Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Os critérios do Tavares

Como chegou João Miguel Tavares à conclusão de que o António José Seguro é um óptimo candidato socialista a PR?

Resposta: porque Augusto Santos Silva e (sobretudo) José Sócrates se manifestaram contra.

Reparem que estamos a falar de um A. J. Seguro que nada de notável fez enquanto secretário-geral do PS, muito pelo contrário, sempre inseguro, ficando célebre a sua expressão “abstenção violenta”, que o expôs ao ridículo, relativa ao orçamento de Estado em 2011, este sim violento, governava então Pedro Passos Coelho. O mesmo Seguro que estava posto em sossego desde que António Costa o varreu marimbando-se no “qual é a pressa”, mas que uma precipitação do Pedro Nuno veio ressuscitar.

Imagino a fúria com que o Tavares assistiu à entrevista do Sócrates de anteontem (CNN, 22h00). Um dia destes ainda lhe dá uma coisinha má. Mas o Seguro passou logo a ter direito a pedestal, não importa se ainda for enterrar mais/ dividir o PS. De qualquer modo, o Marques Mendes não se sairá melhor, porque o almirante, a avaliar pela entrevista que ontem deu, já ganhou. Esta é uma observação minha objectiva. Não sei em quem votarei.

Dominguice

Pode haver ignorantes e estúpidos, mas não há inocentes. Quem vota no Chega está-se a marimbar para o seu programa, ainda mais para a sua moral. Votam porque gostam do Ventura. E gostam do Ventura porque ele promete violência política. Sem a violência na retórica, Ventura perderia o apelo que congrega indivíduos com quem não queremos privar.

A violência fascina cérebros imaturos e cérebros disfuncionais. Não foi com este tipo de cérebros que se inventou e desenvolveu a civilização da lei e da liberdade.

Português de lei


Fernando Venâncio (1944-2025)

O Fernando deu-nos a honra, e o subido prazer, de fazer parte do Aspirina B. A história dessa história, começada antes do começo deste pardieiro, algures nos finais de 2004, está contada aqui: O Fernando, o Jorge e o blogodrama

Não sou amigo dele, não o conhecia. Mas vim a conhecê-lo, ficámos amigos. Não há neste testemunho contradição, houve felicidade.

Para além da língua portuguesa, a sua amada Galiza também está de luto.

Carneirada

«É muito importante ter a consciência de que a maioria dos portugueses escolheu o PS para segundo partido.»

José Luís Carneiro

Aviso prévio: sou simpatizante deste cidadão, caso venha a ser secretário-geral do PS deixa-me com expectativas positivas para o que possa dar à cidade, e estas declarações que agora comento não têm qualquer importância seja para o que for (excepção para o texto aqui do pilas). Dito isto, bute lá malhar enquanto o ferro está quente.

A ideia de que o PS possa ser considerado o líder da oposição por ter mais votos do que o Chega (mais 4 313, exactamente) não é apenas esdrúxula, nem apenas absurda, é também antidemocrática. Este critério só poderia ser invocado em caso de empate no número de deputados. Não sendo o caso, espanta que os neurónios de JLC tenham sido responsáveis pelas declarações que a notícia regista. De acordo com a sua lógica, ou falta dela, a Joana Amaral Dias montada em cima dos 81 594 votos do ADN poderia exigir ficar com o lugar dado a Filipe Sousa, eleito deputado com 20 911 cruzinhas. Se o disse para que sirva de antidepressivo no partido, o tiro saiu pela culatra.

Eis o que adoraria ter ouvido da sua boca. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para ser a terceira força partidária nesta legislatura. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para ter menos deputados do que o Chega. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para deixar de poder defender a Constituição. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para deixar de participar na escolha dos juízes do Tribunal Constitucional. E que a maioria dos portugueses talvez venha a dar ainda piores resultados eleitorais ao PS em futuras legislativas. Que a maioria dos portugueses talvez um dia deixe de querer que o PS tenha representação na Assembleia da República. E que a maioria dos portugueses confia mais no Ventura e sua gente para resolver os problemas do País do que nas pessoas ligadas ao PS — as quais andam desde Abril de 1974 a servir o Estado, o bem comum e a comunidade.

A democracia não precisa do PS, apesar do tanto que lhe deve. Ao contrário é que a coisa funciona, como tem sempre funcionado ao longo da sua história.

Ai chega Chega

Quem fez isto:

Anda agora a dizer isto:

É um singelo exemplo entre infindos. Escolho-o porque Mafalda Anjos não tem défices de cognição nem de literacias comunicacionais e políticas. A capa obtida com recurso à deturpação da mensagem — e da boa-fé — do então governante era comercialmente, corporativamente e narcisicamente irresistível. Teve profundo e extenso impacto, continua a ser citada no laranjal.

