A propósito do dia internacional do Holocausto

Estava a ver as terríveis imagens do post da Palmira, bem documentadas por quem perguntou em título de livro “Se isto é um homem?”, quando me lembrei do que sempre me lembra o mais terrífico acontecimento que consigo encontrar na minha memória histórica. Li muita coisa sobre o Nazismo, li relatos históricos e li o que fica nos homens que ficaram; uma literatura que nos diz da possibilidade humana, da impossibilidade dela, da dor por dentro, do sabor da comida que não chega, do sentir exacto da carne dos pés a saltarem na neve dos campos de concentração, da lógica da sobrevivência que mata muitas conivências impossíveis.

Homens por acaso vivos, para sempre mortos, mas com força para dizerem de si num poema, numa prosa, numa música.

Lemos, vemos, soletramos, ouvimos, mas não somos o outro, é impossível, há sempre uma distância que nos rouba o tu enquanto faz de nós analistas. Mas fazemos o que é possível e lemos e vemos e soletramos e ouvimos.

E também choramos.

Há um momento em que nos perguntamos duas coisas: como foi possível? Seria possível outra vez?

É a esta segunda pergunta que a generalidade dos Autores, como Primo Levi, citado pela Palmira, responde que sim. Daí a preocupação de não esquecer ou, para usar o conceito utilíssimo de José Gil, de inscrição.

Não devemos esquecer. Nunca. E devemos saber da história toda e depois das histórias que nos chegarem, como a de uma menina muito pequena levada para um campo e, ainda criança, 4 anos depois, na libertação, ao amparar a queda de seu pai emocionado sobre o seu corpo magrinho, ouviu um soldado alemão perguntar-lhe: – é teu pai? Disse que sim, a chorar de alegria, e uma bala atravessou a cabeça do pai.

Não esquecer, contar, uma e outra vez. Repudiar as comparações absurdas com regimes detestáveis, comparações assentes no quem mais matou.

Aqui há um elemento pouco discutido: nunca existiu até hoje um sistema político todo ele cientificamente apoiado num sistema jurídico de perfeição matemática com o fito de aniquilar uma etnia inteira. Isto nunca aconteceu.

Como é que foi possível? Diria isto: lei a lei. O sistema poderia ser lei, adaptação, lei, adaptação. Hitler chega ao poder e aprova centenas e centenas de leis e de regulamentos. É como as malhas de uma camisola, um sistema em construção, sabiamente, tijolo a tijolo, sempre com eles na exclusão a cada lei ditada. As pessoas que vivem como destinatárias desta chuva miudinha de leis e de regulamentos, aderem aos mesmos, ao que os mesmos querem dizer, isto é: eles não são pessoas.

Eis o horror de um sistema jurídico construído para a desumanização total de um grupo, com eficácia, o grupo que certo dia começa a sair das cidades em filas, com bandas nos braços, sabe-se lá para onde.

Um dia soube-se, desde logo pelos milhares de cartas dos soldados alemães enviados para as famílias, mas já seria de espantar que fossem para parte incerta. Acontece que já não eram pessoas, nem para os seus vizinhos, nem para os guardas que os tiraram dos seus lugares nem para quem materialmente os dizimou.

Penso que este horror não se repetirá por causa das especificidades que apontei.

Mas há sempre monstruosidades que podem acontecer.

E mesmo que assim não fosse, ainda que houvesse a garantia de nem mais uma perseguição na história, porque aconteceu, não esquecer, contar, uma e outra vez, ler, ver, soletrar, ouvir, fazendo o possível para chegar ao outro, lendo, vendo, soletrando.

E também chorando

15 thoughts on “A propósito do dia internacional do Holocausto”

  1. Cláudio Abramo, jornalista brasileiro, escreveu no «Folha de São Paulo» a propósito dos massacres de Sabra e Shatila em 1982 que «afinal não foram os palestinianos que incineraram os judeus nos fornos, foram os alemães de Hitler». O major Haddad era um braço de Menachem Beguin sobre quem Claúdio Abramo disse o mesmo que Carlos Lacerda tinha dito de um ex-presidente no Brasil: «Ele é mais feio por dentro do que por fora».

  2. Deixe-se de piadas anti-semitas JCF, você sabe muito bem que a Inquisição incinerou pra cima de 30 milhões de pessoas, incluindo ciganos e dançarinos de flamengo, mas fica caladinho porque é casado pela Igreja às escondidas do Partido Comunista e dos fanáticos das comissões de trabalhadores sem poiso certo desse tempo.

  3. Era caso para ver flamengos à meia-noite, mas não, em casos de emergência como este ponho-me a tocar cascanholas. E flamengo não é queijo, é um a coisa ou um homem da Flandres que poderia, ou não, estar a comer queijo que, por coincidência, poderia ser flamengo.

  4. Citar um grande jornalista brasileiro não é fazer piadas, é trazer algo escrito por alguém que conhece a coisa. E a propósito estavam dois portugueses no ano de 1982 em Chatila: José Goulão e Fernando Nobre.

  5. O José Goulão foi meu director no jornal «Sporting» com 40 páginas no tempo da presidência de Dias da Cunha no Sporting Clube de Portugal. O Fernando Nobre é esse mesmo. Felizmente não foram mortos pelos rapazes do major Haddad.

  6. Concordo muito, muito, com este repto:

    “Não esquecer, contar, uma e outra vez. Repudiar as comparações absurdas com regimes detestáveis, comparações assentes no quem mais matou.”
    __

    Bagonha, então não pode? Serve-te à-vontade.

  7. JCF,

    Mais uma menção do nome desse major e tens a tua efígie vuduista a ser picada com alfinetes na área do baixo ventre. Cuida-te!

    Bagonha,

    Nesta casa não se pede, exige-se. E o teu nome rima com o quê, galactífero amigo?

    Valupi,

    Esta mania que tenho de ir ao dicionário dos teus insultos favoritos em horas de parca inspiração: tal como o outro da retórica velha do engano, és um “bandalho” que nunca se apieda dum adversário ferido. Presumo, sem ofensa, que quando eras sacristão andavas sempre a rondar a galheta. Pelo vinho à borla, pois claro. Confessa.

  8. Porra, pá, Kali! Essa do galactífero foi do caraças. Gramei!
    Quanto à rima, olha, nunca pensei nisso. Vou ver se descubro algo giro e depois digo-te.

  9. Há um norueguês equivalente ao major Haddad – chama-se Quisling e foi morto logo que terminou a guerra de 39-45. Safa!

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