A “arte” de governar

A esta data já caiu por terra a oportunidade desta direita se defender num passado inventado, mas, infantil que fosse, de tanto repetido, havia uma narrativa da crise que desembocava na frase “não fomos nós que deixamos o país chegar a este ponto”.

Já não vale a pena misturar alhos com bugalhos e omitir uma história importante para a caraterização do país que nos levaria a dez anos de Cavaco, ao desenho da União Europeia e aos efeitos diferenciados do euro.

Já não vale a pena fingir que não havia crise internacional e que esta surgiu de repente apenas neste Governo.

Valeria a pena assumir estes anos de Governo, o que prometia resolver tudo, sem todos os cortes muito para além do memorando que a direita avessa a subida de impostos acabou por fazer.

Mais valeria a pena perceber de onde vem uma obsessão pelo caminho que nos trouxe até aqui e que nos dizem, sempre que erram nas previsões pela boca de Gaspar, ser o caminho “certo”.

Temos um MF que desde que tomou posse falhou sempre: no défice; no desemprego; na dívida pública; em tudo.

Dois OE no ano passado e este ano, naturalmente, já vamos no segundo, perante um quadro macroeconómico totalmente desfasado dos pressupostos falhados de Gaspar.

É injusto concentrar o erro todo em Gaspar. Temos um PM que não demite, antes que tenha de ser demitido, nem muda de política.

Pior, temos um discurso político sem substância, e que mente e que insulta.

A cada conferência de imprensa de Gaspar ou a cada intervenção do PM (vou esquecer os consultores que gostam de baixar o salário mínimo) pior do que os números – como o da contração da economia portuguesa que passa de uma previsão inicial de – 0, 3% para – 6, 4 % ou o do défice que passa de 4, 5% para 6,6% ou o do desemprego que passa de 12,4% para 18,4% – é a forma como os mesmos são apresentados.

Num país sem esperança, sem emprego, com fome, com emigração forçada, com empresas a fecharem todos os dias, aqueles atores de filme mudo não incorporam as pessoas reais que estão por detrás dos números na sua mensagem.

É com se o país real – que não conhecem – não existisse com sangue vivo e por isso temos o horror de assistir a um guião de cinema com pretensões a ser por capítulos que se esqueçam.

É assim ultrajante que o Governo tenha tomado posse pedindo sacrifícios aos portugueses prometendo um retorno no ano seguinte, sacrifício esse que foi feito e deu em nada e que o Governo volte a falar aos sacrificados uma e outra vez como se nunca tivessem sido criadas expetativas, essas que dão um sentido.

É ultrajante que havendo uma troika à qual pode ser mostrada a desgraça do país, Gaspar se veja aflito, porque ele e a troika são um só pensamento e o que ele quer é falar da sua credibilidade externa pisando, para isso, deveres em que está investido, que têm a ver connosco.

É ultrajante que se pressione o TC, que se diga haver uma “espera” pela decisão do empata, que se diga que a troika “não se deixa pressionar pelo TC”. A indignidade desta frase é toda a postura de bom aluno do Governo que incentiva a inversão da lógica de um país civilizado: é o TC que não se deixa pressionar pela troika e os 4 mil milhões de cortes adiados.

É ultrajante não admitir erros atrás de erros que custaram reformas, cuidados de saúde, escola pública, empobrecimento, emigração, destruição do tecido empresarial.

É cobarde não negociar com força, não exigir juros privados ao nível dos outros, pelo menos isso.

É desespero desculparem-se com o memorando, o tal com o qual o PSD ou pessoas como Catroga nada tiveram a ver, o tal que foi afirmado como “um programa de governo”.

Tem de se desligar a televisão quando o PM vem dizer que “isto são só previsões”, esses falhanços que na oposição a direita queria criminalizar.

Isto não é um Governo.

É um clube secreto.  

 

 

 

12 thoughts on “A “arte” de governar”

  1. Vamos então apresentar uma moção de censura ?

    É muito radical?
    Não vale a pena?
    Dá muito trabalho?

    Vamos exigir eleicoes antecipadas?
    É lançar uma crise?
    Pronto continuemos assim, sempre em rutura com a direita.