Só que, foda-se caralho, lá está: não passa de uma manipulação básica das emoções e dos ódios. Alimento do populismo que engordou por causa, principalmente, da estratégia de terra queimada seguida pela direita partidária e mediatizada desde 2004.

A saúde pública ainda existe? Como diabo se consegue uma consulta num centro de saúde?

Decidi experimentar marcar uma consulta no centro de saúde (UCSF) da Alta de Lisboa. Disseram-se que, se fosse de manhã cedo, poderia ser atendida no próprio dia. Atrasei-me e só lá cheguei às 8h20. Responderam-me que já tinham sido atribuídas todas as 10 vagas para aquele dia e que as pessoas contempladas tinham começado a formar fila bem antes das 7 da manhã. Desconhecendo como aquilo das marcações funcionava, fui embora e entretanto lembrei-me que, em Fevereiro do ano passado, obtive uma consulta bastante rapidamente no mesmo centro mandando uma mensagem com um pedido de consulta para um endereço de correio electrónico (extenso) que na altura me deram, e tentei a minha sorte repetindo o processo. A resposta nunca veio, ou por já não existir tal modalidade de marcação, por alteração do endereço ou por outra razão que me escapa.

Telefonei. Responde-me uma gravação standard, do tipo “para marcações, deixe o seu número de telefone que nós contactá-la-emos logo que possível”. 15 dias volvidos, nada. Desloquei-me novamente ao local. Deram-me uma senha para ser atendida num balcão, onde me pediram os mesmíssimos dados que dera no telefonema, me deram um  papelinho comprovativo e me disseram para aguardar que me contactassem. Cinco dias depois, nada também.

Confesso que, mais do que furiosa, estou intrigada. Se nem uma consulta para um centro de saúde se consegue, como se chega a consultas especializadas em hospitais? Mistério. As pessoas que lá se encontravam para consultas, há quantos meses (ou anos) as tinham conseguido marcar? Ainda estarão doentes? Será isto admissível?

Claro que pode haver outros centros de saúde que funcionem bem. Este parece-me uma desgraça total. Mas uma sobrinha que teve um bebé há três meses (Sacavém), disse-me que na semana passada a criança ainda não tinha levado qualquer vacina, razão pela qual até tinha receio de andar com ela em parques com miúdos, para já não falar da tentativa que fizera para ter acompanhamento da gravidez no público, que começaria ao sétimo mês!

Curiosidades da pulharia

Dentre as caudalosas explicações que o editorialismo e o comentariado produzem em frenesim para a votação espantosa do Chega (que já o era em 2024, agora intensificada em votos e deputados, e multiplicada pela desgraça onde o PS foi parar), eis o que nunca encontramos, nunca encontraremos:

Que não teríamos chegado aqui se Passos Coelho não tivesse ido buscar Ventura à CMTV em 2017.
Que não teríamos chegados aqui se Passos Coelho não tivesse decidido colocar Ventura em Loures para testar nessa demografia e eleitorado um discurso de extrema-direita com a chancela do PSD.
Que não teríamos chegado aqui se Passos Coelho tivesse retirado Ventura da campanha em Loures quando o CDS rompeu a coligação por causa das declarações sobre a comunidade cigana.
Que não teríamos chegado aqui se Cavaco Silva e Ferreira Leite, e outras figuras gradas do PSD, tivessem apelado a que o partido não aceitasse fazer um acordo com o Chega para os Açores em 2020 — ao contrário do que realmente fizeram.
Que não teríamos chegado aqui se Rui Rio tivesse recusado esse acordo com o Chega nos Açores — ao contrário do que fez, tendo até admitido repetir o acordo no Continente.
Que não teríamos chegado aqui se o sistema partidário, o editorialismo e o comentariado tivessem tido tolerância zero para a retórica de apelo à violência política que é a constante da propaganda do Chega, e logo desde a sua origem na campanha eleitoral autárquica do PSD em Loures no ano de 2017 — ao contrário do que realmente fizeram, por considerarem que Ventura poderia ser útil para desgastar e conspurcar um PS então no Governo através das calúnias sobre corrupção.
Que não teríamos chegado aqui se ouvíssemos, ou lêssemos, Passos Coelho declarar que o Chega é uma ameaça à democracia e à liberdade — ao contrário do que realmente tem dito, aberta e intencionalmente.

