Tanta mansidão

O que se está a passar com a reestruturação da administração da Caixa Geral de Depósitos, já devidamente criticada por Pedro Santos Guerreiro, que lhe chama um Albergue Espanhol, e outros comentadores da imprensa, devia merecer a mais contundente crítica da oposição, PS incluído. Mas não ouvi até agora uma única palavra partidária oficial sobre isso. Ontem, com a polémica já instalada na imprensa, no Telejornal ouvi zero sobre o assunto. Ocorreu-me até que o princípio do “respeitinho” que a privatização da RTP está à porta é o que agora dita os alinhamentos.
De acordo com o que tenho lido, todos os quadrantes do governo designaram um seu representante para a nova administração da CGD, o Presidente da República também e os interesses privados ligados ao PSD idem. Conflitos de interesses parece haver vários – desde escritórios de advogados de que são clientes grandes grupos económicos até administradores de empresas da área da saúde. Trata-se de um assalto ao tacho demasiado ostensivo para se deixar passar em claro. A Caixa é um banco público e os seus dirigentes são pagos com dinheiro dos contribuintes. Passos Coelho, que apregoou extrema contenção e combate às clientelas, não se ensaiou duas vezes para aumentar com elementos da sua confiança política, a que nunca chamará “boys”, o número de membros do Conselho de Administração do banco do Estado. Irão estes gestores/administradores preparar o terreno para a privatização? Colher os últimos frutos enquanto é tempo?

Gostaria de ver o governo confrontado com as perguntas incómodas que se impõem. Seria fundamental para começo de “conversa”. A táctica deste governo parece ser a do silêncio até onde for possível. Nunca mais se ouviram Álvaro ou Assunção. Gaspar só interveio mais uma vez depois da célebre conferência de imprensa que anunciou a sobretaxa do IRS. E outra vez, com a solenidade de uma leitura. O ministro da Saúde anda desaparecido, em retiro certamente. Passos não se ouve. Dir-se-ia que toda esta gente teme ser confrontada com perguntas. Mas lá vão cumprindo a praxis habitual. Uma oposição forte precisa-se. Seguro acaba de ser eleito Secretário-Geral do PS e, no seu jeito manso, declarou-se em público amigo pessoal de Passos. Amigo, amigo, portanto. A parte do provérbio que reza “negócios à parte” não convence. Tenho as mais fundamentadas dúvidas sobre a sua capacidade para confrontar este governo com a devida acutilância e desde já.

13 thoughts on “Tanta mansidão”

  1. De certeza que de António José Seguro ninguém espera ouvir um “manso é a tua tia pah!”. Expectativas: nulas. O espaço para intervenção é tão grande – e a falta de vontade para dar um murro na mesa tão notória – que será inevitável que, brevemente, o líder da oposição deixe de ser o líder do PS…

  2. Um Governo sem Oposição, contudo, é como uma panela-de-pressão sem a válvula. O PS não vai entrar apenas numa travessia do deserto com o seguro que acaba de contratar: vai estiolar mesmo, antes de chegar ao oásis! Valha-nos S. Manços…

  3. tu queres é sangue, Penélope. :-) então, eles podem bem a meio da tarde matarem o bicho juntos com um bagaço e uns bolinhos de bacalhau e, depois de arrotarem, Segurarem os bois pelos cornos. há que aguardar, há que aguardar.:-)

  4. Penélope, só passará para a comunicaçâo social o que os donos quiserem, quando quiserem, onde quiserem e como quiserem. Têm tudo nas mâos e ainda tiveram tempo para influenciar a escolha do secret’ario geral do PS. Se não se tivesse desgraçado, ao mostrar a sua verdadeira alma, poderia ser a hora e a vez de Louçã. Digo que poderia, porque o mais certo era ficar sem pio, como ficou aquilo que se chama em giria “toda a esquerda”.
    Parece que ainda há gente que nâo se apercebeu do fim da farra da “abrilada” e que chegarm os tais seis meses, ou seis anos ou sessenta, da suspensão da democracia.
    Assim já entende o silencio, Penélope?

  5. O camarada António José Seguro ainda não é, oficialmente, secretário-geral, certo? Falta o congresso, a aprovação da moção, os delegados, escutar os militantes, montar o gabinete de ideias. Depois de cumpridos estes pressupostos formais, essenciais à valorização do processo democrático e da ética na vida partidária, virá a oposição do novo ciclo, não esquecendo nunca os superiores interesses do país. Que passam, como compreendem, por não denegrir instituições do estado perante os responsáveis europeus.
    Vamos ter paciência. Tenho a certeza que uma acutilante declaração será eventualmente produzida e divulgada para a imprensa, talvez usando palavras violentas como “preocupante” e “chocado”. Em casos graves, uma proposta de comissão de inquérito a apresentar à Exma. Sra. presidente da AR, para agendamento.

  6. A questão crucial no arranque de Seguro como líder da oposição será a da composição da sua equipa. Sócrates foi encontrar nos apoiantes de Alegre alguns dos seus mais importantes generais, como Santos Silva, Lacão e Alberto Martins. Que fará Seguro?

  7. Mui-to o-bri-gada pe-los vo-ssos co-men-tá-rios. (Desculpem, acabei de ouvir o ministro Gaspar…).

    Agora já se percebe melhor por que razão Passos reduziu o número de ministros: para aumentar o número de administradores da CGD!
    Uma coisa me intriga – e o Ângelo? Há pouco, um título do Jugular – “Ângela à caixa cinco” sobressaltou-me quando pensei ter lido “Ângelo à Caixa (cinco)”. Excelente artigo, mas afinal não era este o tema.

  8. Caro Vega, agora não percebi: esta do “não denegrir instituições do Estado perante as Instituições europeias” significa o quê, que não devemos nunca, jamais, em caso algum criticar o Governo da Grei, a bem da Nação?

  9. Penelope,

    Um pequeno grande reparo. A CGD, embora seja uma empresa publica, não vive sustentada no Orçamento de Estado, donde é falso afirmares que os administradores ou outros quaisquer trabalhadores do grupo CGD são pagos com o dinheiro dos contribuintes. Para que os textos tenham qualidade temos de ter algum cuidado com o que é dito. Não basta escrever bem.

    Em matéria de gestão, eu diria que qualquer ministério tem melhor gestão que a CGD e a razão é evidente. Os boys que por lá passam, mas todos, não vão para gerir. Vão, isso sim para se desenrascar ou desenrascar alguém.

  10. Carmim: obrigada pelo reparo, que é bem-vindo. Não é o orçamento de Estado a remunerar estes administradores, claro. Mas, como bem dizes, se a Caixa for mal gerida, o Estado perde sempre. Se houver “zaragata” entre interesses, oportunismo, aproveitamento pessoal, negociatas ou desfalques, perde também. Nesse sentido, feitas as contas, terei cometido, com a minha imprecisão, um pecadilho, pelo qual me penitencio.

  11. Penélope,

    Eu tenho uma leitura diferente.

    Todos nós perdemos com a má gestão da CGD porque todos estamos ligados à CGD pelo banco ou pelo universo das seguradoras (que permito-me recordar aqui são precisamente 4 – Fidelidade, Mundial Confiança, Império, Bonança).

    O problema gravíssimo, do meu ponto de vista, claro, é que a CGD pela sua dimensão deveria assumir uma posição charneira no mercado em lugar de ser uma incubadora de interesses relacionados com grupos empresariais privados. O estado propriamente, não ganha nem perde com a CGD, expecto pela parte da distribuição de resultados.

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