Derrota

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Este foi o ano em que se impôs como obrigação moral da indústria cinematográfica americana atribuir o Oscar a Scorcese. Tratou-se de um movimento que assumiu contornos de cause célèbre, e de facto. Ora, o filme premiado não o justifica. Tirando o asqueroso Babel, é inferior a toda a concorrência. Um filme que se vê e se esquece, dando-se por bem empregado o tempo passado, mas é obra sem génio ou momentos de génio.

Para os poucos (na última contagem, restavam dois em todo o mundo conhecido, e lembro que já se conhece o mundo todo) que ainda esperam dos 5.830 eleitores da ACADEMY um qualquer critério racionalmente artístico, esta é a última chamada para a realidade. Os nomeados são apenas os beneficiários de um sistema que funciona tal e qual como a Misericórdia. Todos os anos há um orçamento de prémios para distribuir por quem der mais, e todos os anos há que escolher novos sortudos. Não tem nada a ver com qualidade, acontece é a qualidade conviver feliz com quem lhe paga mais, daí as eventuais coincidências. E são esses, os que pagam, que tentam também comprar os membros que têm os canivetes e os queijinhos na mão, usando um marketing desenhado para o efeito. O investimento mais do que compensa, pois o filmes nomeados e premiados ganharão um acrescento de rendimentos, directos e indirectos — estes últimos ainda mais importantes, pois valem negócios futuros.

Para mim, ver Martin Scorcese Oscar-dependente é triste. Porque é banal, venial. É uma ofensa, mesmo que involuntária, à memória dos que nunca entraram na história dos premiados e em cujas obras está o melhor da História do cinema. Do Raging Bull não esperava esta derrota.

18 thoughts on “Derrota”

  1. e olha que ele ficou radiante. estava com medo a sério de não ganhar.
    os tontos que comentavam o programa em português (um deles disse, por exemplo, que era difícil prever que filme ganharia o óscar dando como explicação para essa dificuldade o estarem todos no top 10 dos filmes de 2006) ficaram muito contentes, proque a distribuição heterogénea levará mais gente a ver mais filmes no cinema…

  2. Não vi o último filme de Scorcese, mas pelo trailler pareceu-me uma produção de envergadura num ano nada pródigo em obras-primas.Logo não sei se o Oscar será assim tão descabido. Entretanto, só desconhecendo as regras do jogo em Hollywood se pode menosprezar a importância de uma estatueta. E não me venham com a treta dos génios que nunca a arrecadaram porque garantidamente teriam morrido mais felizes se o seu nome se tivesse alguma seguido ao célebre «and the winner is…»

  3. Alguém devia nos ter dito que as pessoas lá em casa nos ouvem quando estamos a mexer nos microfones. Acredito que tenha sido chato, para quem viu o programa dos oscares da tvi, ouvir os nossos comentários e, ainda pior, ouvir todos os movimentos que fazíamos. Enfim para o ano estámos aí outra vez.

    Já agora, os tipos da academia devem ter-se enganado, porque se deram o oscar ao scorcese numa lógica de premiar a carreira, então também o deviam ter dado ao peter o’toole.

  4. Ó Valupi, plamordedeus, that’s entertainment, ó pá! Ou, como dizia a minha avó, que era mais sábia do que tu, isto é só palhaços e robertos! Essa tua análise é da mesma matéria daquela, que aparece todos os anos sem falhar, segundo a qual só os mediocres ganham o prémio nobel da literatura. À grande literatura, aquela que interessa, até lhe fica mal receber prémios. Ó pro Scorcese a perder a alma ali na fotografia contentito a receber um boneco dourado. Tá bem, abelha.

  5. isso eu também achei: deviam ter dado o óscar ao peter o’toole, que ficou tão decepcionado, já que a lógica era essa (e é uma lógica com lógica, que nenhuma visão ignora antecedentes).

  6. Susana

    Pois foi. E acaba por ser patético, toda a gente contentinha com a “justiça” finalmente satisfeita, como se um Oscar fosse uma comenda ou um título nobiliárquico. Eu, no lugar do Scorcese (hipótese que não é só académica, pese embora o peso da Academia) não me teria sujeitado à esmola.
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    Anonymous 11.16 AM

    – “Pois, pois”, o quê?
    – “digam lá”, quem?
    – “quem devia ter ganho”, onde?
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    bah!

    Pois está visto que não sabes.
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    comentador

    Certíssimo.
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    ai

    Duvido que a tua avó fosse mais sábia do que eu.
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    Anonymous 5.23 PM

    Então, mas já não sabes ler? Onde é que está escrito que as estatuetas “já nada valem”?! O que eu leio é que elas valem tudo, até vender a alma.

  7. Mas ó Mestre, dignai-vos pois a iluminar o caminho de tais ignorantes e dizei o nome dos filmes por vós eleitos. Ou já esqueceu o tema desta posta de pescada?

  8. ora ora
    o Scorcese ganhou o óscarito com uma obra menor pela vergonha de, ao de 25 anos, bollyw.., perdão, hollywood ainda não ter premiado o maior cineasta vivo de expressão wasp. Para vergonha da kultura gringa já lhe bastou o Welles e o Chaplin.

    Posto isto, este post vale pela tirada do Valupi quando classifica Babel de “asqueroso”.
    Agora que a luta vai assanhada, entre a critica corporativa e leirores pró e contra que têm escrito para os jornais,,, Acho que o camarada Valupi nos deve uma explicação: a de nos facultar os porquês de uma tão radical aversão

  9. Anonymous 10.07 PM

    Fazes bem em te arrojares aos pés do Mestre, mas farás ainda melhor em explicares do que falas. Que queres saber?
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    Xatoo

    Babel é, para o meu palato, um exercício de manipulação emotiva, na senda directa das telenovelas mexicanas. Está ao nível de um filme pornográfico, no seu calculismo, mas sem o humor destes – o que o torna asqueroso.

  10. Valupi, eu garanto-te que a minha avó era mais esperta do que tu. Olha, para começar, não precisava de saber que estatuetas tinha um filme para o apreciar. Eu acho que tu nem sequer gostas de filmes. Mas és um gajo que responde às provocações, e eu gosto disso.

  11. Para ti, os nem vale a pena esperar que dos “5.830 eleitores da ACADEMY um qualquer critério racionalmente artístico”. A coisa “Não tem nada a ver com qualidade” e “funciona tal e qual como a Misericórdia”.
    Isto equivale a dizer que as estatuetas “valem tudo”? Poramordedeus.

    E há pouco escreveste que o “Singing Detective” era tão bom que merecia Óscar… em que ficamos?

  12. ai

    Quero que saibas que tenho o maior respeito pela tua avó, mas vou precisar de provas para aceitar a sua superioridade.
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    Anonymous 11.32 AM

    Estás baralhado, né? Não sabes o que pensar, se os Oscares são coisa boa, má, ou assim-assim. Problema do camandro…

    Também contribui para a tua perplexidade o facto de te imaginares num mundo a preto-e-branco.

  13. Ó pra ele a fugir com o rabo à seringa. Enfrenta, valupi! Ainda acabas por dar razão à zazie. Lança aí meia dúzia de filmes de qualidade, não sejas tu um génio em todas as áreas! LOL!

  14. victor ruas

    Começo a ficar preocupado contigo. És capaz de estar pior do que eu pensava.
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    Py

    Pois claro. Aliás, tirando os críticos da imprensa, quase toda a gente gostou do Babel – e fez muito bem em ter gostado.

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