“Ai que medo!”, diz o Vladimir

Diz o Donald na sua rede Truth Social:

I’ve always had a very good relationship with Vladimir Putin of Russia, but something has happened to him. He has gone absolutely CRAZY! He is needlessly killing a lot of people, and I’m not just talking about soldiers. Missiles and drones are being shot into Cities in Ukraine, for no reason whatsoever. I’ve always said that he wants ALL of Ukraine, not just a piece of it, and maybe that’s proving to be right, but if he does, it will lead to the downfall of Russia! Likewise, President Zelenskyy is doing his Country no favors by talking the way he does. Everything out of his mouth causes problems, I don’t like it, and it better stop. This is a War that would never have started if I were President. This is Zelenskyy’s, Putin’s, and Biden’s War, not “Trump’s,” I am only helping to put out the big and ugly fires, that have been started through Gross Incompetence and Hatred.

Disgusting“. Se esta criatura claramente “deranged“, vergonhosa e asquerosa que preside aos Estados Unidos para ficar rico  sempre soube que o russo quer a Ucrânia toda, por que razão se mostra admirado por ele estar a bombardear em força as populações civis em todo o território? E, se nada fez até à data para prejudicar a Rússia, nem sanções, nem aumentos de tarifas, nada, e críticas só das fofinhas, por que motivo o facto de o Vladimir querer ficar com todo o país vizinho haverá de significar “a queda da Rússia”? Não afirmou ele próprio que queria ficar com o Canadá e com a Gronelândia, se necessário pela força? Tudo mau demais.

Se o homem não quer saber da Ucrânia para nada, pois que tenha a coragem de a abandonar e de a entregar ao amigo Vladimir, que se encarregará de chacinar os ucranianos a seu bel-prazer. De caminho, permita que se instale uma guerra na Europa com as tentativas seguintes de ocupação ou devido a intervenções directas e inevitáveis da Europa no conflito. Mas, se não quer que isso aconteça, pois lá se ia a sua reputação de “pacifista” (até me engasguei), e sobretudo os negócios, então que pressione devidamente os russos e ajude como deve ser os ucranianos.

Não bastando o facto de o Kremlin actual ser um autêntico cancro mundial, só fazem mal, espalhando armas, violência e desinformação, ter um agente patológico na Casa Branca que simpatiza com ele é quase paralisante.

Revolution through evolution

Experts Provide Practical Advice for Families Worried About Picky Eaters
.
Social connection is still underappreciated as a medically relevant health factor
.
The Power of Cash: Why Using Paper Money Is Good for You and Society
.
Can Plants Hear Their Pollinators?
.
Infrared contact lenses allow people to see in the dark, even with their eyes closed
.
Could AI understand emotions better than we do?
.
Brain drain? More like brain gain: How high-skilled emigration boosts global prosperity
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Dominguice

Embora impossível, imaginemos. Fazia-se um referendo com a seguinte questão: “Concorda que em Portugal as pessoas caucasianas devem ter mais direitos do que as não caucasianas?”. Tendo em conta o resultado eleitoral das últimas legislativas, qual seria uma previsão razoável, fundamentada, para a resposta a este referendo imaginado?

Ninguém se identifica como racista e xenófobo se interrogado na via pública. Mas pelo voto os conhecereis.

“O Chega não é uma força democrática”. A frase certa que pouco interessa a quem vota neles

Pedro Marques Lopes disse-o, mas muitos mais democratas o dizem e ainda mais democratas o sabem: o Chega só quer saber da democracia enquanto lhe permitir aceder ao poder. Se lá chegar, a democracia pouco interessa, porque o objectivo não vai ser exercer o poder no respeito das regras e instituições democráticas e aceitar a alternância, mas manter-se por lá a todo o custo. As eleições serão, nomeadamente, uma opção a rever e as instituições serão uma coisa do passado.

E dir-me-ão vocês: mas quem vota neles não quer isso mesmo? Que por lá fiquem para sempre? Então, se forem a maioria, há que aceitar! Pois, e aí reside a tragédia. A maioria vir um dia a querer exactamente isso. Demasiadas pessoas não se incomodarem nada por passarem a viver sob um regime autoritário, desde que o líder lhes simplifique os problemas e lhes diga o que gostam de ouvir e que esse regime lhes garanta que porá na ordem os ciganos (grandíssimo problema nacional), expulsará os imigrantes (os do Martim Moniz nem gente são), porá os pretos no devido lugar, dará mais poder à polícia e alegadamente porá fim à corrupção. De caminho, concordam também que a religião (católica, e sabe-se lá se a evangélica) regresse às escolas, que as “poucas vergonhas” das liberdades sexuais sejam reprimidas e que quem disser mal do regime seja perseguido e calado. Quem vota no Chega não perderá uma hora de sono preocupado com tais mudanças.

