Vinte Linhas 724

António Carmo – As três laranjas do Chiado para Bruxelas

Todos os sabemos – se a literatura é uma homenagem à literatura, toda a arte é um tributo à arte anterior no mundo e no tempo. Serge Prokofiev (1891-1953) é muito mais do que o autor da ópera «O amor das três laranjas», baseada numa fábula de Gozzi, escritor do século XVIII e do que o autor da música de filmes como «Ivan, o terrível» ou «Alexandre Nevski».

A sua vida repartiu-se por Londres, Chicago, Paris, Berlim e Bruxelas; isso fez com que só em 1927 regressasse à URSS tornando-se cidadão soviético em 1937. A sua morte passou quase despercebida porque nesse mesmo dia (5 de Março de 1953) morreu Estaline.

António Carmo leva Serge Prokofiev a Bruxelas num quadro que aqui se reproduz em parte, apenas em pormenor. Deixa o seu lugar na mesa da Brasileira no Chiado onde ainda permanecem os resistentes. Até ao dia 8 de Fevereiro de 2012 o acervo de quadros de António Carmo aqui representado pelo seu Prokofiev permanece na Galeria Albert Premier na Rue de la Madeleine nº 45 ou então na Magdalenastraat 45 – que vem dar ao mesmo.

Neste Chiado que já teve raminhos de violetas oferecidos ao cavalheiro de passagem, há por estas manhãs um nevoeiro teimoso que só o sol mais alto empurra e afasta para longe. Em Bruxelas António Carmo sorri à chuva deste Janeiro frio com o espírito da mesa dos resistentes da Brasileira onde o seu lugar continua em aberto, ali entre um café bem tirado e um carioca de limão – para um amigo que já bebeu cafés a mais hoje.

E as três laranjas de Serge Prokofiev brilham à volta do quadro de António Carmo, algures entre as partituras que voam e a massa sonora de um coro cujo timbre e cuja altura parece ter sido arrancado à terra para nascer todos os dias.

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