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Não concordo nada com o Ricardo Paes Mamede

Por vezes já tenho concordado imensíssimo com o que diz Ricardo Paes Mamede. Lembro-me de lhe começar a prestar atenção e de gostar de o ouvir quando debatia economia na televisão com o Braga de Macedo. Continuei a lê-lo regularmente. Hoje, neste artigo, não concordo com nada. (transcrevo excertos mais adiante) A tese é que o PS teve duas caras na legislatura que agora termina: uma muito agradável, porque a esquerda radical gostou dela, outra muito desagradável, porque essa mesma esquerda não gostou dela.

 

Não tendo eu a menor veleidade de defender oficialmente o PS, este artigo, por o considerar abusivo, propositadamente míope e, atendendo à época eleitoral, muito tendencioso, suscita-me as seguintes considerações.

 

Não foi para “agradar” aos seus parceiros de esquerda que o PS tomou certas medidas na primeira parte da legislatura, ou seja, por oportunismo e calculismo e sem qualquer convicção, segundo se depreende das palavras do Ricardo. Foi, sim, para cumprir o acordado com eles e que representa as matérias em que comungavam do mesmo entendimento.

 

Mas, obviamente, o PS não é nem o PCP nem o Bloco. Muito longe disso. Com outras lideranças, um quilómetro de distância ainda era muito perto.

Na maioria das restantes matérias da governação existe um profundo desacordo – seja quanto à Europa, seja quanto à organização da economia e organização laboral, seja quanto ao mercado da habitação, seja quanto à liberdade. Não é, portanto, de estranhar que, cumprido o acordado, nas restantes matérias o PS tenha mostrado em que consistem as diferenças.

 

O que quer o PS?” – pergunta Ricardo. Sem me substituir aos militantes socialistas, é naturalíssimo que queira seguir os seus próprios princípios e programa, ora essa. O que é que o Ricardo tem contra isso?

 

Pouco depois do início da legislatura, o governo denunciou os contratos de associação entre o Estado e os colégios privados, uma medida que não constava dos acordos mas que recebeu o aplauso unânime à esquerda, tanto pela sua coerência na defesa do ensino público como pela coragem em enfrentar interesses instalados. Casos como este levaram a que muitos acreditassem estarmos perante um partido transformado.” – diz o Ricardo.

Pois denunciou. E este é apenas um exemplo de que não é preciso o Bloco ou o PCP arvorarem-se em defensores de certos princípios ditos “de esquerda”, porque o PS já os defende. Pode? Sentem-se desorientados por gostarem deles?

À medida que a legislatura avançava, a atitude mudou. A polémica em torno da chamada “taxa Robles“, em que o PS afirmou desconhecer uma proposta orçamental que o BE apresentara meses antes, foi o primeiro sinal claro de que os socialistas estavam menos interessados no ambiente de concílio à esquerda. A seguir a esse episódio vieram outros. A decisão de avançar para a revisão da lei laboral sem o envolvimento do PCP e do BE, a tensão em torno da Lei de Bases da Saúde ou as dificuldades em finalizar a proposta de Lei de Bases da Habitação foram outros momentos cruciais em que o PS se mostrou determinado em regressar à sua tradição centrista.

 

O PS não tinha que concordar com a “taxa Robles”, ou tinha? Nem com as pretensões da esquerda comunista/extremista sobre a lei laboral, ou a lei de bases da Saúde, ou outras questões. Essa discordância faz do PS um partido “conservador”? Era o que faltava.

 

[…]O auge do afastamento do PS face ao discurso de esquerda aconteceu no Verão de 2019, no contexto da greve dos motoristas de matérias perigosas, em que as decisões e afirmações do governo contribuíram para pôr em causa o próprio direito à greve.”

 

Por favor. Pôr em causa o direito à greve? Que visão tão tendenciosa. Uma greve liderada por um advogado de Porsche saído sabe-se lá de onde? ( isto é um aparte meu; não foi pelo aspecto do senhor nem pelo inusitado daquela liderança que a greve teve que ser resolvida de forma “musculada”)  Nunca o PS foi contra o direito à greve, que me lembre. Pelo contrário. Na minha modesta opinião, nalguns casos até deixou ir as greves longe demais. Na greve dos motoristas de combustíveis, estava em causa o funcionamento ou a paralisia de um país inteiro. No caso dos enfermeiros, a morte de pessoas. A greve não pode estar acima de tudo. Até o Cunhal o afirmou nos idos do PREC.

Apesar dos alertas contra os perigos de “pensar como a direita”, a postura de António Costa no último ano e meio sugere estarmos perante o regresso ao antigo PS centrista, após um interregno de aproximação à esquerda nos primeiros anos de geringonça.”

 

Primeiro, aproximação não é sinónimo de fusão. Segundo, desde quando o centrismo é mau? (Vá lá que não lhe chama “o antigo PS de direita”)

Uma explicação cínica diz-nos que nada disto tem que ver com hesitações ou opções ideológicas. Que o PS faz o discurso que for necessário para chegar ao governo e nele permanecer, como faria qualquer partido de poder. Demarcar-se da estratégia da troika era necessário para vencer eleições. Agradar ao PCP e ao BE era necessário para aprovar os Orçamentos do Estado. Distanciar-se do discurso das esquerdas permitia aproximar-se do eleitorado ao centro, alargando a base de apoio do governo e até da geringonça. Adoptar uma atitude agressiva contra quem protesta (típica de governos de direita) seria uma opção racional para quem pode aspirar a uma maioria absoluta.”

 

Não. Totalmente em desacordo, seja o Ricardo o cínico ou outras pessoas com quem fala. Nem tudo é calculismo e estratégia. É mais simples do que isso: o PS não partilha 80% dos pontos de vista da esquerda radical. É novidade?

Tancos – importam-se de não perder a noção?

Quem ouve por estes dias a oposição a comentar as acusações do Ministério Público ao ex-ministro Azeredo Lopes e aos militares da PJM diria que estes foram coniventes com os assaltantes do paiol de Tancos. “Grave, gravíssimo”, “encobrimento”, “perdão aos assaltantes”, “encenação” é o som dos carrilhões da oposição e dos pasquins que, por estes dias, pretendem ensurdecer os ouvintes. Como sempre, o ponto de partida é que os cidadãos têm permanentemente os neurónios de molho e são altamente mobilizáveis pelo alarido. Penso que se enganam.

