A banalidade de Marcelo

Reunir as duas entidades públicas mais importantes na hierarquia do Estado no mesmo espaço tem de implicar estarmos perante um assunto da mais alta importância nacional. Consta que uma rapaziada vai jogar à bola na estranja, é só isto. Noutros tempos teríamos tido direito a um cardeal na fotografia e à visita de Cecília Supico Pinto para moralizar a tropa em calções com as suas cantorias.

Se as duas entidades públicas mais importantes na hierarquia do Estado querem estar presentes numa jantarada ligada a uma selecção nacional de um desporto qualquer em vias de participar num qualquer torneio, baril. Cada um sabe de si e das companhias que frequenta. Mas se as duas entidades públicas mais importantes na hierarquia do Estado decidem também abrir a boca para dizer coisas em nome das instituições que representam, então, senhores ouvintes, estaremos perante um assunto de altíssima importância para a Pátria. Os russos vêm aí?! Não, espera, nós é que vamos à Rússia. Há que recordar as lições de Napoleão e Hitler se a ideia for mesmo a de conquistar Moscovo.

Ferro Rodrigues teve a feliz ideia de listar os locais de nascimento dos jogadores, o que lhe permitiu chegar a uma imagem desafiadora: em que outros domínios da nossa comunidade vemos tanta diversidade geográfica num mesmo grupo profissional? A imagem é desafiante porque nos leva para nenhures. O desafio consiste, precisamente, em não ir com ela. Melhor ficar a contemplá-la a esvoaçar nos céus até desaparecer graciosamente de vista no horizonte ou ser abatida sem piedade pela caçadeira da lucidez. É que é completamente indiferente, seja para o que for, que não se consiga indicar um qualquer outro exemplo onde se replique a cobertura territorial que a selecção nacional apresenta na lotaria das ascendências geográficas dos actuais jogadores. Era só o que faltava, a obrigação de incluir um madeirense à força numa qualquer empresa com mais de 20 trabalhadores ou passarmos a exigir que os hospitais públicos tenham funcionários minhotos, beirões e algarvios em proporções idênticas. Porém, a ideia resiste na sua felicidade pois se trata de uma metáfora. A metáfora da diversidade como ideia cívica e política a merecer o patrocínio da segunda figura do Estado português numa ocasião proporcionada pelos pontapés na bola. Estiveste bem, Ferro.

Marcelo Rebelo de Sousa comportou-se como Marcelo Rebelo de Sousa. Estava excitadíssimo com a perspectiva de ir ver jogos de futebol. Uns em estádios, outros no meio da maralha. Todos, sempre, no pico da curtição como fã que se concebe igualmente como vedeta nessas ocasiões. A sua ânsia deleitada era tanta que entrou a pés juntos no estilo de Américo Thomaz e suas pérolas como «é a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive». Enfiou-se num raciocínio que partia de termos o melhor jogador do mundo e saltava magicamente para serem todos os jogadores os melhores do mundo. Logo, rasgo de genialidade, se a nossa selecção nacional tem os melhores jogadores do mundo, só precisa que cada jogador seja aquilo que é. Siga. Tal como no discurso anterior, esta imagem volta a não querer dizer nada que mentes humanas consigam usar com algum proveito, mas desta vez o bafo a balneário era insuportável. Marcelo aproveitou a ocasião para mostrar que, se o deixarem, pode ir fazer palestras aos jogadores no intervalo dos jogos que estejam a correr mal. Contem com o Presidente da República para explicar aos atletas que eles apenas têm de ser quem são, caso Fernando Santos não esteja à altura dessa responsabilidade.

Marcelo está no cargo para o qual se preparou durante 60 anos, ou mais. Não é um mero corta-fitas como o almirante Deus, mas no seu íntimo a fruição pessoal, o gozo circense, a pulsão palaciana sobrepõem-se à devoção republicana, ao culto do estadismo e à paixão pela História.

8 thoughts on “A banalidade de Marcelo”

  1. Tanta inspiração que Marcelo provoca nas pessoas!

    Tanta inspiração chega a fazer dor de barriga, como acontece agora com Valupi.

  2. Marcelo devia demitir-se imediatamente e dar o seu lugar a José Sócrates! E Valupi era o chefe da casa civil, cargo que acumulava com o de providenciador de felácios.

  3. Não sei porquê mas vem-me ao espírito as exortações de BdC mais o entusiasmo e fervor nacionalista, rectifico, clubista, da Juve Leo, dos No Name Boys ou dos Colectivo Ultras 95, entre outras similares

  4. Já tínhamos empatado em dois jogos. Se tivéssemos conseguido empatar no 3o chegávamos à Rússia com três empates e tínhamos garantida a qualificação para a fase seguinte. Assim, não sei, não.

  5. Dois-discursos-Dois do mais bacoco que já foi dado a conhecer aos indígenas.
    Tiro certeiro do Valupi com a sua caçadeira da lucidez.

  6. Muita gente, mais de 50%, vai morrer de velho, com uma enorme espinha atravessada na garganta.

    E não é uma espinha de bacalhau.

  7. Marcelo quer tão sequiosamente ser tanta coisa que acaba sendo nada. Ele quer ser o grande democrata que foi casualmente filho de um dos ‘protegés’ de Salazar e que beneficiou dessa qualidade com os dois pés, o menino que não vinha da alta sociedade mas era por ela tolerado e aceite e que chegou ‘ali’, o ‘génio’ que o é sem que se saiba bem em que se distingue de outros génios da mesma geração, o leitor compulsivo que ninguém acredita que o seja porque a leitura exige tempo e ele, de tão atento a tudo, mesmo não dormindo jamais conseguiria ler em diagonal a décima parte dos livros que recomenda e diz comprar, o nadador que emerge a cabeça perante o respeitável público e nada tanto e tão bem que exigiu um nadador na sua guarda pessoal, um tenista de bancada que gosta de se mostrar naquele meio, um homem de família que parece não a ter, um homem do povo que espera desse mesmo povo a grata reeleição, o cuidador da Pátria que gaba a globalização e deseja estar bem com a UE e com os que a renegam, o homem do mundo que procura ser recebido em toda a parte – nem que seja para dizer ‘um dito’, como aconteceu na visita rápida que Isabel II lhe concedeu -, o constitucionalista que serve de desculpa às isenções do presidente ou o contrário, o homem que se sabe sem atracção física, que deve detestar ver-se quando dá de caras consigo nas televisões, mas que procura agarrar afectuosamente os que não podem fugir ao amplexo ou vêm nele um poder que ele, de facto, não tem, um social-democrata que é de Lisboa, é sócio do Bracarense (?), mas dá-se bem com todos conforme o estado da arte, um ambicioso omnipresente que se sobressalta nesse desejo, um homem a quem parece não sobrar nada para além da presidência. É cansativo mas, há que reconhecer, o homem certo para o governo que temos.

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