História mal contada

Portas quer fazer-nos crer que (i) estava a par de toda a nova roubalheira montada pela dupla Passos/Gaspar, (ii) que dela discordou, (iii) que apresentou alternativas, mas (iv) que a subscreveu para não pôr em risco as negociações com a Troika.

Ora, há aqui elementos que não jogam. Em primeiro lugar, se as coisas estiveram nesse pé de discordância, por que razão não estavam os deputados nem a comissão política do seu partido a par do que passava, sendo inegável que foram apanhados de surpresa? Em segundo lugar, de acordo com os jornais e as declarações de Passos, a Troika não sugeriu nem muito menos impôs a descida da TSU, ainda menos assente na transferência de rendimentos dos trabalhadores privados para os patrões. Como pode agora Portas afirmar que assentiu porque não quis prejudicar as negociações? Como permitiu sequer que tal ideia macavenca, que tanto desacordo lhe suscitava, chegasse às negociações? Se é verdade o que diz pensar, não devia ele próprio ter “prejudicado” e muito as ditas negociações, de preferência antes de começarem? A medida da descida da TSU é absurda, além de ofensiva e provocatória, e, para cúmulo, não visa reduzir o défice.

Não faz sentido vir agora dizer de forma oportunista perante a opinião pública, face à onda de indignação, e de forma esfarrapada perante o seu partido, que até nem concordava, mas, desculpem lá, a estabilidade e tal.

E se a verdade for que Portas desconhecia mesmo a totalidade das medidas, mas, apesar de “traído” ou simplesmente ignorado, não quis simplesmente provocar uma crise política que acabaria com a coligação e o forçaria a abandonar o governo? Tudo aquilo a que assistimos a seguir aos silêncios, já de si estranhos, não terá sido, então, mais do que o resultado de intensas negociações com Passos para resolverem a embrulhada.

Ou seja, a moeda de troca para aceitar ter sido ignorado na coligação e para não pôr a parte PSD em cheque pode bem ter sido o apresentar-se agora perante a opinião pública como o bonzinho que até discordou da medida, mas que em nome do patriotismo anuiu. Vem tarde e não cola. Se não sabia de nada, saía imediatamente da coligação, se sabia e subscreveu não se compreende porque não esclareceu mais cedo a sua bondosa posição e não se apresentou ao lado do PM na comunicação das medidas. Estar mas não estar na coligação não é estatuto que possa durar muito.

One thought on “História mal contada”

  1. se… se… se foi como o portas diz, o coelho está à espera de quê para demitir o portas? e o sousa tavares para se divorciar?

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