Na prática e no fundo, qualquer pessoa percebe que apenas aconteceram duas coisas: 1. um furto de armas de um paiol (sem dúvida nenhuma que por incúria do exército, ou falta de meios – desculpa não atendível, apesar da penúria em que a austeridade deixou as instituições) e 2. uma recuperação das armas furtadas. Porque, surpresa das surpresas, foram mesmo recuperadas.

Dos acusados, apenas alguns – os ladrões e seus cúmplices – são responsáveis pelo primeiro acto, à luz da lei o mais grave. Os restantes dividem-se em duas categorias: os que terão negociado e lideraram a operação de recuperação, ao que tudo indica por excesso de zelo e brio, e quiçá a disfarçaram (a tal “encenação”), e o responsável máximo político pela PJM, ou seja, o ministro.

Acontece que a recuperação das armas foi, sob qualquer ponto de vista, um acontecimento positivo. Não percamos a noção. Não foi mau, foi óptimo (será isto que irrita o MP?). Deixou de haver armas “à solta”, tráfico, restabeleceu-se a segurança. A operação foi um sucesso.

A única coisa que pode, eventualmente, merecer alguma condenação à luz da lei foi o processo concreto de recuperação, por ter sido liderado pela PJM (segundo métodos muito próprios) à revelia da Polícia Judiciária civil, que tinha, tempos antes (e se calhar contestavelmente; foi o que entendeu o coronel Luis Vieira), sido encarregada do processo pela PGR. (Sobre esta matéria, o advogado do major Vasco Brazão frisou pormenores importantes ontem à noite, na SIC N, quanto às informações que chegaram à PJ antes do furto, e a sua inacção. Mais tarde, o jornalista Luís Rosa falou também na questão da competência como eventual razão para a inacção ou de uma PJ ou da outra)

Bom, mas competiria, pois, ao Ministério Público não perder de vista que, na base deste segunda “irregularidade” está sobretudo uma rivalidade entre polícias, no meio da qual poderá ter sido apanhado o ministro da Defesa (terá?), que não tutela a PJ civil, logicamente. Portanto, a gravidade dos segundos “crimes” não pode de maneira nenhuma ser comparada à do primeiro e muito menos deve ser criada essa ideia na opinião pública pelo Ministério Público. Mas estamos no domínio dos sonhos, não é? O MP tem tendência a esquecer propositadamente a dimensão política de cada problema, acusando automaticamente o responsável político (do PS, ora pois) por crimes pesados como “encobrimento”, “denegação de justiça”, “prevaricação” (= obtenção de ganhos!) e “abuso de poder”. Até nos leva a pensar que o ministro e a PJM impediram a descoberta das armas. Passou-se exactamente o contrário. Há alguma coisa de aberrante nisto.

Eu sei que a cara das pessoas muitas vezes nada nos diz sobre o funcionamento das suas cabeças, mas considerar Azeredo Lopes ou o major Vasco Brazão ou o ex-chefe da Casa Militar (e, consequentemente, um tal “papagaio-mor do reino”) criminosos é um abuso demasiado abusivo de poder pelo MP, passe também o meu abuso de linguagem. Marcelo fez questão de lembrar que não é um criminoso quando o seu nome veio à baila. E, no entanto, não há um português, aqui e no mundo inteiro, que pense o contrário. E mais não digo sobre caras e vidas de criminosos.

Não me substituo aos juízes nem procuradores, mas há certezas sobre algumas coisas: houve rivalidade entre polícias, uma delas não cumpriu o estipulado pela PGR, fê-lo por uma boa causa e não para obstaculizar a investigação (atenuante importante), e o objectivo de qualquer investigação a um furto de armas foi cumprido: recuperaram-se as armas. Quanto à ocultação do autor do furto, é uma contrapartida sempre discutível, mas não necessariamente um crime. O resto deviam ser detalhes ou, vá lá, crimes de muito pouca gravidade, atendendo aos papéis tradicionais das duas PJ. Mas é claro que a oposição, desesperada, está a adorar o Ministério Público.

Costa demasiado cavalheiro com Rio

Segundo sondagens diárias da TVI, o PS deixou de tocar os números da maioria absoluta e Rui Rio começou a recuperar terreno após os debates, conseguindo já 28% dos votos, depois de meses e meses a afundar o partido, que já não captava mais do que 22 – 23% das intenções de voto. Esta recuperação do PSD não me surpreende. Sendo as expectativas pré-debates de tal maneira baixas em relação ao seu líder, prontamente os comentadores pós-debates (para mim, uma aberração, pois são enormes influenciadores – mais do que os candidatos – e não são neutros) lhe teceram os maiores elogios, apesar de totalmente imerecidos se atendermos ao conteúdo do que disse. Depois, nem toda a gente gosta de governantes com ar sério, responsável e respeitador (postura que Costa melhor deixa ver nos debates), sobretudo nos tempos que correm, que parecem ser de feição para patetas alegres. Rui Rio tem dito e diz as maiores alarvidades, mas fá-lo com o à-vontade e a “genuinidade” de quem tinha já pouco a perder, além de com grande técnica de “armar aos cucos”. Ora, a genuinidade, mesmo de contadores de anedotas, e o estilo convicto são apreciados. E Rio, mesmo que debite incongruências e impossibilidades, tem a seu favor o facto de não ser um arrivista, mas já ter sido presidente da Câmara do Porto durante vários anos.

 

António Costa tem tendência a negligenciar os adversários.  Um pouco mais de “killer instinct” não lhe iria mal. Simpatiza com Rui Rio e não gosta de o hostilizar ou humilhar, mas devia. Estamos em campanha e Rio continua a dizer muito disparate. Além de que, se Costa estiver atento, verá que este não se ensaia muito para o atacar descaradamente, mesmo sem razão nenhuma e pela via da demagogia. E sempre bem disposto, agora que deixou os lugares de desclassificação. E isso, hoje em dia, pode ser fatal para o seu rival.