  2. Isabel

    Este Governo deve ser o clube dos poetas mortos e ninguém tinha dado por isso. O Zandinga das Finanças, ainda, vai mostrar que o caminho seguido, vai levar-nos a bom porto. Esta é a maior reforma do Estado e da nossa economia em democracia que há memória. Nunca, nenhum Governo teve coragem para ir tão longe. Somos um país com mais de 800 anos de história, já passámos por situações bem piores e por períodos muito mais longos, mas continuamos aqui.

  3. isso é tudo verdade, esse apanhado do que aqui têm escrito os outros, mas o texto é gelado como um morto e para convencer é preciso sangue a ferver – de outra forma estamos é a dar força ao cheirete que é a matança da arte sem aspas. vá, esforça-te mais um pouquinho Isabel. e não é por seres, especial, parte activa da cidade – antes por seres só Isabel que tão bem sabe escrever.

  4. é, estão mesmo a governar às escondidinhas, mas com o traseirão mal cheiroso completamente de fora. Santas inteligências…

    “O ministro das Finanças vai explicar hoje à tarde, perante os deputados da Comissão Eventual para Acompanhamento das Medidas do Programa de Assistência Financeira a Portugal, os resultados da sétima avaliação da ‘troika’, depois de um primeiro adiamento na sexta-feira ter atirado a reunião para 5 de abril, por alegada “indisponibilidade de agenda” de Vítor Gaspar.

    No entanto, ontem, quando se soube que o ministro das Finanças se reuniria hoje com as bancadas do PSD e do CDS, o líder parlamentar socialista protestou por este “grave atropelo institucional”. A acusação de Carlos Zorrinho terá feito recuar Vítor Gaspar que encontrou tempo para hoje se explicar perante todas as bancadas. Será acompanhado dos secretários de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio e o da Administração Pública, Hélder Rosalino, segundo a informação disponibilizada no ‘site’ do Parlamento.”

    (DN, hoje)

  5. Ora aqui está uma peça bem escrita mas que não nos anima nada (Ricardo Costa, Expresso on line, 5ªf, 14/3)

    “A minha vida mudou hoje de manhã. Acordei pelas 7 mas olhei para a minha agenda sem qualquer angústia. O que não fizer hoje faço amanhã, o que não fizer amanhã faço para a semana e o que não fizer para a semana logo se vê. Tenho sérias dúvidas que o Expresso saia este sábado e nem sei porque estou a escrever este texto no exato horário em que mo pediram. Em bom rigor, só devia escrever este texto quando me apetecesse.

    A minha vida mudou hoje de manhã, ou mais precisamente quando pus o relógio novo. Comprei-o ontem à tarde no relojoeiro que fornece a Autoridade da Concorrência (AdC) e, ao que parece, alguns departamentos da nossa Justiça. Posso garantir que a minha vida mudou. Encaro o tempo com outra distância, deixei de beber café, desliguei o antivírus a ver se o Outlook se evapora e esqueci-me do Moleskine no bolso de outro blazer.

    A minha vida mudou hoje de manhã, mas reconheço que o devo a Manuel Sebastião. Quando, ontem, o presidente da AdC disse, calmamente, no Parlamento que a investigação em curso aos bancos estaria concluída “dentro de dois anos” percebi que podia ter outra vida, sem precisar de reler o Siddartha e pôr-me a andar pela a Ásia descalço. Afinal, há outra vida, aqui mesmo onde nos encontramos.

    Quem diz que uma investigação a uma possível cartelização da banca vai demorar dois anos a ser esclarecida merece a minha admiração. Quem acha que esse tempo é aceitável para um regulador merece o meu aplauso. Quem diz tudo isso com tranquilidade merece o meu elogio rasgado. Obrigado, Manuel Sebastião. Obrigado, AdC. Com um relógio como o vosso nunca mais tenho pressa.”

  6. Digamos que estou em ligeiro desacordo com a Isabel. Concordo mais com o Vítor Malheiros, O Gaspar não se enganou, simplesmente não trabalha é para nós, Portugueses. Os patrões dele, são os de sempre e para quem ele trabalhava anteriormente, a finança internacional, Goldman Schass e companhia. O resto é paisagem. Querem apostar que quando for corrido não vai para Paris estudar filosofia, nem fica sem trabalho? Mais, querem apostar que o correio da manha não vai publicar o seu novo emprego, nem vai dizer que é paga pelo que fez em Portugal?

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