Sob o signo da incubadora (2)

Carrilho será uma osga insuportável. Talvez. Será um mitómano que coloca tudo e todos em causa, menos a sua própria presciência. Terá perdido a campanha contra um adversário fraquíssimo sobretudo por incapacidade absoluta de gerir e protagonizar uma campanha eleitoral agreste. Por certo. E ter-se-á lembrado agora de congeminar o seu regresso com este pequeno “Manual do Ressabiado” movido por dois impulsos irresistíveis: atirar as culpas para cima do resto do mundo e apontar à sua nada modesta pessoa os holofotes da ribalta mediática, nem que seja por mais um minutito apenas. Claro como água.
Mas há que convir que nem todas as suas queixas são infundadas. Ele não é um doppelganger do Santana Lopes dos murros na incubadora, das gaffes diárias, da necidade crónica e militante. Houve de facto alguma má vontade em torno da sua campanha. Se suscitada por embirração com a personalidade difícil de Carrilho ou por maquinações sombrias, como ele defende, é agora indiferente. Mas dão-lhe alguma razão, por exemplo, os que o vaiaram por usar o seu filho no vídeo de lançamento da campanha e depois aplaudiram quando Cavaco Silva exibiu os netinhos.


Por mim, lembro-me bem de um episódio revelador: o “Expresso” de 18 de Junho do ano passado, em pleno arranque da campanha autárquica, ostentava na primeira página um título assassino: «Carrilho diz que jornalistas são débeis mentais». No interior, uma caixa com outra parangona devastadora: “Carmona é sonso e indigente”, com aspas a denunciar (aparentemente) que se tratava de palavras do candidato.
Lendo o artigo em causa, que descobríamos? Que uma pergunta meio tonta — “porque permitiu que um vídeo sobre a sua vida privada se misturasse e sobrepusesse ao seu projecto?” — recebeu uma resposta algo abespinhada: “Acho isso um argumento hipócrita; o que está dizer é que os jornalistas são débeis mentais e não se interessam pelo essencial. Pobre país que tem uma classe jornalística assim.” E a frase “Carmona é sonso e indigente” pura e simplesmente não fora pronunciada por Carrilho. Reagindo a uma atribuição dos problemas de estacionamento da capital ao facto de haver lisboetas com 20 automóveis, ele sentenciou: “quando se diz isto, está-se num estado de indigente incompetência”.
Nada disto mitiga as muitas culpas próprias do candidato da triste figura; mas demonstra que ele enfrentou mesmo mais adversários do que os que figuravam nos boletins de voto…

9 thoughts on “Sob o signo da incubadora (2)”

  1. O Novo Semanário “Sol” e a Opus Dei

    O texto é retirado do blogue de Luís Humberto:
    “Vi no Clube de Jornalistas a seguinte informação:”O Millennium-BCP é o principal accionista do semanário cujo lançamento José António Saraiva está a preparar. O banco pôs à disposição do ex-director do «Expresso» e de um pequeno grupo de colaboradores, entre os quais José António Lima, um espaço provisório num dos seus edifícios.O BCP tem sido, geralmente, conotado com o Opus Dei e há quem sugira que o lançamento do semanário poderá representar um salto significativo na relação da «Obra» com os media.”
    A notícia prossegue, referindo os planos da Opus Dei para a comunicação social brasileira. Seguindo os links indicados, chegamos a algumas pessoas e entidades empenhadas em aumentar a influência da «Obra». Entre elas está a consultora Innovation, que de imediato reconheci, pois recebi formação da mesma em 1999, num curso para descoberta de Novos Valores na área do jornalismo promovido pelo semanário Expresso, então dirigido por José António Saraiva.
    A par da informação que foi avançada pelo Clube de Jornalistas, este dado poderá contribuir para fortalecer a teoria de eventuais ligações de José António Saraiva à Opus Dei.
    Em princípio, essas ligações nada têm de mal. Cada qual é livre de escolher a quem se associa e de tentar difundir os valores que defende através de um meio de comunicação.
    De tudo isto, só há uma coisa que me deixa com a pulga atrás da orelha: porque é que há tanto secretismo em torno de entidades como a Opus Dei
    Ou seja, porque é que só 7 anos depois é que fiquei a saber – quase por mero acaso – que estive num curso ministrado por uma consultora directamente ligada à Opus Dei? Não podiam ter aberto logo o jogo?

    E porque é que ainda hoje me lembro claramente da frase “La mamá tiene siempre razón…”, que foi repetida até à exaustão nessa formação dada pela Innovation a estudantes que aspiravam a ser jornalistas do Expresso?”

  2. Dominar e controlar a comunicação social é um dos objectivos da Opus Dei em Portugal e noutros países onde esta seita consegue criar raízes.

  3. Uma frase lapidar para abrir o apetite:
    “Todas las personas de la Obra, y aun los Cooperadores, que se dediquen profesionalmente a estas tareas, han de procurar recoger las experiencias más interesantes sobre la manera concreta de realizar esta labor apostólica en los distintos tipos de publicaciones, emisoras, etc. Estas experiencias las entregarán a los Directores locales, que las harán llegar a la Comisión Regional.”

  4. Sim, sim, é verdade, o problema é que, no livro, ele atirou em tudo o que mexe, elegendo com alvo principal e emblemático a história do aperto de mão, na qual não tem qualquer razão…

  5. custa-me escrever uma linhas sobre um anormal tão grande. na verdade, ele até podia fazer tudo o que os outros fizeram, simplesmente nele a intenção é diferente. e é fácil perceber porquê. no caso do vídeo, foi feito de propósito para irritar os jornalistas que comentando a mensagem a propagam. foi estudado. a questão é que se voltou contra ele, por razões ainda mais óbvias.

  6. quer-me parecer que há muito quem não perdoe ao carrilho ter-se casado com a bárbara.eu também não lhe perdoo a ela ter-se casado com ele.

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