Alegre, o candidato da triste figura

Devo confessar que nunca fui grande apreciador de Manuel Alegre. Nem da sua poesia, nem do seu estilo pessoal, grandiloquente e rebarbativo. Tal embirração já é bem anterior à sua candidatura à presidência. Mas ainda mantinha um nico de admiração por Manuel Alegre o deputado, o tribuno, o político.
Agora, depois de já o ter visto em pré-campanha e, sobretudo, em debates, a desilusão é total. O que há mais de um ano escrevi a propósito do seu livro “Arte de Marear” parece-me agora uma descrição certeira de toda a sua postura. É só transpor a coisa da literatura para a política:
“Mas, bem acima de todas estas questões, ergue-se uma figura titânica, prometeica, insuperável: o próprio Manuel Alegre. E a cada esquina se torna mais óbvio o imenso interesse que o Bardo dedica ao seu assunto preferido: ele mesmo. Ele resiste; ele é insubmisso; ele é uma personagem de magna importância no curso da História; ele aceita honrarias com um encolher de ombros resignado à grandeza; ele cita pelo menos três Grandes Vultos por página; ele acha a sua poesia “camoniana”; ele compõe parágrafos recheados de lugares-comuns a propósito de qualquer assunto ou personalidade. E, acima do mais, ele é, visceralmente, de Esquerda; quase se pode dizer que ele é a Esquerda! Para que disso não permaneçam dúvidas, trata de proclamar tal paixão com as cornetas do costume: truísmos, verborreia pomposa, mais banalidades.”
Tal e qual.

5 thoughts on “Alegre, o candidato da triste figura”

  1. Eu ouvia-os e pensei: Manuel Alegre pode achar que sempre apoiou Mário Soares, sempre se colocou a seu lado e que o protagonismo foi sempre para o outro. Mário Soares pode achar que sempre deu visibilidade a Manuel Alegre, que sempre o apoiou e que sem o seu próprio protagonismo ele não teria ido a lado nenhum. E ambos teriam razão, se pensassem assim. O mais curioso é que cada uma das carreiras de M. A., a política e a poética, não teriam grande destaque isoladamente. São uma espécie de amálgama.

  2. E contudo… eu votaria Alegre. (Digo ‘votaria’ porque não votarei. Simples: não sou no papel aquilo que sou por dentro. E, para poder votar, iam pedir-me o papel. E não o dentro). Votaria Alegre, pois. Vê-se-lhe na cara, no olhar franco, destemido, mas sem ilusões, nem as boas nem as más, vê-se-lhe que daria um grande presidente.

    Há aí alguém que -tencionando não votar – queira votar por mim?

    Obrigado. E não diga a ninguém.

  3. Sou eu, Fernando! Pelas mesmíssimas razões que acabaste de pôr à vista. Claro, mesmo que a impressão não corresponda à marca, só o simples facto do Alegre ficar à frente do Soares já me consolaria. E, nessa improvável segunda volta, ver o Cavaco contra o Alegre seria ocasião de se extremar a vacuidade do Cavaco no confronto com o lirismo do Alegre. Isto, se o Alegre assumisse a pose do vate – pois como nunca se cansou de repetir o Agostinho da Silva, não há defeitos nem qualidades, apenas características; umas vezes aparecem como defeitos, outras como bálsamos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.