Só para irritar um pouco os fãs incondicionais dos EUA

Aqui fica o discurso de aceitação do Nobel da Literatura. De Harold Pinter, claro está. Quem mais se lembraria de falar assim à augusta Academia? “Direct invasion of a sovereign state has never in fact been America’s favoured method. In the main, it has preferred what it has described as ‘low intensity conflict’. Low intensity conflict means that thousands of people die but slower than if you dropped a bomb on them in one fell swoop. It means that you infect the heart of the country, that you establish a malignant growth and watch the gangrene bloom. When the populace has been subdued – or beaten to death – the same thing – and your own friends, the military and the great corporations, sit comfortably in power, you go before the camera and say that democracy has prevailed”.
Mas não é só de política que Pinter fala. Vão lá ler que vale a pena.

7 thoughts on “Só para irritar um pouco os fãs incondicionais dos EUA”

  1. Luis,

    Quase que mereceu a pena e tenho uma confissão a fazer. Leio sempre estes discursos anti-americanos com uma garrafa de luso para contrariar as azias. Puro e distilado Chomsky a correr atrás dum imperialismo americano sem nomes próprios para enfeitar mas sempre pronto a pagar as favas em nome da casa muito maior. Nas revoluções ou reviravoltas que se sucedem às tomadas de consciência pelas multidões bebidas destes deuses da linguística e da dramaturgia, nunca se enforcam banqueiros pendurados em lampiões. Prefere-se dar-se fogo aos simbolos das instituições, esquecem-se os nomes, e aumentam-se as verbas de subsídios à velhice para que não se diga que não se faz nada.

    Lá estava, sim senhor, bem escarrapachado. Os Americanos mataram 100.000 inocentes nos bombardeamentos a Bagdad.

    E o resto? O resto.. qual resto? O milhão que mataram à fome e doença em dez ou doze que sitiaram o pais, pois então! Ah . Ah, mas são verdes, ou azuis, porque talvez falar-se nisso seria comprometer as amadas Nações Unidas (as tais que também já levaram um Nobel pelos queixos, depois das figuras que têm feito em Africa) que assistiram impávidas e serenas à destruição do país até ao massacre final.

    Sendo assim, antes preferia ter lido o discurso do Tiago, que nunca teve a sorte de ter sido nomeado, mas que tenho a certez conteria muito menos anti-americanismo balofo – fronteira dos gajos que querem endireitar o mundo começando pela morte dos palhaços.

    Sinceramente, já desde os discursos de aceitação de Kissinger, Menachem Begin, Ramos Horta (“the american soldiers are real heroes”) e Shimon Peres, como paladinos da paz a partir duma perspectiva sueca, que não lia conversa tão batida. Passe-se à frente e viva a memória do Sartre.

    PS Maria: Save your dimes, dear!

  2. Bomba,

    Tens mesmo a certeza que leste este discurso? E que me dizes do abreviado relato da reunião na embaixada? E das menções ao labor dramatúrgico do senhor?
    E que dizer do discurso que ele escreveria para Bush? “‘God is good. God is great. God is good. My God is good. Bin Laden’s God is bad. His is a bad God. Saddam’s God was bad, except he didn’t have one. He was a barbarian. We are not barbarians. We don’t chop people’s heads off. We believe in freedom. So does God. I am not a barbarian. I am the democratically elected leader of a freedom-loving democracy. We are a compassionate society. We give compassionate electrocution and compassionate lethal injection. We are a great nation. I am not a dictator. He is. I am not a barbarian. He is. And he is. They all are. I possess moral authority. You see this fist? This is my moral authority. And don’t you forget it.’
    Dá-te azia? É capaz.

  3. Luís,

    Pois é.. Tinha lido a coisa e fui ler outra vez, a correr porque tenho sempre feijões ao lume, para te fazer a vontade. Continuo na mesma. Mas quem é que precisa do discurso dum laureado em literatura para saber o que já sabe, muitas vezes através de jornais da direita? Só porque sai da boca do homem de letras do ano?

    O que eu estava à espera é que ele usasse o pódio e a oportunidade para nos dar algumas das novas vedadas à imprensa “envergonhada”. Ou pelo menos que mencionassse o papel dos filhos mais nobres de Israel no plano geral da guerra do Iraque, uma coisa que ele não fez e duvido bastante que tenha sido por andar a comer queijo. E dai que tenha decidido não falar nem sequer dos que andam de mãos dadas com o Bush ou a empurrá-lo. Citar Cheney e Rumsfeld tornaria a fita muito mais realista sem escandalizar ninguem.

    Tocar música anti-americana, mesmo que da variedade anti-imperialista (o plano parece ser esse, de acordo com legislação recente, mas não será um pouco cedo para se falar em Gulags americanos?), sem um lamiré sobre os estados de alma que animam os seus compositores, não é, parece-me, musicalmente educativo.

    E já agora deixa-me acabar com uma nova teoria da conspiração que inventei assim que abri os olhos esta manhã.

    Nas últimas semanas tenho notado, tanto na televisão como na imprensa, um movimento anormal de ataques de surpresa disfarçados ou abertos à politica de guerra dos US no Iraque da parte dos mesmíssimos gajos que há dois anos só nos serviam caca noticiosa a partir de aquartelamentos nos arrabaldes de Bagdad. Surpreende-me bastante este upgrading das rações a que nos habituaram no passado. Será que a grande família obscura anda a preparar o funeral ao títere principal para arranjar uma saída airosa para o tiro que saiu pela culatra no Iraque, ou é a imprensa que anda a ficar um pouco mais “livre”?

    Que Deus e o homem me perdõem, mas a publicidade dada a este discurso do Harold parece-me fazer parte deste liberalismo noticioso. As suas palavras foram objecto de vários minutos em prime time TV há duas noites com ênfase às suas referências à guerra do Iraque. Uma coisa rara. Manda-me uma cópia do discurso do Saramago para ver o que é que ele disse sobre outros problemas da altura, só para comparação..

    What is, or is not, going on? Será que querem acabar com a guerra antes das grandes manifestações que temos planeadas para breve nas Avenidas da Liberdade deste mundo? No entretanto, ainda não li nada nos orgãos de injecção diária de pirolito aos pagodes, nem sequer em arremedo de insinuação distante, sobre a possibilidade de os quatro militantes da paz estarem nas mãos de gente que não respeita nadinha a caaba. Well, well.

  4. Ouvi o discurso no website da Nobel Foundation. Muito pertinente. O mais importante e’ a referencia ao contexto historico (breve e superficial, o que e’ inevitavel num discurso). A admninistracao Bush pode ser um caso extremo (?) de radicalismo, mas as raizes desta politica veem do pos-guerra.

    Quanto ‘as alegacoes de anti-americanismo: vao consultar a documentacao disponivel no National Security Archive.

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