A democracia, aos seus olhos – agora fortemente influenciados pelos demagogos e todo o tipo de vendidos ao Putin e admiradores de Trump – significa o caos e a inacção. Alegadamente, ninguém se entende. Dizem-lhes que o melhor é que se entendam “de uma vez por todas” e, se for preciso o comando de um autoritário que todos cale, pois bem, que seja. Candidatos a ditadores como o Ventura é por isso que lutam.

Por definição, a democracia pressupõe diversidade de opiniões e confronto de ideias e de soluções, levando à alternância de protagonistas, sem violência. Para quem quiser, não tiver escrúpulos e tiver jeito, é, pois, facílimo associar democracia a desordem, chamar corruptos aos protagonistas e levar muitas pessoas, desdxe interesseiros a incultos, a preferirem um regime autoritário de “limpeza”. Apesar de os sujos serem eles. Se reunirem mal formados e ignorantes em número suficiente para o sustentar, então a linguagem violenta passa a ser normal e os actos violentos a sua consequência. As vidas destes votantes em nada melhorarão, coisa que sabem ou em que nem sequer pensam, mas o imediato da “ordem pública” leva-os a apoiar aberrações como o Ventura, que se intitula “o quarto pastorinho de Fátima” e defende o regime de Salazar. É que, aí, serão os deles que estarão no poder. E isso basta.

Não penso que haja uma maneira rápida de explicar a democracia, as suas complexidades e infinitas vantagens ao povo que vota no Chega; de desmontar as patranhas ditas pelos dirigentes do partido; o que verdadeiramente move este partido de mentirosos e populistas. Se essas pessoas não querem saber ou querem mesmo “dar-lhe uma oportunidade”, resta-nos tudo fazer para impedir que, pelo menos, se tornem a maioria. Tal exige sabedoria. Mas também líderes democratas carismáticos, lutadores e determinados. Tem que haver e de certeza que não serão, do lado do PS, nem o José Luís Carneiro nem a Mariana Vieira da Silva nem a Alexandra Leitão, que nem perante a nódoa que é o Moedas me parece que vá ganhar a câmara de Lisboa. Sim, estou a bater em quem se encontra abatido.

PNS, o Ruben Amorim do PS

Desde 2011 que Pedro Nuno Santos era visto como um fatal candidato vitorioso a secretário-geral do PS. Parte dessa convicção vinha da sua personalidade então carismática, parte vinha da notoriedade que lhe foi dada pela direita e seus impérios mediáticos por causa de uma declaração juvenil acerca do pagamento da dívida e das pernas dos banqueiros alemães. Precisava só de amadurecer um bocadinho. O seu papel como secretário de Estado dos assuntos parlamentares, entre 2015 e 2019, deu-lhe essa maturidade de estadista. De 2019 em diante começou a fase do estrelato, sendo crescentemente evidente que já se concebia como o sucessor de Costa a cada ano que passava.

Neste longo período de preparação à conquista do PS, o comentador Daniel Oliveira, pago pelo Balsemão, fez uma perseguição odienta a Costa. Em simultâneo, apontava PNS como sendo o messias que traria de volta o BE e o PCP para a ribalta do poder, muito provavelmente dando-lhes o merecido direito a pisarem as alcatifas dos gabinetes ministeriais. Era este o projecto, era esta a marca do homem. 2015 a 2019 ficava como a idade de ouro da esquerda pura e verdadeira, na versão deste prolixo comentador, pelo que Costa e muchachos ao serviço do capital deviam desaparecer do mapa cobertos de escarros e fezes. A pose de PNS, durante o ciclo promocional da sua pessoa, foi invariavelmente de grande cagança, ostensivamente petulante para com Costa, e nessa estratégia de “sucessor consumado” prometendo vir a ser um líder do PS fortíssimo.