«A Herdade» – estão a brincar comigo

 

Penso que todos achamos que seria bom alguém fazer um filme sobre o Alentejo rural partindo das transformações por que passou uma herdade específica (e os seus proprietários ou a sua propriedade, o seu uso ou outros aspectos) desde o salazarismo até aos nossos dias. Eu acho que seria. Bom, interessante e importante. Alguém devia ser capaz, agora que alguns realizadores portugueses já começam a perceber o que é um filme e a quem se destina. Pois bem, surgiu agora aí um cuja publicidade diz que o faz, isso de apresentar as transformações, etc., e que até se candidatou ao festival de Veneza, onde ganhou um prémio da crítica independente, e se vai candidatar ao óscar de melhor filme estrangeiro e é anunciado em todo o lado e tudo isso. Mas tenham lá calma.

 

Fui ver. (Atenção: para quem tem intenção de ir ver o filme, vou falar do enredo!)

Cinco minutos de filme e eu a duvidar se deveria ficar. É que comecei a pensar numa famosa oliveira, filmada durante 10 minutos, sem mais, penso que na abertura de um dos filmes do Manuel de Oliveira. Únicas diferenças: aqui são menos de dez minutos, trata-se de um sobreiro e tem um homem enforcado. Porquê? Não sabemos. Se alguém percebeu, que me diga, por favor. E eu que fiquei sentada provavelmente por causa da expectativa assim criada.

Enfim, estava, então, dado o mote. Seriam três penosas horas, três, de passos do quarto para a sala, na sala para o bar, no terreiro em frente, silêncios, olhares, lindos cavalos (quase sempre nos estábulos), uísque, cigarros (uísque e cigarros constantemente, até à náusea, eu que não fumo), uma herdade como paisagem e uma total ausência de história e muito menos de história daquela herdade e dos seus problemas. Era o anúncio, lembram-se? Mas, perguntarão vocês, ao menos sabe-se o que levou aquele rapaz ao desespero? Não, já tinha dito. Nada. Não interessa. Possivelmente o realizador ouviu dizer que a taxa de suicídio no Alentejo era alta e daí a filmagem desse quadro. Mas, senhores, estamos no Alentejo da Comporta, não no coração tórrido da vertigem das searas e dos 45 graus à sombra. Mas vamos.

 

Nessa primeira cena, há um miúdo que é chamado pelo pai avô (? dizem-me nos comentários) para ver o irmão pai enforcado e ao qual é transmitida a máxima de que tudo acaba e que, quando acaba, acaba mesmo. O miúdo ouve, afasta-se para umas ruínas na outra margem do lago e pronto, é tudo o que há a dizer e a fazer quanto àquele suposto drama. Esse miúdo será depois (penso eu, posso estar a ver mal) o Albano Jerónimo, aliás João Fernandes, proprietário da herdade a partir da década de 70, supostamente um homem mal disposto com a existência, mas que ao mesmo tempo adora a vida no campo, não tem problema algum com o pessoal e é danadinho para a brincadeira, pois corre a eito (talvez sem se rir, querem que acreditemos) tudo o que é mulherio na propriedade, incluindo a mulher do capataz. Alto aí! A mulher do capataz? Drama nisso, não? Eles andam sempre juntos. Mas qual drama, amigos? Nenhum. Tudo numa boa. O bom do Joaquim, o capataz, gosta um bocado demais de vinho, possivelmente negligencia os seus deveres conjugais, mas se a mulher teve um filho com o patrão, tudo bem. Qual é o problema? Ela é boa rapariga e obediente. Ai, minha nossa!

Como é que não vim embora ao intervalo, ou até aos cinco minutos, e me deixei ficar até perto de uma crise de nervos? É que a última parte ainda consegue ser pior do que a primeira. Se na primeira ainda aparecem umas questiúnculas, muito mal engendradas, diga-se, (só para dizer que estávamos no fascismo) com o governo de Marcelo Caetano e seus agentes, um baile em Lisboa com música dos anos 70 e uma hipótese de paixão escaldante com a cunhada (ná, não tem qualquer desenvolvimento, nem “flasbacks” nem nada, e olhem que é a Vitória Guerra), na segunda, após um salto gigante do 25 de Abril para os anos 90 sem que nada de relevante se tivesse passado naquela herdade, nada de nadinha, nem com os trabalhadores, todos mansinhos, incluindo o suposto comunista, nem com a produção nem com nada, a “história”, sem maneira de apresentar dados sobre uma eventual quebra de vendas, ocupações, crise económica, sei lá, má gestão e outras circunstâncias que poderiam ter levado ao declínio, passa a concentrar-se no melodrama telenovelesco do filho que não era filho do capataz mas do patrão (coisa que toda a gente sabia e que o realizador não escondeu de ninguém desde a primeira hora) e que se enamora da filha legítima do mesmo. Ora, baseando-nos no que o filme nos mostra, isto é não só altamente improvável, pois tinham sido criados todos juntos (três miúdos) desde que nasceram, como irmãos, como também não era novidade nenhuma e teria certamente já sido acautelado. O mais cómico (às tantas, uma pessoa já se ri) e desesperante é que, à medida que o filme carrega neste forçado drama final de recurso, menos as personagens falam, mais se calam e mais olham, estáticas. O cúmulo deste comportamento é atingido quando a filha vê o pai a pegar numa pistola que estava na gaveta e sair de casa, e a rapariga não tuge nem muge, não faz uma pergunta que evite uma potencial tragédia, não faz um gesto, nada. Fica a olhar para o pai a sair com a pistola e pronto, ele lá sabia da vida dele. (e o facto é que ia só ali abater o cavalo ferido, por ter caído, mas ela não sabia, caraças)

 

Bom, já perceberam. Para mim, tirando a paisagem, os cavalos e o actor principal, que é bonito, e o filho mais novo, também bonito, nada neste filme se aproveita. Uma estopada. Uma fraude. Três horas. Um argumento e um guião escritos em cima dos joelhos e às três pancadas. Tirando os dois protagonistas, ele e ela, até o “casting” restante é mau. A actriz que faz de mulher do patrão é expressiva, mas o problema é que não estamos já na era do cinema mudo e a personagem dela é, como tudo o resto, indefinida e inverosímil e sobretudo sem palavras para dizer. Gosto do Albano Jerónimo, já o vi e elogiei como actor de teatro, mas até ele devia ter pensado melhor antes de se meter em argumento tão pobrezinho. Grande ambição, enorme publicidade e sai-me isto. Acho que até as telenovelas já fazem melhor.

 

Mas, é claro, sintam-se à vontade para me dizerem que não percebi nada, nem os simbolismos nem a história, nem a linguagem cinematográfica nem nada. Eu lerei o que dizem, mas não. Muito mau.

