Uma pequena história pouco natalícia (1)

Ilustração de Jorge Mateus, conto de Javier Ortega

Do Outro Lado

– Diga-me, Mestre, acha que o consegue encontrar?
– Minha senhora; já lhe disse que ele é que me vai encontrar. Mas só falará se assim o quiser. Não tenho qualquer poder sobre ele.
– Mas já aqui estamos há meia hora.
– Diga-me; a sua amiga que me recomendou disse-lhe que isto era automático? Comunicar com o Além demora tempo e requer concentração. Se não mantiver o silêncio, vamos demorar ainda mais umas quantas meias horas.
– Queira desculpar, Mestre, mas tenho tantas saudades do meu pai.
– …
– …
– Filha, és mesmo tu?
– Papá!?
– Estás com mau aspecto. Estou farto de te dizer que esses cremes só servem para gastar dinheiro. Água e sabão azul… não precisas de mais nada.
– Mas, diga-me: como é que está, como é a vida… como é que são as coisas aí?
– Água e sabão azul. É o que eu sempre disse.
– Sim. Água e sabão azul. Eu lembro-me. Mas temos tantas coisas para falar… eu não o devia ter posto no lar. Mas era tão difícil tomar conta de si, papá!
– Papá?? Deve estar a fazer confusão. Os meus filhos são pequenos. E são todos louros. Vivemos numa casa linda, no meio das montanhas…


– Papá; isso é a Música no Coração. Eu sei que era o seu filme preferido, mas…
– Devias por os olhos na tua prima Cristina. Aquilo é que é uma rapariga cuidada. E casou bem, com o tal rapaz dos Correios. Não com um inútil como o teu marido.
– Deixe lá o Carlos. Conte-me antes o que faz, o que vê…
– Água e sabão azul… nunca deixei a tua mãe usar outra coisa e olha se ela não continua uma bonita mulher.
– Viu a mãe?
– Que pergunta. Então não havia de ver a minha mulher? Mas agora não lhe falo. Imagina que me faltou ao respeito! Começou a falar do mal que eu tratava o pai dela, por estar sempre a babar-se e ser surdo que nem uma porta… e depois riu-se! Disse que era bem feito. Que era bem feito eu passar o resto da eternidade assim, completamente senil. Mas o que é que ela queria dizer? E imagina que me veio à ideia que ela já tinha morrido… e há muitos anos! A memória prega-me cada partida!
– Por favor, conte-me como é esse lado!
– Só sei que não gosto nada deste lar. As pessoas não são simpáticas; e está sempre escuro e nunca me deixam ver televisão… e não consigo encontrar os meus óculos. Quero ir para casa. Quando é que me vêm buscar?
– Mas não faz mesmo ideia de onde está??
– …
– Papá!
– …
– Papá!!

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