Um livro por semana 273

«Loja, Contra-loja e Armazém» de Carlos Garcia de Castro

Carlos Garcia de Castro (n. 1934) é autor desde 1955 de 7 livros de poemas – o mais recente é Gloria Victis de 2007. Neste livro de memórias, o ponto de partida é o seu olhar para dentro da loja de seu pai: «Das poucas vezes que agora vou à loja – é estranho. As prateleiras não têm peças de panos. Os riscados, popelinas, os percais. As chitas, as gorgorinas, as gangas e as flanelas. Os cotins. As sarjas. Os surrobecos.»

O autor apresenta-se («Cresci duma casa para a loja e para a minha rua. Sou da cidade.») e apresenta o seu livro: «este livro que fala da minha terra não a ultrapassa nem ilumina, é decididamente paroquial.» Nas suas páginas, diversa poesia surge intercalada embora o seu autor tenha advertido: «a Poesia quase não é procurada nas livrarias». Memória de um tempo e de um mundo, a família e o comércio são dois dos pilares do texto: dos irmãos António, Miguel e Maria de Jesus aos netos Mafalda, Madalena, Diogo com passagem pela divisa «O comércio é para servir mas não é criado de ninguém».

Nascido na Rua dos Violeiros, sempre o autor gostou de Tunas: «Conheci-os muito bem. O sr. Madeira, violino. Os irmãos Facha, violino e guitarra. O sr. Testa. O sr. Rosado, acordeão. O Amaral com o banjo. Mestre Carvalho, acordeonista. Era a Tuna. Passava devagar.» Dentro da Cidade, surge a Loja: «Para a loja convergiam e da loja emergiam as operações e os ritmos particulares das nossas vidas. Não consigo lembrar esta cidade sem lembrar a loja». Ao longo de 213 páginas o autor mantém o projecto: «Dizer por escrito: a minha terra; a nossa casa; a loja; os rapazes (empregados); os meus pais – não cabe na literatura. Não sendo já saudade, é sentimento e sinal». O tempo da loja não era só trabalho; havia baile no salão: «Bota cá l´cença! Era a senha de quem vinha e queria bailar com aquela». Se o par se negava a transitar a rapariga, «havia porrada, todas as noites, ao sábado no salão».

A memória tem coisas tangentes à realidade de agora, como o Banco de Portugal desse tempo: «Solene como uma igreja, onde se falava em surdina aos guichets, confessionários. Um luxo estático. Sobranceria. Riqueza. Discrição nos movimentos. Concentração. Tudo lá parecia uma cerimónia, os ritos apropriados, liturgia, exactidão, ameaça. Não lhes sabia o sentido».

(Edições Colibri, Capa: Raul Ladeira, Editor: Fernando Mão de Ferro)

4 thoughts on “Um livro por semana 273”

  1. que coisa bonita, esse ir à loja. fiquei a pensar no quanto é mal empregue a expressão popular. acaba de ganhar, hoje, aqui e agora, um significado especial talvez vestidinho, que lhe fica a sonhar, de chita, flanela, e riscados. :-)

  2. Bom dia, poeta.
    Era onde, a loja ?
    Nos meus sítios havia designação diferente para estabelecimentos deste tipo, era o soto, com o “o” aberto, o soto do Senhor Horácio, enquanto vendeu tecidos, depois passou a taberna, mas o mais importante até nem era este, era o soto do Senhor Serafim, na vizinha freguesia do Vilarouco, onde o melhor que havia era o cheiro do café acabado de moer.
    Por acaso não se vendem fazendas no seu soto, poeta ?
    Jnascimento

  3. “Era a senha de quem vinha e queria bailar com aquela». Se o par se negava a transitar a rapariga, «havia porrada, todas as noites, ao sábado no salão».” diz o poeta e corrobora o jcf.
    Pois os bailes agora são diferentes. Metem gente de cor, moldavos, brasileiros, eu sei lá.
    -A menina dança?
    -Não, vou mijá…
    -Ah! Vai mijar mas volta.
    -Não, vou mi já embora!

    E quanto às lojas. Na drogaria do sr. Crispim, este conversava com um cliente. Eis que entra uma senhora.
    -Sr. Crispim tem piaçás?
    -Não, acabaram-se. Estou à espera de mais.
    Quando a cliente sai diz o freguês que conversava com o sr. Crispim:
    -Que grande ignorante. Nem sabe dizer piaçáveis!!!

    Já na taberna do Abel a coisa é diferente. Tens uns cornos pendurados por cima dos cascos de vinho. Chega um cliente e pergunta:
    -Sr. Abel, aqueles cornos são seus?
    -Não – responde o Abel. -Aqueles cornos são dos clientes!
    -Então e o sr. permite que os clientes lhe ponham os cornos aqui na loja?

    Já ataberna do Horácio tinha um letreiro onde estava escrito.
    O camelo é o animal que aguenta mais tempo sem beber.
    Beba, não seja camelo!

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