 

Quentes e boas

  1. Vamos fugir. Sim. Para longe daqui. (E não é a cantar)

 

Então era isto que a Cofina queria? Comprar a TVI? Foi por isso que andou a acusar o Sócrates de andar alegadamente a conspirar para, através da compra da TVI por gente amiga, “controlar a comunicação social”?

Todas as acusações de há uns anos afinal eram para guardar a TVI em banho Maria até lhe poderem deitar a mão e transformarem a informação em Portugal num gigantesco Correio da Manhã. Uma Fox News à portuguesa. Lembro que o Correio da Manhã é o jornal do crime, um criador de alarmes sociais falsos, um tablóide sem escrúpulos, sem ética, sem nada. Um imenso pelourinho para abater quem se detesta. Um jornal que ainda há uns dias defendeu que os julgamentos se devem, sim, fazer na praça pública.

 

Bem podem dizer neste momento que manterão jornalistas, linha editorial, total independência e tudo de bom da TVI (enquanto dizem que só ficará quem quiser aderir “ao projecto”, claro). A gente sabe como é. Para contraporem algo de jeito à CMTV, teriam que dar cabo desta. Portanto, passarão a ser uma e a mesma coisa.

 

Mas o panorama é de desgraça. Se pensarmos que a única alternativa que existirá será a televisão do PSD, a SIC do mano Costa e do imberbe do Ferrão, isto fica mesmo, espera, como era? Claustrofóbico? Era isso que diziam no tempo do Sócrates. E não havia claustrofobia nem asfixia nenhuma. Apenas a direita a não estar no poder. Mas a deter a comunicação social. Agora é mesmo. E ninguém se agita e ninguém faz nada. Eu não tenho dinheiro. Mas o Ronaldo, li de raspão que gostava de ter uma televisão. Então? Não atirou ele o microfone do “CM” à água?

Devo dizer que ainda está a TVI nas mãos da Prisa e eu já quase deixei de ver televisão. Agora, se não fugir, vou andar pela natureza ainda mais tempo, parece-me. Na que o PAN não conhecer.

 

  1. Cabeças loiras

 

Deveria haver um limite para as modas. Não sei se esta mulher ainda vai a tempo de apanhar a onda de cabeças leves (e, algumas, loiras) a ocuparem lugares de poder político, mas a Cristina Ferreira admitiu que gostaria de se candidatar à Presidência da República. A sério. A esganiçada da Malveira (nada contra a Malveira, bela terra) a estudar a Constituição e a ouvir os partidos políticos. A discursar na Assembleia e perante outros chefes de Estado. Espero que, até lá, a “trend” já tenha passado. Se não, uma pata-brava na Presidência e eu a fugir daqui com vergonha.

 

  1. Ai Ana Gomes

 

Que raio de coisa deu à Ana Gomes? Quero dizer, coisa mais forte do que o habitual. Agora erege o “hacker” Rui Pinto em herói só porque o rapaz penetrou na correspondência digital de alguns clubes de futebol que ela considera lavandarias de dinheiro? E o resto? E a rede informática da Justiça? E a chantagem com os dados? A extorsão?

Será provavelmente uma das primeiras contratações da Cofina-TVI.

 

  1. E, por falar disto, o Edward Snowden por acaso pensa que vai ter um destino muito diferente do Assange? Diferente para melhor? Não vai. Melhor manter-se onde está (mas parece que só tem autorização até 2020).

 

  1. As golas anti-fumo.

 

Que “timing” para reaparecerem na agenda mediática, não foi? Flagrante. Era o secretário de Estado que tinha que ir embora? O Carlos Alexandre estava ansioso? E então? Está bem assim?

Outra coisa: já não se disse e provou que afinal as golas não ardiam? Que apenas abriam buracos? E que, para isso, era preciso estarem praticamente em cima do lume, coisa para que não foram feitas de todo?  Pois é. Disse-se e provou-se. E no entanto as televisões continuam a referir-se às ditas como “as golas inflamáveis”. Sabe ou não sabe o Carlos Alexandre que a comunicação social faz o que ele quer?

 

 

Ursula von der Leyen explica-se sobre “o nosso modo de vida europeu”. E não se explica mal

«L’Union est fondée sur les valeurs de respect de la dignité humaine, de liberté, de démocratie, d’égalité, de l’État de droit, ainsi que de respect des droits de l’homme, y compris des droits des personnes appartenant à des minorités. Ces valeurs sont communes aux États membres dans une société caractérisée par le pluralisme, la non-discrimination, la tolérance, la justice, la solidarité et l’égalité entre les femmes et les hommes ».

Article 2 du traité sur l’Union européenne

Il y a trente ans, en août 1989, deux millions de personnes se sont tenues par la main pour former une « chaîne de la liberté » longue de plus de 600 kilomètres à travers les pays baltes. Les images de cet événement nous rappellent avec force et émotion le chemin parcouru par l’Europe en l’espace d’une génération. Elles démontrent aussi la puissance unificatrice de nos valeurs communes : la liberté, l’égalité, la démocratie et le respect de la dignité humaine. […]

(continuar a ler)

 

Eu penso que qualquer europeu minimamente informado sabe dizer em poucas palavras o que é o fundamental do “modo de vida europeu”.  Não vale, por isso, a pena rir e escarnecer da nova presidente da Comissão quando, à frente da principal instituição europeia, se propõe defender os fundamentos da nossa organização política e social. Mesmo que todos conheçamos exemplos de situações que contradizem o nosso imaginário colectivo, é um facto que há um estilo de vida, instituições, valores, etc., que diferem dos de outras partes do mundo e, mais importante ainda, diferem agora, ao fim de inúmeros conflitos e milhões de mortos, dos da nossa própria Europa de tempos passados de má memória. Não haverá que protegê-los? Claro que sim. Mil vezes sim.

Não me choca, portanto, que Frau Ursula trace esse objectivo, se identificadas devidamente as ameaças actuais que estão implícitas na sua decisão de nomear uma pasta com tal designação. O que já estaria mal era apontar baterias exclusivamente às migrações como principal ameaça. O que não significa admitir que os migrantes tenham carta branca para estabelecerem na Europa mini-estados contrários às leis europeias apenas pelo facto de aqui se instalarem.

Mas a associação exclusiva da dita pasta às migrações foi o que ela fez ao princípio, foi errada, mas, pelos vistos, está agora a ser corrigida. E não corrige mal.

