O debate presidencial que me desperta mais expectativa é o de Gouveia e Melo com Ventura. Mas o debate que me deixou mais esperançoso antes de ocorrer foi o de Ventura com António Filipe. Isto porque tive familiares muito próximos que foram militantes do PCP, e porque tenho amigos que são militantes do PCP. Ao crescer, pude dar sentido a episódios de resistência à ditadura a que assisti sem entender, antes do 25 de Abril, e descobri a importância decisiva, patriótica e heróica de milhares de portugueses ligados ao PCP, de múltiplas formas, para que eu pudesse passar a maior parte da minha vida num regime democrático.
Assim, se o destino me tivesse feito militante ou sequer simpatizante do PCP, desejaria ardentemente poder estar frente ao Ventura, ainda para mais num estúdio televisivo com a certeza de ter uma audiência maximizada. E para quê? Para falar com ele de Salazar. Só de Salazar. Nada mais, e nada menos, do que Salazar. Que o mesmo é dizer, iria pedir a Ventura que explicasse, na minha cara, o que ele pensa que foi, e fez, e não fez, e deixou fazer, Salazar enquanto era o principal responsável político pelo Estado Novo. E depois a conversa desenvolver-se-ia a partir daí.
Não gostaria que o PCP fosse Governo maioritário, porque não gostaria de ser governado por fanáticos. O fanatismo que, por exemplo, explica o seu actual putinismo. Como fanáticos, estão impossibilitados de chegar às melhores soluções para os problemas complexos inerentes à governação de um país (ou que fosse de uma mercearia). Todavia, festejei o fim do bloqueio de décadas à esquerda, quando o PCP admitiu viabilizar um Governo socialista em 2015. Deu origem a quatro dos melhores anos da nossa democracia, seja qual for o critério de análise.
António Filipe frente a Ventura exibiu-se como o político digno, o cidadão valioso, o português honrado por que é conhecido por todos os que com ele convivem, privada e publicamente. Infelizmente, não se apresentou como comunista. Teve um lampejo sanguíneo que pareceu ir buscar essa alma, quando deu um responso a Ventura a propósito de Álvaro Cunhal, sem continuação. Esse absentismo transformou-se em escândalo (provavelmente, só para mim nesta galáxia e galáxias vizinhas) quando Ventura resvalou para a sua gula rapace e começou a defender que os polícias devem disparar primeiro e perguntar depois. São inúmeros os ângulos por onde é não só possível como necessário de imediato confrontar esse discurso com tolerância zero. Exige-se a outros políticos, e também aos jornalistas presentes, que tenham uma resposta implacável perante quem está a promover a desumanização absoluta não só dos cidadãos como também dos agentes da autoridade e de todo o sistema judicial e político. É o culto da guerra civil, onde desaparecem os direitos, liberdades e garantias, para ficar a mandar quem tiver a pistola maior. Quem matar mais e mais rápido.
Ora, vir para um debate com um comunista — portanto, um representante de uma história de sofrimento em prisões arbitrárias e prolongadas de dezenas de milhares de pessoas, na tortura sistemática como método de interrogatório e neutralização, de assassinatos por execução direta ou morte lenta em prisões insalubres, na destruição de vidas e famílias através de décadas de encarceramento, e no terror de Estado destinado a silenciar toda a oposição — saracotear-se como o super-xerife que vai dar ordens à bófia para aniquilar a escumalha é de uma estultícia que merecia uma estátua comemorativa. A resposta de António Filipe, sendo correcta, não esteve à altura da ocasião. Porquê? Porque ele, como os outros candidatos, não se preparou para tratar Ventura como ele merece.
E daqui a um bocado, irá Gouveia e Melo, finalmente, colocar o chunga no seu lugar? Altamente improvável que tal aconteça. Mas neste país há milagres, dizem, pelo que tudo é possível.