Ferrugem na cabeça?

Osama bin Laden com Zbigniew Brzezinski

Pensar-se-ia que os recentes disparates de Ribeiro e Castro iriam ser atirados pela direita para debaixo do tapete mais próximo, como uma infelicidade a esquecer prontamente. Qual quê. Aí temos o bravo Henrique Raposo, do Acidental, a defender o mestre com galhardia. Mas com escasso sucesso.
Depois dos prolegómenos com as generalizações do costume sobre a esquerda, a arrogância e a aristocracia, lê-se: “quando se afirma que há ligações do pensamento radical de esquerda com o terrorismo, está-se a ligar o terrorismo com uma certa radicalidade da esquerda e não com todas as esquerdas. É assim tão difícil de entender? É radicalismo de esquerda = tácticas terroristas e não Esquerda = Terrorismo.”
Curioso. O que ainda há pouco se escreveu naquele mesmo blogue, a propósito das declarações de Ribeiro e Castro, foi isto: “defendia que a origem do terrorismo está na esquerda. Uma ideia que este ontem reiterou ‘A esquerda tem responsabilidades em grandes males do mundo. Isso é indiscutível’.” Se bem li, ficou escrito “a Esquerda”. É assim tão difícil entender o tamanho da asneira? Parece que sim, pelo menos a ajuizar pela continuação deste belo post
“Sim, o terrorismo – como arma política – foi inventado pelos jacobinos, continuado por anarquistas (sobretudo russos), foi a táctica de Lenine, foi a arma do terrorismo à la nova esquerda dos anos 70.” O terrorismo foi a arma do terrorismo. Este “raciocínio” está bonito, sim senhor. Para já nem falar na omissão de outros terrorismos que assustaram a Europa desses tais anos 70… e que eram de direita, imagine-se.
Depois destes voos conceptuais, vem o senhor recomendar-nos “livrinhos” e um artigo, pois “ler faz bem. Sobretudo a aristocratas de esquerda enferrujados”. Mas ler à pressa faz mal; como prova à saciedade o acidental comentador. Onde é escrito no artigo recomendado “the French Revolution, where the modern concept of political terror was invented”, lê o bom Henrique a simplificação traduzida que atribui a invenção do terrorismo aos jacobinos; esquecendo o adjectivo “moderno” e deixando de forma incontáveis exercícios mais antigos desta disciplina.
“Leia-se para se perceber a ligação entre o radicalismo esquerdista europeu e o radicalismo islamita”; escreve ele, recomendando um texto, onde é dito que o “homem que fez mais que qualquer outro para dar um molde Islâmico à ideologia totalitária foi (…) Hassan al-Banna”; um líder inspirado pelos fascistas italianos e aliado dos nazis!
Mas querem ler como encontra o tal artigo a ligação entre a esquerda e o terrorismo islamita? Através de um discurso de Rafsanjani onde ele usou a palavra “terror” em Inglês. Isto, claro está, só pode implicar que ele usa o “mesmo termo que Lenin tomou de La Terreur da Revolução Francesa. A linha desde a guilhotina e a Cheka até ao bombista suicida é clara”. Claríssimo: se o político iraniano usuou uma palavra em Inglês, só podia estar a referir Robespierre ou Lenine. Não se está mesmo a ver? Mas tal salto basta para se começar a entender os terroristas como orientados por um “leninismo degenerado”. Isto num texto onde abundam as menções à crise dos reféns em Teerão, mas onde, por mais que surja o nome de Bin Laden, não se encontra uma só referência ao Wahhabismo de origem saudita. Nem às origens da Al Qaeda como aliado do Pentágono na luta contra a ocupação soviética do Afeganistão. Claro que aceitar culpas de um ramo do Islão ou das chefias militares americanas no cancro que é o terrorismo islamita internacional estragaria a argumentação às autoras; e lá as faria perder a preciosa recomendação do Henrique.

“Ler faz bem. Sobretudo a aristocratas de esquerda enferrujados.” Gosto muito desta passagem. Mas olhe, caro Henrique, que aprender a pensar é exercício ainda mais recomendável.

5 thoughts on “Ferrugem na cabeça?”

  1. Olha que o Ribeiro e Castro está longe de ser o mestre do Henrique, Luís. Tudo o resto é perfeitamente debatível, mas nesse pequeno ponto estás (objectivamente) enganado.

    Abraço e boas festas atrasadas.

    Leonardo

  2. Aceito o reparo e peço desculpa a ambos os atingidos. Aliás, já desconfiava que ninguém devia ver o homem como guru.

    Um abraço para ti; e a ver se para a próxima não sais tão cedo das vossas festas!

  3. Por acaso também tive para mim que aquilo era tão tonto, ( “aquilo” era o que disse o Ribeiro e Castro ) que os seus amigos iam assobiar para o ar e mudar de assunto para que não se notasse nada. Fiquei surpreendida que assim não fosse.
    Mas não tenho nenhuma paciência para ler esta novela até ao fim. Tenho feito como com as telenovelas, mudo de canal.
    Pelo que estou hoje a ler no Aspirina, que ao Acidental deixei de ir, vejo que afinal andam para aí espadas no ar a defender o indefensável.
    Que lhes faça bom proveito!

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