A três voltas

Concordo muito com a Penélope nisto: “Estas eleições presidenciais foram, bem vistas as coisas, uma espécie de armadilha em que Ventura se quis meter.” Porém, a armadilha que está montada com a presa no seu centro poderá não funcionar. Por exemplo, se a percentagem de votos for menor do que 70% para Seguro, não se fechou ou abriu (cada um que imagine o mecanismo da armadilha adequada ao bicho).

70-30 é o mínimo para se dizer que há ferida. 80-20 deixaria Ventura moribundo. 90-10 levaria a uma festança no Marquês e demais poisos de farra pelo País afora. Que está em causa nestas percentagens? O julgamento moral. Seguro ganhar por 1 voto é um triunfo político equivalente a ganhar por 5 milhões de votos. Os seus poderes presidenciais não sofreriam qualquer alteração, é indiferente a contagem das cruzes para o que será o seu primeiro mandato. Ventura perder por números que nunca antes se registaram seria uma estreia no campo da decência comunitária. Pela primeira vez, a comunidade estaria a dizer ao pulha que o seu projecto de violência social e política não era aceitável.

Quem primeiro o devia ter dito não o fez. Esse ser dá pelo nome de Pedro Passos Coelho. Ao ver o CDS a respeitar-se como partido então defensor da democracia, do humanismo e de uma moral do bem comum, nos idos de 2017, o Pedro correu para o palco com Ventura e crismou o candidato a Loures como o primeiro político com a chancela do PSD a poder oficialmente usar a xenofobia e o racismo na retórica e peças de campanha. Nascia o Chega.

A direita, de Passos a Cavaco, passando por Ferreira Leite e Rui Rio, viu o Chega como o aliado imprescindível para denegrir um Costa que parecia imbatível e abocanhar o poder. Ventura podia dizer as maiores alarvidades circenses, havia um mercado crescente na abstenção à sua espera. A estratégia era a de engordar o Chega até ao ponto de desequilibrar o Parlamento para a direita. Daí o processo de normalização de broncos proto-fascistas a reboque do populismo internacional que a direita política e mediática levou a cabo com um sucesso estrondoso. Pensavam que iriam sempre poder controlar a serpente, porque ela era gulosa e celerada. Não iria criar músculo, só banha da cobra.

Temos visto parte desta direita, parte dos seus impérios da comunicação, a castigarem Ventura e a terem brios de pessoas que conseguem reconhecer a miséria moral e o culto do ódio. Vieram tarde mas sempre a tempo. Agora, resta cumprir a originalidade destas eleições presidenciais. Estamos na segunda volta e, a partir das 20h do dia 8 de Fevereiro, também ficaremos a saber qual o resultado da terceira volta, concomitante com a segunda. Na terceira volta está em causa eleger um País capaz de preferir resolver os seus problemas com a inteligência em vez de os agravar com o medo. Será eleito?

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NOTA

Depois de escrever o texto calhou ler Uma votação reforçada em Seguro serve para quê ao certo?, de Ana Sá Lopes (que acho uma lástima como jornalista política, cúmplice dos populismos alarves), que diz, mutatis mutandis, exactamente o mesmo acima escarrapachado.

6 thoughts on “A três voltas”

  1. 3.
    Ana Sá Lopes (que acho uma lástima como jornalista política, cúmplice dos populismos alarves), que diz, mutatis mutandis, exactamente o mesmo acima escarrapachado.

    Vale mais um dedo indicador (esticado) da Ana Sá Lopes do que as tuas obras completas, Chalupi.

    2.
    A direita, de Passos a Cavaco, passando por Ferreira Leite e Rui Rio, viu o Chega como o aliado imprescindível para denegrir um Costa que parecia imbatível e abocanhar o poder.

    Acho que estás a ver mal a cena: quem está neste momento a lutar pela sobrevivência é o Partido Socialista que, com a sua tropa de sectários mansos da tua laia e a restante militância aparelhística não tem para onde se virar (Augusto Santos Silva à cabeça, Ferro Rodrigues, o Vítor Escária dos mal-explicados 75 mil euros espalhados pelos buracos do gabinete do PM, o Luís Paixão Martins que, chegado aos setenta, se tornou num guru “intelectualizado” para as TV’s do fado, sangue e navalha e, por fim, os idiotas que deram em velhotes e os velhotes que deram em idiotas da peste grisalha). Portanto, como se costuma dizer, baixa mas é a bola que o guarda-redes é marreco.

    1.
    Quem primeiro o devia ter dito não o fez. Esse ser dá pelo nome de Pedro Passos Coelho. Ao ver o CDS a respeitar-se como partido então defensor da democracia, do humanismo e de uma moral do bem comum, nos idos de 2017, o Pedro correu para o palco com Ventura e crismou o candidato a Loures como o primeiro político com a chancela do PSD a poder oficialmente usar a xenofobia e o racismo como retórica e instrumentos de campanha. Nascia o Chega.