Em 2023, PNS chegou lá. Primeiro sinal, de estranheza: a sua vitória sobre José Luís Carneiro, um discreto rival na compita, mostrou um PS muito mais dividido do que se antecipava. Segundo sinal, de preocupação: a frieza com que abandonou João Galamba num momento de injusto ostracismo, não o tendo convidado para as listas (algo que este até poderia depois vir a recusar), exibiu uma pulsão cínica, desleal. Seguiu-se uma campanha para as legislativas de 2024 onde a sua marca começou a ficar híbrida, porque não estabeleceu pontos de referência diferenciadores. O resultado dessas eleições disse mais da fraqueza de Montenegro como candidato a primeiro-ministro do que do poder de atracção do eleitorado de PNS, mesmo assim o acaso poderia ter-lhe dado uma simétrica vitória por migalhas sobre a AD. Menos de um ano depois, resolveu posicionar-se como um bronco político, fazendo comentários sobre a imigração que reforçaram a propaganda da direita. Não contente, partiu para um ataque ao Governo de Costa e a quem o defendeu. Chegou a ameaçar que tinha mais na manga para castigar esses seus camaradas. A sua marca entrava em dissolução, substituída por uma peçonha onde reinava esta contradição insanável: o tipo pintado como “amigo do Bloco e dos comunas” estava a querer entrar no comboio da xenofobia fazendo-se de amigo do zeitgeist. E, finalmente, aconteceu-nos o histórico 18 de Maio de 2025. Na sequência de uma campanha eleitoral com peças de comunicação inenarráveis, e debates televisivos onde não levou o rio a correr para a fonte, tendo assim reforçado a suspeita de não ter coragem política, veio o desengano: o actual líder do PS é um dos maiores logros na história da política nacional.

Dito isto, não o responsabilizo pelos resultados eleitorais. Só imbecis ou adversários se dedicarão a essa vingança torpe. O voto no Chega nasce de factores que transcendem a sua pessoa e o PS, implicando um ecossistema social e cognitivo tóxico; onde a informação mais eficaz está a ser produzida pela propaganda civicamente terrorista, não pelo jornalismo – e muito menos pelos discursos dos políticos que tentam falar para um eleitorado com literacia e racionalidade políticas. Responsabilizo-o é pelo que fez à sua marca, assim enfraquecendo a cidade. Tal como com Ruben Amorim, estar-se cheio de confiança garante boas entradas, não garante mais nada.

A montenegrização do regime vem aí a galope

A democracia é a pior forma de governo, indo a Churchill, por causa da sua essência caótica. À partida para as urnas, qualquer coisa pode acontecer na cachimónia dos eleitores. As sondagens são apenas induções, com a sua inerente falibilidade epistémica. E os especialistas na coisa, seja essa coisa as sondagens ou o povão, enganam-se como os néscios.

Ninguém previu o resultado mais importante saído destas eleições legislativas: o PS deixou de poder defender a Constituição. Se nas democracias os resultados eleitorais são ontologicamente bons, partidariamente há resultados para todos os gostos. No caso do PS, perder as eleições é sempre um mau resultado. Mas ficar empatado com o Chega, ou que fosse pouco acima, seria em qualquer cenário eleitoral um péssimo resultado. Vir a ficar com menos deputados do que os salazarentos, quiçá também menos votos, corresponde a uma humilhação traumática. Por cima disto, deixar de contar para uma eventual revisão constitucional é uma verdadeira, historicamente inaudita, catástrofe.

A direita não vai deixar passar a oportunidade, resta saber com que profundidade e radicalidade. Na versão mais benigna, alucinadamente ingénua, limitavam-se a varrer o Preâmbulo da Constituição, há décadas gerador de azia. Na versão mais provável, porque fundamentada em declarações públicas, esta é uma ocasião imperdível para aplicar a receita que Passos não se cansa de publicitar: “À chegada ao almoço dos ex-líderes do PSD, o antigo primeiro-ministro sublinhou a necessidade de “um espírito reformista”.

Irá o PSD juntar-se à IL e ao Chega para tal? A pressão para essa união das direitas não pode ser maior. Basta recordar que, em 2020, o santinho Rui Rio aceitou um acordo com Ventura para os Açores, depois de Cavaco e Ferreira Leite terem feito campanha pública nesse sentido. Ao tempo, Rio admitia estender o acordo a nível nacional. Donde, por maioria fanatizada de razão, a segurança social, a legislação laboral, a saúde e a escola públicas, os direitos das mulheres e das minorias, aquilo que se constitui como o legado e labor de Abril está agora nas mãos do que Montenegro quiser fazer com eles. Nada nem ninguém se lhe poderá opor.

Começa a semana com isto

NOTA

Num Estado de direito democrático — portanto, na nossa democracia — não há resultados eleitorais maus. São todos, sempre, bons. O único resultado eleitoral mau é aquele definido pela ausência de bem: a abstenção, e os votos intencionalmente inválidos e em branco. Neste platonismo, o ideal supremo é a liberdade de cada um a servir as necessidades de todos. E todos necessitamos de ter representantes políticos, ter quem Governe, ter quem permanentemente tente encontrar as melhores leis para o tempo presente e futuro, ter quem exerça, garanta e defenda a soberania.

Assim, parabéns àqueles que foram votar a 18 de Maio de 2025 com a intenção, e a esperança, de que o seu voto seja um dos símbolos maiores da sua liberdade.

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório