O opositor secreto de Passos Coelho

Quem acreditar nas memórias de Cavaco, fica agora a saber que ele se terá oposto às políticas do governo de Passos Coelho – a descida da TSU, os cortes dos vencimentos e o roubo dos 13º e 14º meses dos funcionários públicos (salvaguardando, porém, os rendimentos do capital), a forma como a política de austeridade foi aplicada pelo governo (sem equidade nem justiça social), a estratégia de comunicação do governo no anúncio dessa política de austeridade (quase parecendo “ter prazer em anunciar medidas negativas”), a extinção dos governos civis, a “falta de coragem para enfrentar as clientelas do PSD e do CDS” (que terá servido de pretexto à extinção dos governos civis), etc., etc.

Terá Cavaco afinal militado secretamente na oposição?

Mas porque não usou ele a sua voz para criticar as políticas daquele governo de que diz ter discordado – já não digo do mesmo modo como torpedeou sonoramente o governo de Sócrates, mas ao menos com uns puxõezinhos de orelhas amistosos? No seu silêncio público, Cavaco foi inteiramente cúmplice do governo de Passos Coelho, que agora diz ter criticado e admoestado nos bastidores. Compreende-se que queira reescrever a história, mas é preciso ter muita lata!

Neste novo volume das suas memórias, Cavaco critica também Passos Coelho pela sua “inexperiência governativa” e ignorância em matéria macroeconómica. Critica Paulo Portas pelos seus humores irresponsáveis. Diz ter ficado espantado com a nomeação de Relvas como ministro-adjunto, pelo que não ficou muito surpreendido quando ele teve de sair (vergonhosamente) do governo. Revela que Passos Coelho e Paulo Portas atiravam um para o outro a batata quente de nomear um ministro das Finanças para suceder a Vítor Gaspar. E adianta, em primeira mão, que Passos Coelho ameaçou demitir-se três vezes!

Não está mal, não senhor! Ao lado da sólida “geringonça”, o governo de Passos Coelho mais parece ter sido uma caranguejola ferrugenta sempre a cair em pane.

Cavaco diz ter declarado a Passos Coelho e Portas, após o episódio da demissão irrevogável: “No futuro, serei menos condescendente em relação a desentendimentos no seio da coligação que ponham em causa a estabilidade política.” Ai que medo! Certamente cortava-lhes a semanada e proibia-lhes as idas à discoteca.

Podemos perguntar-nos porque relata Cavaco estes desaires, erros e insucessos do governo que ele apoiou publicamente até ao fim – e que quis mesmo reeditar em Outubro de 2015, sabendo de antemão da falta de apoio no novo parlamento. Uma explicação plausível para estas confissões é que, perante o êxito ulterior da “geringonça”, de que ele desconfiava mortalmente e que chegou a pensar em evitar mediante um governo de iniciativa presidencial, Cavaco prefere agora apontar os erros Passos Coelho e Portas a ter, logicamente, de reconhecer o bom desempenho de António Costa. A mensagem que quer passar é esta: se a geringonça da esquerda triunfou, não foi por mérito próprio, foi por culpa da caranguejola da direita… Ele bem avisou Passos e Portas, mas não foi ouvido! Espera-se ansiosamente a reacção dos visados.

Entretanto, Marcelo garantiu hoje que jamais comentará as memórias de Cavaco. Perde, assim, uma excelente oportunidade para dar um show e divertir o país.

5 thoughts on “O opositor secreto de Passos Coelho”

  1. Cavaco, sempre ele mesmo, o próprio, o único, o grande “génio” nunca “havisto” nem “ouvisto”.
    Senhor do maior “olhómetro” a ver e a prever tudo e a prevenir todos do que ia acontecer e, agora, ficamos a saber que também foi senhor do maior “avisómetro” para a governação perfeita.
    E porque não convenceu ele os seus amigos da sua recta sabedoria? Ou porque não lhe deram ouvidos? Ou porque nunca deu sinal de que tivesse actuado como agora diz mas sim ao contrário?
    O Cavaco tem, uma imagem de si e uma imaginação à sua imagem tão incomensuravelmente fantasiosa, na obcecada defesa mentirosa de sua persona falhada de valores e qualidades em todo o sentido humano da vida, que já se tornou como sendo um protótipo do escárneo e maldizer do povo.

  2. É a criatura mais reles que este país alguma vez pariu. E é confrangedor que o verme não se aperceba do vómito que a exibição vaidosa da sua indignidade provoca nas pessoas decentes. O nojo absoluto, o vómito primordial!

  3. estou à espera que conte o episódio do circo mariani quando interditou o espaço aéreo no corredor de faro para o barulho dos abiões não lhe perturbar as tertúlias de bisca lambida com o avô pintelhos e os amigos fantasia.

  4. Não me falem no Cavaco que me dá nervos, ele sim, o invejoso vingativo nato. Somente um invejoso pode afirmar que o outro tem inveja dele, com a agravante de ser uma frase de gente de baixo nível social e cultura duvidosa. Ninguém que eu conheça usa a palavra invejoso. Não é moderno. As pessoas felizes e a viver bem, não empregam o termo, desgraçadamente pindérico e demasiado popularucho. O Cavaco é isso, sempre lhe reconheci a inveja, o mau perder. Tinha de deixar em livro, as merdices de que tomava nota, metodicamente, todas as quintas feiras. Suponho que, por vezes, lhe era terrivelmente difícil entender o que lhe diziam. Daí a confusão, troca de nomes e outras anomalias registadas no livro. No livro ressalta a palavra inveja por ali por acolá….

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