A libertação ao alcance do telecomando

Perdoem-me os aspirinautas mais militantes, mas é sábado e tenho que abrir aqui um descompasso para desabafar sobre uma magna questão pessoal, que só muito colateralmente poderá ter a ver com a renegociação do memorando da troika ou com a fiscalização preventiva ou sucessiva do Orçamento.

Às vezes dá-me uma de nostálgico por não ter enveredado por uma carreira de empresário ou engenheiro. Acho que poderia ter singrado nessas nobres actividades, se tivesse optado por rumos mais úteis à humanidade. Gostaria de ter lançado produtos revolucionários e tenho a platónica pretensão de que os poderia ter inventado. Quase todos os dias me ponho a imaginar uma maquineta inovadora, quando tenho que suportar o ruído infernal do moinho de café do local onde almoço, para já não falar da chinfrineira de pires e chávenas. Não há conversa, leitura ou digestão que resista a tal tortura. Numa era em que se colocam sondas em Marte com precisão de metros, ninguém me convence que é impossível fabricar um moinho de café silencioso ou louça de café que não destrua a convivialidade dos locais que frequento por necessidade ou lazer. Mas o meu maior sonho era o de criar um software para o aparelho de televisão e um telecomando com special features. Os actuais botões do telecomando para pouco servem e o zapping é um desporto frustrante.

Estou farto de dizer a um amigo que tem tendência a deprimir-se com os canais televisivos portugueses: “Porque é que toleras que certa gente ocupe o écran da tua televisão? Rapa do telecomando e muda de canal! Se não abres a porta de casa a milhares de pessoas de quem não gostas, porque é que haverias de as receber e aturar quando, na intimidade do lar, te sentas confortavelmente no sofá e te dispões a ver televisão?” O conselho não é nada mau, mas, passado o primeiro efeito, logo adivinho uma sombra de cepticismo no olhar do meu interlocutor. Contra-argumenta que não há alternativa, que os canais disponíveis são todos uma porcaria, que temos que estar informados sobre quem e como nos quer lixar, que não podemos mudar a realidade com um golpe de telecomando, etc. São considerações talvez muito judiciosas, mas também é certo que não vão além daquilo que existe, permanecem no domínio da resignação e do conformismo.

Ora o que falta é criatividade. A começar pelo software do aparelho de televisão e respectivo telecomando. Nós, pobres telespectadores indefesos, podíamos e devíamos ter capacidade de interagir directamente com o que se passa no écran, tanto no plano das imagens como do som. Não estou a pensar na chamada televisão interactiva, que é um triste arremedo de liberdade. Eu quero ir muito mais longe. Resumindo – pois não posso desvendar em pormenor ideias que talvez um dia me rendam uma fortuna – deveríamos poder dar uma estalada ou um tiro virtual em certos personagens que invadem a nossa casa pela janela da televisão. Deveríamos poder fulminá-los com um raio, usando o telecomando como um joystick mortífero. De mansas televítimas, transformar-nos-íamos em Schwarzeneggers implacáveis. E tudo ao abrigo das sanções do Código Penal! É uma questão de saúde pública e de legítima-defesa contra os arrombadores virtuais que violam o nosso reduto e conspurcam o santuário da nossa inteligência. Se já estávamos mal, a ameaça de privatização da RTP augura o pior e temos que estar preparados para o que der e vier.

Assim, deveria haver um software repleto de efeitos especiais que, no mínimo, nos permitisse deformar as fuças e/ou a voz de certos imbecis que todos os dias têm a sem-cerimónia de penetrar na nossa sala-de-estar e arruinar os momentos de lazer de um dia de trabalhos ou chatices. Imaginem, por exemplo, que o Relvas ou qualquer outra besta, das dezenas que regularmente vos incomodam, aparece na pantalha e começa a debitar uma bosta qualquer que provoca a vossa indignação. Deveria ser possível substituir a voz dele, em tempo real, pelo zurrar de um quadrúpede ou, com um golpe certeiro de telecomando, desferir-lhe um golpe que o desintegrasse visualmente, reduzindo-o a um monte de cacos ou uma nuvenzinha de fumo. Como opção, o programa de televisão alvo da nossa justa ira seria instantaneamente substituído por um filme da nossa preferência.

Eu seria perfeitamente capaz de ouvir um relambório de Vítor Gaspar ou uma entrevista inteira do Passos Coelho se lhes pudesse esticar as orelhas e pô-los a gaguejar. Tudo isto e muito mais (eu sei que a vossa imaginação é fértil) mediante a introdução de vulgares manigâncias electrónicas no aparelho e no telecomando. Há jogos de guerra e outros que já usam a tecnologia, bastaria adaptá-la à defesa do telespectador.

Pensem nisso e façam sugestões.

5 thoughts on “A libertação ao alcance do telecomando”

  1. Pois .. já existem chips de contexto. Mas haver um em que a imagem da TV esticasse as orelhas pelos disparates ditos ou fizesse crescer o nariz por cada mentira, seria interessante.Já no “Contacto” C Sagan os intuia. Hoje são uma realidade, mas limitada.

  2. Onde é que isso se compra? Eu também gostava de pôr o Marques Mendes a piar, a Maria João Avilez a cacarejar e o Crespo a latir como um cãozinho de colo, vulgo lambéconas (palavra esdrúxula).

  3. júlio,

    há uma hora que é e que podia ter sido se não fosse.
    Há uma hora, há uns poucos de anos…que isso que sonhas não existe. Embora, por vezes se vislumbrasse.E os engenheiros e doutores e tudo o resto são proletariado reles face aos
    RELVAS SUPREMOS que tomaram conta desta merda à conta de mesquinhez e analfabetice que não data de há uma hora. E ai de quem a combate.Contra si próprio combate
    http://www.youtube.com/watch?v=yDWSlNdYXx8

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