Abram a pestana

Não foi este Governo que criou esta crise, mas foi este Governo que criou mais crise. Temos que ser justos.

António José Seguro, actual secretário-geral do Partido Socialista por decisão de 23.903 militantes

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Esta crise. Que crise é esta? Ou melhor, que crise é essa? Que crise é essa de que Seguro fala? Quem a criou? Foi um só Governo? Nesse caso, qual? Mais do que um? Nesse caso, quais? Ou nenhum, e a autoria da crise mora noutras paragens?

Seguramente que Seguro irá com segurança assegurar o eleitorado da seguríssima interpretação a dar a tão insegura expressão. Numa próxima oportunidade, haja paciência. Até lá, podemos pensar. Por exemplo, pensar que se este Governo criou mais crise, então há uma linha de continuidade que permite colocar “esta crise” num período anterior à entrada em funções deste Governo. Lógico. Mas, continuando agarrados à lógica, isso implica que a crise de que fala Seguro não se relaciona na origem com fraudes eleitoralistas, fanatismo ideológico, cálculos desmiolados, revanchismo histórico e violência social, as marcas indeléveis deste Governo. Não se relaciona porque não há memória de anteriores Governos, ou entidades por nomear, terem exibido tais características. Assim, o actual Governo terá acrescentado crise a um outro tipo de crise. E, portanto, para Seguro as fraudes eleitoralistas, o fanatismo ideológico, os cálculos desmiolados, o revanchismo histórico e a violência social não entram sequer numa qualquer categoria de crise.

É curioso, passando logo depois a ser desolador, ver aqueles que no PS defendem Seguro a copiarem a direita decadente. Para ambos, as críticas ao secretário-geral só se explicam por intenção conspirativa. Juntando a obsessão à paranóia, também ambos concentram as energias disponíveis na caça ao fantasma de Sócrates – de novo diabolizado naquele que fica como um inesgotável testemunho do seu poder político, tão grande quão maior é o pavor que espalha pelas hostes de adversários e, em especial, inimigos. Com certeza que há militantes e simpatizantes socialistas de valor apoiando com genuína convicção o actual líder, mas quando se abdica da resistência à crítica, e se passa a querer castigar o mensageiro, então a lucidez desapareceu e algo de apolítico está em marcha.

As debilidades de Seguro são tantas que a reductio ad Socratium não passa da desesperada cobertura das misérias próprias. Por isso a direita do pote já leva 5 anos dessa táctica, resultando no belo quadro de termos o País nas mãos de Cavaco, Passos e Portas. Se também no PS há quem queira imitar o que de pior a democracia portuguesa já gerou, então talvez o melhor seja fechar esta merda e mandar as chaves para o fundo do Mar da Palha.

10 thoughts on “Abram a pestana”

  1. Seguro utiliza uma semântica subliminar ao seu fantasma Sócrates. Há muita gente a sofrer desse fantasma, e Seguro, é seguramente um dos desassossegados com tal fantasma.Paciência.

  2. “Não foi este Governo que criou esta crise, mas foi este Governo que criou mais crise.”

    isso é kera bom! este governo deu seguimento à crise que os seus membros originaram para subir ao poder com a ajuda dos respectivos partidos e da comunada ao chumbaram o pec4. o seguro já se esqueceu como é que apareceu em cima do poste.

  3. Este tipo de justiça que Seguro exije para si, porque ele acha que é bom e justo e não se confunde com aqueles políticos pouco recomendáveis, mentirosos, maus, corruptos, e por aí adiante…, pode aparentemente ser muito virtuoso, mas, tarde ou cedo vai trazer-lhe amargos de boca.

  4. a narrativa disso que disse remete, de facto, para paleio do governo. e é isso que dá asas a que digam, imbecilmente, como disse o Henrique do Escrever é Triste, que a política e a esperança são uma ilusão.
    quando uma oposição fala assim, dá para corar de vergonha.

  5. Não ouvi seguro dizer isso mas não me custa acreditar que o tenha feito e sendo assim decidi não votar no meu amigo candiato ao meu conselho porque me recuso a contribuir com o meu voto para manter este Seguro.

  6. Excelente apreciação feita sobre o Tózé Seguro, um lider a prazo sem carisma ou uma
    pequena idéia de, como enfrentar a situação grave em que o País se encontra não só
    pelas críses financeira internacional e, do euro que o directório europeu deixa arrastar!
    Nunca quiz ou soube combater a maioria cujas, culpas no agravamento da nossa situa-
    ção não podem ser escamoteadas não só por votarem contra o PEC IV mas, pela sabo-
    tagem objectiva que, foram fazendo ao Governo do PS, com a benção do Pilatos de Be-
    lém que, ainda hoje, se lembrou de falar na convergência dos partidos subscritores do
    memorando acordado com a troika, porque lá muito no fundo já entendeu que vai sair
    muito mal quando, se chegar ao segundo resgate se, entretanto, as políticas não forem
    drásticamente alteradas conforme pedem os parceiros sociais!!!

  7. Tem toda a razão Val. As ideologias ainda não morreram (ao contrário do que muitos distraídos dizem). O ‘arco da governação’ não é uma incubadora de tecnocratas. Se assim for ‘é melhor fechar esta merda’.

  8. ESTÁ QUASE A ACABAR A FARSA… AS MÁSCARAS VÃO CAIR.
    quanto querem apostar que depois das autárquicas acaba-se o “faz de conta” deste aparente Seguro de “esquerda”?

    Cavaco ontem foi muito claro: «as conversações de “Salvação Nacional”de Julho vão dar frutios depois das autárquicas»…

    … Para mim, em Julho Cavaco e Seguro salvaram o governo de Passos e Portas. Mas não se ficaram por aí… há com certeza um acordo secreto de “compromisso”. E já há indícios: Seguro falou da educação a propósito do novo ano lectivo mas nem uma palavra sobre o cheque ensino…
    A seguir às eleições vamos ouvir falar de privatização/concesão de Centros de Saúde e de plafonamento da Segurança Social…
    e o silêncio de Seguro será o mesmo.
    SEGURO CONFESSOU QUE QUERIA FAZER UM ACORDO. Mas com as reacções que houve nomeadamente a de Mário Soares esse acordo não podia ser público. MAS NÃO TENHO DÚVIDAS QUE EXISTE… a destruição do estado social já está acordada entre os 3 partidos e Cavaco… e o PS deixou em definitivo de ser um partido de esquerda.

    Mais: quem pense que a seguir às autárquicas Seguro vai “tremer” está enganado. Como os estatutos que ele “inventou” estabelecem, terá de haver eleições para concelhias em 90 dias… e aí ele vai reforçar o seu controlo do aparelho cobrando todos os favores que fez com candidatos da treta.
    Entretanto Costa nem avançará nem dirá que não avança mantendo todos os outros numa espera que só beneficia Seguro.
    É verdade que Seguro é o seguro de vida do governo. Mas também é verdade que Costa passou a ser o seguro de vida de Seguro.

    Pobre PS. Resta-nos chorar perante o seu cadáver e temer o morto-vivo de direita que o vai substituir.

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