Provocações

You will not fuck with my children’s future. You will not destroy the freedoms my grandfather fought two world wars to defend. Fuck off you over-promoted rubber bath toy. Britain is revolted by you and you little gang of masturbatory prefects.

 

Hugh Grant, no Twitter

 

Boris Johnson decidiu suspender o Parlamento por um mês, numa altura em que o mesmo poderia de alguma forma bloquear a saída sem acordo do Reino Unido da UE, prevista para 31 de Outubro. Esta decisão está a ser ferozmente criticada por muitos políticos e comentadores britânicos, para além de gente dos meios artísticos deveras irada (ver acima), que a classificam de choque, esperteza saloia, brincadeira de mau gosto, golpe e um terminante “morte da democracia”. (O tweet de Hugh Grant tem comentários muito agressivos, o que prova que há também gente com muito ódio aos europeus, inclusivamente pelas baixas causadas nas duas grandes guerras)

 

Ora bem, visto daqui, o circo ia animado há já vários meses e já só faltava mesmo a entrada do elefante na arena. Do elefante ou do palhaço-mor, é o que iremos ver. Um ou outro acaba justamente de entrar. Agora, ou se parte a louça toda de vez, ou se reduz a democracia a cacos, e em frente para o abismo, ou a arena é simplesmente do palhaço exuberante, que faz o seu número, não tem graça e é corrido entre apupos e arremessos de garrafas. Ninguém esperava viver para assistir a isto do outro lado do Canal, penso eu.

 

O desavindo Parlamento, onde se sentam os opositores de Boris (eventualmente em maioria), dispõe apenas de uma semana – desde 3 de Setembro, altura em que reabre após as férias, até 9 – para aprovar uma moção de censura que derrube Johnson e abra caminho a eleições. Mas será isso que quer?

 

Eu devo dizer que, olhando para o que se passou há pouco tempo no Parlamento com a votação do acordo de Theresa May e de todas as outras propostas referentes ao problema da saída, votação dirigida, por entre apelos estridentes e algo patéticos à ordem, pelo seu presidente, John Bercow, a imagem do desnorte parlamentar atingiu um pico inigualável e o descrédito foi total. E pior: não se via um fim para os sucessivos desacordos. De facto, o Parlamento não sabia o que queria. Todas as propostas foram rejeitadas com um maioritário «não». E o problema maior é que nada se alterou.

 

E foi assim que, após a demissão de Theresa May e a eleição intrapartidária de Johnson, e mantendo-se a posição da UE inalterada devido, nomeadamente, ao problema das Irlandas, era tentador para um charlatão como o Boris usar do seu poder máximo e calar o Parlamento dizendo-lhe que é inútil. Era tentador e Boris, que, como um seu à época conterrâneo famoso, resiste a tudo menos à tentação, não resistiu.

 

Não é difícil, por outro lado, concordar que, com aquele Parlamento, não se vai longe na questão da saída da União Europeia. Mas daí até acabar com ele deveria ir um passo de gigante. Pelos vistos, não foi. Não será que “para grandes males grandes remédios”? Estou dividida.

 

Mas enfim, imaginemos que Johnson tem dois gramas de seriedade e três de juízo: dir-se-ia que, perante um claro impasse, nada mais lhe restava do que lançar o grande desafio aos adversários do Brexit: “Não querem sair ou não querem sair sem acordo, têm uma semana para me demitirem.” É um repto, é um jogo. Só não percebo por que razão este homem, se está tão confiante de que representa a vontade da maioria dos britânicos, não convoca eleições já. Se a resposta é que “poder, podia, mas não seria a mesma coisa”, então entrou mesmo o palhaço. É o mais certo. O homem gosta de “show”. Infelizmente, o que já não é tão certo é que não ganhe as eleições. Numa época em que tudo é espectáculo, parece haver gosto por pândegos no poder. Ali, “of all places”, é que me parece assaz inesperado.

 

 

Ó Ana Sá Lopes, não te inibas. O que te impede de chamar ditador fascista ao Costa? (Mas quem é que ainda lê jornais?)

Tenho dificuldade em prestar atenção ao desmiolado comentariado nacional, pago para se excitar a propósito de tudo e de nada, e, ultimamente, com a mania de, através de editoriais em jornais, e com o PSD na lama, se armar em oposição do Governo. Não há pachorra. Temos um governo que governa, que se preocupa com que as contas não derrapem, que dá liberdade suficiente ao chamado “mercado” e liberdade total à livre iniciativa, que se apresentou com convicções e dignidade na Europa, passando a ser olhado com respeito e admiração, que restituiu o orgulho nacional, que pôs a economia a crescer, que está atento aos problemas, que é constituído por pessoas competentes e contidas, que também aprendem e se preparam, enfim, dir-se-ia um governo de luxo. E estas alminhas, sem mais que fazer, que fazem? Resolvem preencher os espaços de que dispõem para delirar.  Tudo bem. Não queiram é ser levados a sério, eles próprios e os jornais onde trabalham.

Mas então o Governo não pode ser criticado, dir-me-ão? Claro que pode. E deve. Em matéria de habitação, de leis agrícolas, de cedências aos parceiros esquerdistas e comunistas, por exemplo, muito haverá para dizer. Mas as críticas devem colar à realidade. Quando toda a gente está ultra-satisfeita com a gestão governamental da greve dos camionistas e desejando o seu fim, esta e outras alminhas – ou porque simpatizam com a extrema-esquerda ou porque representam a direita – insistem em que o que era bom era ter deixado a greve bloquear o país. Apesar de sabermos para quem isso seria bom, conviria que os jornais e os seus editoriais tivessem algum tino e equidistância.

 

Perante a possibilidade real de ficarem indisponíveis os combustíveis nas bombas, ambulâncias e hospitais e os alimentos nos supermercados, jornalistas espertos como a Ana Sá Lopes entendem, e dizem-no sem qualquer noção, ou a soldo, que o Governo não deveria ter tomado medida alguma. Alegadamente para não atentar contra o direito à greve. E, se tomou medidas, é porque Costa se armou em Margaret Thatcher na crise dos mineiros. Isto, para quem não o saiba, é uma patetice sem adjectivação.

