Maria José Nogueira Pinto – uma nota pessoal

 

 

MJNP morreu com 59 anos. Tenho 35 anos e não me lembro de não a conhecer. Não me lembro do dia em que vi pela primeira vez esta mulher inesquecível sentada, à conversa, em casa dos meus pais. Por isso, este raio que se abate sobre nós quando alguém como MJNP fecha os olhos pela última vez  e que nos faz percorrer imagens atrás de imagens até um início qualquer, não encontra, no meu caso, esse início.

A imagem de uma cara bonita, invulgar, a argumentar com prazer, irritada, alegre, interrompendo, impondo-se, essa imagem forma-se na minha infância, antes de eu saber o que era ser de direita ou de esquerda, mas já notando a inteligência, porque quando esta é aguda, as crianças sabem bem dar por ela.

MJNP fez uma carreira brilhante, era competente e guiava-se pela competência, às vezes inconveniente, felizmente, acesa e convicta nos debates, falando a cem à hora, interrompendo quando via nas palavras do adversário um limite para o seu silêncio, debatia com consistência e sem medo dos formalismos sexistas que quando quebrados perigam a qualificação do dito pela mulher.

Não vale a pena dizer o tão gasto “apesar” das nossas diferenças. Elas são evidentes, sabidas, porque MJNP sempre escreveu e disse sem margem para dúvidas quais eram as suas causas e valores.

Há dias, na AR, numa votação de horas e horas em que cada intervalo era esmagado por jornalistas, percorri o corredor com o olhar: encontrei-a ao fundo, sozinha, numa cadeira, a recuperar para a próxima rodada.

Sentei-me a seu lado e pousei a minha mão sobre a dela. Depois de umas palavras mais privadas, perguntou-me se eu já me orientava nos corredores do Parlamento. Respondi-lhe que eu era desorientada crónica e que daqui a quatro anos entraria triunfante no restaurante convicta de que seria o Plenário. Um fio de fraqueza e de beleza soltou uma gargalhada inesperada.

Há uns tempos, nesta sua dignidade perante a doença, aflitiva apenas para nós, mais fracos do que ela, houve um debate na televisão com independentes de todos os Partidos.

Vou guardar para mim o que nessa noite a fé profunda desta mulher traduziu em palavras após o debate, mas posso repetir uma verdade que lhe disse num abraço – “os ateus também rezam, Zézinha”.

 

 

19 thoughts on “Maria José Nogueira Pinto – uma nota pessoal”

  1. Este teu testemunho, Isabel, é perfeito. Em vários planos, todos ligados com o que vai ficar entre nós da Maria José, é um tributo santo.

  2. Belíssimo, este texto. Não conheci MJNP, nem de longe nem de perto, e não lhe prestava particular atenção, mas ficam-me as tuas palavras e expressões marcadas, a revelar quem era e como tocou as pessoas. Provavelmente é a melhor homenagem.

  3. Belo texto, parabéns! Não posso deixar de aqui venerar a coragem desta mulher, que deixara de ver há tempos, mas que reapareceu há cerca de três semanas no jornal do Mário Crespo com um aspecto que me deixou totalmente impressionada e que, apesar de manifestamente ter chegado ao “fim da linha”, continuava a argumentar com o mesmo entusiasmo de alguém que acaba de entrar na política. Admirável.

  4. Esta é a primeira vez que comento algo escrito num Blog.

    Como homem de esquerda e cristão apenas me apetece dizer:

    Deus levou-nos a MJNP. Ainda bem que nos deu alguém como a Isabel Moreira.

  5. Não me emociono assim tão facilmente mas foi-me inevitável emocionar-me aqui pelo que escreves e sobretudo pela diferença ideológica entre ambas que neste caso só confere mais grandeza às tuas profundas palavras. Vê-la ao fundo do corredor, sozinha, tal como a viste é uma imagem marcante só suplantada pela gargalhada que lhe arrancaste. Fizeste bem em ir ao encontro dela, nesse momento.

    A tua última frase, como bem realça Leonor Pinto, é de uma tremenda lucidez e emocionante sensibilidade.

  6. Isabel Moreira, senhora deputada; Vamos a palavras práticas para comentar o seu bonito texto sobre a Dra. Maria José Nogueira Pinto. Peço-lhe que leia AQUI: http://www.pgdlisboa.pt/pgdl/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=708&tabela=leis&nversao=

    E quero adiantar que SE esta Lei e o subsequente Decreto que a regulamentou, que ao tempo constituiu um avanço enorme no panorama Social em Portugal, existiram MUITO, muitíssimo se deve a quem aos 59 anos nos deixou. É uma história verídica que fica por contar porque francamente não me apetece aqui no meio deste palavreado vaidoso. Obrigado uma vez mais pelo seu texto

  7. Na realidade perdemos esta semana um grande ser. Até ao último minuto lutou, por Portugal e pelos Portugueses. Em mim jamais morrerás. Que Deus te ofereça tudo o que mereces.
    Obrigada por tudo.

  8. Que texto bonito Isabel e que homenagem tão sincera.
    Que bom é por vezes passar por aqui e tomar uma aspirina.
    Pedro

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