    Correcção —
    Quem em primeiríssimo lugar fez merda da grossa tem um nome: José Sócrates, admito-o e quero pedir desculpas por durante dez ou quinze anos vos ter enchido de tangas de fazer corar quem tem um pingo de vergonha na cara, é bom nunca o esquecer. Em segundo lugar, por mero cálculo político como sempre aconteceu no “viver mal” e no “mal viver” durante o regime partidário implantado em Portugal durante décadas no pós-25A, ambos os partidos preparavam-se para jogar mais uma vez o jogo o jogo estafado da alternância entre o PSD/CDS e, novidade, com a celebração de um acordo PS/BE/PCP que o manhoso António Costa haveria de romper miseravelmente com as consequências presentes que estão à vista de todos. No entanto, é bem verdade, esse segundo protagonista tem um nome: Pedro Passos Coelho. Nos idos de 2017, o líder do PSD correu para o palco com Ventura e crismou o candidato a Loures como o primeiro político com a chancela do PSD a poder oficialmente usar a xenofobia e o racismo como retórica e instrumentos de campanha. Anos depois nasceria o Chega, o município de Loures seria abocanhado por um tipo socialista populista com doses evidente de ciganofobia nas veias, atitudes de um racista de merda nos cornos e com ar de dependência alcoólica… e a estória é hoje conhecida.

    (seguir para o ponto 2 e fazer loop com o ponto 1)

  2. Desmond has a barrow in the market place
    Molly is the singer in a band
    Desmond says to Molly – girl I like your face
    And Molly says this as she takes him by the hand.
    O-bla-di O-bla-da life goes on bra
    Lala how the life goes on
    O-bla-di O-bla-da life goes on bra
    Lala how the life goes on
    E A VIDA CONTINUA
    A vida é bela, os pulhiticos – E QUEM OS ELEGE – é que dão cabo dela

  3. O Jorge acima acerta bem mais que o volupi e a Penélope.

    A xuxaria, e não só a xuxaria, continua a não perceber – a não querer perceber – que o problema de fundo não é o Chega, tal como em Espanha não é o Vox, nem em Itália a Meloni, nem em França a Le Pen, nem na Alemanha a AfD, nem no UK o Reform, nem no Brasil o PL, nem na Argentina o Milei, nem sequer nos EUA o Trampa: o problema é a falência deste regime podre.

    A falência da partidocracia, do ‘arco do poder’, da fantochada a que chamam ‘alternância democrática’, da democracia ‘representativa’ que não representa ninguém a não ser chulos e mamões, do capitalismo sem freio, dos sacrossantos mercados, da globalização da exploração, da hipocrisia universal, da desigualdade crescente e insustentável que este regime aceita e fomenta.

    Estes demagogos espalha-brasas limitam-se a explorar, da pior maneira, o que a maioria já vê e sente há muito tempo. Em Portugal o chunga Ventura encontrou uma baliza aberta que os volupis jamais admitem: 50 anos de saque, de podridão e impunidade PS-PSD-CDS. A sua maior treta é dizer-se anti-sistema, mas o sistema insiste em dar-lhe razão – juntam-se todos contra ele!

    Até comentadeiros direitalhas como o Alberto Gonçalves já constataram que esta procissão de figuras e figurinhas a jurar-se democrata, pró-Seguro e anti-Ventura só encosta o chunga mais para onde ele quer estar – sozinho contra o ‘sistema’ – e só comprova à larga maioria de insatisfeitos que este existe mesmo. Cá está o sistema, cá está o regime podre de que o chunga fala.

    Porque é isso que as pessoas, as que não são carneiros partidários, vêem: chulos e chulões, encostados do regime, mamadores pulhíticos e administradores – geralmente ‘não executivos’ – públicos e privados, gente que mama nisto – e que por isso quer que isto não mude.

  4. Resolvida a duvida. O Jorge que ficou mal sentado no comentário do VALUPI, é a Ana Sá Lopes. Aquela que criou um pelourinho só para si, para matar Sócrates publicamente ainda quando este ganhava maioria absoluta.
    Esta descerebrada, já correu as rádios e televisões todas, e de todas, foi porta fora por falta de consistência argumentativa o que é uma evidência nesta Senhora.

    Quanto ao artigo, sim, VALUPI tem locomotivas de razão.

  5. Vê-se mais xenofobia e racismo em muitos pronunciamentos de Valupi e nas actuais lideranças europeias, em relação aos russos, do que em Ventura em relação a quem quer que seja. A integração virtuosa de todas as etnias, comunidades e grupos sociais faz-se pelo tratamento igual perante a lei. Não com a condescendência ou contemporização. Onde Ventura pisa e ultrapassa o risco vermelho da decência é no populismo judicial com que insulta o Estado de Direito. Mas nisso, pouco se distingue de Seguro. Só faz mais barulho. Mesmo quando se fala em perigo para a democracia, não é Ventura, é Seguro que avisa que não respeitará a vontade do povo se o resultado de eleições não lhe agradar. Branco.

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