José António Saraiva e José Castelo Branco, irmãos espirituais

“Sou uma pessoa com carisma que consegue agradar a todas as classes sociais”.
“A coluna registou um êxito imediato, vindo a tornar-se uma das mais lidas, influentes e carismáticas de sempre da imprensa portuguesa.”
A primeira frase é da autoria de José Castelo Branco, o inconfundível socialite que enche páginas às revistas do Jacques Rodrigues. A segunda é do ainda director do “Expresso”, o arquitecto José António Saraiva.
Estes dois parecem duas personalidades sem muito a ligá-las; mas partilham inúmeros traços de carácter. Começando pela absoluta e inabalável convicção de que são seres predestinados, geniais e sem igual. E ambos se sabem investidos de papéis cruciais para a sociedade portuguesa: o primeiro ensina-nos a ter “estilo”, o segundo a “pensar”. Com resultados muito similares, aliás.
A coluna de Saraiva desta semana, a “Última”, é de leitura imperdível. Recomenda-se aliás a compra do espesso semanário só para recortar e emoldurar aquele naco de prosa. A sério. Ora tomem lá algumas passagens: “Enquanto outros se esforçavam por tornar complexas e densas as coisas simples, acreditando desse modo fazer provas de inteligência, profundidade e erudição, sempre segui o caminho contrário: procurei tornar simples as coisas complicadas”; “mesmo tratando de temas circunstanciais, tentei fazer alguma doutrina, não me ficando pela espuma dos dias”; “neste espaço se previu há muitos anos a ‘invasão espanhola’, com um texto premonitório que foi estudado nas universidades de Espanha”; “neste espaço enfrentei o ‘ar do tempo’, rejeitando o aborto, a eutanásia, a pena de morte e o suícidio”; “neste espaço houve sempre uma visão de futuro — e muitas vezes antecipou-se o futuro”; “posso dizer que a História confirmou grande parte do que aqui se escreveu e previu”; “este espaço deixou sementes (…) inspirou uma cadeira de Política Portuguesa na Universidade Católica que nasceu há 5 anos”. No meio destes feitos sem par, o arquitecto ainda conseguiu “ser claro, rigoroso, isento, claro, atento, criativo, independente de partidos, personalidades, organizações ou seitas, impermeável a modas — no sentido de lhe dar semanalmante a melhor opinião da imprensa portuguesa”.
Fico sem saber se isto é apenas grotesco e cómico ou se é pungente e patético. O homem, tal como o José Castelo Branco, está mesmo convencido de que todos olham para ele em busca de iluminação e de inspiração. Acredita que as banalidades que semanalmente debitou foram mais do que lugares-comuns sem novidade; tem como sublimes inspirações delírios como a proposta de criar uma nova capital para Portugal. Aliás, ele sempre se viu neste papel messiânico de Prometeu a trazer o fogo aos ígnaros: é só recordar a indescritível crónica que escreveu a propósito do aborto. Mas o triste facto é que em 24 anos de coluna semanal só conseguiu ser original quando se tornou flagrantemente disparatado.

Tal como o Castelo Branco, António José Saraiva não entende que lhe é dada tão somente a atenção que se dedica a um inofensivo e pitoresco clown. Ambos serão populares, mas apenas porque nos fazem rir.

9 thoughts on “José António Saraiva e José Castelo Branco, irmãos espirituais”

  1. Penso que há espaço para todos os comentadores. O estilo simplista de José António Saraiva é o registo que ele escolheu, como VPV escolheu o registo “nihilista”, MST o registo “jornaleiro” e o professor o registo “politiqueiro”. Por isso, dizer que a escrita de JAS carece de ideias novas é uma banalidade: é intencional que assim seja, porque não lhe interessa a criatividade; apenas a simplicidade. Pode-se gostar ou não gostar, mas não se pode censurar por isso.

  2. Uma coisa é ser simplista e outra, bem diferente, é ser simplório e emular o discurso de um pedestal que apenas existe na cabeça de quem escreve.

    Retomando as tuas palavras: podes gostar ou não gostar da crítica, mas não a pode censurar por isso.

  3. Apenas para que saibas que este teu comentário sobre José Antônio Saraiva alegrou-me a manhã, aqui na Ilha de Santa Catarina, Brasil. Temos muitos JAS por aqui. Bem, confesso que a transcrição dos trechos do homem já me teria feito muito bem…

  4. O problema do JAS não é ser simplório, tal como o do Castelo Branco não é ser afectado. O que me irrita um pouco é ambos estarem convencidos da sua genialidade e da falta tremenda que fazem a todo o Portugal. E haver quem lhes dê tempo de antena.
    Mas também há desgraças bem piores e mais importantes por esse mundo fora…

  5. Escrevi um post sobre este último “política à portuguesa” do arquitecto Saraiva. Retenho igualmente esse hino à imodéstia, à soberba e ao perfeito ridículo que é esse texto. Talvez a intenção tenha sido fazer-nos rir. Então quando diz que a sua coluna era a mais “atacada da imprensa” e que só não respondeu “porque era forte” entra no domíno do surreal absoluto.

  6. Nunca li o Espesso. Esse fiel companheiro em actividades ao ar livre. Périplos de duas semanas, pela Páscoa, de saco-cama na mochila para longe da civilização. Lá o amaciava entre dedos, enquanto a obra não se findava. Distraído com a chegada das moscas e varejeiras, que denunciam a biodiversidade do local, nunca me deu para a risota. Merda. Levo tudo muito a sério.

  7. Luís, estava a meio do texto quando rebentei a rir deixando perplexos os meus colegas de trabalho. Mas não foi a tua prosa, não, foi mesmo o José António Saraiva.
    Só que agora fiquei com a mesma sensação de quem se riu de alguma coisa muito grave.
    É que “isto” é pungente quando existem, de facto, pessoas que o admiram fora da única esfera em que ele é realmente muito bom.
    O José António Saraiva é dos palhaços mais talentosos que conheci.

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