 

É que, daí até chamar a Costa o Salvini ou o Orbán atlântico, ou Hitler daqui a uns dias, vai um saltinho. Triste imprensa, em que não há um único articulista que valha a pena ler. E, de facto, eu só os leio de vez em quando para me inteirar do seu estado de saúde. Tipo: “Deixa cá ver como este tem passado“. Até agora, não há melhoras. Reconheço apenas que há picos de febre e pequenas e temporárias acalmias.

Um Ministério Público com raiva? Não queremos isso

Agora Azeredo Lopes foi o criminoso e perverso ministro que protegeu os criminosos.

Realmente, os termos que o Ministério Público decidiu usar para acusar, ou será atacar?, o ex-ministro da Defesa socialista excedem os limites do razoável. Quem lê a notícia, vá lá, os títulos, dos quais o MP é fã incondicional,  fica com a ideia de que o ministro protegeu os ladrões das armas e munições desaparecidas de Tancos, ou seja, tudo fez para que as armas não aparecessem e os ladrões se safassem. Ora, o que parece ter acontecido foi algo muito diferente: a PJ militar (sob a tutela do Ministério da Defesa) desenvolveu diligências para recuperar as armas, e recuperou-as, lembre-se, embora numa operação aparentemente paralela às diligências da PJ e do MP e contra a decisão do MP, uns dias antes, de atribuir à PJ civil a investigação. Azeredo Lopes pode (pode, atenção, não é certo) ter sabido da operação dos militares, assim como da garantia de impunidade para os ladrões contra a devolução das armas, e não a comunicou ao MP. Terá sido este o grande crime. O crime que o MP não lhe perdoa. Apesar da recuperação das armas.

 

Com base nessa hipótese, dizer que o ministro exerceu o cargo de “forma perversa” parece-me um abuso, um carregar emotivo nas cores da gravidade do assunto, muito pouco próprio de uma instituição da qual se espera sangue frio. Houve aparentemente uma guerra de competências entre a PJM e a PJ civil, e o ministro, que tutelava os militares, pode ter-lhes dado preferência e querido acelerar o processo de recuperação do material (lembremos que as pressões eram muitas), descurando as decisões do MP. Daí até ter exercido o cargo com perversidade e premeditação criminosa vai um grande passo.

 

Há um único prisma na apreciação deste assunto que permite criticar o ex-ministro – o facto de ter concentrado as atenções na recuperação do material furtado em vez de nos formalismos. Mas o facto de as armas terem efectivamente aparecido deveria atenuar a raivinha do MP, que poderia cingir-se a acusar o ex-ministro de desrespeito de uma decisão judiciária e excesso de afã, um excesso que, por acaso, o levou a desvendar o mistério, e abster-se de acusações de “perversidade”.

Mas que história, sr. historiador

A bem da higiene mental de muita e boa gente, a grande maioria dos artigos de opinião publicados no blogue com pretensões a jornal que dá pelo nome de Observador não está acessível sem pagamento. É uma bênção. Até porque confesso que a tentação de ir espreitar o que anda a dizer a ainda envergonhada “alt-right” cá do país é grande. Mas não faz bem. É como se eu pudesse ir espreitar o que se passa nas sessões da IURD – não me interessa, são pessoas voluntariamente alucinadas, é com elas, ficarei mal disposta, mas a alienação tem o seu fascínio. E online é fácil.

Fora do Observador, mesmo assim, também pontificam alguns indivíduos que poderiam ser seus agentes. Mas mergulhar ali é uma experiência, ainda que se faça apenas meio mergulho ou um oitavo de mergulho como eu. Aquela diversidade – desde padres que esmiúçam mesmo a sério a virgindade de uma lendária Maria e consideram com respeito os espermatozóides de um espírito, até humoristas espertalhões que descobriram a suposta graça da ignorância e a quem pagam porque há que contrariar a ideia de que o humor é da esquerda, ou “tias” que, de certeza, sabem estar – é altamente convergente na raiva aos socialistas. Quiçá por falta de assinantes de tão preciosos e coerentes conteúdos, resolveram agora ir pregar via rádio e então é só pedidos e links para que os ouçam. Talvez pelos ouvidos e à borla penetrem? Olhem, não. Pela parte que me toca, pelos ouvidos não. Só melodias. Além de que, para o efeito que procuro, chegam-me as três primeiras linhas de cada tese. Por exemplo:

 

Portugal não foi a Grécia graças a Passos Coelho.” Oh my God!

 

Não foram precisas três. Em apenas uma linha, o Rui Ramos, que não atina mesmo, conta-nos que o Passos fez não sei o quê de muito bom, como evitar que fôssemos a Grécia. Este historiador com um claro fraco talento para a actualidade (sei, porque houve um tempo em que não se pagava para o ler), é fã número um de sumidades como o ex-primeiro-ministro e muito amigo e admirador de Fátima Bonifácio e, com estes gostos, pretende ser o ideólogo, o intelectual, o propagandista da autêntica direita. É também do mais retorcido que há. E muito raivoso.

 

Quanto à Grécia actual, olhe, nada disso, dr. Ramos. Foi mesmo por culpa de Passos Coelho que Portugal entrou no clube dos “resgatados”, quando tinha tudo para escapar. Tinha até uma solução alternativa negociada com as instâncias europeias, BCE incluído, que não estavam nada interessadas em mais um fracasso na zona Euro (o segundo tinha sido a Irlanda). O que Passos fez foi algo tão brilhante como ceder à chantagem de Marco António Costa para derrubar o Governo, mandando Portugal para a fossa do resgate, aliás não considerado fossa nenhuma por alguns dos seus apoiantes, antes uma bem-aventurança, sob pena de ser corrido da liderança do partido. Mais: já depois de negociado o resgate e estando ele primeiro-ministro, o homem considerou os termos do dito demasiado brandos e, assumindo que o que andara a dizer na campanha eram puras mentiras, determinou que iria mais longe do que a Troica, cujo programa, disse, estava longe de ser uma cruz que carregava. O objectivo passou a ser afundar completamente o país, afugentar os “preguiçosos”, castigar os que ousaram pedir crédito, mais quem ganhava uns excessivos 1000 euros, fechar os pequenos comércios que eram coisa de falhados, desertificar as estradas, enfim, arrasar a economia e depois, alegadamente, recomeçar de novo com salários de 300 euros por mês, um sinal de enormíssima competitividade.

