiro de lata,
    Sento-me na sua retrete enquanto dorme
    Já de saco cheio a prender a porta,
    Deixo uma pequena nota na mesa torta
    E corro em direcção à mata?

    Não queira saber.

    Antes, a vida era uma praça de cravos dourados
    Nunca antes vistos, um mar de rosas.
    De resto a vida tem sido uma conferência de delícias
    Mil sonhos, liberdades e carícias,
    No jardim lá de casa havia mariposas
    E à tarde cheirava a alecrim.

    Está farta de saber. Tenho muitos nomes,
    E nasci em 1976 após a morte do meu pai
    Que mal cheguei a conhecer.
    Desde pequeno me lembro
    De brincar na varanda em Novembro
    E dos bonecos que o meu pai me dava,
    Soldadinhos e guerrilheiros por mim pintados
    E posicionados na selva dos cactos e das cameleiras,
    Enjeitadas com pequenas palmeiras e vasos antiquados.

    A minha mãe chamava-me de estragadão
    Por partir as pernas dos soldadinhos
    Que deixava espalhados no chão,
    Batia-me com a palmatória na mão
    E eu tinha medo, coisa comum lá em casa.

    Quando o meu pai morreu prometi que ia acabar com o medo.

    Vê como o medo acabou e todos falam do que querem?
    Vê como adivinhou?
    Não tenha medo!
    Sou o filho único do Estado Novo,
    Ilustre pai que me nomeou
    De Estado Renovado!
    Ora aí está, cara senhora, muito obrigado!

  2. Ola,

    Falta a parte mais importante : a primeira a poder congratular-se com a hipotese duma organização da esquerda dura é a esquerda reformista encostada ao centro. Com efeito, assim podera dizer aos seus apoios internacionais “eis o que pode suceder se nos faltar apoio”, sem dar impressão de se estar a referir ao carnaval…

    Convém não esquecer este pormenor.

    Boas

  3. Então, João Viegas, “esquerda reformista encostada ao centro” parece-me uma formulação positiva, vinda da tua parte! Não vês vantagens para a democracia nesta coligação? Estou admirada. Na tua visão não havia possibilidade de entendimento com o PS, mesmo que “encostado ao centro”?

  4. Claro que vejo cara Penélope. Vantagens para a democracia e vantagens para a esquerda, desde que a coligação seja cimentada pelos princpios basicos que são, ou deveriam ser, o realismo e a responsabilidade.

    So aqui entre nos : eu reclamo-me da esquerda reformista, o que não me impede de considerar que devemos favorecer tudo o que a impeça de cair demasiado para o centro e de adormecer…

    E ainda não decidi em quem vou votar.

  5. O PCP e o BE já perderam há muito todo e qualquer tipo de credibilidade política em Portugal. Não fazem já parte do Futuro, são meros fantasmas de um Passado não consumado (e só mesmo com muito boa vontade poderemos ainda incluí-los no mundo da realidade). Façam lá pois o que muito bem entenderem. Será tudo irrelevante. Os seus pézinhos não chegam aos pedais do carro (e o volante pode ser desligado da direcção, como nos antigos carros de Instrução).

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