Ah e tal, mas mesmo assim não fomos três ou quatro vezes ao fundo como a Grécia. Não, um resgate chegou. Mas os pontos de partida eram diferentes. Se não fossem, não teria sequer sido aceite o tal acordo alternativo ao resgate, depois deitado fora.

Três observações quanto ao milagre de São Passos em não nos transformar na Grécia: 1. O que aconteceu à Grécia não foi por falta de cortes nem de sangria. Estes aconteceram e em doses cavalares. Tal e qual Passos fez, e com gosto. O problema foi que a situação era mesmo bem pior, começando por uma dívida externa estratosférica, contas aldrabadas há anos e anos com vista à entrada no clube do euro, péssimo funcionamento do aparelho fiscal, corrupção generalizada e situações de privilégio inteiramente absurdas na função pública e em determinadas classes profissionais. Isto à mistura com alguns preconceitos, claro. 2. O Vítor Gaspar, a grande estrela da primeira metade da legislatura, pisgou-se depois da sangria aos portugueses e veio mais tarde, já repimpado, fazer mea culpa pelos excessos da tal ida além da Troica (ele e outros colegas no FMI), o que prova que talvez o tal não-resgate tivesse sido mais avisado e menos massacrante. 3. A chamada “saída limpa” aconteceu porque o “cãozinho” levou um prémio, um belo osso por bom comportamento, como tinha que ser a bem da exibição de um caso de sucesso, mesmo que o aspecto limpo tenha sido conseguido à custa de deixar para o governo seguinte o problema dos bancos.

 

Enfim. Coisas engraçadas. O que se pode dizer com base numa linha. Parece que as outras versavam sobre como Rui Rio não é capaz de correr com a esquerda como a direita acabou de fazer na Grécia. Dr Ramos, não desespere. Mas com o Passos não vai lá.

Um liberal imaturo e bastante confuso, que só sabe mesmo é dizer mal do Sócrates

Mas não falou do Sócrates. Foi por pouco, mas não. Arriscou fora de pé e deu-se mal. Sem o Sócrates, sem galhofeiros ao lado, é fraquinho.

Reza a doutrina liberal, para abreviar, que cada um trace os objectivos que mais lhe convenham e que os persiga com toda a dose de egoísmo possível. Com isso, continua a doutrina a rezar, inova-se, faz-se mexer a economia, mobilizam-se outras pessoas, criam-se empregos (para os frouxos sem iniciativa), desenvolvem-se países. O Estado, continuamos na reza, deve interferir o mínimo ou nada com a liberdade de cada um, pelo que não cabe aos políticos definir “causas” em que outros acreditem. O indivíduo estabelece as suas próprias causas (geralmente “money, mucho money”) e, se vir utilidade nisso, politicamente, financia e/ou agrega-se em grupos de outros indivíduos que defendam os mesmos interesses.

Pois o nosso grande liberal, que acumula com a função de caluniador/justiceiro/Socrates-paranóico no Público, cujo grupo de interesse teórico não está no poder, leu ao povo, no seu primeiro, e esperemos último, discurso (enquanto comissário para as comemorações do 10 de Junho), um arrazoado pobre e infantiloide, em que, num total absurdo face ao que apregoa, pede aos políticos, os actuais, claro, aqueles de quem ele não gosta, para lhe traçarem os objectivos que ele não sabe definir para si nem para os seus e as causas em que acreditar. Poderia dizer-se que se lê e não se acredita.

“Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos deem alguma coisa em que acreditar, que alimentem um sentimento comum de pertença, que ofereçam um objetivo claro à comunidade que lideram”, sustentou.

Bem razão tem o Valupi, aqui em baixo. Esta criatura não é um liberal. É um salazarista saudosista a quem falta a Mocidade Portuguesa.

Ajudemos os “observadores”, a nossa célula adormecida não sei de quê

Os escribas da direita passista evoluíram de bloguistas para uma espécie de jornal digital que pretende perpetuar a memória da “época de ouro” do neoliberalismo experimental português que foi o governo Passos-Gaspar-Troica, uma orgia de sadismo social.

Ora bem, depois do aparecimento de Passos Coelho na campanha para as europeias, supostamente para dinamizar a campanha do Rangel e angariar-lhe mais votos através do seu “prestígio” (ui…!), e depois do rotundo fracasso de tal aparecimento, que figura descobrirão os esgroviados, e órfãos (que uma desgraça nunca vem só), colunistas do Observador para possível encarnação das suas posições políticas numa futura campanha para legislativas?

Nota: o bloqueio da grande maioria dos seus artigos parece-me um grande entrave aos seus intentos, mas eles lá sabem.

Uma piadola com peru do Natal que só tem graça até ao momento em que os ouvintes se dizem “Espera lá, então mas…”

“Amanhã [sexta-feira] teremos o penúltimo ato da peça de teatro, com a votação do travão financeiro. Pedir ao PS que vote a favor de uma cláusula que vise pôr um travão financeiro é a mesma coisa que pedir ao peru para votar a favor do Natal. Por isso, não tenho grandes expectativas”, afirmou”, perante risos da plateia.

 

O homem insiste na palermice e eu repito. Como disse há uns dias num pequeno texto lá mais abaixo, para se votar um travão a uma dada medida seria necessário ter votado a favor dessa medida genericamente. Ou seja, ter-se aprovado uma medida de princípio e, uns artigos depois, aprovar-se também uma condicionante à aplicação dessa medida na prática. Acontece que o PS rejeita a primeira medida – o reconhecimento da contagem do tempo de serviço integral dos professores, não aceitando que figure sequer num diploma.  Seria, por isso, incompreensível, que votasse a favor de uma condicionante a uma medida que rejeitou.

 

Portanto, foi por diferentes razões que PCP e Bloco, de um lado, e PS, do outro, votaram contra o “travão” a que Rio alude.

 

Apesar de saber perfeitamente tudo isto, Rio resolve continuar a charlatanice para pacóvios (pelos vistos, a plateia riu-se). O que se passa é que o PSD é que é o partido que decidiu, neste caso, prometer gastar milhões. Mas, como sabe que, se chegasse ao governo, não poderia cumprir tal promessa, inventa o tal “travão”. A proposta deste travão tem dois objectivos: poder invocá-lo aquando do incumprimento futuro (“desculpem lá, mas não temos condições financeiras, como ficou previsto no diploma X”) e, no imediato, poder fazer este número de charlatanice que consiste em acusar o Governo e o PS de não quererem pôr um travão nas despesas. Despesas que o Governo recusou liminarmente assumir.

 

Será que não se arranja mesmo ninguém menos pateta lá para os lados da direita?

Sr. Dr. Rui Rio, escute aqui

O senhor deu agora mesmo uma entrevista à TVI. Evidentemente não tem a noção da vergonhosa prestação que teve. Olhe-me só para isto: o voto do PS contra a norma-travão não será porque também votou contra o reconhecimento do tempo integral congelado? Faria algum sentido não aceitar a contagem integral e depois aprovar a norma-travão? O sr. é burro ou está a fazer dos outros parvos?

Querem uma ajuda para verem onde está o calculismo, ó tristes?

Na perspectiva da captação de mais votos nas próximas legislativas entre um determinado sector da administração pública, e de encurralar infantilmente o Governo, a direita e a extrema-esquerda pátrias reúnem-se num belo dia em volta de uma mesa e acordam num aumento de despesa permanente para o Estado de 800 milhões de euros anuais. O Governo, que se propôs com seriedade (e tem cumprido) aliar a devolução de rendimentos (e o seu aumento) a um estrito rigor orçamental, reage declarando que, a ser assim, não governa nem mais um dia sem que antes o povo se pronuncie sobre o necessário novo aumento de impostos ou cortes drásticos noutros sectores, como a saúde, que tal medida implica. Óbvio.

Pois bem, esta situação, que ficou à vista de toda a gente tal a clareza com que foi exposta por António Costa, chega ao processador dos descerebrados representantes partidários (a quem faltam espelhos) e do comentariado televisivo de serviço e de lá sai na forma dos seguintes “chouriços”:

  • Calculismo político do Governo ao “abrir agora uma crise”.

  • Há tanto calculismo político do lado da oposição como do lado do Governo. (E o Governo deveria fazer o quê?)

  • Para quê este drama, se o Presidente veta a medida? (Ignoram que o veto é ultrapassável)

  • Para quê esta crise, se o acto eleitoral, de qualquer maneira, já teria lugar daqui a quatro meses?

  • “Hohoho, as contas do Mário Centeno parecem-me erradas, pelo que isto é um acto teatral” (Aguiar Conraria dixit, RTP3 – pensando que um dia será ministro das Finanças). “Mas, atenção, acrescenta – isto é o que eu acho após as duas horas em que pensei no assunto, posso mudar de opinião”.

  • Os pagamentos seriam diferidos (e até incertos), afinal qual é o grande impacto orçamental?

  • Calma! O que aprovámos não é o que parece.

  • O facto de se aprovar o princípio do reconhecimento dos 9 anos não significa que se pague alguma coisa.

  • A direcção do PSD desconhece o documento aprovado.

  • O Governo que se deixe de lamechismos e negoceie mas é.

E já chega, suponho. Este é o resultado de um saltitanço insano de canal em canal. Estou certamente a omitir mais tolices do género destas  proferidas ontem à noite, mas, dada a lista supra, vocês, que só querem o meu bem, compreendem porquê.

Só pergunto é se estas pessoas que abrem a boca para, a propósito de um espectáculo miserável quer da oposição quer dos aliados do Governo, inventarem tacticismos inexistentes, fazerem interpretações esquizofrénicas de reacções provocadas, desvalorizarem argoladas ou simplesmente passarem as culpas alguma vez consideraram a hipótese de ficarem caladas perante o desmascarar das suas próprias indigências. Não é por nada, mas é que nem surpreendidas podem ter ficado.

As conquistas do Mário Nogueira são sempre espectaculares

Agora que finalmente tivemos a segunda edição da coligação negativa, com a aprovação, por toda a oposição, de uma despesa permanente de mais 800 milhões de euros, não vejo que melhor pode o Governo fazer do que demitir-se. Sem hesitações.

Do PCP e do Bloco, no rescaldo dessa demissão, iremos ouvir as justificações habituais: que o défice não importa para nada, há sempre dinheiro, os ricos que paguem, que salvar os bancos é salvar os banqueiros (esses criminosos) e não os milhares de depositantes e de empresas, etc. Mas estes partidos, já sabemos, são contra a Europa, contra os mercados, contra o euro, contra o capitalismo, contra o estabelecimento em geral e sonham ainda com um regime do tipo soviético. Vai ser giro é ver o CDS, o PSD e o Rui Rio, esse europeísta e cúmulo do rigor orçamental, na campanha eleitoral. Acabei de me sentar para assistir. Para já, bravo a todos e todas.

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Catarina, a cínica

Bom dia. A manhã parece marcada por tentativas de criar um ambiente de crise política. Esse ambiente é totalmente artificial. Aqui ficam 4 breves notas:
1. O que foi aprovado ontem no parlamento limita-se a corrigir um DL do governo que desrespeita os OE18 e OE19, que explicitamente previam a contagem integral do tempo de serviço de todas as carreiras especiais da função pública para efeitos de descongelamento (ainda que de forma faseada)
2. A solução encontrada para os professores respeita esse faseamento, não representa qualquer acréscimo de despesa no ano em curso e respeita a autonomia negocial do próximo governo.
3. Nos Açores, onde o PS governa com maioria absoluta, a contagem integral do tempo de serviço já está garantida. Na Madeira também está já garantida. 
4. A única despesa extraordinária e não prevista no OE 2019 com que o governo se deparou é a que decorre do pedido do Novo Banco. São mais 450M€, que o governo já considerou acomodáveis.

Acabei de ver as declarações da líder do Bloco, esta manhã. Como quem acorda e descobre que o Governo vê um problema real nas decisões irresponsáveis de toda a oposição. Surpreendidíssima.

  1. O Governo contesta o primeiro ponto.
  2. A reposição dos montantes correspondentes aos 9 anos e tal com que então não é bem, como dizer, aumento de despesa, porque depende de futuras negociações?? Ó Catarina, isso é ridículo. É o que dizem o PSD e o CDS e são justificações para rir (“Não é verdade que o CDS tenha hoje aprovado o pagamento de tempo integral dos professores. Essa proposta foi chumbada com o nosso voto. Aprovou-se apenas o princípio de que os professores terão direito à contagem integral do tempo congelado mediante negociação com o governo.).
  3. Os governos das ilhas por acaso têm as mesmas obrigações e responsabilidades financeiras do governo central? Ou este por acaso só governa para os professores?